Teus Olhos Meus
18 XVII — Em Cima do Muro.
Notas iniciais
Amizade.
Muitos definem amizade como companheirismo.
Mas no caso, como sou extremamente trouxa, amizade se define a: acordar às 07 da madrugada pra limpar a piscina e ir ao supermercado para comprar coisas para uma "pool party".
Ok.
Perdoa-me pelo mau humor matinal, mas quer saber? Não sou obrigada.
Só estou me prestando a este papel porque sou um amor de pessoa e estou carente o suficiente pra querer dar uma festa.
Assim que cheguei à fila do caixa, que por sinal estava cheia demais praquela hora da manhã me deparei com dois amigos que tinham o corpo malhado cochichando e rindo a todo instante.
Como eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, fiquei ali apenas incomodada por temer que estivessem rindo de mim.
Sou mulher, negra, dona de mim. Não vai ser esses brancos racistas que irão me impedir de sorrir.
Minha mente voltou para terra quando a luz verde do caixa se ascendeu avisando que o próximo cliente poderia se dirigir até a atendente.
Com passos lentos uma idosa que estava a nossa frente se dirigia até a atendente que a esperava com um sorriso enorme aberto. Para meu desgosto, tive a infelicidade de escutar os dois jovens menosprezar da senhora.
— Sua anta! Você mal consegue andar e está aqui a atrapalhar a fila! — O mais alto dos dois debochou.
— Agiliza sua velha idiota, tem gente que tem mais o que fazer a que sentar a bunda gorda no sofá e ficar tricotando. — O outro completou.
Ao ouvir aquilo, a minha primeira reação foi morder os lábios pra ter a confirmação que aquilo não era um pesadelo. Mas, infelizmente, era real. Ninguém presente ali foi capaz de mexer um palmo para ajudar à senhora que tremia o corpo inteiro.
Os rapazes estavam prestes a começar a debochar novamente quando intervi.
— Vocês nem ousam fazer uma coisa dessa! — Cerrei os olhos. — Seguranças! Por favor, Segurança? — Firmei a voz e disse o mais alto que pude.
— Você está ficando louca? — Me questionaram. — O que estamos fazendo demais sua tonta? Só estamos com pressa.
— Não venham fazer de tontos para o meu lado. Violência contra o idoso é crime sim e não vou permitir que vocês dois continuem aqui a debochar de uma moça que visivelmente tem problemas de locomoção.
Fui interrompida.
— O que está acontecendo aqui? — Um segurança alto, trajando anil e com feições sérias apareceu atrás de nós.
— É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. — Fiz uma pausa recuperando o folego enquanto rogava que tivesse citado certo o Art. 3º do Estatuto do Idoso. — E esses dois babacas estão aqui balbuciando em alto tom para todos presentes escutarem uma tamanha ofensa para aquela moça ali na frente.
— A senhora confirma esses fatos? — O segurança indagou a pobre senhora.
Ela estava tão nervosa que deixara a bolsa de moedas cair sobre o chão de tanto que tremia. O estado de nervos era tanto que nem a boca conseguira abrir, confirmara apenas com o balançar da cabeça e com lágrimas escorrendo por toda a face.
— O que a senhora espere que eu faça? — Bem, deveria perguntar a Dona se ela quer ir a polícia abrir um boletim de ocorrência contra esse dois, mas com a minha pessoa... Vocês acabam de perder uma cliente fixa porque não sou obrigada a frequentar o mesmo ambiente que dois arruaceiros que não conseguem nem respeitar o próximo.
— O que você está falando sua negrinha imunda? — Cuspiram-me à face.
— Ótimo, agora quem vai levar vocês a delegacia sou eu mesma. A negrinha aqui vai abrir um processo contra injúria Racial. Segurança, pode chamar uma viatura fazendo fa... — Fui interrompida novamente.
— Ah, então agora você quer arrancar dinheiro nosso? — Ele debochou. — Tinha que ser negra mesmo. É de me espantar que você esteja aqui como cliente e não como faxineira.
— É seu dia de folga né? Por isso quer ganhar dinheiro dessa forma suja sobre nós.
— Ah, por favor né meu filho? — Peguei meu celular na bolsa. Eu mesmo ligarei pra polícia. — E mesmo que se eu fosse faxineira desse supermercado, eu iria merecer todo respeito do mundo assim como qualquer outro profissional desse mundo deve receber.
— Pare de tanto vitimismo. — Eles disseram ao mesmo tempo.
— Você vai sonhando que vou ser preso por colocar uma negra no lugar dela. Vai sonhando.
— Eu já suportei demais o seu escárnio. Suportar é a lei da minha raça. — Respondi com os dentes cerrados.
— Você é negra. Você é negra. Você é negra. VOCÊ É NEGRA. — O mais alto, como sempre tomando partido das ofensas começou a gritar na tentativa de me ofender.
— Eu sou negra, sou negra sim. Mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mãos, não tem buceta, não tem sentidos? Não come da mesma comida? Não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua, não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também?
— É isso que eu deveria fazer com você, te matar! Encher sua cara de bala.
Meus olhos arderam de ódio.
Disquei o número da emergência e pedi para o segurança imobilizarem.
— Vocês mexeram com a negra errada. Vou AFROntar vocês até o dia que eu tiver a certeza que vocês receberam a punição merecida. — Os encarei firmemente para gravar na memória a face dos dois. — Ri. — Só falo com vocês na presença do meu advogado agora.
Enquanto esperava a viatura chegar, me dirigi a outro caixa e passei minhas compras e avisei ao segurança que apenas as levaria ao carro.
Eu não deixaria esse triste ocorrido estragar o meu dia. Daqui algumas horas eu estaria sim festejando com meus amigos.
[...]
Ao som de Madness na versão de The Pretty Reckless eu dirigia de volta pra casa com um enorme sorriso no rosto. Estava mais orgulhosa de mim por ter conseguido conduzir aquela situação do que ofendida pelas coisas que havia escutado há pouco mais de duas horas atrás.
Eu só precisava me apressar, afinal, havia muita coisa pra preparar ainda.
Assim que cheguei em minha casa conferi as notificações no celular e ao ver uma recém chegada de Antônio afirmando que já estava saindo de casa o liguei imediatamente.
“Antônio?”.
“Sim? Aconteceu algo? Sua voz está diferente!”.
“Ah, bem, acontecer aconteceu, mas não foi pra isso que te liguei...”.
“Desculpa, pode falar!”.
“Me atrasei toda, você se importa de vir o mais cedo que puder pra me ajudar com o almoço?”.
“Claro que não... Hoje vocês vão comer a melhor comida do mundo”.
“Leoninos...”.
“É verdade — ele riu —, enfim, já chego ai. Beijos”.
“Obrigada!”
[...]
São quase meio dia e graças a Antônio não estamos mais atrasados. Não demorará muito e os convidados começarão a chegar. Só quero ver a reação dos meus amigos a descobrirem que convidei alguém a mais.
Tenho certeza que irão gostar da surpresa.
Bem, eu estava prestes a conferir se as bebidas do frigobar da piscina estavam geladas quando o interfone tocou.
Corri empolgada para entender.
— Sim? — Perguntei. — Mesmo sabendo quem era por causa da câmera.
— Sou eu, Marcos. — Ele sorriu para a lente.
— Ah, claro que é você! Pode entrar.
Apertei o dispositivo e me dirigi para a porta principal para recebê-lo.
Assim que o vi dei um abraço apertado. Quem diria que minha opinião sobre ele mudaria, não é mesmo?
— Eu já imaginava que sua casa parecia um palácio, mas olha, é muito mais bonita a que eu imaginei.
— São seus olhos. — Mentira, minha casa é linda mesma. — Pelo visto você incorporou mesmo o look festa na piscina, hein? — Disse encarando seu short curto azul bebe e sua regata laranja.
— Ah, mas está ruim? Pensei que todos estariam vestidos assim...
— Está ótimo meu querido! — Abri um sorriso encostando em seu ombro. — Eu que não me troquei ainda, mas fique à vontade.
— Obrigado. — Ele sorriu de volta.
— Mi casa es tu casa! — Apontei para a cozinha. — Antônio está lá. Só vou lá em cima colocar meu biquíni e já desço pra ficar com vocês.
— Tranquilo! Só uma pergunta, falta muita gente pra chegar ou será só nós três? — Marcos me questionou.
— Ah, isso é surpresa. — O ignorei e subi as escadas correndo.
Como tenho o quadril largo, peguei uma calcinha branca com uma regulagem nas laterais. Para combinar, peguei um biquíni amarelo com desenhos brancos e geométricos.
Sem me preocupar se tinha ficado bom, coloquei um colar prata com um pingente de citrino, vesti uma blusa estilo boyish branca por cima e desci para me juntar a meus amigos.
Já na escada estranhei o silêncio.
Tirei meus chinelos e caminhei sorrateiramente até onde eles, supostamente, deveriam estar.
Ao chegar no ambiente me deparei com Antônio de costas pra mim sentado sobre o balcão abraçando Marcos com as penas na altura da cintura. O beijo que trocavam era tão envolventes que não tive coragem de interrompe-los.
Escorei-me na parede e fiquei ali admirando.
Para minha surpresa Marcos abriu o olho e se afastou rindo.
— Quanto tempo está parada ai? — Questionou.
— Eu? Hã? Acabei de chegar. — Levantei os braços tentando comprovar a inocência enquanto Antônio me encarava com o cenho franzido.
— Sei. — Marcos riu novamente balançando a cabeça.
— Meu visual está aprovado?
— Lindíssima! — Antônio gritou! — Me chama, me chama agora soberana! Plena.
— Acho que o Toni deveria tomar cuidado porque olha... Te pegava toda hora.
— Você deveria se perguntar primeiro se eu iria querer ficar com você. — Debochei me escorando no balcão.
Rimos.
— Não vou nem me dar o trabalho de responder. — Marcos deu de ombros.
— É melhor mesmo. — Antônio completou. — Quem falta pra chegar?
— Ih, o que deu nos dois que estão apavorados pra saber quem mais vem? — franzi o cenho.
— Acho que estamos incomodados por não saber quem virá e você sabe... Somos aluno e professor, as pessoas não ficariam contentes em nos ver assim, digo, juntinhos.
— Relaxem, ninguém vai dar a mínima pra is... — Fui interrompida pelo som do interfone. — Estão vendo? — Ri. — Já estão chegando.
Meu irmão chegou com outros amigos de longa data.
Assim que chegaram a cozinha – fazendo muito barulho por sinal – os mandei apresentar. Afinal, eles tem boca e são capazes de se apresentar sozinhos.
Sugeri a Antônio que ele deixasse a lasanha de berinjela que estava preparando no forno e que se juntasse a nós na piscina. Se fosse o caso de ficar paranoico com passar do ponto, ele colocava um despertador e eu não me importaria com ele entrando molhado na cozinha.
Ao som de Belle & Sebastian abri a primeira garrafa de vodka e misturei com frutas vermelhas.
Riamos bastante.
O que não faltava ali era assunto.
Eu estava realmente feliz em ver Antônio e Marcos juntos. Claro, eu às vezes ficava incomodada em ver Marcos rejeitando os carinhos de Antônio na frente das outras pessoas, mas eu tenho que respeitar a maré que ele está enfrentando pra se aceitar.
Quando a próxima música começou todos largaram os copos, estenderam as mãos e fizeram um coro.
So what we get drunk, so what we smoke weed. We're just having fun. We don't care who sees, so what we go out that's how its supposed to be: Living young, and wild and free!
A música estava tão alta que mal pude escutar meu celular chamar.
— Acorda mulher, seu celular está tocando não é de hoje! — Meu irmão disse e corri para atendê-lo.
“Alô?”.
“Oi... Alexandra, aonde você está?”.
“Em casa e você deveria estar aqui também.”.
“Eu estou no portão da sua casa.”.
“E porque não tocou o interfone?”.
“Estou há uns cinco minutos tocando e nada...”.
“Desculpa, a música está alta.”
“Eu percebi”. Ele riu.
“Já estou indo aí.”
— Já volto. — Sussurrei pra quem quisesse ouvir.
Abri o portão e logo me subiu um arrepio pela espinha.
— Tem certeza que eu deveria estar aqui? — Ele perguntou.
— Entra logo André. — Ordenei.
— Fico feliz em saber que o tema da festa é realmente piscina e que você não inventou isso pra eu ser o único com estas vestes e... E ficar constrangido.
— Se eu fosse fazer algo contra você, pode ter certeza, seria algo muito pior que essa artimanha à patricinha de ensino médio.
— Obrigado por avisar.
Dei uma piscadela e o trouxe pra piscina.
Pude ver Antônio engasgando com seu drink.
— Pra quem não o conhece: este é André.
— Olá André. — Todos disseram. Com exceção de uma pessoa, mas acho que não preciso dizer quem foi não é mesmo?
Assim que o recém chegado entrou na piscina, Marcos que havia percebido a reação de Antônio o abraçou pela cintura pra confortá-lo. Mesmo sem entender.
— Pois então bonitão, conte para nós de onde conhece Alexandra porque a quero matar por nunca ter nos apresentado.
André riu dando o primeiro gole na taça que acabara de receber.
— Bem, eu conheci a Alexandra através do Antônio em um bar...
— Então vocês estão ficando?
— Não... Pelo menos até agora não. — Ele riu novamente. — Na verdade agora eu trabalho para o Tony e... Somos ex-namorados.
— Obrigado por falar algo que ninguém se importa. — Antônio disse virando toda bebida que estava dentro de seu copo.
— Mas gente, que babado! — Uma das amigas da Alexandra acrescentou.
— Ele é aquele rapaz da foto no seu quarto, não é? Por que não me falou que ainda tem contato? — Marcos o questionou.
— Porque... Porque não tínhamos. André emergiu do esgoto não tem nem duas semanas.
— Qual é? Vai ser assim então?! — André indagou.
— Com licença, preciso ver se minha lasanha assou.
Antônio empurrou o amante com o cotovelo e saiu da piscina as pressas. Tão apressado que ao pisar na cozinha escorregou por estar molhando.
— Você está bem?! — Gritei enquanto corria em sua direção.
— Nossa, não poderia estar melhor.
— O que está acontecendo?
— Pensei que você iria me respeitar.
— E faltei com respeito a algum momento?
— Sim! Naquele dia no bar, depois que ele foi embora eu pensei que tinha deixado bastante claro como que a presença dele me faz mal.
— Não seja tão rude Antônio! Ele está de volta a cidade depois de anos... Só estava tentando ser simpática ao convidá-lo, afinal, ele não conversa com ninguém na cidade.
— Ele só está colhendo o que plantou.
Um silêncio perturbador se formou entre nós.
— Você poderia pelo menos ter me avisado. — Ele acrescentou. — Evitaria essa situação constrangedora entre nós.
Antes que eu pudesse responder, fomos interrompidos por André que adentrou a cozinha.
— Olha Antônio, eu não quis estragar o seu dia... Já estou de saída.
— Você estragou a minha vida.
— Perdoa-me?!
— É muito tarde pra dizer que sente muito.
— Vamos passar uma borracha nisso tudo? — Ele sugeriu.
— Não sei se consigo. — Antônio respondeu em lágrimas.
— Juro-te ser aquilo que você merece e aquilo que não pude ser por tamanha imaturidade. Prometo não ser mais um amigo fútil e ausente.
— Há algo muito pior que a ausência: a presença quando já não significa mais nada. — Antônio franziu o cenho. — Eu sou humano e não me peça pra lhe dar o que eu não posso.
FIM
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