Teus Olhos Meus
8 VII — Não Precisa de Búzios Para Saber Que Isso É Mentira.
Notas iniciais
Tadinho de Marcos. Vem se dedicando tanto que acabara ficando cansado a ponto de cochilar na beira da escada e sair rolando até o andar inferior.
O pobrezinho, aparentemente, havia deslocado o tornozelo e por isso estou o ajudando a andar.
Ok.
Tudo bem!
Estou feliz com a situação, pois ele está com o corpo bem junto ao meu e... ah! Que corpo.
Pera.
Que merda estou falando?
Ele é seu aluno Antônio!
Bem, como eu havia pedido para a Reitora continuar com os alunos, resolvi ir com Marcos até o local de encontro, já que o cabeça dura batera o pé inúmeras vezes alegando que não queria ir ao hospital.
No meio do caminho, fomos surpreendidos com uma voz infelizmente conhecida.
— Que merda é essa que está acontecendo aqui? — A voz de Caio ecoou pelo corredor.
— Deixa de nóia moleque. — Marcos respondeu.
— Por que diabos você está agarrado em um macho? — Caio parecia ter nojo da minha pessoa, já que não se referia a mim como sujeito.
Mas não estou nem aí.
Me intrometi no assunto dos dois, mesmo.
— Seu primo se machucou e ao contrário do que você deve estar pensando, só estou lhe ajudando a apoiar.
— E no que eu estou pensando, caro professor?
— Como você mesmo disse: que estamos nos agarrando. — Debochei.
— Tem como pensar outro coisa? — Ele respirou fundo. — Primeiro descubro que meu primo está se prostituindo e agora... Isso?! — Ele estava cada vez mais nervoso.
— Prostituindo? — Marcos e eu o questionamos em uníssono.
— Prostituindo!
Marcos se acabou de rir.
— De onde você tirou essa ideia, mano?
— Uai, pô! Você está estranho, vive cansado, não me conta mais nada, não sai mais comigo durante a semana pra tomar uma... — Caio se explicou. Ou pelo menos tentou.
— Já passou na sua cabeça que talvez eu só esteja exausto porque ao contrário de certas pessoas não tenho pais que me adulam e que tenho que me virar do avesso caso queira conquistar as coisas que almejo? — A voz de Marcos estava trêmula.
— Você está me chamando de mimado? — Caio cerrou os dentes.
— Se você interpretou assim, ótimo. — Marcos cruzou os braços.
Eu pude sentir que aquilo estava prestes a acontecer.
E então, atirei meu corpo na frente do meu aluno favorito e segurei o punho de seu primo quando ele tentou atingir Marcos com um murro.
— Caí fora daqui. — Ordenei com a voz calma. — É melhor você esperar no ônibus.
Se ele fosse capaz de soltar raios pelos olhos, com toda certeza do mundo eu estaria como aquele viral da internet onde o moço coloca a mão nas uvas e leva um baita de um choque.
Sim.
Por um instante eu senti medo daquele olhos.
— Marcos, me desculpa... — A voz do rapaz chegou a falhar e ele seguiu seu caminho dando passos rápidos e pesados.
Me voltei para meu aluno que neste momento estava sentado no chão.
— Está tudo bem?
— O que você acha? — Ele respondeu.
— Corte rápido. Tramontina! — Enfiei as mãos nos bolos traseiros. Não tive outra reação.
— Não foi minha intenção. — Ele se explicou.
— Entendi. — Não quis render assunto. — Vamos?
Ele se esforçou para levantar, mas fora em vão, pois logo soltara um gemido de dor.
Por reflexo passei as duas mãos por baixo de seus braços o ajudando a se erguer.
— Deixe me ver isso aqui?
Ele me fitou pelos olhos sem entender, mas logo esticara a perna e pude ver seu tornozelo.
— Nossa Senhora dos Minerais. — Disse aflito.
— O que foi? — Ele regalou os olhos enquanto limpava o suor que escorria em sua testa.
— Está inchado. Você não vai ter opção, terei de te levar ao hospital.
— Espera pelo menos a visita acabar. — Ele implorou.
— Pra esse treco piorar e você ficar perneta? NO WAY. — Pausei a fala tirando o celular do bolso para lugar para a Reitora. — Além do mais, não vou tirar seus pontos no relatório por isso. — Sussurrei.
“Alô?”
“Antônio? Pode falar.”
“Você não sabe o que aconteceu, mulher!”
Ela sussurrou algo que eu não entendi, e pra ser sincero, acho que foi bem melhor eu não ter entendido.
“O quê?”
“Nada, deixa pra lá. Por que você me ligou, aconteceu algo?”
“Na verdade aconteceu sim. O tornozelo de Marcos está inchado e estou o levando para o hospital agora antes que isso piore.”
Por um segundo achei que a ligação havia caído, pois fiquei alguns segundos sem resposta.
“Ah, claro. É melhor mesmo.”
“Você não se importa de acompanhar a turma né?”
“Claro que não, tolinho. Vim aqui para lhe auxiliar mesmo.”
“Muito obrigado Alexandra. SÉRIO. Não sei nem como te recompensar.”
“Vai lá, antes que o menino perca a perna. Tchau!”
Não entendi essa pressa pra desligar o celular, mas ok, bola pra frente.
Voltei a minha atenção para Marcos.
Ele me abriu um sorriso agradecido, mas logo ele sumira por causa da dor.
— Professor?
— Sim.
— Se você fosse uma mulher, com certeza seria a dos meus sonhos. — Ele me deu outro sorriso.
— Por que me diz isso?
— Desde que te conheci, você vem mudando o tom da minha vida e cuidando de mim.
Que papo é esse?
O que você está fazendo comigo?
Um jogo, garoto?
Eu não aceito ele fazer isso comigo.
— Ah, só estou sendo generoso.
— Só? Se o mundo tivesse um terço da sua generosidade, muita coisa seria melhor.
— Não fala assim.
— Por quê?
— Você não me conhece bem para afirmar essas coisas.
— Posso não conhecer bem, mas, porra, o que você tem demonstrado ser me faz ter uma ótima concepção.
— Se você está dizendo Marcos, quem sou eu pra contestar.
— Eu adoraria te ter de mulherzinha.
— Seu tornozelo está doendo tanto assim pra alterar sua sanidade mental?
— Ok, se não quer acreditar em mim, não acredite.
Eu ri franzino o cenho fazendo mil especulações sobre o porquê daquele assunto.
— Eu só acho que você estaria perdendo um ótimo noivo.
— Ah é? Não consigo perceber nada de mais. — Menti.
— Vamos ali no banheiro que mostro o que você está perdendo. — Ele riu.
— É, definitivamente esse tornozelo está fazendo mal.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Neste momento eu não fazia nada além de torcer para que ele não conseguisse perceber minhas palpitações e a respiração acelerada.
— Vamos?
Ele assentiu com a cabeça e eu passei seu braço por cima da minha nunca o ajudando a apoiar, e então ele passou a mão por minha cintura e tomamos o caminho da saída.
Demos alguns passos e fui surpreendido.
Marcos desceu a mão e me apalpou na bunda.
— Tem certeza que não quer ir ao banheiro? — Ele riu.
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