Tetris

3 Onde é que eu estou errando?


Cheguei no trabalho forçando o maior sorriso no rosto que alguém poderia ter. Como de costume, cumprimentei todo mundo que encontrei do caminho da entrada até minha mesa. Mas, desta vez, eu eu balançava a cabeça com mais vontade e olhava no fundo dos olhos de cada pessoa, da faxineira ao meu chefe.

Sentei-me e comecei a trabalhar no flyer que eu estava desenvolvendo. Enquanto fazia meu dever, fiquei observando as pessoas em volta. Era uma agência pequena, então era tudo num andar só. Só haviam paredes na sala do chefe e nos banheiros. O resto eram apenas divisórias feitas em madeira MDF.

Depois de um tempo, fui até a mesinha de café. Enchi um copinho descartável e fui andando entre as divisões. Parei em frente à mesa da Laura. Ela apenas levantou os olhos quando falei:

– Quem são aquelas?

Me referia às garotas que estavam com ela em uma foto, na mesa.

– Minhas irmãs.

Ela respondeu voltando o olhar para a tela do computador. Continuou digitando freneticamente enquanto eu, parado, procurava uma forma de continuar aquela conversa. Eu não sabia nada sobre ela ou as irmãs dela, o que eu iria dizer?

– Você precisa de alguma coisa?

Ela perguntou antes que eu pensasse em algo para dizer.

– Não, imagina. Só estou dando um tempo, sabe... Descansando a vista...

"Descansando a vista"? Que droga! Isso foi o melhor que eu pude dizer?

– Bem... E... Qual o nome da suas irmãs?

– Larissa e Luana.

– Hum, interessante...

Silêncio novamente. Eu era péssimo em conversas. O que mais eu falaria? Perguntar a idade das irmãs? Não isso não seria muito educado. Perguntar onde elas estavam quando a foto foi tirada? Não, isso não tinha nada a ver.

Quando eu finalmente percebi que o nome das três começavam com "L", Laura se levantou, dizendo:

– Com licença.

Ela recolheu uns papeis e saiu de sua mesa. Foi até a máquina de xerox.

Droga. Uma tentativa perdida. Eu não iria segui-la até a máquina, isso seria estranho. Mas meu café ainda estava no copinho. É, eu estava tomando goles bem, beeeem pequenos.

Fui até a mesa do Carlos. Ele era um gordão de uns cinquenta anos que já tinha quatro filhos. Era tudo o que eu sabia sobre ele. E era sobre isso mesmo o que eu ia falar:

– E aí, Carlos? Como está sua família?

– Estamos bem, obrigado.

Ele respondeu sem tirar os olhos da tela do computador.

– Bem... E seus filhos... Como está o mais velho? Lucas, né?

– Leo.

Merda!

– Ele está bem. Eu acho. Está com uma namoradinha nova.

Só então ele olhou para mim e continuou:

– Tenho que ficar de olho pra não deixar os dois sozinhos. Se não, você já sabe, né!

Ele deu uma risadinha e voltou a encarar o monitor.

Eu não soube o que responder. Eu não tinha intimidade com ele para falar sobre sexo, muito menos sobre sexo do filho dele! Aquilo não iria dar certo. Achei melhor mandar um "que bom, depois a gente se fala", dar meia volta e ir até minha mesa.

Haviam vinte e sete funcionários na agência. Eu me sentava numa mesa no canto do andar, então ficava longe de quase todo mundo. Me conformei que andar entre as mesas puxando papo não era, de fato, o melhor jeito de me aproximar das pessoas.

Esperei até o horário do almoço. O prédio ficava numa região comercial e a agência era só naquele andar, então nós comíamos fora. Eu sempre saía mas cedo, onze e meia ou meio-dia para não pegar fila nos lugares. Como eu fazia peças gráficas, era mais fácil controlar meus horários.

Decidi fazer diferente naquele dia. Eu iria esperar até a uma da tarde e ir almoçar com alguém. Nem que fosse o cara mais desconhecido dali. Não iriam recusar que eu fosse almoçar com eles. Eles não eram meus amigos mas também não me odiavam.

Quando deu a hora, fiquei de ouvidos atentos. Comecei a ouvir uns "vamos lá?", "pronto?" e então soube que era minha deixa. Salvei meus projetos, me levantei como quem não queria nada, bloqueei o computador e fui passando entre os corredores formados pelas divisórias de MDF.

– Paulo, Carlos! Vocês estão indo almoçar?

Perguntei para os dois homens que estavam de pé, perto da porta do elevador.

– Sim, estamos.

O Paulo respondeu.

– Você não foi mais cedo hoje?

O Carlos perguntou.

– Me atrasei com alguns projetos, estou indo agora também. Tudo bem se eu me juntar a vocês?

Por um momento, eles hesitaram. Notei uma troca de olhares que durou milésimos de segundos. Não sabia exatamente o que aquilo significava.

– Claro, por que não?

O Carlos respondeu, fingindo que aqueles segundos se hesitação nunca existiram.

– Só estamos esperando o Fábio.

– Ah sim...

Foi tudo o que consegui responder. Minha baixa auto-estima já começou a gritar, dizendo que eles não queriam que eu fosse, que eles não gostavam de mim e tudo mais.

Mas eu sabia que era coisa da minha cabeça. Eles devem ter hesitado porque acharam estranho. Eu nunca almoçava com eles. Era só isso...

Era só isso.

Logo o Fábio apareceu, correndo para não perder tempo de almoço. Descemos pelo elevador e fomos até o Dona Santa, um restaurante de comida caseira ali perto.

Pegamos nossos pratos e nos sentamos na varanda do estabelecimento. Era um cercado que ficava na calçada, fora do prédio onde haviam mais mesas e as panelas com as refeições.

A avenida era bem movimentada. Enquanto almoçávamos, víamos carros, motos e ônibus correndo de um lado para o outro. Uma barulheira só. Mas já estávamos acostumados com aquilo.

Os pedestres pareciam foguetes na calçada. Passavam desviando-se uns dos outros numa velocidade desumana. A hora do almoço é a hora que as pessoas têm para fazer qualquer coisa que queiram durante o expediente. Metade daqueles maratonistas de calçada não almoçava. Muitos iam em lojas, iam buscar documentos, iam em bancos e nos mais diversos locais. Depois comiam um lanche no elevador e voltavam a trabalhar.

O Carlos, o Fábio e o Paulo começaram a olhar o pessoal que transitava pela calçada. Ok, não exatamente todo mundo. Apenas as mulheres. Até torciam o pescoço quando uma moça de vestido mais justo passava perto. Votavam a cabeça com aquele sorriso dos meninos que caçavam as meninas na escola.

Não demorou para que começassem a falar de mulheres. Logo o assunto evoluiu para o clássico "qual famosa você comeria?". O papo foi de Flávia Alessandra à Nicole Kidman. E eu fiquei comendo, uma garfada atrás da outra, só ouvindo a conversa.

Eles estavam se divertindo ali. Olhando mulheres que andavam na rua, sonhando com mulheres que dançavam nos sonhos.

Eu não conseguia me sentir mais excluído, óbvio. O que era um gay no meio de três homens de meia idade falando de mulheres na rua? Tentei mudar de assunto e falei sobre a comida do lugar. Em três frases voltaram à discussão "Beyoncé versus Megan Fox".

É, não ia rolar. Não ali naquela mesa. Não ali naquele lugar. Não ali naquele momento.

Voltei quieto para minha mesa. A tentativa do almoço havia sido em vão. Eu ainda poderia tentar conversar com alguém em frente à mesinha do café, quando fizesse uma nova pausa.

Mas então percebi que eu não estava motivado. Se tivesse a oportunidade, não iria falar com ninguém. Parei o que estava fazendo. Olhei para o teto. Uma lâmpada fluorescente piscava um pouco.

Eu já trabalhava ali há dois anos. Já conhecia todo mundo. Já havia conversado com eles antes. Se alguém ali tivesse algo em comum comigo, nós já seríamos amigos.

Porém, as conversas nunca fluíam. Por ser uma agência de publicidade, haviam muitas mentes criativas e pessoas comunicativas ali. Bem, eu me encaixava apenas no primeiro grupo.

Eles falavam sobre futebol, mulheres, churrasco, reforma da casa, vacina do cachorro, viagem com a família e mas um monte de assuntos pelos quais eu não me interessava de verdade. Será que meu problema era esse? Eu só gostava de assuntos chatos?

Eu curtia HQs de super-heróis. Batman, X-Men, Arqueiro Verde, Demolidor... Gostava de games, dos mais infantis como Minecraft aos mais hardcore como GTA V. Assistia Game Of Thrones, The Walking Dead, American Horror Story, Breaking Bad e outras séries assim...

Mas o pessoal ali era diferente.

Não era culpa deles. Não era culpa minha. Era simplesmente um desencontro de interesses.

Fui embora pensativo naquele dia. Não triste, não magoado, não feliz. Apenas pensativo.

Era irônico ver todas as pessoas na rua com seus amigos. Jovens de dezesseis anos com namorados, crianças de quatro anos com melhores amigos. Parecia que para os outros era ão fácil. Como se a amizade perfeita caísse no colo deles.

Ninguém ficava "procurando amigos". Quando faziam isso era porque queriam ser amigo de alguém por status. Mas o que eu queria era uma amizade de verdade. Dessas de conhecer alguém e ir se aproximando naturalmente, se forçar nada, sem perguntar nome de irmã ou vida da família. Dessas que faz falta quando você não vê por uma semana. Dessa que você pode ligar às quatro da manhã de uma terça-feira quando está triste porque sabe que ele vai te ouvir.

Eu não queria forçar nada. Não queria que ninguém fosse meu amigo por pena e também não queria ser falso só para ter amigos. Sei que, da maneira como falo, parece só uma desculpa para esperar uma amizade "cair do céu" e culpar qualquer outra coisa no mundo ao invés de mim. Mas não é isso. É que para os outros parece tão fácil... Onde é que eu estou errando?

Saí do meu carro no estacionamento do condomínio onde eu morava e fui para o hall de entrada do prédio. Enquanto eu esperava o elevador descer, ouvi dois meninos que brincavam ali. Eram umas seis e pouco da tarde, ainda estava claro.
As risadas deles me chamaram atenção. Tão novos e já eram amigos. Provavelmente iriam ser amigos a vida toda. Um colocava a mão, em forma de concha, na frente do ouvido do outro. Cochichava algum segredo e os dois caíam na gargalhada. Totalmente felizes no mundinho deles...

Sim, me julgue. Eu estava com inveja daquilo!

Seria tão bom se eu tivesse um amigo assim, com quem eu pudesse compartilhar meus interesses e mágoas.

Fiquei observando os garotos. Quando o elevador chegou ao piso térreo, abri a porta e olhei os garotos pela última vez. Eles estavam olhando para mim e abaixando a mão, com o antebraço levantado. Ao perceberem que eu os vi, começaram a rir e saíram correndo.

Não acreditei naquilo. Só entendi quando vi o gesto. Os garotos estavam zombando de mim por eu ser gay!

Notas finais
O que estão achando? Eu quero saber, hein! Beijinhos!!!