Thalamus
1 Lembranças perdidas
Um Amigo uma vez me disse:
“A memória de um Homem é uma fortaleza mais complexa que as cidades.”
Mas nós criamos uma chave para ter acesso a essa fortaleza.
As primeiras palavras de um filho... As últimas palavras de uma mãe... Um beijo de Amor...
A decepção de um pai...
Para nos não existem segredos.
Se deixar um homem confuso, pode mudar sua vida...
Confundir a mente de um homem pode salvar o mundo.
I — Lembranças Perdidas
O inicio de uma memória é a parte mais constrangedora, exala estranheza.
— Bem vindo ao meu mundo.
— Será um prazer tê-la como guia desse, se me permite dizer, vasto mundo. – eu disse, olhei para ela e de onde estávamos – um pico de montanha – podíamos ver maior parte do que ela chamava “mundo”. Seus olhos pretos brilhavam no reflexo de algo que parecia o sol. A brisa leve beijava meu rosto agradavelmente. Estava em meu terno alinhado negro, Como de costume. E claro, estava ali a trabalho.
— Vamos — ela disse. me olhou e sorriu . há muito tempo eu não vira aquele sorriso,E desceu montanha abaixo. Eu a segui.
Do caminho cercado pelos campos floridos eu pude ver a montanha se distanciando. No jardim, se é que eu poderia chamar jardim, eu nunca tinha visto tantas flores distintas juntas. Pude reconhecer apenas algumas delas: Açucena, Dendron, Escabiosa, Estrelicia, Fresia, Heliconia, Gloriosa e a preferida de Gabriela, A Rosa branca.
— O que esta achando? — Ela perguntou, Guiava o caminho correndo a passos curtos.
— Divertido — Respondi prontamente, Querendo dizer: “Magnificamente Magnífico”.
Ela estava com seu negro vestido de Seda fina, um presente que eu dei a ela no nosso último encontro, há dois anos. Seu cabelo preto cobria parte de suas costas onde estava tatuado algo que eu nunca tinha visto, fiquei curioso. Acelerei meus passos para acompanhá-la lado a lado, mas não tive coragem de interromper o sorriso dela enquanto olhava o fim do campo florido e o inicio de uma casa de praia perto de um grande lago. Lembrei-me de nosso primeiro beijo, foi na chuva, em uma varanda de casa de praia. E Droga! Porque estávamos indo em direção à mesma casa de praia? Por que ela manteve essa lembrança no seu “mundo”? Um sentimento de ansiedade me apoderou, Uma pitada de Arrependimento me tocou, Talvez eu nunca devesse ter aceitado aquele trabalho. Mas se não fosse eu quem seria? Eu não queria ninguém vagando nas memórias de Gabriela.
— Lincoln, Lincoln — Ouvi a voz de James no Mini-Fone de ouvido — Não se distraia, você sabe o que ela esta fazendo, Complete a sua missão.
As palavras dele me fizeram repensar por um instante... Eu realmente estava ali para uma missão, e essa tinha que ser comprida! Eu não podia me envolver, Era entrar, pegar, e Sair. Como eu sempre fiz.
— Lincoln — ela parou em frente à varanda, Parei em frente dela numa distancia que me permitia ficar “seguro”.
— Sim? — Perguntei olhando firmemente seus olhos pretos. Por quanto tempo eu vou ter que fazer isso? Pensei. Ela ficou em silencio por alguns segundos. Pude ver os fragmentos de seu corpo se despedaçando junto com a casa, o lago, o chão, o Mundo.
— LINCOLN — James parecia desesperado — Você precisa sair daí!
— Ela sabe? – Perguntei
— Provavelmente, Ninguém desintegra uma memória tão rápido assim, Você vai ficar preso!
— Precisamos pegar a informação! — Eu disse. Agora eu estava dando total atenção à missão, Não tinha mais Gabriela para me distrair.
— Cala a boca Lincoln, Nós teremos outra chance — James parecia impaciente — Se você ficar no limbo eu não vou conseguir te tirar daí, Você terá que sair sozinho!
Eu não tive outra escolha, Eu precisava ficar Lá.
— Eu sei James – Levei a Mão direita para o ouvido e desliguei o Mini-Fone.
O silencio tomou conta daquele nada. O que eu estava fazendo? Acho que desde que eu vira Gabriela quando entrei no quarto do Hotel eu tinha perdido o controle da situação.
Meus olhos de âmbar não conseguiam ver além de suas pupilas, a escuridão era absoluta. Eu sabia que ficar preso no limbo de uma memória era a pior coisa que poderia acontecer. Mas eu sabia que Gabriela não faria aquilo.
Uma Luz surgiu, Caminhei ate a luz se transformar em uma porta. Abri e vi o corredor da nossa casa, Minha e de Gabriela. Nossa antiga casa. Ouvi uma melodia doce vindo do fim do corredor, Era um piano. Eu sabia que as mãos que pousavam sobre as grossas e pesadas teclas eram a de Gabriela. Nunca vou me esquecer do jeito que ela tocava, Sua maneira era única.
— Papai, papai — Natalie gritou enquanto corria em minha direção. Fiquei imóvel, eu não sabia o que fazer, Eu já começara a projetar lembranças. Aquilo não era pra acontecer, Nunca! A única maneira era ignorar tudo aquilo. Dei leves passos para trás, Natalie pareceu confusa.
— Papai? — Sua expressão era tão doce quanto à de Gabriela, Estava em seu pijama florido azul. Seu cabelo preto e liso batia no ombro e sua pele era algodão. Eu queria abraça-la, Eu queria toca-la, Mas eu sabia que não era verdade. Isso não e real Bryan, isso e só mais um trabalho, Concentre-se Disse para mim mesmo.
De repente Natalie tinha sumido, Mas o piano continuara tocando. Vi que a única maneira era seguir a melodia.
Parei e encostei-me à parede. Gabriela se estendia docemente sobre o Piano. Nada mais se encontrava na sala, E nada mais era visível se não Gabriela, O piano e o caminho até ela. Observei ela por alguns segundos. Eu teria que ir mais a fundo para pegar a lembrança que eu precisava, Ali não era o suficiente...
— Toque comigo — A voz dela soou tão docemente aos meus ouvidos que quando dei por mim estava sentado ao lado dela acompanhando a melodia. Ela olhou para mim e sorriu, E que sorriso. Eu levei meu olhar aos lábios dela. Droga Lincoln! O que você ta fazendo? Eu não pude resistir. Eu já podia sentir o suspiro dela no meu rosto, seu olhar era meigo e profundo, Fechei os olhos e esperei o beijo.
– — -
Foi água gelada que beijou todo meu corpo. Sacudi-me e esfreguei os olhos e vi James em seu terno negro idêntico ao meu, exceto pela sua gravata vermelha que brilhava horrivelmente na luz forte.
— Você esta maluco? — Ele me olhava indignado, Segurava uma USP. 45 Com silenciador (pistola) Em sua Mão esquerda. Espera! James não era canhoto.
— Por que você me tirou? — Perguntei. Eu precisava saber se onde eu estava era Real.
— Por quê? – Ele andava desesperado de um lado para o outro — Você estava se deixando levar pelos seus sentimentos por ela Lincoln!
— Eu estava quase conseguindo — Protestei.
— Você estava Prestes a Beija-la — Ele parou e me olhou insanamente com seus olhos verdes – Não, você não estava conseguindo porcaria nenhuma!
Não respondi. Minha cabeça doía, já fazia tempo que eu não acordava bruscamente de uma memória.
— Não deveríamos ter aceitado esse trabalho — Disse James, Agora mais calmo, Caminhou até a mesa que estava no centro da luz, Presumiu que estávamos em um galpão, Tudo era escuro. James Abandonou a arma sobre a mesa de carvalho vermelha. Da cama onde eu estava, toda molhada, observei como ele tinha colocado a pistola e a posição.
Eu precisava pegar a arma.
— Nos teremos outra chance em Breve – Disse e me levantei, a água escorreu sobre o terno.
— Como pode ter certeza? – ele perguntou e se aproximou de mim e eu tive a certeza de que não era James. Quem tinha feito a memória, quem estava atuando e controlando James naquela memória era tão péssimo que eu pude perceber suas falhas desde a Luz, a Mesa de carvalho vermelha e a pistola na Mão esquerda.
Caminhei até a mesa.
— Eu não posso — Disse, Empurrei James que foi ao chão. Empunhei a Pistola e a levei ao queixo. Droga! Aquilo ia doer. Jack sorriu, e se desintegrou. Eu atirei.
– — -
Nunca foi tão bom ouvir a voz de James, O James verdadeiro!
— Achei que ia me deixar na Mao — Ele Disse.
Levantei-me e fiquei sentado na cama. Olhei e vi James sentado do lado de Gabriela. Ela ainda estava Dormindo!
— Quanto tempo nós temos? — Perguntei ao ver que James teclava incansavelmente seu notebook.
— Cerca de 5 minutos! — Ele disse prontamente sem tirar os olhos do computador.
Desgrudei alguns fios do meu rosto, e coloquei dentro da maleta na beira da cama, Respirei fundo. O quarto do Hotel estava calmo e REAL! Embora eu achasse péssima a decoração toda vermelha. Mas vai entender era a cidade do Amor, Veneza tinha esses toques. Olhei-me no espelho, e me certifiquei mais uma vez que estava no mundo real.
— Como ela esta? — Perguntei tentando parecer procedimento, Mas o sentimento que tinha despertado em mim sobre Gabriela não era nada procedimento! E eu claramente não podia sentir aquilo só porque ela tinha me levado a algumas memórias boas.
— Bem, Vai acordar daqui 15 minutos — Disse James fechando o notebook e desgrudando os fios de Gabriela. Peguei a pistola com silenciador em cima da cabeceira da cama e a coloquei atrás da cintura. Jack se preparou e estávamos pronto para ir.
— O que aconteceu lá Lincoln? — Perguntou Jack — Nos conseguimos a informação? O que você viu?
Eu queria responder essas pergunta. Mas não sabia nem por onde começar, e ele ficaria realmente zangado quando soubesse que eu falhei, que alguém projetou novas memórias e outras coisas, Resolvi conversar depois.
— Vamos, Depois conversamos — Eu Disse.
Ele nunca ia me deixar sair do quarto por ultimo, Ele levava o trabalho a sério e qualquer erro era inaceitável. Deixar-me no quarto com Gabriela seria claramente o maior erro dele.
Antes de passar pela porta olhei para ela, Estava lindo no vestido vermelho carmim, Seus lábios vermelhos carnudos eram atraentes o suficiente para que eu tivesse vontade de beija-los naquele instante. Meu peito apertou. O suspiro que senti na memória fora tão real que eu estava desconfiando do meu senso de realidade.
— Vamos Lincoln – Disse James olhando o relógio — Temos 40 Segundos.
Consenti e passei pela porta, James a Trancou.
Depois de muito tempo, talvez eu ainda sentisse algo por ela! Mas não importava, Trabalho era trabalho.
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