Teus Olhos Meus

5 IV — Você É A Causa Do Meu Caos.


Notas iniciais
Olá leitores, olha quem voltou! Bem, hoje 15/10 é dia dos professores, e bem, achei que fosse de bom grado postar um capítulo novo hoje já que Antônio é professor e tudo mais. Este capítulo e o próximo são meus favoritos até o momento, então, espero que possam gostar o quão a mim. Ah, não se esqueçam de favoritar, comentar, recomendar. Eu sei que é chato ficar pedindo isso, mas é um ótimo incentivo.

ANTÔNIO

Puta merda, eu sou muito gostoso!”. Pensei em frente ao espelho acabando de me ajeitar minutos antes de sair para me encontrar com Marcos, meu aluno do primeiro ano.

Passei meu perfume e tomei rumo a sala, onde estava as chaves do meu carro.

Desci cantarolando em silêncio alguma musica qualquer dos The Smiths. E ignorei completamente a inexistência do insuportável do sindico do meu prédio que não passava de um fanático religioso que fazia questão de colocar na caixa de correio de todos os inquilinos convites para frequentar a igreja da qual ele era pastor todos os dias.

Pelo horário, não havia muito transito. Por conseguinte, não demorei muito para chegar até lá.

Não enfrentei a fila imensa que se estendia pela rua por já ter colocado meu nome na reserva e assim que entrei fui para o lobby do bar esperando o rapaz chegar. O tempo parecia estar congelado, maldita ansiedade.

Enviei uma mensagem de texto avisando que ele não precisaria enfrentar a fila por já ter o nome na lista e torci para que ele lesse rápido.

Foram oito malditas músicas de espera.

Ao som de Open Your Eyes do Snow Patrol pude vê-lo na entrada procurando por mim com os olhos cerrados enquanto conversava com a recepcionista. Assim que acenei, a donzela compreendeu e o deixou passar.

Antes de ele chegar até a mim, dei um gole no whiskey e me levantei pra cumprimenta-lo. Por educação, é claro.

Estendi minha mão esboçando um leve sorriso e para minha surpresa, mais uma vez, ele me puxou para um abraço. Sua mão direita foi em direção a meu pescoço puxando meu corpo para perto do seu. Desajeitado, tentei retribuir, mas aquele cheiro citrino adocicado tirara toda a minha atenção.

“Por que você faz assim comigo?! MERDA.”. Pensei enquanto nos soltávamos do abraço.

Estendi minha mão em direção a cadeira o convidando para sentar.

— Opa! — Ele me deu outro sorriso. — Como foi o seu sábado?

— Passei a maior parte dormindo e a outra resolvendo problemas da companhia. — Disse seco, deixando claro o meu desapontamento.

Ele me encarava sem saber o que dizer.

— E o seu? — Franzi o cenho.

— Ah, acordei tarde porque saí ontem com meu primo, o Caio, lembra dele? — Afirmei com a cabeça tentando afastar os pensamentos que me faziam não gostar de Caio. — É, depois fui comer massa e assistir série.

— Cara, eu não sei o que eu amo mais, massa ou assistir série.

— A coisa que eu mais amo neste mundo é mulher. — Ele soltou uma risada.

Que caralho cheio de verruga! Esse demente é um heteronormativo babaca que só sabe falar de mulher, futebol e do tamanho do próprio pênis? Ótimo Antônio! Veja bem onde você foi amarrar a sua égua.

Sem saber o que responder soltei uma gargalhada forçada.

Lembrei do meu Whiskey que esquentava e dei um grande gole.

— Não vai beber nada? — Perguntei.

— Não sei se devo, a grana ta pouca e tenho que voltar de táxi.

— Relaxa, qualquer coisa passo no meu cartão e te dou uma carona.

— Eu definitivamente não posso aceitar isso. — Ele inclinou o corpo para trás. — E outra, o senhor, digo, você, sei lá, não deveria dirigir bêbado.

— Você, por favor.— Nem dentro da escola eu gostava que se referissem a mim como senhor. — Este é meu primeiro e único copo, daqui pra frente é apenas suco e água. — Me expliquei. — Acha que tenho quantos anos Marcos?

— Não sei, pelo seu curriculum... — Ele cerrou os olhos, pensativo. — diria que uns noventa e cinco.

— Qual é?!

— É sério, você já fez muita coisa na vida pra ter menos de cinquenta anos.

—- Só comecei cedo demais. — Me justifiquei. — E tenho vinte e oito.

— Puta merda, você está dizendo que é mais novo a que eu? — Incrédulo, Marcos balançou a cabeça.

— É, creio eu que sim. Não sei quantos anos você tem. — Dei de ombros, pouco me importava.

— Dois a mais que você.

Nosso assunto foi interrompido quando um garçom nos pediu licença para perguntar se desejávamos algo mais.

— Vou querer o mesmo que ele. — Marcos disse olhando em direção a meu copo cheio até a metade.

— E o senhor, deseja mais alguma coisa? — O garçom perguntou.

— Se tiver como me trazer mais gelo, ficaria agradecido.

— Certo. — Ele marcou no tablete nosso pedido enviando as informações diretamente para a cozinha do estabelecimento. — É só isso?

Marcos e eu concordamos com a cabeça e o funcionário se retirou.

— Eu ainda não acredito nisso. — Meu aluno retomou o assunto.

— Em que? — O encarei sem entender.

— Que com trinta e um anos sou um adulto sem graduação, sem carro e que ainda vive com os pais enquanto você já tem sua própria empresa conhecida no mundo inteiro, com PhD, provavelmente tem uma casa maior que o meu bairro e... — Ele pausou dando o primeiro gole no whiskey que acabara de ser entregue. — sem mencionar o seu carro.

— Nunca é tarde pra começar. — Disse. — Bem, quando você se formar, provavelmente terá competindo com outras pessoas com dez anos a menos que você, mas estar graduado não é tudo...

— Suas palavras foram muito motivadoras. — Ele debochou.

— Disponha. — Fingi estar orgulhoso de mim mesmo. — Tenho muitas outras.

— Oh não, pode guarda-las pra você. — Marcos franziu o cenho balançando a cabeça para frente.

Shady bitch! — coloquei a mão no peito intonando a voz o mais feminino que pude simulando estar bastante ofendido.

— Você seria um ótimo gay. Sabe imitar muito bem.

Ok. Isso já é demais pra mim!

Não vou me dar nem o trabalho de abrir a boca pra responder.

Tentando controlar a respiração que estava oscilante por conta do meu sangue que talhava por dentro de todo meu corpo após ouvir aquela grande bullshit, eu encarava todo o bar procurando por algo que me distraísse. O ambiente era todo iluminado por luzes vermelhas e decorado com couro ecológico negro imitando os anos noventa. Se não fosse o cheiro de maconha que há alguns anos atrás foi legalizada no país, o lugar teria um marcante e agradável cheiro de ice strawberry com vodka.

Acho que ele percebeu que não gostei do que disse e ficou me encarando, como se esperasse por minha reação, mas tudo que eu conseguia fazer naquele momento é olhar naqueles malditos olhos verdes.

— Antônio? — Sua voz rasgou o silêncio fazendo meu corpo inteiro arrepiar.

— Sim. — Respondi sem olhar em sua direção.

— Está ofendido?

— Deveria estar?

— Não, é que pensei que...

— Olha, deixa pra lá. — Respirei fundo. — Mas se formos continuar alimentando essa amizade, não seja um heterossexual babaca que acha que piadas machistas e homofobicas são engraçadas. Elas são estupidamente prejorativas.

— Não vai acontecer de novo.

— Eu espero.

Quando criei coragem em olhar naqueles olhos que me remetiam o paraíso, fui surpreendido por Marcos tocando minhas mãos.

— É sério, me perdoa.

— Está tudo bem, só quero que compreenda o motivo de eu não gostar desse tipo de humor.

— Você tem toda razão, mas é que estamos acostumados a ouvir isso a todo instante... É quase impossível não reproduzir.

Quis puxar minhas mãos da dele, mas PORRA elas são tão quentes e macias.

— Ai está o grande problema! Se as pessoas abrissem a mente antes da boca, metades dos problemas da humanidade já estariam resolvidos.

— Por que diabos você fez Eng. De Minas e não ciências sociais?

— Por quê é dever de todo cidadão respeitar todas as diferenças? — Ajeitei minha postura na cadeira. — Qual é! Somos individualidades, é um pensamento muito retrogrado achar que raça, etnia, religião, condição sexual ou qualquer outra diferença do padrão, seja uma coisa que deve ser julgada.

— Olha, não viemos aqui pra discutir sobre isso, está bem? — Ele disse jogando o corpo pra frente e segurando minhas mãos com mais firmeza. — Você pode desconstruir todos meus preconceitos outra hora, mas estamos aqui pra nos divertir. Além do mais, foi apenas uma piada.

Heterossexuais...

— Olha, é por causa desse tipo de piada que muitas pessoas acabam tirando a própria vida.

Ele fez uma expressão tão feia que desisti de insistir no assunto.

— Está bem! — Disse.

Me levantei soltando daquelas mãos que ao me tocar faziam me sentir o cara mais sortudo da terra.

— Vamos pra outra parte aqui do Vanguard Bar.

Ele deu o último gole em sua bebida e me seguiu.

Me surpreendendo novamente ele colocou o braço sobre minha cintura e antes que eu pudesse raciocinar, passei o braço por seu pescoço e seguimos até a parte onde ficava a pista de dança.

Assim que chegamos fomos surpreendidos por um ar gelado e milhares de luzes fazendo um espetáculo naquele salão no ritmo da batida!

— Caralho. — Ele soltou minha cintura e no mesmo instante puxei meu corpo para longe. — EU AMO ESSA MÚSICA.

Ele adentrou o salão e o segui para não ficar sobrando.

Quando ele achou um espaço entre a multidão parou de andar e começou a dançar.

I like it... I miss you... I love you... I killed you... — Ele cantou se entregando a música olhando dentro dos meus olhos.

Que grande pedaço de merda! Este pandemônio não tinha que ser apenas bonito e inteligente, tinha que ter um ótimo gosto musical.

Eu fechei os olhos me concentrando na batida da música deixando meu corpo seguir os movimentos. Para meu espanto senti uma voz gritar em meu ouvido, mas mesmo assim tive dificuldade em ouvir por conta da altura da música.

— Você gosta de Nirvana? — Questionou Marcos.

— Você está brincando? Passei minha adolescência bebendo vinho barato ao som destes caras. — Levei minha boca em direção a seu pescoço para que ele pudesse escutar.

— Você não tem cara de quem fazia isso.

— Por que diz isso? — Ri imaginando os motivos. — Que tipo de adolescente você acha que eu era?

— Julgando pela época... Você deve que usava camisa de série e quando não estava lendo um livro sobre física quântica estava buscando a cura pra AIDS em seu possível laboratório improvisado na garagem.

— Eu era gótico e emo.

Ele se afogou em gargalhadas.

— Eu não consigo acreditar nesta história.

— Só não lhe mostro fotos porque eu teria que lhe matar após.

— Prefiro tentar imaginar.

A música acabou, mas para nossa surpresa começou outra da mesma banda.

— Caramba! Deve estar tendo algum especial Nirvana hoje. — Ele disse pulando cada vez mais.

Aproximei meus lábios de seu ouvido novamente.

— Ainda bem que você aceitou meu convite.

— Eu nem sabia que esse lugar existia!

— Eu sou fodidamente apaixonado por esse bar.

As luzes brancas da pista começaram a piscar e a fumaça do gelo seco começou a preencher todo ambiente, dando assim a impressão que todos estivessem se movimentando em câmera lenta.

Sell kids for food, weather changes moods… — Cantamos juntos o primeiro verso.

— Qual é seu álbum favorito deles? — Ele me perguntou esboçando um sorriso.

In Utero, é claro! — Respondi convicto. — O melhor da banda foi visto nesta época.

— Vai se foder, todo mundo sabe que Nevermind é o melhor álbum.

— Não vou discutir com você.

— É melhor mesmo, afinal você sabe que estou certo.

Ok, quem ele pensa que é pra falar assim comigo?

Querido, seu ego vai acabar matando todos na balada asfixiados.

— Vou ao banheiro. — Ele avisou. — Não saía daqui.

Queria ir junto, mas achei mais sensato não ir. Já havia dado pinta demais para um dia só. Não estou a fim de lidar com os possíveis problemas que surgirão se ele descobrir que não sou hétero.

Continuei dançando até a música acabar.

Fui surpreendido com Quero Ser Seu Cão do Thiago Pethit e não consegui me segurar. Comecei a me perder cada vez mais em movimentos disformes. Se eu não estivesse superado todos meus problemas de adolescente sobre auto aceitação, com certeza eu estaria com muita vergonha alheia. MUITA. Se o meu eu de treze anos me visse naquele momento, tentaria se matar naquele instante por tamanho constrangimento.

Marcos estava demorando demais no banheiro e aquilo já estava me deixando aflito.

Antes que eu pudesse levar minha preocupação adiante, fui surpreendido por uma moça extremamente linda com cabelos negros na altura da cintura que mesmo sem aqueles saltos enormes era mais alta que eu chegar até meu ouvido se apresentado.

— Olá, sou Márcia! — Ela sorriu.

— Tudo bem? — Dei um beijo em sua bochecha. — Sou Antônio.

— Estou ótima! — Ela respondeu levando as mãos sobre meus ombros e mecanicamente levei meus braços a sua cintura puxando seu corpo para próximo ao meu.

Começamos a dançar juntos ao ritmo do rock eletrizante do Pethit.

— Eu nunca te vi aqui antes. — Disse.

— Me mudei para cá não faz muito tempo.

— Está gostando?

— Sinto falta de minha mãe e minhas irmãs, mas as luzes da cidade nova me fazem querer viver cada vez mais.

Fiquei pensando em sua resposta e me esqueci de respondê-la.

Espero que ela não tenha pensando que foi uma falta de educação.

Dançamos mais algumas músicas e Marcos não havia dado um sinal de vida. Eu já estava sentindo calafrios em pensar em que diabos havia acontecido com ele.

Tentei me distrair o mais rápido possível. Precisava manter meus pensamentos longe de toda aquela negatividade.

— Por que você decidiu mudar para Abóboras?

— Emprego. — Ela disse com um sorriso enorme, parecia orgulhosa daquilo. — Passei em um concurso e agora sou professora de Eng. Metalúrgica no novo campus da UFMG.

Parei de dançar por alguns segundos incrédulos, mas logo recuperei o ritmo.

— O que foi? — Márcia perguntou.

— Eu dou aula de Eng. De Minas lá.

— Você está brincando? — Ela desapoiou dos meus ombros pra amarrar o cabelo em um coque.

— É sério! — Dei um sorriso amarelo.

— Quanta coincidência. — Dissemos juntos.

— Talvez seja o destino. — Ela disse.

Bem, eu espero que não seja. Eu definitivamente não quero me envolver com ninguém agora.

Antes que eu pudesse responder, vi Marcos se aproximando cada vez mais e franzi o cenho esperando por explicações.

Quando ele estava perto o suficiente a encoxou e passou as mãos em sua cintura fazendo que nossos braços se cruzassem.

Evidentemente, ela deu um grito.

— Que diabos é isso? — Márcia tentava recuperar o fôlego

— Ele está comigo, relaxa. — Eu tentei não rir da cara de espanto dela. — Márcia, essa é Marcos. Marcos, esta é a Márcia.

— Sangue do cordeiro! Vocês estão juntos? Vocês são gays, né?! — Ela tentou se soltar de nós. — Desculpa, eu pensei que você estivesse sozinho. — Ela se voltou a mim.

— Não somos gays. — Eu disse com naturalidade, afinal, ele é hetero e eu, bem, sou pansexual.

— Definitivamente não somos gays. — Ele sussurrou no ouvido da moça e em seguida deu uma mordida.

— Desculpa pensar isso de vocês, é que... — A moça tentou se explicar.

— Esqueça isso.

E assim continuamos a dançar, os três juntos, agarradíssimos.

Depois de algum tempo, Márcia virou de lado ficando de costas pra mim e antes que eu pudesse perceber, ela e Marcos estavam aos Beijos. Tentei sair dali, a situação estava muito constrangedora, mas assim que levei meu corpo para trás Marcos segurara meus braços.

— O que está fazendo?

— Não vou ficar aqui segurando vela. — Consegui me soltar. — Divirtam-se.

— Se esse é o problema! — Márcia riu.

Antes que eu pudesse interpretar aquela frase vi aquela mulher extremamente linda vindo em minha direção e me roubando um beijo. Logo eu retribui e senti Marcos a beijar no pescoço enquanto voltávamos a dançar em trio.

Marcos havia nos deixado a sós novamente para pegar mais bebida. Acho que se ele soubesse que Márcia, assim como eu, era professora, eles não estaria fazendo isso tudo.

— Olha, ele é meu aluno. — Disse, torcendo em silêncio para que ela saísse correndo.

— Sério? — Ela puxou o vestido ajeitando o sutiã. — Isso me deixa mais molhada.

— Ótimo, porque tenho certeza que ele quer te levar pra cama. — Fingir não me importar, mas me escutar dizendo aquilo fazia meu peito arder.

— Você deveria vir junto. — Ela sugeriu.

— Não, muito obrigado. Sou bem tradicional. — Menti.

— Eu duvido! Essa sua cara de bom moço não me engana!

— Quanta calunia.

Marcos voltou me trazendo uma garrafinha com água. A devorei em poucos instantes e logo achei uma lixeira para depositar o plástico.

Juntei-me novamente a eles.

— Essa mulher é insana. — Ele disse entrelaçando os braços novamente aos meus.

— Por quê?

— Só porque sugeri darmos um beijo triplo. — Ela respondeu por Marcos.

— E o que você acha disso? — Perguntei com o coração palpitando.

— Jamais aconteceria. — O tom da resposta de Marcos foi tão confuso que tive medo de tentar entender.

— Eu não vejo problema nisso. — Ela abriu um sorriso para nós.

— Então vamos! — Ele disse.

Senti meu corpo travar.

Eu não sei se estava disposto fazer aquilo.

MERDA!

É claro que eu não estava disposto. Fora que se a maldita Reitora descobrisse, teria um ótimo motivo para me mandar embora: “Planejar surubas entre alunos e professores.”.

Senti a mão de Marcos puxando nossos rostos para perto do seu, mas quando os três lábios estavam pertos o suficiente ele virou o rosto fazendo com que eu o desse um beijo no rosto.

Rimos.

Na verdade eu queria dar um grito de ódio.

Pedi licença e fui correndo para o banheiro.

Joguei água no rosto e me escondi em uma da cabines. Eu não queria sair dali nunca mais.

Deixe-me sozinho a afogar em tanto caos até que eu morra.

Não sei por quanto tempo fiquei ali jogado pensando em vários abismos sentimentais.

Tudo que eu sentia naquele momento era o vibrar das paredes por conta do som lá fora.

Nem mesmo o cheiro daquele lugar me afetava.

Fui surpreendido com um bater na porta da cabine.

— Está ocupado! — Gritei.

— Antônio, é você? — Não tive dificuldade em reconhecer aquela voz.

— Infelizmente...

— Abre essa merda! — Ele ordenou. — Estou te procurando há horas.

— Por quê? Deveria estar aproveitando a Márcia! Porque não levou ela para um Motel? — Respondi.

— Que diabos você está falando? Está com ciúmes? DROGA. — Houve um silêncio. — Só abre essa cabine logo e vamos embora, ok?

Respirei fundo e abri.

Eu não estava bêbado, mas tinha dificuldade com os sentidos.

— Oh merda! Você parece horrível. — Ele me ajudou a levantar. — Você está passando mal?

— Não, só preciso de um pouco de... — tive dificuldade pra lembrar a palavra. — água.

— Sei... — Marcos deu um riso de nervosismo.

Ele me arrastou pela pista de dança até a saída.

Assim que colocamos o pé lá fora demos de cara uma chuva repentina de verão. Eu senti vontade de me molhar e assim fiz e não me contive em usar toda força concentrada no diafragma para dar um berro.

— Que diabos você está fazendo? — Ele perguntou. — Volte pra cá!

Olhei para a marquise onde ele estava escondido e dei de ombros.

— Mas ai não tem nenhuma graça. — Disse rodando enquanto sentia a água gelada tocar cada parte do meu corpo.

Marcos correu em minha direção e enfiou a mão em meu bolso tirando a chave do carro. Depois disso, me arrastou até a porta do carona e me ajudou a sentar. Quando já estávamos os dois sentados, ele ficou vermelho. Eu não tinha certeza do porque, mas com certeza era raiva.

— Me fala onde você mora para eu te levar embora.

— Eu não vou deixar você dirigir meu carro bêbado.

— Com certeza estou com mais insanidade a que você.

— Duvido muito.

— Eu não consigo entender o que aconteceu com você. — Ele passou a mão na testa para limpar uma gota da chuva que escorria e aproveitou para ajeitar o cabelo. — Esse tempo que você sumiu, você estava, sei lá, usando algum tipo de droga?

— Minha vida já é uma merda o suficiente, não preciso disso.

— Então me explica o que aconteceu.

— Nada. Só fiquei triste e quis desaparecer. — Posso?

— Pode. — Ele disse balançando a cabeça negativamente. — Vai me falar onde você mora pra eu te deixar em casa ou vamos ficar aqui dentro do carro até que você melhore?

— Mas e depois, como você iria pra casa?

— De táxi.

— Não, eu não permitirei isso. — Me acomodei deitando o banco. — Posso até deixar você dirigir, mas você não voltará pra casa de táxi.

— Volto a pé já que esse é o problema.

— Você vai dormir lá em casa.

— Não quero te incomodar.

— Tem quarto sobrando, não te preocupa.

Ele assentiu e acelerou o carro.

Enquanto dirigia, Marcos puxava mil e um assuntos. Acho que ele estava preocupado com que eu acabasse dormindo, entrando em como e ele se culpasse pelo resto da vida.

Não demorou muito e estávamos dentro do apartamento.

Fomos para o meu quarto e lhe entreguei toalhas novas. Falei para ele se sentir a vontade e que qualquer coisa eu estaria na cama.

Ele demonstrou um pouco de resistência falando que não precisava daquilo, pois no outro dia ao chegar em casa se banhava, mas insisti.

Tirei minha roupa e me sequei. Fiquei sem camisa e coloquei uma calça de moletom escura sem me dar o trabalho de vestir uma cueca. Enquanto ele se refrescava, peguei uma camisa de algodão cinza que provavelmente serviria em seu corpo naturalmente musculoso e o chamei.

— Marcos, já acabou?

— Sim. — Ele abriu a porta do quarto enrolado na toalha.

— Toma essa camisa, deve servir em você. — Entreguei a blusa e ele agradeceu com um sorriso lindo. — Sinta-se a vontade pra usar o desodorante sobre o balcão e tem escovas de dente nova na segunda gaveta.

— Obrigado por tudo. — Ele se voltou para dentro do banheiro encostando a porta.

— Ah, tenho cuecas novas. Estão fechadas, vou pegar uma pra você.

— Não! — Ele gritou. — Isso realmente não é necessário, já até vesti as minhas, olha pro cê vê.

Ele abriu a porta deixando a mostra suas penas brancas e lisas.

Tive que me segurar para não olhar para baixo em direção a suas partes.

Mesmo com o cheiro do sabonete líquido, eu ainda conseguia sentir o maldito cheiro do seu perfume que me fazia delirar. Aquele cheiro mais a cueca branca e a camisa cinza que ele vestia me obrigou a sentar e colocar um travesseiro no colo.

Enquanto ele escovava os dentes, fui até o quarto de hospedes e ajeitei as coisas.

O encaminhei até o cômodo e perguntei se ele queria comer ou beber algo antes de se acamar, mas ele negara afirmando estar satisfeito.

Não insisti.

Já estava prestes a guiar meu corpo para fora daquele quarto quando ele me surpreendeu mais uma vez naquela noite.

Ele me abraçou tão junto de seu corpo que jurei que pude sentir nossos sexos se encostarem.

— Boa noite cara! — Ele me deu um beijo no rosto.

— Boa noite.

Afastei-me e saí correndo antes que ele pudesse perceber a minha ereção.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Deixe um comentário me contando o que ta achando de Antônio tentando se esquivar deste sentimento que está o laçando cada vez mais! Até o próximo capítulo gente!