Tetris

15 Assunto de família.


– Bem, minha história é um pouco diferente.

Falou o Henrique. Ele estava do meu lado. Todos olhamos para ele e ele começou a contar:

Meus pais nunca demonstraram o que pensavam sobre homossexuais. Não falavam nada, nem bem, nem mal.

Eles eram os melhores pais do mundo. Sempre apoiavam a mim, ao Edu e à Sarah, meu irmãos mais novos. Não importa se queríamos começar aula de judô, balé, desenho, basquete, italiano ou capoeira. Eles nos apoiavam e nos colocavam nessas aulas, mesmo sabendo que, provavelmente, iríamos desistir no mês seguinte.

Eu mesmo já fiz várias atividades só por um mês. Já fiz aula de violão e, por isso, tenho um violão novinho. Já fiz um curso de fotografia e, por isso, tenho uma câmera semi-profissional. Já estudei pintura e, por isso, tenho um cavalete e algumas tintas à óleo. E vários pinceis, também.

Eles não eram burros, não apostavam na gente sabendo que seria um gasto "em vão" só porque queriam. Eles sabiam que apoiar os filhos, seja qual fosse a ideia deles, ajuda na autoestima e autoconfiança da criança.

Por causa disso, por sempre me apoiarem, por sempre ter o amor de toda a minha família, eu fui uma criança super tranquila. Tinha meus amigos na escola, estava sempre feliz e sorrindo. Minha autoestima sempre foi equilibrada.

Assim que comecei a entrar na puberdade, começaram os desejos sexuais. Automaticamente, começou a ficar óbvio — para todo mundo — que eu era gay. Como eu tinha a autoconfiança lá em cima, não tive problema com isso.

Quando os garotos começaram a rir de mim e me perguntaram "Cara, você é viado?", eu simplesmente disse "sou". Eu não me ofendia com aquelas risadas e, tendo me assumido para todo mundo tão cedo fez com que o ato de me zoar não tivesse graça. Assim, não sofri bullying na escola.

O que aconteceu foi que eu me distanciei dos meus amigos meninos héteros e comecei a andar mais com as meninas. Mas não foi uma rejeição por preconceito, mas sim porque os interesses mudaram mesmo.

Em casa, eu falei numa tarde de domingo, quando fomos num parque de diversões. Nós vimos um homem ajudando sua esposa grávida de uns oito meses a sair de um carro. Meu pai falou algo como "Viu, Henrique? Quando você tiver uma esposa, tem que cuidar muito bem dela e do seu filho!".

Sem pensar muito, respondi, com naturalidade: "Mas eu não vou ter uma esposa, vou ter um marido.". Talvez eu fosse muito novo na época — tinha treze anos — para entender que, na sociedade, ser gay era algo "terrível". Mas, como disse, meus pais nunca haviam falado mal disso e sempre nos apoiavam. A resposta que recebi foi da minha mãe, que falou: "Mesmo assim, tem que cuidar muito bem dele!".

Geralmente os gays lembram da vez em que se assumiram detalhadamente, porque foi uma experiência cheia de medo, ansiedade e outras emoções. Para mim, foi tão tranquilo que não me lembro exatamente como foi. Mas foi algo assim.

Nos anos seguintes, foi tudo bem natural. Todos da minha família e da escola sabiam de mim e não tinham problema com isso. Aquela autoestima que eu sempre tive continuou intacta e minha vida seguiu tranquila.

Isso me permitiu conhecer um primeiro namorado aos quinze anos. Só com dezesseis tive coragem de apresentá-lo aos meus pais. Foi bem normal e gostaram dele. Um ano depois nós terminamos hahaha!

Nunca mais namorei depois, mas conheci esses meninos e, desde então, tenho os melhores amigos do mundo! E sei que você já está entrando nessa lista também!

O Henrique era tão engraçadinho. Ele era japonês e usava óculos com a armação quadradinha. Ele também estava sorrindo ao final de sua história.

Que bom que nem todos ali sofreram como eu e o Léo. Isso mostra o quanto o apoio da família ajuda na aceitação da criança.

– É, pra mim também foi de boa.

O Vitor comentou, chamando a atenção de todos. Ele começou a contar logo em seguida:

Na verdade, nem sei se posso considerar que foi de boa.

Eu sou de uma família grande. Cresci com meus pais, minha avó, uma tia, quatro irmãos e dois primos mais novos. Era uma casa bem cheia.

Um dos meus primos era dois meses mais velho que eu. Ou seja, tínhamos quase a mesma idade. Todo o resto da molecada era mais novo, sendo que o menor, meu irmão, é nove anos mais novo que eu.

Nós não éramos tão... Bem de vida, vamos dizer assim. Meu pai ganhava um salário legal, mas só ele trazia dinheiro para casa, então ficava difícil sustentar onze pessoas.

Minha avó era idosa, não conseguiria trabalhar. Minha mãe não tinha estudos, então não consegui empregos formais. Tentou vender bordados, panos de prato, balas de coco, trufas, empadas... Mas nunca conseguia uma renda boa o suficiente pra ajudar meu pai.

Minha tia era uma folgada. Ela podia trabalhar e ajudar meus pais, mas não queria. Fingia que ia procurar emprego e até conseguia, mas era relaxada e a demitiam em poucos meses. Chegou uma hora que desistimos de contar com ela.

Quem cuidava de nós era minha avó. Meu pai trabalhava o dia todo e minha mãe estava ocupada fazendo e vendendo o produto da vez. Minha tia, como disse, era folgada. Passava o dia todo na rua.

Isso fazia com que minha avó precisasse cuidar de sete crianças. Dar banho, colocar pra dormir, fazer e dar almoço e jantar, arrumar pra ir pra escola... Coitada!

Ela já era velhinha, ficava difícil para ela. Por causa disso, eu e o Paulo, esse meu primo da minha idade, precisamos crescer rápido. Com nove ou dez anos começamos a ajudar minha avó a cuidar das crianças.

Minha avó cuidava dos menores e do bebê (meu irmãozinho que tinha um ano) enquanto eu e o Paulo cuidávamos dos mais velhos.

Colocávamos comida no prato deles, pegávamos os uniformes pra escola e separávamos pra eles, amarrávamos os cadarços deles, colocávamos band-aid quando se machucavam...

Enfim, quando completamos uns treze anos, o Paulo começou a andar com uma galera estranha e, em pouco tempo, já estava roubando coisas de casa para trocar por droga.

Foi ai que minha casa virou uma bagunça. Todo mundo ali sabia que ele estava roubando as coisas de casa, mas minha tia não admitia isso. O filho dela era perfeito e jamais faria aquilo. Isso desencadeou uma briga geral na casa. Meus pais de um lado, acusando o Paulo e minha tia do outro, acusando meus pais de culparem o menino pela nossa situação financeira.

Minha avó, mãe da minha mãe e dessa tia, tentava ficar imparcial. Mas eu já era grandinho e, desde muito cedo, muito maduro. Dava para perceber que minha avó sabia do Paulo e que estava do lado dos meus pais.

Não tínhamos dinheiro para uma clínica de reabilitação e, mesmo se tivéssemos, minha tia não autorizaria. Para ela, o garoto só estava passando por "dificuldades normais da adolescência", mesmo quando ele chegava agressivo e com olhos vermelhos às quatro da manhã. Um garoto de dezesseis anos!

Bem, muita coisa rolou, mas, o que importa aqui é como me assumi. Contei tudo isso porque o que aconteceu foi fundamental para que meus pais "não ligassem" quando falei.

Quando fizemos dezessete anos, eu já havia me descoberto e me aceitado há muito tempo. Mas não era assumido, ainda tinha aquele medinho. Na verdade, eu não tinha intenção nenhuma de contar. Meus planos eram sair dali e falar só depois que eu tivesse minha própria casa e meu próprio namorado.

Porém, nem tudo é como a gente espera.

Me lembro até hoje do dia em que acordei ouvindo vozes na sala. Eram duas da manhã de uma quinta-feira.

Levantei da cama e fui andando com cuidado até a sala. Não podia fazer barulho, pois todos os meus irmãos e meu primo mais novo dormiam no mesmo quatro que eu.

Na sala, estavam minha mãe, minha tia, minha avó e meu pai. Minha tia chorava como se tivesse perdido um filho.

E, de fato, tinha.

Falaram para mim e para as crianças que ele havia pego uma doença sem cura e morreu por causa disso. Mas, naquela noite, eu ouvi o verdadeiro motivo.

Ele havia sido esfaqueado até a morte por causa de uma briga de rua.

No velório, o caixão ficou fechado. Não explicaram o motivo disso para as crianças, mas eu sabia (também ouvi naquela noite) que era porque o rosto estava desfigurado de tanta facada.

Com isso, o clima na casa mudou. Minha tia ficou depressiva. Não saía mais da cama. Meus pais tentavam fingir que estava tudo bem. Minha avó estava triste e não conseguia disfarçar.

Para ajudar, meu pai foi demitido do emprego. Estavam cortando gastos e, como ela não era um empregado "importante" (ou seja, insubstituível), foi tirado rapidinho.

Ele e minha mãe começaram a procurar emprego igual doidos. Quando minha mãe veio pedir que eu ajudasse eles, eu já estava procurando também. Comecei a trabalhar como repositor de estoque de um mini-mercado que havia ali perto.

Aquela foi a época mais cansativa da minha vida. Ajudava com os pequenos, trabalhava de manhã, almoçava marmita gelada, trabalhava à tarde, comia um salgado, ia para a escola de ônibus, fingia que estudava alguma coisa, voltava para casa, de ônibus, e chegava quase meia-noite, para ir tomar um banho voando, jantar num piscar de olhos e cair na cama para dormir cinco horas por noite.

Eu estava ficando magro por comer mal, cansado e com olheiras por dormir mal e não conseguia mais prestar atenção em nada. Troquei coisas de lugar no mini-mercado várias vezes. A dona só não me demitia porque conhecia minha família e nossa situação.

No meio do último ano da escola, eu estava um lixo. Minha família sobrevivendo do meu — minúsculo — salário de repositor e das vendas que minha mãe conseguia fazer, quando tinha alguma sorte.

Meu pai não arrumava emprego, minha tia ficava jogada na cama, minha avó precisava cada vez mais de remédios, as crianças não entendiam por que não comprávamos o video-game mais moderno pra elas, minhas notas indo de mal à pior...

Foi quando eu conheci o César, meu primeiro namorado. Ele era um cara que passava no mercado às vezes. Depois descobri que os pais dele moravam ali no bairro.

Eu já havia percebido que ele não morava ali. Era um bairro meio pobre e ele se vestia bem. Definitivamente, não era dali.

Ele tinha vinte e nove anos quando nos conhecemos. Ele começou a aparecer no mercado cada vez mais e sempre ficava um bom tempo conversando comigo sobre qualquer assunto.

Como eu disse, foi o período mais cansativo da minha vida. Tudo aquilo acontecendo, eu estava um lixo e, de repente, apareceu uma luz no fim do túnel. Caí nos braços dele como se fosse meu único refúgio.

E era.

Namorar aumentou minha autoestima e, com isso, passei a me alimentar melhor. Minhas notas aumentaram e comecei a me arrumar mais. Antes eu andava parecendo um mendigo.

Ter conhecido ele foi uma bênção. Ele era advogado. Me incentivou a estudar e fazer faculdade. Eu nem SONHAVA com isso antes. Mas ele me mostrou que era o melhor caminho se eu melhorar a condição da minha família.

Depois do terceiro ano comecei a trabalhar numa loja num shopping. Era bem longe de casa, mas pagava mais. Pagava o suficiente para eu frequentar um cursinho pré-vestibular à noite. Não era um dos melhores, mas, para quem nunca teve um ensino excelente, era perfeito.

Passava os finais de semana estudando loucamente. Nessa época, meu pais conseguia alguns bicos, por isso podia pagar meu cursinho. Eu estava tão cansado quanto no último ano da escola, mas ter o César ao lado deixava tudo mais tranquilo.

E ele foi fundamental no que aconteceu depois.

Minha avó foi ficando doente e precisando de remédios caríssimos. Mais ou menos em agosto, eu saí do cursinho para pagar os remédios dela. Eu já tinha os livros e continuei estudando por conta própria o conteúdo que faltava.

Em novembro, estávamos no velório dela. Dessa vez, não teve como enganar as crianças. Elas, assim como todos nós, vimos minha vó ficando doente até a morte. Foi péssimo.

Minha avó foi tudo para mim. Como disse, foi ela quem nos criou enquanto meus pais estavam nas ruas trabalhando como escravos para nos sustentar. Perdê-la foi uma das piores coisas que aconteceu comigo.

Eu sabia que não seria fácil. Sabia que ir naquele velório seria uma das piores experiências da minha vida. Por isso, não pensei duas vezes.

Cheguei por último no velório. Meus pais, minha tia e toda a molecada estavam tristes, cinzas. A maioria chorando.

Entrei com óculos escuros, para esconder minhas lágrimas. Óculos comprados em um camelô qualquer, óbvio.

Junto comigo veio o César. Eu pedi e ele foi com a maior boa vontade. Eu cheguei com a cabeça baixa, óculos e roupas escuras e os braços cruzados. Ele veio do meu lado esquerdo, com um braço passando nas minhas costas e segurando meu ombro direito.

Quando vi minha avó, desabei e comecei a chorar muito. Eu já aguentava pressão demais e aquilo foi a gosta d'água. Não chorava só por ter perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida, mas por tudo o que eu passava.

Encostei a cabeça no peito do César e ele colocou a mão nos meus cabelos. Ele abaixou a cabeça e me deu alguns beijinhos no topo da cabeça, enquanto eu chorava como uma criança.

Posso dizer que foi assim que "me assumi" para minha família. Quero dizer, eu nunca havia falado de garotas nem levado namorada nenhuma em casa. De repente, apareço chorando nos braços de um homem que me beija na cabeça.

É claro que todo mundo entendeu. Não falaram nada. Acho que nem ligaram. O que é compreensível, afinal, olha o momento em que a família estava!!!

Bem, naquele ano não passei no vestibular. Como não precisava mais pagar remédios para minha avó, fiz mais um ano de cursinho. Dessa vez, passei e aqui estou, terminando biologia.

Foi nesse segundo ano de cursinho, também, que eu e o César terminamos. Nada de muito tenso, só ficamos diferentes e vimos que não estavam mais dando certo mesmo.

Mas, claro, fiquei triste, também. Foi quando eu conheci o Léo, que me apresentou aos garotos e aqui estamos até hoje!

– Nossa, Vitor... — Falei. — Eu sinto muito por tudo isso... Não precisava se expor assim...

– Não tem problema, eu só quero ajudar. — Ele respondeu. — Além disso, agora estamos numa situação melhor. Minha tia e meu primo foram para outra cidade e meu pai arrumou um emprego bom. Consegue manter minha mãe e as crianças. Ela cuida deles agora. Eu não moro mais lá, mas ajudo eles com uma parte do dinheiro que ganho no estágio e os visito sempre!

Ok, eu estava oficialmente me sentindo um imbecil. Eu sempre tive tudo nas mãos, estudei em escola particular, meu pai pagou minha faculdade por alguns anos, tinha um emprego ótimo e, ainda sim, não sabia ser feliz.

O Vitor, pelo contrário, estava muito bem, com tudo isso que passou. Ele tinha muitos motivos para ser triste, mas aprendeu que não vale a pena e tinha esperança de um futuro melhor.

– Nossa, estou me sentindo muito ingrato. — Falei. — Com todo respeito, eu tive uma vida bem mais tranquila que a de vocês e sou um babaca!

– Não fala assim, Rafa! — O Léo disse. — Isso não tem nada a ver!

– É, você não é culpado por ter sofrido em silêncio. — O Henrique completou.

– E nós não estamos falando isso para você se sentir ingrato. — O Vitor falou. — Estamos falando para te ajudar, te mostrar que todos temos alguns problemas e que, por maiores que pareçam, sempre há uma forma de ser feliz.

Ouvir isso do Vitor significava muito depois de ter ouvido a história dele. Só então entendi o motivo daquelas conversas.

Eles estavam me ajudando de verdade, mas eu não estava permitindo que me ajudassem. Sempre que contavam suas histórias eu me sentia mal depois. Mas este não era o propósito.

Eu devia me inspirar na felicidade deles. Pensar "se eles sofreram e hoje estão felizes, então eu posso ser feliz um dia também!". Era assim que eu pensaria dali em diante.

Me inspirando na coragem do Léo de ter saído de casa tão cedo para buscar sua própria felicidade. Na naturalidade da família do Henrique para não fazer da homossexualidade algo tão importante na minha vida, e sim só mais uma das milhões de características que me definem. Na batalha do Vitor para ajudar a família e, mesmo num ambiente que tinha tudo para dar errado, encontrar amor e felicidade.

Aquelas histórias me provavam que é você quem faz sua felicidade, independente do que acontece ao redor. Eu estava determinado a fazer isso.

Agora só faltava ouvir a história do Dani para começar a escrever a minha própria história de superação!!!

Notas finais
E aí, belezuras?? O que estão achando? Me contem tudinho!!! Beijocas!