Teus Olhos Meus

33 XXXII — Amores e Confusões.


MARCOS

Pela primeira vez nesta vida eu realmente senti que tinha feito algo errado. Os dias foram passando, as semanas foram passando, os semestres e bem, ainda estou aqui, sentindo a falta de Antônio. Meu estágio acabou, as matérias que eu poderia fazer com ele já foram feitas e bem, toda vez que ele passa por mim pelos corredores da universidade ele finge que não existo.

Naquele ínterim, ele vai voltar pra mim, não vai? Antônio sempre esteve aqui por mim. Ele é quem me faz tremer os joelhos, é ele quem me mantém pra cima mesmo quando não estou perto, é ele é quem me fez sentir algo que eu nunca achei que fosse possível... É ele quem eu amo.

Eu sou incapaz de viver sem ele.

Essa era única certeza que eu tenho na minha mente.

Mas o que será de mim se ele não voltar?

Depois de tanto beber, em plena terça-feira, acabei caindo no sono.

Não sei por quanto tempo dormi ou se apenas cochilei, mas acordei aflito, sem ar.

— ANTÔNIO!

Como o esperado — e infelizmente – ninguém respondeu. Sentei no chão escorando o corpo na cama enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto enrubescido. NÃO, ELE NÃO TINHA ME DEIXADO. ANTÔNIO VAI VOLTAR.

A porta se abriu.

Meu primo entrou.

Levantei os olhos com o peito aflito, na esperança que fosse Antônio.

— O que está acontecendo, Marcos?

Envolvi meus joelhos com os braços. Não estava afim de conversar. Fechei os olhos e me virei de lado. Meu primo era a única pessoa que ainda insistia comigo no momento. Ele abriu a janela alegando que o quarto estava fedendo a “murrinha”, as luzes da cidade entrou de uma maneira que me incomodou as vistas.

— Você tem que sair daqui — ele sentou na minha cama.

— Caio, me deixa sozinho.

Ele apertou meu ombro em sinal de conforto.

— Se precisar de algo, estou aqui cara. Você sabe disse.

Várias lembranças invadiram a minha cabeça. O ódio que eu sentia de Antônio por ele quase ter me atropelado, nosso primeiro beijo que aconteceu no meio de uma tempestade, e todos os outros incontáveis beijos, sobre o quão bem eu me sentia quando seu corpo tocava o meu, o sexo e como fui ter a certeza que gostava de homens assim como eu gostava de mulheres.

Mais uma vez senti as lágrimas escorrem.

— Eu preciso saber o que está acontecendo. Você nunca foi assim.

— Mano, eu já disse que não quero falar nada.

Ele ficou calado, ainda com a mão no meu ombro. Eu realmente não queria falar nada, mas gostava da sua presença ali, de suas mãos. Eram o único conforto que eu tinha agora. Seus dedos macios agora dançavam pelos finos fios do meu cabelo louro.

— Tudo bem — ele disse como se não fosse mais insistir no assunto. — Ok, você não vai falar. Mas eu me preocupo, primo. Eu tenho o direito de saber o que aconteceu, apesar de tudo, apesar de no começo eu ter tido uma puta resistência sobre sua sexualidade, por ignorância minha, eu sou seu primo. Eu estou aqui por você e não quero te ver assim.

Eu suspirei. Bem fundo.

— Você está desse jeito porquê ainda o ama?

Balancei a cabeça afirmando.

— Eu sabia que era isso. Mamãe chegou a comentar que era por conta da pressão da faculdade e você estar desempregado, mas acho que isso não fazia muito sentido — ele acariciou minhas cosas. — E por quê você não foi atrás dele já que o ama?

— Foi ele quem terminou, Caio! Se ele terminou, ele que tinha que querer voltar.

— Deixa de ser tapado Marcos. Se você está sentindo, vai lá e demonstra.

— Mano, ele nem olha mais na minha cara. Se você não tivesse mudado de curso, teria percebido.

— Você me contou a história de como esse namoro de vocês acabou, mas não sei se me lembro ao certo. Me diga uma coisa, o que fez ele terminar contigo?

— Ele disse que eu era muito insensível com os problemas dele — grunhi. — Bem, resumindo, ele se sentia como se eu estivesse com ele por conveniência ou algo assim, como se fosse difícil pra mim amá-lo, estar ao lado dele.

— Ta aí outra coisa que eu imaginava.

— Como assim?

— Não sei se você está ciente, Marcos, mas você, assim como eu, sempre olho para o meu próprio umbigo. Acho que por isso a gente se entende, porque a gente tem dificuldade pra entender os problemas dos outros.

— Ter ido estudar no ICHS* te mudou mesmo, hein? — ri.

— Acho que não tem muito a ver com meu curso em si e com a terapia que comecei a fazer. Comecei a reparar em umas atitudes minhas que talvez chateassem os outros.

— Nem parece o mesmo Caio que eu conheço.

— Ainda bem. Hoje estou muito tranquilo comigo mesmo, mas — Ele agitou a mão sobres minha cabeça, bagunçando meus cabelos. — Não estamos aqui pra falar de mim e sim, de você. Te falta empatia, primo.

— Empatia?

— Sim, falta você se colocar no lugar do Antônio. Você não pode exigir que ele mude o jeito dele pra se encaixar em você. O mesmo dele em relação a você. Vocês tem que se adaptar um ao outro, se moldarem, não mudarem. Mas tudo bem mudar também, isso não é errado. Só esteja consciente das escolhas, caso escolher mudar.

— Não estou entendendo o que quer dizer.

— É simples, Marcos... Você tem que plantar seu jardim em invés de esperar que Antônio lhe traga flores, mas também terá que adubar o jardim dele, para que ele possa colher boas flores pra lhe dar.

Cravei os dentes no beiço. Mil e uma situações estavam passando em minha mente.

Acho que antes de querer perdoar Antônio e que ele me perdoasse, eu mesmo teria que me perdoar. Me remexi no chão, respirei fundo.

— Isso é uma coisa que eu realmente não tinha pensado, primo.

— Então, olha só, não adianta muito você ficar aqui enchendo a cara. Você tem todo o direito de sentir os seus sentimentos na intensidade que preferir, mas isso já está te fazendo mal. Há um bom tempo.

Ergui o olhar e fitei suas írises. Ele abriu um sorriso levantando-se da minha cama.

— Fique bem.

[...]

Mais alguns dias se passaram. Eu precisava desse tempo pra refletir sobre tudo que senti nesses meses sem Antônio, sobre a conversa com meu primo e sobre o que eu iria fazer com todas essa informação. Como Antônio ainda não havia vindo falar comigo resolvi ir falar com ele depois do meu laboratório de Tratamento de Minérios II.

Antes de sair de casa tomei o banho mais demorado, vesti a melhor roupa e passei o perfume que ele havia me dado. Até escovei os dentes com mais zelo, pra caso ele me desse um beijo.

Passei a manhã inteira distraído, mal consegui concentrar nas aulas. Desta vez não era nem pela quantidade exacerbada de café que havia em meu sangue, mas pela ansiedade de encarar Antônio nos olhos e dizer: eu te amo!

Cinco horas.

Quatro horas.

Três horas.

Duas horas.

Antes de faltar uma hora pra aula prática no laboratório terminar nossa professora nos liberou.

Arrumei minha bancada as pressas, peguei minha mochila e saí correndo atravessando o bloco em direção a sala do Prof. Dr. Antônio.

As paredes pareciam estar se multiplicando, aumentando a distância que eu precisaria percorrer pra chegar até a sala.

Quando finalmente cheguei, ainda ofegante pelos passos apertados, respirei fundo e senti um frio na barriga.

Dei três toques com o dedo na porta e levei a mão, extremamente suada, até a maçaneta.

Trancada.

A.

Porra.

Da.

Maçaneta.

Está.

Trancada.

— INFERNO!

Em que diabos de lugar este homem está?

Passei as mãos entre meus cabelos tentando me confortar enquanto minha cabeça tentava pensar aonde ele poderia estar já que este horário ele sempre estava livre em sua sala.

Tentei ligar. Caixa postal.

“Ele deve ter bloqueado o meu número ou algo assim”, pensei.

Comecei a tremer em desespero.

Fui até a agenda de contatos na tentativa de pedir para que algum colega de classe ligasse pra ele, inventando qualquer desculpa sobre dúvida ou trabalho. Mas infelizmente, meu convívio com a turma sempre foi ruim e com o passar dos semestres só fora piorando.

Ainda havia uma esperança. Ele poderia estar na sala de Alexandra, sua amiga e coordenadora do curso de Engenharia de Minas.

Sua sala era no final do corredor, então, me movi o mais rápido o possível.

Antes que eu chegasse até lá, a moça abriu a porta e começou a caminhar na direção contrária da minha.

— ALEXANDRA! — Bradei. — Alexandra, por favor, espere.

Ela olhou em minha direção, distraída.

— Marcos?

— Preciso de sua ajuda.

— Está precisando de algum documento?

— Não, nada disso — disse com a voz trémula.

Ela me puxou para o canto do corredor ao avistar que alguns alunos vinham em nossa direção.

— Preciso saber aonde Antônio está.

Vi que ela engoliu a seco enquanto franzia o cenho.

— Ele pediu afastamento de todos os seus cargos.

— Como assim, afastamento, Alexandra? — passei a mão na testa pra limpar o suor.

— Isso mesmo, Marcos, afastamento. O professor Antônio resolveu seguir sua vida longe desta instituição, dessa cidade.

— Cidade? Ele está indo embora.

— Ele deve estar acabando de fechar as últimas malas neste momento — Ela pôs a mão em meu ombro e deu um sorriso no canto da boca.

— Como eu não fiquei sabendo disso? Esse povo imundo da minha turma adora uma fofoca, mas sobre isso não chega nada no meu ouvido? — Indaguei.

— Eu era a única que sabia, Marcos. Ele me fez prometer que guardaria segredo até que tudo estivesse certo pra ele ir embora.

Senti meu rosto enrubescer enquanto uma lágrima escorreu.

Alexandra usou o polegar para secar o meu rosto.

— Eu sei que vou me arrepender disso — ela tirou o celular do bolso. — Seu número ainda é o mesmo? — Assenti com a cabeça. — Vou te mandar por mensagem as informações do voo dele, caso você não o ache em casa.

— Muito obrigado, Alexandra — disse enquanto outras lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Estou te devendo uma.

— Ah, mas com certeza você está — ela deu um sorriso. — Agora vá, antes que seja tarde demais.

Peguei o meu celular pra ver se a mensagem havia chegado e comecei a me mover.

Alexandra apertou o meu pulso.

— Antônio precisa de apenas um bom motivo pra ficar, seja esse motivo e não solte a sua mão, como você fez antes.

— Mas não fui eu...

Ela me interrompeu.

— Vá! — Ela soltou meu pulso e suspirei.

— Obrigado — sussurrei.

Instituto de Ciências Humanas e Sociais*

Notas finais
Comentar em uma fic é mostrar para o autor o quanto você respeita e gosta da historia. Não custa nada e não demora dois minutos, então por que não comentar? Com certeza todos que leem essa nota já escreveram algo e viram como é ruim escrever para as paredes. Muitos desistem, outros desanimam. Então faça uma forcinha, nem que seja para dizer que amou ou odiou. Com toda certeza o autor se sentira melhor.