Textos Aleatórios
4 A noite foi feita para dizermos coisas que não podem ser faladas durante o dia
Mas é claro que eu fui belíssima para dentro da noite. Meus olhos castanhos estavam marcados com o delineador de uma maquiadora que à aquela hora da noite nem mais me lembrava o nome. Não te vi. Apenas vi outros caras e um a qual eu pertenceria naquela noite e ele a mim. Só aquela noite. Audrey Hepburn sempre disse que pessoas não podem pertencer a outras. Meu batom desbotado sorriu para o garoto de pele morena do outro lado do salão. Falamos sobre alguns tipos de dietas e ele disse que eu não precisava emagrecer. Mesmo assim eu não ligava para os elogios fúteis. Achei que a maiorias das coisas que começavam em uma noite, deveriam acabar na mesma.
Aí meu celular tocou, minha mãe ligou e eu berrei tentando ouvir a voz dela do outro lado da linha. Ela disse que chegou. Dei beijos nas bochechas de conhecidos e de outros desconhecidos. Procurei por dois meninos que eu queria falar, porque seria minha última noite no ano com eles. Eu não achei e fui embora com as sapatilhas pretas brilhantes batendo em meus calcanhares toda vez que eu dava um paço diferente. Eu as comprei quando estavam na promoção e eram um pé maior que o meu. Um pouco de papel higiênico nas pontas sempre resolvia meus problemas. Aí eu fui pra casa ouvindo Strokes, mas cantando Arctic Monkeys. Cheguei e os botões de meus olhos foram cobertos de penumbra porque todos dormiam menos minha mãe, minha irmã e eu. Lembrei daquele amigo do menino importante para mim. Ele tinha falado coisas importantes pra mim. Qual era o nome dele mesmo? Desisti.
Subi as escadas com o esfrega, esfrega do material da sapatilha em meus calcanhares. As escadas eram de madeira, mas não rangiam muito enquanto eu passava, quando a casa ia dormir elas se aquietavam. Aí eu falei pra minha mãe uma porção de coisas e ela disse, faça o que quiser é agora ou nunca. Abri o meu notebook e comecei a escrever um texto que eu não sabia, mas teria um correspondente. Meu dedo me traiu quando apertou no enter e você leu. Você escrevia, eu respondia, visse versa. A internet caiu pra você. Eu saí braba, coloquei apenas uma camiseta e fiquei caminhando pela casa escura e dormente de calcinha. Meu celular tocou e das inúmeras pessoas que poderiam me ligar às quatro e vinte da manhã, eu não esperava que fosse você. Eu nem sabia que eu ainda tinha o seu telefone gravado e nem sabia que sentia tanta saudade. A noite foi feita para dizermos coisas que não podem ser faladas durante o dia. Foi exatamente o que fizemos.
Aí eu tive medo de pensar que amanhã você não ia me ligar de volta. Lembrei que estava sendo boba e tive aqueles impetuosos momentos de coragem. Os que já viveram comigo sabem o quanto eles são hostis. Fazem parte de mim. Eu escutei a sua risada no telefone e você escutou a minha. Conversávamos como se a linha da ligação fosse nosso próprio reino dominado e não tivéssemos que temer os cavalheiros que iriam vir ao amanhecer. Nunca tinha sido tão sincera com alguém além de você; Ora como eu gostava. É cada um pro seu canto? Você discordou, eu discordei. Aí você lembrou que sexta é meu aniversário e começamos a falar sobre encontros nossos hipotéticos. E se hipoteticamente isso... e se hipoteticamente aquilo. A saudade ali preta no branco. Eu escutei as minhas palavras me traindo, mas eu nunca consegui controlar elas quando criam vida própria. Sei lá o que vai ser de mim. Sei lá o que vai ser de você. Sei lá o que vai acontecer daqui a 20 segundos ou daqui a 20 horas. Consegui esperar muito tempo e não vai ser agora que eu vou perder a paciência. Aí eu sorri.
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