Tetris

11 Pavê de chocolate branco.


Depois daquela conversa, me toquei que havia deixado meu carro na rua, parado algumas quadras acima da Tetris. Eu não sabia se eles dirigiam, mas, mesmo se fossem habilitados, estávamos todos bêbados, não ia dar certo.

Me despedi dos dois e saí do apartamento. Peguei o metrô até a Tetris. Confesso que fiquei um pouco preocupado com meu carro, afinal, ele estava na rua há umas dez horas.

Para meu alívio, ele estava no mesmo lugar onde deixei, sem nenhum arranhão a mais. Entrei nele e voltei para casa mais tranquilo.

Cheguei em casa umas duas da tarde. Liguei para o meu chefe e me desculpei pela falta. Disse que havia passado a madrugada toda com vômito e diarreia. Dramático!

Eu estava tão feliz por ter ido à Tetris, dançado muito, beijado muito, bebido muito que estava me sentindo inspirado. Eu estava elétrico e não tinha o que fazer. Por isso, comecei a arrumar a casa.

Lavei louça, limpei a pia, limpei fogão, passei pano nos armários, passei pano na mesa, pano na estante, pano na televisão, aspirei o tapete, aspirei o sofá, troquei as roupas de cama, coloquei os travesseiros pra lavar, tirei pó da estante, varri a casa, passei pano na casa, lavei o banheiro...

Ufa! Quando terminei eram quatro e meia da tarde. A casa estava impecavelmente limpa, mas eu ainda estava animado com a noite passada.

No grupo do whatsapp, os meninos estavam comentando sobre mim e como soltei a franga. Eu interagia com eles e nós quatro ríamos lembrando os acontecimentos da Tetris.

Fiquei sem o que fazer. Comecei a jogar videogame. Cansei. Comecei a ver série. Cansei. Comecei a ler quadrinhos. Cansei. Comecei a ler um livro. Cansei. Comecei a ver um filme. Cansei.

Eu queria fazer tudo ao mesmo tempo, de tao grande que era minha euforia. Pensei em sair para algum lugar, mas fiquei com medo de isso despertar meu lado carente (por estar saindo sozinho) e acabar com aquele bom astral.

Deitei no sofá e fiquei ali, relaxando, feliz com a vida. Feliz por ter dado o primeiro passo em direção a uma nova vida. Uma vida em que aniversários solitários não teriam espaço. Uma vida em que eu me sentiria importante para alguém. Uma vida em que eu me divertiria muito na balada e não ficaria com a sensação de que o tempo estava passando sem eu aproveitar nada.

Comecei a pensar como, em apenas uma noite, minha vida havia mudado. Se me perguntassem horas antes, enquanto eu estava na fila, eu diria que jamais iria beber, dançar ou pegar alguém. Mal me reconheci. Mas adorei.

Lembrei da Zuzu dançando, cantando e agitando a galera. Ela devia ter anos de prática pra fazer aquilo com tanta perfeição.

Lembrei dos drinks que me deram. Era engraçado pensar que no começo eu odiei aquele negócio com gosto de cimento, mas que depois eu estava me acabando de tanto beber.

Lembrei da iluminação incrível que a Tetris tinha. O jogo de luzas e escolha de cores foi brilhante! Deixava o ambiente misterioso e, ao mesmo tempo, revelador. Não sei explicar muito bem, mas era uma sensação única.

Lembrei de todas as pessoas que vi. A grande diversidade da comunidade LGBT reunida em um só lugar. Era bonito ver que as pessoas ali não tinham medo de se expressar e ir contra certos paradigmas populares que a sociedade impõe.

Lembrei dos meninos mais novos se beijando. Na primeira vez que tentei ir à Tetris, me senti mal por ver aqueles garotos cheios de autoestima. Mas, desta vez, fiquei feliz ao ver que a nova geração de viados podia exercer sua bichisse mais cedo, sem (tanto) medo.

Lembrei dos caras que eu peguei. Do primeiro, que era maravilhoso em todos os sentidos. Nunca vou conseguir agradecer o Dani o suficiente por ter me ajudado! Lembrei de todos os outros. Do mais novo ao mais velho, do mais safado ao mais reservado, do mais gostoso ao mais feinho, do mais sério ao mais doidão...

Comecei a pensar neles um por um e como era bom a sensação de se sentir gostoso e desejado. Sentir a mão deles apertando meu corpo, a respiração deles no meu rosto, o cheiro deles me envolvendo, a língua deles em mim, a textura do cabelo deles nas minhas mãos...

Com estes pensamentos, percebi que algo na região sul começou a se manifestar. Quanto mais eu pensava em como era bom beijar um cara, mais o meu amigo crescia e ganhava força. Aumentava com cada pensamento safado que eu tinha.

Eu estava sozinho, com a consciência limpa, numa sexta-feira à tarde. Eu não teria nenhum compromisso, não estava preocupado com nada. Estava feliz, havia beijado um cara pela primeira vez naquela noite e meu pau estava duro.

Não precisei pensar muito. Apenas deixei meu desejo conduzir minhas ações.

Deslizei a mão pelo peito, pela barriga, até chegar na calça. Tirei o cinto e abri o zíper. Meu pau estava duro como na noite passada enquanto eu beijava todos aqueles caras.

Comecei a me tocar enquanto pensava neles. Fechei os olhos e deixei a imaginação rolar solta...

Tirei a camisa e passei a mão na barriga, no peito, nos mamilos, no pescoço, no ombro, na costela... Enquanto isso, a outra mão estimulava o colega lá de baixo.

Como eu disse, eu nunca havia ficado tão excitado daquela maneira na minha vida. Parecia que meu pinto ia explodir. Por causa disso, não demorou para que eu chegasse ao clímax. Apertei os olhos e esqueci que os problemas existiam enquanto todo aquele desejo que estava enrustido em mim há anos era jorrado sobre o meu corpo.

Nossa! Eu nunca havia gozado assim na minha vida! Foi um dos melhores orgasmos que já tive. Não só por ter sido fruto de vários homens gostosos que eu peguei, mas também por ser um grito de liberdade sexual. Uma manifestação que afirmava "Sim, sou viado e gosto de pica" para toda a repressão heteronormativa que eu já havia sofrido durante toda minha vida.

O problema de se masturbar é o que vem depois. Droga. Fica uma melequeira. Gozo é muito chato de limpar! Fui mais prático: tomei um banho. Já limpava a evidência do prazer e também me relaxava um pouco.

Quando saí, vi que os meninos estavam loucos no whatsapp me chamando. Abri o aplicativo e li as conversas anteriores. Eles combinavam de irem todos dormir no apartamento do Léo naquela noite. Sim, estavam me convidando.

Não acreditei quando li aquilo. Eu estava no meu quarto. Olhei para a cama e pensei na noite do meu aniversário. Naquele mesmo local eu havia chorado por ser sozinho. Algumas semanas depois, no mesmo lugar, eu estava sendo convidado para ir dormir junto com amigos!

A sensação de que você é quem faz a própria felicidade só aumentou. Fiquei mais satisfeito anida comigo mesmo por ter tido a atitude de ir à Tetris naquela primeira vez. Era engraçado pensar que nada disso estaria acontecendo se eu não tivesse ido para lá!

Obviamente eu aceitei. Eu não tinha planos para o sábado e com certeza seria melhor ficar na companhia deles do que jogando videogame sozinho em casa.

Combinamos de nos encontrar lá às oito da noite. O Léo disse que ia preparar alguma coisa legal como jantar para nos receber. Foi aí que tive uma ideia que iria me arranjar o que fazer naquela tarde e também mostrar minha gratidão por eles terem sido tão legais comigo.

Pesquisei na internet alguma receita de sobremesa que eu conseguisse fazer. Geralmente eu fazia minhas refeições sozinho, então minha sobremesa era sempre algum sorvete ou chocolate que eu comprava no mercado. Nunca tive um grupo de amigos pra fazer uma sobremesa caseira para eles.

Até agora!

Encontrei uma receita perfeita, muito fácil e que parecia ser deliciosa: pavê de chocolate branco. A foto do site estava bonita e não eram necessários muitos ingredientes. Apenas creme de leite, chocolate, leite e bolacha de maisena.

Corri num mini-mercado que eu conhecia lá perto de casa e comprei a bolacha, o chocolate e o creme de leite. O leite era o único ingrediente que eu já tinha!!!

Segui as instruções do site e, quando era, mais ou menos, umas seis horas, coloquei na geladeira. Agora era só gelar para eu levar para os meninos!

Neste tempo, peguei uma camiseta antiga e uma calça de moleton para dormir. Peguei também a escova de dentes e um par de chinelos. Coloquei tudo numa mochilinha. Eu estava me sentindo uma criança que ira dormir na casa do amigo pela primeira vez!

Saí de casa sete e meia com minha mochilinha e o pavê. Cheguei lá no apartamento do Léo e os outros três já estavam lá!

– O que é isso?! — Perguntou o Dani, olhando o pavê por vários ângulos diferentes.

– É um pavê de chocolate branco que eu fiz para nós!

– MANO, EU AMO CHOCOLATE BRANCO!!!! — O Léo surtou.

Guardamos a sobremesa na geladeira e, em pouco tempo, estávamos naquela mesa de madeira comendo uma lasanha deliciosa! O Léo cozinhava muito bem!

O Henrique estava contando alguma coisa que aconteceu na aula dele naquele dia. Eu não entendi direito. Não sei se era por não conhecer as pessoas que ele estava citando ou por estar tão animado que eu não parava de pensar naquela cena.

Numa sexta à noite eu estava jantando na casa de um amigo com outros amigos para depois comermos uma sobremesa que eu fiz e, mais tarde, dormirmos ali. Era algo que, há algumas semanas atrás, eu JAMAIS imaginaria que fosse acontecer na minha vida.

Eu não sou nenhum talento na cozinha, mas sei seguir uma receita fielmente. O resultado disso foi um pavê perfeito que fez todos ali morrerem de amor por mim.

Estávamos cada um com uma xícara na mão, comendo o doce que fiz, até que apareceu, em algum filme na Tv, o George Clooney.

– Olha seu amor aí, Léo! — O Henrique falou.

– LINDO! — O Léo disse, ao ver o ator.

– O Léo pira no George Clooney. — O Dani disse para mim.

– E quem não?! — O Léo perguntou.

– Eu! — O Henrique respondeu.

– Ah, mas você não conta! — O Léo disse. — Você só pega Barbie!

– Melhor que ficar pegando velho, igual vocês! — O Henrique retrucou.

– Não é velho! — O Vitor falou. Todos olharam para ele e ele completou: — É maduro!

Todos nós rimos com aquela explicação sem nexo. Quando as risadas estavam terminando, o Léo perguntou pra mim:

– Vai falar que você não acha ele um gato?

– Quem? — Perguntei. — George Clooney?

– Claro.

– Não! — Respondi.

– COMO NÃO?! — O Léo indignou-se.

– Sei lá, não me atrai.

– Que famoso você acha bonito?

– Não sei... Nunca pensei nisso...

– Ah tá! Me engana que eu gosto! — O Dani falou. — Vai dizer que nunca assistiu um filme e gostou do mocinho?

– Bem... Nunca pensei dessa forma, mas acho que... Gerard Butler.

– Afe! — O Léo exclamou, na mesma hora.

– Aí sim, hein! — O Vitor concordou.

– Uau! Não sabia que você curtia um urso! — Dani comentou.

– Curtia o quê? — Perguntei.

– Cara, há quanto tempo você é gay? Dois dias? — O Henrique ironizou.

– Por que?

– Como assim não sabe o que é "urso"?

Sem que eu pudesse responder, o Vitor perguntou:

– Você já sabe o que é "gouine"?

– Bem... Não... — Respondi com um pouco de vergonha.

– Coitado gente, não pressionem ele. — O Léo pediu. — JÁ SEI!!! Rafa, amanhã você tem algum compromisso?

– Não, não tenho.

– AGORA TEM! Vamos fazer alguma coisa juntos, nós quatro. Aí passamos o dia todo te dando umas "aulinhas"!!!

– "Aulinhas"? — Questionei.

– Sim! — O Dani respondeu. — Vamos te ensinar o que você precisa saber sobre o mundo gay!

– A gente pode ir ao cinema! — O Henrique sugeriu.

– PERFEITO! — O Léo disse. — A gente sai pra comer no shopping depois vemos algum filme!

– Se prepare, senhor! — O Dani falou comigo. — Amanhã você vai ter um intensivão de "como ser gay"!!!

Notas finais
Oi, fofuras!!! Sei que tenho que explicar esta ausência de uma semana! Eu estou realmente atarefada e esta semana foi insana! Mas é óbvio que eu não ia me esquecer de ter um horário para escrever para vocês, lindos! O problema é que nos dois dias em que eu podia escrever, aconteceram imprevistos que me impediram de fazê-lo. Na segunda-feira, eu estava pronta para escrever o capítulo quando tocaram a campainha de casa. Era uma tia minha que não me via há uns cinco anos. Ela veio de Curitiba e está passando o mês aqui em São Paulo. Era do tipo de visita que eu não podia deixar de ver. Não ia dar pra ficar escrevendo com ela ali :/ Na quarta-feira eu também poderia escrever. Até comecei a escrever o capítulo. Mas começou a chover bem forte aqui em casa e, de repente, TUM! Acabou a energia. JUROOOO!!! Ficamos três horas seguidas sem energia. Como já eram umas nove da noite, fui dormir, porque não tinha o que fazer :/ (Não tenho notebook, escrevo num computador normal que precisa de energia). Enfim, peço mil desculpas a todos vocês. Não queria que isso acontecesse e vou me programar melhor para que não se repita! Porém, nesse tempo em que fiquei "parada", não deixei de pensar na história. Na sexta-feira, no trabalho, fiz um storyline da fic. Para quem não sabe, "storyline" é uma sequência de acontecimentos que o autor planeja para uma obra. São os fatos mais importantes que vão acontecer numa história até o final, mas nada muito detalhado. Por exemplo, o storyline da fic até este capítulo seria "Rafa se sente sozinho e quer amigos. Ele tenta fazer amigos no trabalho, mas não consegue. Resolve ir numa balada gay. Lá, conhece quatro garotos que o convidam para ir na balada em outro dia. Rafa vai com estes garotos na balada, solta a franga e vira amigo dos garotos. Naquela noite, os garotos o convidam para ir dormirem juntos". Algo assim, entende? Isto quer dizer que eu já planejei todos os principais acontecimentos da história até o final. Mas, Stefani, quer dizer que você já sabe exatamente como vai ser a história e como vai ser o final? NÃO! Ué? Como assim, se você já fez o storyline todo? Bem, queridos, o storyline é para me ajudar a saber para onde devo encaminhar a história. Porém, como já disse um bilhão de vezes, esta fic é feita PARA VOCÊS!!! Vocês são o chefe, eu sou a empregada. Isto quer dizer que O STORYLINE NÃO É ABSOLUTO, ou seja, pode ser alterado. Por isso, é ESSENCIAL para mim que vocês me deem um feedback sobre a história, me digam o que estão gostando e o que não estão gostando, me falem suas impressões sobre os personagens, me digam suas expectativas e o que gostariam que acontecesse. Sejam bem sinceros, sem medo de ofender ou criticar! Só assim posso moldar o storyline de forma a proporcionar uma fic excelente para vocês! Espero que estejam gostando da história e da trajetória do Rafa até agora! Beijos mil!!!