Teus Olhos Meus

30 XXIX — Ecoou.


Notas iniciais
Olá leitores, olha quem voltou. Não, Felipe Perdigão não esqueceu Teus Olhos Meus no churrasco. É só a vida sendo... E sendo... MAS... Espero conseguir acabar essa história finalmente. A faculdade me toma tempo, muito tempo, mas... Eu também deveria fazer as coisas que eu gosto e escrever é a principal delas. Não vou prometer que eu vá postar tão rápido assim, mas já já tem um capítulo novo ai. Não deixem de comentar, favoritar, recomendar pro papai, pra mamãe, pra titia, pro primo, pra empregada, pro patrão... É sério mesmo! Vocês não sabem como isso é importante para nós escritores e não custa nem dois minutos.

ANTÔNIO

Mais um dia nasce, mais uma semana se inicia e mais uma vez não consegui dormir na noite passada porque meus pensamentos me torturavam, me faziam lembrar do imenso monte de lixo que sou.

Às vezes me sinto um ingrato, afinal, eu tenho uma família que me ama, o emprego dos sonhos, o namorado perfeito, amigos incríveis e, bem, nada disso me alegra.

Eu olho para tudo que já conquistei e... Sou só mais um comedor de feijão como qualquer outro habitante da Terra.

Talvez, caralho, é muito difícil assumir isso, mas, talvez eu tenha que voltar a me tratar porque estou começando a notar há algumas semanas que estou com o mesmo desanimo apático do fim do ensino médio e dos primeiros anos da graduação.

Saúde mental é algo sério, merda, sério até demais.

Não consigo acreditar que os dias azuis estão voltando.

— Antônio? — Ouvi a voz doce da governanta me chamar.

— Bom dia, meu amor — bradei em meio de um bocejo.

— Seu suco de melancia está pronto, você vem tomar o café da manhã na mesa?

— Sim, não se preocupe em trazer aqui — respondi.

É, acho que não há mais tempo para chorar.

Tomei aquele suco gelado e extremamente saboroso com calma, hoje é meu dia de folga e eu não havia nada, absolutamente nada pra fazer pela manhã além de ficar na cama assistindo série e coçando o saco.

Estava prestes a jogar a bunda gorda na cama quando olhei pela janela e vi as serras no horizonte. Com eu queria largar tudo e ir viver uma vida mais tranquila. Mas, depois de tudo que já passei, não seria loucura? Eu poderia vender a empresa e dar menos aulas, mas... O medo de tentar, me impede de dar o primeiro passo.

Ignorando, pelo menos tentando, meus pensamentos, voltei para cama e sintonizei a TV em um canal que fala de casa e saúde. Não demorou muito e fui esmagado novamente por uma vontade de desaparecer. Eu consigo sentir o peso do mundo sobre as minhas costas.

Quando mais novo, meus amigos e eu tínhamos o costume de ir até um bosque da cidade e praticar bruxaria, sim, bruxaria. Nós acendíamos velas, queimávamos ervas, nos “conectávamos” a cristais, rogávamos a Deuses ancestrais por dinheiro, cura e amores... No final, aquilo sempre dava certo. Se era apenas coincidência, se era o destino, ou os Deuses nos respondendo, eu jamais saberei... Mas eu estou cansado de me sentir uma caçamba de lixo.

Peguei o celular e digitei uma mensagem pra Marcos. Desde que ele começou no estágio temos nos visto menos vezes e tentamos compensar isso almoçando juntos nos dias de folga.

Enquanto me arrumava, notei que ele havia respondido um “tudo bem, espero que esteja tudo bem. De noite te ligo, te amo”. Ao ler o “te amo” esbocei um sorriso ao imaginar a sua voz sussurrando aquelas palavras em meu ouvido.

Depois de revirar a despensa atrás de uma vela verde, finalmente a encontrei e a joguei dentro de uma ecobag que eu havia separado.

Prestes a sair de casa, olhei para a cesta de frutas e peguei a laranja com melhor aparência e a descasquei. Em uma panela funda, coloquei o suco dessa laranja para aquecer junto de sua casca, canela, cravo e bastante mel. Depois que ferveu, despejei aquele líquido em uma garrafa e segui em direção ao carro.

Perguntei a assistente pessoal do celular sobre as cachoeiras no raio de 150 Km, mas antes que ela me respondesse lembrei de uma que se localizava na beira de uma rodovia que passava pela cidade. Seria ali.

Logo após dirigir por quase uma hora, avistei uma placa informando que a cachoeira Paraopeba estava há poucos metros. Respirei aliviado, estacionei o carro no encostamento e desci com as minhas coisas. O som das águas já havia chamado a minha atenção. Era belíssimo, só faltava uma sereia no fundo ao cantar.

Adentrei a mata caminhando por alguns minutos e lá estava ela. Eu não sabia dizer o que mais me encantava naquele momento era a cachoeira ou os lírios que coloriam as margens da cachoeira.

A manhã estava exacerbadamente quente, então não hesitei em ficar apenas de sunga.

Coloquei os pés na água e estranhei a temperatura baixa. Mas quem ajoelhou, tem que rezar, não é mesmo? Bom, pelo menos nesse caso... Se a pessoa começar algo e depois se arrepender, ela tem total liberdade em dizer que não quer mais e as pessoas tem a obrigação de respeitar isso.

Caminhei até que a água estivesse um pouco acima dos meus joelhos e na tentativa de dibrar o frio, mergulhei. Debaixo d’água tudo era mais bonito, mas tive de sair para respirar. O sol que iluminava a minha pele também trazia de volta a temperatura que a água roubou.

Eu estava ali sozinho, talvez pelo horário, talvez por ser segunda feira, não sei. Isso fez com que eu me divertisse como nunca.

Não demorou muito e lembrei do porque eu estava ali.

Sai da água, sacudindo os cabelos pra retirar o excesso de água e então acendi a vela e a firmei no chão.

Olhei para o lado e me certifiquei de que eu realmente estava sozinho ali e ao ter certeza me livrei da única peça que ainda vestia.

Peguei a garrafa, olhei para a vela e chamei em pensamento pelo espirito, entidade, Elemental, Deusa, sei lá, qualquer coisa que protegia aquele local e comecei a despejar o líquido bem no topo da cabeça. O senti escorrer, ainda morno, pela minha nuca. Aquele cheiro extremamente agradável me trazia a paz.

Enquanto acabava de me banhar, fechei os olhos e pedi que achasse uma forma daquela dor sumir. “Tudo vai ficar bem” sussurrei ao lembrar dos motivos eu tinha para sorrir.

Sentei ao lado da vela e imaginei uma luz verde saindo de sua chama e vindo em direção ao meu peito. Em seguida, imaginei essa luz revestindo todo meu corpo e me enchendo de vitalidade e esperança.

Continuei ali, em silencio e constante introspecção por algum tempo.

Me encontrava em um estado de relaxamento tão intenso que acabei cochilando ali mesmo, pelado e sobre as folhas.

Não sei por quanto tempo meditei, nem por quanto tempo cochilei.

Despertei ao ouvir um grito seguido de uma risada escandalosa.

— Perdão — disse o rapaz que me encarava. — Não quis acorda-lo.

Esfreguei os olhos que ainda estavam pesados e o encarei tentando reconhecer. Eu conhecia aquela voz.

Lembrei que estava nu e levei a mão até a sunga que estava ali ao meu lado e a vesti o mais rápido possível.

Os dois rapazes me encaravam assustados.

CARALHO!

Senti vontade de me atirar do alto daquela cachoeira. Eu conheço esse rapaz! Ele está em uma das minhas turmas...

Não acredito que fui pego dormindo nu por aluno.

— Está tudo bem, professor? — Ele indagou. — Está quieto, aconteceu algo?

— Está sim, tudo ótimo... Só acabei de despertar e bem, estou constrangido — não menti.

— Ah, relaxa — ele riu. — Todos nós aqui temos a mesma coisa entre as pernas.

— Nudez não é um tabu pra mim — respondi. — Se não é pra vocês também... Ótimo.

Eles riram.

— Espero que essa história morra aqui, Lauro, bem, é Lauro, né?

— Sim, Lauro — riu estendendo-me a mão. — E pode ficar tranquilo — ele reafirmou.

— E você rapaz — me dirigi ao homem ao lado de Lauro — o conheço?

— Creio que não — o rapaz respondeu. — Mas eu já fui em todas as palestras que o senhor...

— Senhor não, você. — o interrompi.

Ele riu.

— Como preferir, que você — ele continuou — já administrou desde que entrei na faculdade.

— Espero que tenha gostado — abri um sorriso amarelo.

— É impossível não gostar, o senhor, digo, você, fala muito bem.

— Isso é prática, estou há muitos anos nessa vida acadêmica.

— Falou o idoso — caçoou Lauro.

— Tomo banho em gala com formol, é por isso que estou conservado.

— Que nojo — eles disseram em uníssono.

— Brincadeira! — ri, mas talvez fosse verdade. — O que vocês fazem aqui hoje?

— Eu tenho uma obrigação religiosa e precisava deixar algumas velas amarelas aqui na cachoeira hoje e o Abel veio me acompanhar porque o ônibus nos deixa há uns 20min daqui então queria uma companhia.

— Ah, então vou me retirar — me agachei para pegar minhas coisas no chão. — Não quero atrapalhar o seu sagrado.

— Até parece professor. É coisa rápida, pode ficar à-vontade.

— Tem certeza? — Questionei.

Ele afirmou acenando com a cabeça.

— É bom que me faz companhia enquanto ele faz seu rito.

— Seria uma honra.

Coincidência? Acredito que não. É tamanha ironia do destino me fazer vir aqui pra me conectar com o divino e ser flagrado nu por um aluno que veio na MESMA cachoeira com os mesmos fins.

— E você, professor Antônio, o que faz aqui? — Abel me perguntou.

Pensei por alguns segundos antes de responder, não tinha certeza se queria falar da minha vida pessoal para eles.

— Estava precisando de respostas, então vim meditar um pouco. Cheguei em um patamar da minha vida que quero experimentar coisas novas.

— E por que não experimenta? — Meu aluno perguntou.

— Medo — respondi balançando a cabeça.

— Você não pode viver com medo das possibilidades.

— Sim, eu sei. Sei bem! Mas dessa vez não envolve só a mim, há outras pessoas envolvidas e minhas atitudes irão interferir diretamente em suas vidas.

— Maduro da sua parte em pensar nelas, mas nós temos que pensar na gente também.

— Não adianta nada você fazê-las feliz e viver descontente — completou Abel.

— Aposto que vocês dois são reptilianos — cruzei os braços e joguei meu corpo para trás no meio de uma risada. — Na idade de vocês eu estava comendo barro.

— Na nossa idade você já tinha sido aceito no mestrado — exclamou Abel.

— Ora, ora! Parece que temos um Sherlock Holmes aqui.

— Eu diria um fã — disse Lauro — Bem, me deem licença, vou iniciar o que eu vim fazer aqui.

— Fique à vontade migo.

Assenti com um sorriso.

Enquanto Lauro estava enfurnado dentro da cachoeira fazendo suas obrigações, seu amigo e eu conversávamos sobre a vida, planos para o futuro e até mesmo o universo.

Para meu espanto, Abel realmente sabia muitas coisas sobre mim e isso era assustador porque um dia eu já fui assim com um saudoso professor especializado na área de tratamento de minério.

Me distraí tanto que não vi o tempo passar. Quando me dei conta, Lauro havia se juntado de novo a nós.

— Tudo certo? — Questionei.

— Sim, muito axé!

— Fico feliz por você ter a sua fé, é muito bom.

— Andei muito tempo sem acreditar em nada, professor. Quem me ajuda caminhar nessa vida corrida é o Axé dos meus Orixás!

— Excelente — sorri, sem saber o que responder — E você Abel, é da mesma religião?

— Eu? Não! Eu cultuo a Katy Perry e sou feliz assim.

— Cada um com seus crédulos — respondeu Lauro.

Rimos os três.

Lauro pediu licença para se trocar e adentrou no mato para colocar roupas secas. Agora Abel e eu falávamos sobre cultura pop. Eu só conseguia pensar em quando 2016 quando Rihanna lançou ANTI e eu vivia em função de ir pra festas pra dançar ao som de Work.

Não demorou muito e meu aluno havia se juntado a nós mais uma vez.

— Então, vamos? — Perguntou Abel.

— Sim, se perdermos o próximo ônibus estamos fodidos.

— Vocês estão voltando pra cidade? — Questionei.

— Aham — eles responderam juntos.

— Então vamos, eu deixo vocês em casa.

— Nossa! Vai salvar a pátria porque o dinheiro que vamos economizar em passagem vai salvar! Final do mês, sabe como é no professor?!

— Claro que ele não sabe, olha o tanto que ele fatura por mês.

— Sei muito bem — ri. — Não nasci em berço de ouro, eu era um peixe e tive que aprender a subir em árvores porque os macacos em minha volta sabiam escalar e nadar.

— Seria meu sonho de princesa chegar aonde você chegou? — Brincou Lauro.

— A vida é como andar de trem, meu caro. A gente tem a sensação de que está parado e tudo a nossa volta movimentando. Muitas vezes sentimos que estamos parados no mesmo lugar, mas quando paramos pra pensar no ponto de partida, nós mudamos e muito. O importante é não parar de se mover. Mesmo que você não saiba o destino do trem, em algum lugar você vai chegar — Pausei pra respirar. — E se não gostar do destino, mova-se de novo.

Eles me encaravam sem reação. Comecei a rir de nervoso porque provavelmente me embolei no que queria expressar e falei algo extremamente sem nexo.

— Incrível — disse Abel batendo palmas.

— Eu gosto muito de dar conselho pra pessoas mais novas porque elas olham pra mim com uma cara tão fofa de que acham que eu sei o que estou falando e OBVIAMENTE EU NÃO SEI — disse constrangido enquanto me certificava que a vela que eu acendi não poderia vir a pôr fogo na mata. — Vamos embora.

Caminhamos até o carro e assim que entramos me deparei com uma foto minha e de Marcos no console.

Era inevitável que Lauro a visse e se eu tentasse escondê-la pareceria que estava incomodado com aquilo.

Joguei minhas coisas no banco de trás ao lado de Abel e peguei uma bala que estava próximo da foto e os ofereci. Lauro tomou uma em sua mão e logo em seguida apontou para foto.

— E o Marcos? — Perguntou.

— Sim, o conhece?

— Ele é meu calouro — ele disse.

Houve um silêncio no carro.

— Professor, não precisa se preocupar. Não iremos contar nada — Lauro me abriu um sorriso. — Faculdade não é uma competição, não estamos ali pra ser melhor que ninguém e si pra crescermos pra nós mesmos sermos melhores.

Antes que eu pudesse responder o telefone tocou e atendi pelo alto-falante do carro em um impulso automático.

Amor, não consegui esperar até de noite pra te ligar, estou preocupado — havia aflição em sua voz. — Ta podendo falar? — Perguntou Marcos.

Está tudo bem, benzinho, mas não to podendo falar agora. De noite te pego pra jantar e conversamos, ok?

Eu tenho compromisso de noite, se puder esperar até mais tarde...

Sem problemas, agora preciso desligar, beijos.

Te amo.

Je t’aime.

Besta.

Desliguei o celular rindo internamente de nervoso e os olhei.

— Berro do céu, não acredito que Antônio e Marcos formam o casal mais fofo do universo.

Acelerei o carro e rezei pra esse não ser o assunto até a cidade.

Notas finais
Comentar em uma fic é mostrar para o autor o quanto você respeita e gosta da historia. Não custa nada e não demora dois minutos, então por que não comentar? Com certeza todos que leem essa nota já escreveram algo e viram como é ruim escrever para as paredes. Muitos desistem, outros desanimam. Então faça uma forcinha, nem que seja para dizer que amou ou odiou. Com toda certeza o autor se sentira melhor.