Teus Olhos Meus
34 XXXIII — Pássaro Azul
Notas iniciais
ANTÔNIO
Eu observava a cidade pela cobertura do meu apartamento pela última vez, sentado em uma cadeira de praia, perto da piscina. Já faz algumas horas que eu havia acabado de arrumar minhas coisas. Agora eu finalmente estava livre pra voar.
Acho que nada descreve melhor a que estou sentindo no momento a que o famigerado poema Bluebird do Charles Bukowski.
“há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?”
É isso.
Acho que é hora de deixar o pássaro azul voar um pouco.
Não sei se estou fazendo o certo fugindo dele. Bem, é claro que ir morar no Canadá é um sonho antigo, estou indo ser pesquisador em uma instituição que sempre admirei.
Mas é aquela coisa: a gente ama, mas não sabe se gosta mais.
Marcos.
Lembro-me bem da conversa que tive com Alexandra sobre Marcos. Ela disse que jamais me deixaria olhar na cara de Marcos novamente. Ela mal sabia que eu mesmo já estava disposto a não fazê-lo. Eu estava magoado demais e com medo. Marcos não mudaria por mim. Deixá-lo doeria muito menos.
— Eu vou embora, Alê — foi o que disse quando ela terminou.
— Garoto, são quase duas da manhã e você já bebeu.
— Eu vou embora do país.
Ela soltou o celular em sua cama e voltou os olhos para mim.
— Ir embora para onde, garoto?! — Ela questionou.
— Qualquer lugar. Só não dá pra eu ficar aqui mais.
— Tudo bem. — Não sei se eu deveria ter me assustado como assustei, mas ela concordou.
Um silêncio tomou conta do quarto, ela já havia apagado as luzes e eu estava aninhado, prestes a dormir.
— Você tem que ir, Antônio — disse. — Se você ficar vai acabar voltando pra ele. Vai acabar com sua vida.
Não demorou muito e eu já estava mandando meu curriculum, fazendo ligações, fazendo entrevistas pra achar um novo diretor pra minha empresa... Avisei a minha família. Todos concordaram com tudo.
Demorou só alguns meses pra eu receber a notícia que eu fui aceito em uma instituição em Vancouver. Assim eu reiniciava a minha jornada. Mas sem Marcos. Sem o coração sendo dilacerado por alguém que eu tanto amava.
Cortei qualquer mínima relação com o nome dele. Pedi para todos os amigos e familiares não me falarem absolutamente nada a respeito.
— Antônio?
Era minha irmã no facetime.
— Ainda está em casa? Você sempre pontual, achei que já estaria no aeroporto.
— Queria um tempo pra me despedir da casa.
Houve um silêncio.
— Acho que já está na hora de ir.
— Queria ir no aeroporto me despedir, mas meio impossível, né?
— Você está do outro lado do mundo, bebê.
— Mas agora, toda vez que eu for pro Brasil não terei como te ver.
— Você ligou pra me fazer chorar? — indaguei no meio de um suspiro.
— Não, só queria desejar sucesso nessa nova fase da sua vida.
— Obrigado!
— Seja feliz.
— É o que estou tentando fazer.
Ela acenou com a mão e me mandou um beijo, desligando as pressas.
Consegui ver uma lágrima escorrer pelo seu rosto antes que a ligação fosse desligada.
Escorreu uma lágrima do meu rosto também.
[...]
O motorista do Uber tentava puxar assunto enquanto eu encarava as ruas com um sintoma que não era saudade.
Pra falar a verdade eu não sabia o que estava sentido. Só estava doendo. Doendo muito. Neste momento eu conseguia sentir uma dor física me apertar o peito. Deixar tudo pra trás estava sendo bem mais difícil a que eu imaginei.
— Está indo passear?
— Estou me mudando.
— Está mudando pra São Paulo?
— Canadá — respondi.
— Ai sim, vi vantagem, hein? — disse. — O filho da minha prima está pra fora também estudando inglês, já vai fazer um ano.
Suspirei fundo e me rendi. Continuei respondendo as suas perguntas durante todo o trajeto.
Estava tão distraído que só notei que cheguei ao aeroporto quando ouvi um “está encerrada a corrida, se o senhor puder me avaliar com 5 estrelas”.
— Tudo bem. — Disse enquanto procurava um carrinho para colocar as malas.
— Ali, tem um carrinho ali.
Agradeci com um sorriso amarelo enquanto ele se posicionava pra tirar a bagagem do porta-malas.
Coloquei os dois malões no carrinho de bagagem e agradeci a felicitações do Rogério, o motorista.
Enquanto caminhava pra dentro do prédio, empurrava o carrinho com uma das mãos e tentava fazer o check-in pelo aplicativo na outra. A conexão estava horrível e eu estava começando a me irritar. Peguei algumas bolinhas de extrato de melissa na necessaire, o ansiolítico que eu estava tomando no momento, e enfiei goela abaixo.
Consegui.
“Ótimo!”, bradei ignorando o fato de estar em público.
Coloquei meus fones de ouvidos e apertei o play.
“But every time you hurt me, the less that I cry and every time you leave me, the quicker these tears dry and every time you walk out, the less I love you.”, comecei a cantar em sussurro, fazendo o mínimo esforço pra disfarçar as lágrimas que me surgiam nos olhos e escorriam pelo rosto. Tive a impressão de que alguém estava me chamando e olhei procurando o autor da voz. Não era ninguém. Estou ficando louco, não duvido.
“Baby, we don't stand a chance, it's sad but it's true”, mais um verso me atormentando a mente.
[...]
Alguns minutos na fila de despacho e eu estava livre pra ir pra sala de embarque pra comer pão de queijo recheado com creme de avelã.
Acho que neste momento eu já estava anestesiado com a situação.
“You lift my heart up when the rest of me is down. You, you enchant me, even when you’re not around”, não! Eu não vou fazer isso comigo. Apertei o botão do próximo e finalmente o shuffle acertou em uma música que não me faria chorar.
— Vai, malandra, an an, ê, tá louca, tu brincando com o bumbum an an — cantarolava em bom tom enquanto mexia no celular procurando o cartão de embarque na wallet.
Ouvi alguém chamar meu nome novamente, não obstante dessa vez resolvi não olhar. Era coisa da minha cabeça. Ouvi mais uma vez, mas, antes que eu pudesse me decidir se olharia ou não senti um toque em meu ombro.
Me virei, confuso.
— Antônio! — O rapaz me abraçou.
Não consegui abraça-lo na mesma intensidade, apenas encostei uma das mãos sobre a suas costas.
“Embuste”, pensei.
— Marcos — respondi. — Como sabia que eu estaria aqui?
— Não importa.
O encarei com o cenho franzido.
Respirei fundo enquanto revirava os olhos.
— Foi Alexandra.
— Engraçado, porque ela foi a primeira a me apoiar a ir. A primeira a dizer que era o melhor a se fazer pra te...
— Pra mim o que?
— O que te trouxe aqui, Marcos? — Questionei.
— Será que podemos conversar?
Conferi as horas no celular que estava em uma das minhas mãos.
Balancei a cabeça enquanto coçava a nuca.
Pensei alguns breves segundos antes de responder.
— Tenho alguns minutos.
Nos direcionamos até um jardim de inverno e sentamos em um banco branco, logo abaixo de um vaso cheio de samambaias.
Ao entrar na sala estranhei o cima, não havia ar-condicionado ali, não demorou muito pra eu começar a suar, mas não era por conta do calor.
O encarei esperando que ele entendesse o meu olhar de “pode falar”.
— Por que você está fazendo isso? — ele me questionou pondo sua mão sobre minha coxa.
— Eu me afoguei em meu próprio mar — disse, com a voz trêmula. — Fiz coisas que jurei nunca mais fazer por ninguém.
— Eu tentei ser seu cais.
— Querido, não faz isso!
— Isso o quê? — Indagou.
— Se fazer de vítima, caramba — expliquei. — Você soltou a minha mão e me deixou afogar. Não venha tente me fazer respirar novamente.
— As pessoas mudam. — Foi tudo que ele pode pronunciar antes de ter o rosto completamente enrubescido por conta do choro.
— Quem me garante que mudou? — Minhas sobrancelhas dançaram, por conta do nervosismo. — Tenho nenhuma garantia disso, Marcos.
Ele começou a balançar as pernas, demonstrando nervosismo. Como se não houvesse outros mil sinais físicos demonstrando aquilo.
— Não sei mais se te conheço — completei.
— Eu fiquei sem você esses últimos meses.
— Não sei nem porque cometi a burrice de aceitar falar contigo — mexi o corpo para me levantar, mas ele fez para que não. — Marcos, foi uma bênção ficar sem você. — Mordi os lábios sem saber se estava mentindo.
Eu não estava somente magoado. Eu realmente estava com raiva do meu ex-aluno, ex- namorado. Naquele momento eu só conseguia pensar no como ele me fazia sentir louco, como se tudo fosse a minha culpa, como se fosse difícil de estar ao meu lado e me amar.
Por um segundo me questionei se deveria ter dito isso. Convenhamos, ele merecia. E todos esses sentimentos guardados, juntos de palavras não-ditos, me dilaceravam o peito e ardiam mais que brasa quente na pele.
— Tira a pica da boca e fale alguma coisa, você quem me chamou até aqui — cuspi.
— Eu sei que te magoei.
— Ainda bem que você sabe, Marcos. Eu estou reiniciando tudo em minha vida, tudo, mesmo, do zero. Por sua causa.
— Não queria que fosse assim — ele escondeu o rosto atrás das mãos.
— Muito tarde para lágrimas, rapaz.
Ele segurou minhas mãos.
— Você é capaz de me perdoar? — Indagou.
— Eu vou embora — levantei. — Preciso embarcar.
Saí do jardim e comecei a procurar nos televisores alguma informação sobre o meu voo.
Nada novo.
Respirei fundo, tentando deixar esse último diálogo para trás.
Comecei procurar novamente pelo meu cartão de embarque no aplicativo do celular.
Estava há alguns poucos passos da fila de embarque quando ouvi aquela voz familiar.
— ME PERDOA, ANTÔNIO.
Marcos gritou.
Ele havia me seguido.
O aeroporto inteiro, mesmo na correria, parou e prestou atenção naquele loiro que em meio de lágrimas, corria em minha direção.
— Por favor! — Ele acrescentou enquanto me alcançava. — Me perdoe por tudo de ruim que te fiz.
— Cê quer que eu te perdoe, só isso?
— Só isso.
— Venha cá, Marcos. — O chamei. — O que aconteceu com você?
— Esse período sem você me fez pensar muito, amor. — Ele começou a chorar mais uma vez, dando a mínima pra todos aqueles olhares em nossa direção. — Eu sinto a sua falta.
O envolvi em um abraço. Com todos os sentimentos que se amontoavam abaixo da minha pele, me afastei dele. O encarei. Não sei por quanto tempo, e, então, o puxei seu abraço mais uma vez.
Eu queria gritar.
Marcos volveu o rosto.
Então, ele me beijou.
Retribuí o beijo.
Beijei pelos últimos meses que não havia sentido nem o seu cheiro, beijei por todo amor que eu sentia por ele, beijei pela última noite que tivemos juntos, beijei pela saudade que me matava aos poucos.
Soltei-me de seu beijo dando um último selinho, como sempre fazíamos.
Encostei a testa na sua.
— Marcos, eu te amo — sussurrei. — Mas não gosto mais de você — limpei a lágrima quente que escorria pelo meu rosto. — Continuarei te amando para sempre.
— Então, se daqui alguns anos nossos destinos se cruzarem novamente e estivermos sozinhos, ficaremos juntos?
Ri, concordei acenando com a cabeça.
— Espero que você possa ser feliz — me felicitou.
Passei a mão em seu cabelo loiro, do qual eu tanto amava, e o abracei em silêncio.
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