Textos Aleatórios
11 Porque eu sempre odiei o Natal
Eu sempre odiei o Natal. Não sei exatamente se consigo dizer que parte do Natal. Acho que é depois que todos bebem e começam a falar verdades que machucam. Ou gritam comigo. Ou seguram meu braço forte quando eu faço alguma bobagem. Por mais que você tenha um sentimento muito intenso por alguém ou um laço impossível de romper, algum dia ela te desaponta. Isso é porque ninguém é perfeito. Acontece que esse dia em que eu sou desapontada é o Natal. Temos a ceia, aonde cada um fica fazendo uma piadinha e caindo em cima uns dos outros pra conseguir chegar no prato que quer. Depois temos "o meu amigo secreto..." e etc. Cada um ganha o seu presente e sempre tem o momento desagradável que alguém abre o presente, tira tudo de dentro da sacola e ainda procura mais, depois que descobriu que não tinha mais nada tenta disfarçar do jeito mais discreto possível, apesar de que isso nem sempre da certo. Depois os presentes que eu e meus irmãos mais novos recebem dos meus pais. Geralmente sempre somos nós que ganhamos mais presentes porque somos os mais novos da família. Em geral os momentos que me desapontam acontecem depois que todo mundo está sobre o efeito do álcool. Quando a minha família fica assim, cada um assume o personagem que deseja, mas sempre é o mesmo. Geralmente o meu tio é o superior. Ele ridiculariza até a barata que passar por baixo da sola de seu sapato e ele amassar ela, fazendo um barulho crocante e nojento. Minha mãe consegue ser violenta e grotesca com qualquer coisa. Meu pai ri, ele fica alegre, mas o que me entristecesse é que eu nunca o vejo assim quando está lúcido. Minha tia aumenta a quantidade de fofocas que conta para quem quiser ouvir. Meus primos na casa dos trinta começam a dançar e contar piadas enquanto minha avó termina com cartuchos e cartuchos de cigarro Malboro, o favorito dela. Entre o meu desapontamento se encontra a minha mãe e o meu tio. Meu tio foi o homem que fez a minha infância. Eu nunca tive um pai que me desse atenção, que brincasse comigo. Meu pai sempre foi o tipo de homem que nunca garantiu a mim o fato de me amar. Nunca consegui o respeitar, mas isso sempre foi diferente com o meu tio. A um ano atrás eu namorei com um garoto e agora estou com ele novamente. Eu sei que não deve ser legal pra ninguém da minha família me aturar com isso, mas no momento é só ignora-lo. Ele nem tinha ido na nossa festa. Meu tio chegou no período de ridicularizar tudo que estava respirando. Eu sempre rebatia as visões de falha na minha vida que ele via e nunca tive dificuldade disso. Na realidade me orgulhava. Me sentia mais forte ao ser desafiada pelos medíocres comentários dele. Apesar disso, entre as inúmeras coisas que eu passei esse ano, a pior foi escutar o que as pessoas me diziam em relação ao meu namorado. Ninguém aprovava, só a minha mãe, pelo que eu achava. Eu estava tranquila enquanto as vozes conhecidas do mesmo sangue que o meu conversavam abertamente abaixo do céu estrelado. Minha mente se ocupava de silêncio. Até que escutei a voz do único homem que eu tinha respeitado em toda a minha vida me chamar. "Sabe, eu não acredito que você largou uma parte do que você era pra ficar com esse garoto." Olhei incrédula para aquele homem. Eu sabia de que parte ele estava falando. A parte que me fazia agir como uma fada. Caminhar ingênua e falar inconsequente o que me vinha na mente. Era saudável para mim aquela parte existir, mas as vezes ela me deixava incrédula. Dizem que os humanos são adaptáveis. Eu me adaptei não a ele, mas as coisas que se sobrecarregaram dentro de mim enquanto eu vivia. Eu percebi que o meu pai não me dava atenção, percebi o quanto todo mundo exigia de mim e eu não iria dar, o quanto eu queria voar mas muitas cordas me prendia ao chão. É mais fácil ser uma garotinha ingênua que não entende de nada do que começar a pensar. "Eu não larguei o que eu era." Respondi, os olhos azuis dele ainda me encaravam e percebi que os olhos esverdeados de minha mãe também faziam o mesmo que os dele. "Largou sim." ela disse e ele sorriu satisfeito. Alguma coisa me partiu ao meio como se uma bala tivesse atravessado minha carne e meus ossos. Eu me senti fraca porque as vezes as pessoas que te sustentam cansam sem nenhum aviso e te permitem cair. Aquilo afundou tanto na minha alma por uma razão que eu não sei dizer. A voz dele não tinha saído desaprovadora, tinha soado imperial. Parecia que eu não deveria ter feito aquilo porque era o que ele desejava, não o que eu desejava. Ele já tinha se perguntado o que eu desejava? Me lembrei de quando eu era muito pequena e tentei espantar uma para mas ela entrou pra dentro de casa, minha mãe apertou meu braço furiosa me xingando. O quando ela deixou cair o peru de natal porque eu tinha a chamado. A culpa é muito mais fácil ser colocada nos outros porque nos permite tirar um peso dos ombros. Meu tio foi embora mas eu permaneci dentro do quarto encarando as paredes azuis. Desci para pegar uma caixa de papelão e deparei com minha mãe, irmã e pai no quintal arrumando algumas coisas. Minha mãe tomava sua última taça de champanhe. Caminhei até a caixa, que estava na sua frente e quando me virei, percebi que falava sem ao menos deixar as palavras fugirem de minha boca.
"Sabe porque eu sempre digo que odeio o Natal, mamãe?" ela me encarou, eu não tive certeza que minhas palavras chegavam aos seus ouvidos. "Quando o tio bebe ele resolver ridicularizar tudo que está em volta. Todos os anos, nesse mesmo dia eu tenho que escutar as inúmeras críticas que ele tem sobre as roupas que eu visto, o jeito que me maquio e os livros que eu leio. Ele tenta inutilmente mudar a minha opinião de um jeito irascível. Eu sempre consigo argumentar contra ele, sempre. Vocês dois são os únicos adultos que eu respeito e não é fácil conquistar o meu respeito" 'Tudo bem" ela disse com a voz calma que sempre usava comigo. Na maioria das vezes aquilo relaxava meus músculos fazendo com que eu fechasse os olhos e tivesse bons sonhos, mas no momento aquilo me fez vociferar. "Não, não está tudo bem. Vocês gostam de falar, então agora vão ouvir. Eu sei que quando você fica bêbada, como o tio, é agressiva e começa a falar coisas que ninguém aguenta ouvir. Isso já aconteceu antes entre nós. Eu aguentei todas as vezes. Sabe o que é pior, mamãe? Ter que aguentar vocês dois juntos. Eu escuto as besteiras que vocês resolvem falar e vocês me machucam. Eu me sinto sozinha e eu me sinto abandonada. Eu não suporto o fato de ele querer se sentir superior e você a dona da razão. Vocês conseguiram perder o meu respeito."
Subi as escadas como tinha feito antes. Eu chorava mais do que nunca.
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