Tetris

17 A saga das cuecas.


Lá estávamos nós, no shopping. Eu não me vestia mal, mas não era desses que ficara super preocupado com roupas e pensando em combinar cada detalhe. Só vestia uma camiseta que não estivesse velha, um jeans que não estivesse gasto e um sapado que não estivesse surrado. Simples.

Por isso, me senti muito estranho vestindo tudo aquilo que eles estavam colocando em mim. Calça, cinto, camiseta, jaqueta, chapéu, pulseira, sapato, bota, camisa, moleton, bermuda, malha, cachecol, gorro, colar... Sem falar nas peças que eu aprendi naquele dia: cardigã, mocassim, blusa de cashmere e por aí vai...

Nem sabia que havia tanta roupa pra homem! Eu não estava acostumado a usar aquelas roupas, mas os garotos tinham talento. Cada vez que me olhava no espelho me sentia uma pessoa diferente.

Para melhor!

Comprei algumas coisas em algumas lojas enquanto eles me falavam "dicas" de como me vestir melhor.

Se a parte de baixo era escura, a parte de cima era clara e vice-versa. Não misturar duas estampas diferentes. JAMAIS usar camiseta preta em baixo de camisa xadrez clara. Não se usa meia com mocassim. Não exagerar em pulseiras e colares. Jaqueta jeans é coringa. Só não vai usar com calça jeans. Isso sem falar nas cores: vermelho e verde, vermelho e azul, azul e amarelo, azul e marrom, marrom e verde, verde e amarelo, amarelo e marrom... Mas, JAMAIS, azul e verde. Ou vermelho e amarelo.

Era tanta coisa que eu iria fazer um manual quando chegasse em casa. Quando eles começaram a falar, achei que era frescura. Mas, vendo as combinações (inclusive as que faziam parte da lista "JAMAIS"), percebi que estavam certos.

Comprei algumas coisas novas e várias coisas que nunca tive. Um par de mocassim, dois cardigãs, duas blusas de cashmere, um óculos escuro (do estilo aviador — nem sabia que estilo de óculos tinha nome), um cachecol e algumas pulseiras e colares.

Nossa. Não queria nem ver quanto tudo isso tinha dado!

Passamos em frente a uma loja de roupas íntimas e vi que os meninos foram entrando. Parei e fiquei olhando.

– Vem, Rafa! — O Léo chamou.

– Comprar o quê, ai? Eu já tenho muita meia e muita cueca!

– Cueca de que tipo? — O Léo perguntou.

– De que cor? — O Dani engatou, em seguida.

– Ué, branca, normal. — Respondi.

Os quatro se entreolharam. O Léo me pegou pelo braço e, me puxando para dentro da loja, falou aos outros:

– Com certeza ele precisa de cuecas!

Entramos na loja e logo já foram pedindo várias cuecas do meu tamanho para as atendentes.

– Rafa, não existe cueca "normal". — O Henrique falou.

– Ah, não vai me dizer que cueca tem tipo também? Com nominho e tudo?

– Com nominho e tudo! — O Vitor respondeu pegando uma e esticando na minha frente. — Slip. É o nome dessa.

Era a cueca que eu chamava de "normal".

– Pra mim isso é...

– Slip. — O Dani me interrompeu. — Pra você isso é slip.

– Essa aqui você deve conhecer. — O Léo me mostrou outra.

– Sim, essa eu conheço, é samba-canção.

– Exatamente! — Ele respondeu jogando a cueca longe de nós. — NUNCA use isso na vida!

– Mas por que? Parece bem confortável!

– Por que? — O Dani perguntou. — Porque são horríveis!

– A cueca é pra ser confortável, não pra ser bonita! — Falei.

E nunca fui tão julgado na minha vida.

Os quatro pararam o que estavam fazendo (procurar as cuecas mais estranhas da vida) e ficaram me encarando com aquela cara de surpresa. Até a atendente estranhou. Mas, claro, ela foi a primeira a dizer:

– Claro que não, moço. As cuecas devem sim, ser confortáveis, mas uma cueca bonita vai te deixar bem mais bonito!

Óbvio. Ela queria vender.

Os meninos vieram até mim e falaram:

– Rafa, vem aqui um minutinho, vamos ter uma conversinha...

Nos afastamos das atendentes e ficamos numa rodinha, falando baixo.

– É o seguinte, querido. — O Dani começou. — Você ainda não está acostumado com essa vida de pegar homens... A gente entende...

– Por enquanto, você deve achar o máximo beijar caras na balada. — O Léo completou.

– Mas, no futuro, só isso não vai ser suficiente, e você vai começar... — O Henrique falou.

– Você vai querer ir atrás de outras coisas... Outras aventuras... — O Léo disse.

– É o seguinte. — O Vitor falou, num tom bem mais firme que os três anteriores. — Você é veado e veado trepa com homem. Imagina que ridículo você ir trepar com um cara e ele estar com uma cuequinha "normal", como você diz. O mesmo se aplica a você.

A partir dessa fala, os meninos foram mais diretos.

– Rafa, uma hora você vai transar com alguém. — O Dani falou. — Aprenda: a cueca de um cara diz muito sobre ele.

– E, no mundo gay... — O Henrique completou. — Cuecas são a peça mais importante de um homem.

– Pode reparar. — O Léo falou, levantando a camiseta um pouco para eu ver o elástico da cueca dele. — Um gay pode estar vestido roupas de mendigo, mas sua cueca sempre estará impecável.

Os meninos fizeram o mesmo e eu corri os olhos pelos elásticos das cuecas deles. Calvin Klein, Cavalera, Calvin Klein, Puma. Todas perfeitamente novas.

– Você não precisa ter muitas. Para começar, vamos levar duas. — O Léo falou.

– Três. — O Dani corrigiu. — Pra garantir.

Depois de levar esse puxão de orelha em relação à cueca, voltamos ao balcão para escolher. Me mostraram os outros modelos: boxer e sunga. Não, sunga não é uma sunga de praia. É um modelo de cueca também.

Começou, então, a saga das cuecas. Eu gostava de uma e já falavam "TÁ DOIDO?" e me empurravam umas cuecas estranhas pra cacete. Havia uma roxa com listras vermelhas e verde-limão. Como assim???

Por ser designer, eu entendia sobre cores. Mas aprendi com os meninos que nem tudo o que dá para fazer no computador dá para fazer com roupas. Eu gostei de uma boxer amarela com o elástico preto. Tinha uma água desenhada em preto, ao lado, mas, mesmo com esse detalhe, era simples. Mas não era uma cueca "sem graça", porque era um amarelo gema, bem vivo.

Foi a primeira cueca que eu gostei... E a cueca que deu mais problema!

– Mas quando ele lavar ela vai perder a cor!

– O problema não é esse! É que essa cueca não combina com nada!

– Mas quando ele estiver de cueca ele não vai estar mais usando nada!

– Amarelo não combina com o tom de pele dele!

– É a luz da loja que faz parecer que não combina!

– Esse desenho vai sair com o tempo!

– Mas qualquer roupa fica zoada com o tempo!

– Só que blá blá blá!

– Mas mimimimimimi.

– Eu acho que tététététété.

Chegou um momento em que eu nem entendia mais o que estavam falando. Então simplesmente levantei a voz e falei:

– Olha, eu entendo que querem me ajudar, mas eu gostei dessa. Vou levar porque vou me sentir bem com ela. Achei bonita e diferente do que eu tenho. Escolhi ela levando em consideração o que vocês me falaram. Vou levar e pronto. Ainda vou comprar mais duas, ai vocês podem me ajudar nelas, mas, essa daqui, já está decidida.

Entreguei a cueca para a atendente enquanto eles pararam de discutir e ficaram me olhando.

– É, você está certo. — O Dani comentou.

– Sim, Rafa. — O Léo completou. — Nós estamos querendo te ajudar a mudar, mas não queremos te forçar a nada. Você tem que levar o que você gostou e vai usar.

– Eu sei, obrigado. — Agradeci.

Ficamos lá e escolhi outras duas cuecas. Dessa vez, eles concordaram nas duas. Uma era boxer também, azul Klein, com o elástico azul marinho. A outra era o que eles chamavam de "sunga" (não conseguia ver diferença entre boxer e sunga), branca, mas com o elástico verde exército. Bem discretas.

Depois de comprar as roupas, fomos comer alguma coisa. Já estávamos famintos e eu, cansado (ou vocês acham que ele carregaram alguma sacola???).

– Afe, se eu soubesse que ser gay era tão difícil, eu tinha ficado enrustido! — Falei.

– Nossa, já tá assim? — O Henrique perguntou.

– Coitado. — O Vitor riu.

– Isso não é nem metade do que você tem que saber, meu filho! — O Dani completou.

– É, cara... Hahaha. — O Vitor riu alto. — Nunca vi um veado que não sabe o que é chuca...

– Vitor, para de zoar ele! — O Léo mandou.

– Mano, mas chuca é tipo... O básico! — O Vitor respondeu.

– O que é chuca? — Perguntei, mas fui ignorado.

– Mas o senhor já está muito engraçadinho e não é legal ficar rindo dele. — O Dani disse.

– Ok, ok, não está mais aqui quem falou! — O Vitor respondeu.

– Mas, gente, o que é essa "chuca"? — Perguntei, de uma vez por todas.

– Olha, Rafa... — O Léo respondeu. — Esse não é o melhor lugar pra falarmos disso.

O Henrique comentou consigo mesmo:

– Definitivamente não é assunto de praça de alimentação!

– Vamos falar de outra coisa, é melhor! — O Dani disse.

– O que por exemplo? — O Vitor falou, ainda em tom de deboche. — Glory Hol...

– VAMOS falar dos tipos de gay que são mais comuns. — O Léo falou mais alto a apalavra "vamos" para interromper o Vitor.

– Até gays tem "tipos"? — Perguntei, sofrendo por antecedência.

– Sim, e é importante você saber.

– E por que? — Perguntei.

– Porque vai ficar mais fácil de você achar caras no estilo que você gosta. — O Dani respondeu.

– Mas eu nem sei de que estilo eu gosto! — Retruquei. — Eu peguei gente de todo jeito naquela noite!

– É, mas isso foi porque você estava numa seca desgramada! — O Henrique comentou. — Com o tempo você vai começar a definir um tipo de cara que prefere.

– Ei, eu não estava numa...

Me interromperam:

– Bem, os mais fáceis de reconhecer, talvez, sejam os Barbies. — O Léo começou. — São os caras bombadões, sem pelo nenhum no corpo. Passam horas na academia e são os primeiros a tirar a camisa numa boate.

– "Barbies"? — Questionei.

– Sim. É que eles se importam MUITO com a beleza, não tem pelos nenhum, são visualmente impecáveis... Tipo uma Barbie. — O Henrique explicou.

– Em oposição a eles tem os Ursos. — O Dani falou. — São caras mais gordinhos e peludos. Geralmente tem barba.

– Os melhores tem barba. — O Vitor completou.

– Existem, claro os afeminados. — O Léo falou. — Mas esse todo mundo já sabe como é.

– Só não confunde com poc poc. — O Henrique falou.

– "Poc poc"? — Perguntei.

– Sim... — O Dani fez uma cara de desprezo. — São gays afeminados que não são afeminados porque são assim, mas porque querem chamar atenção. Gritam, fazem escândalo, usam roupas inapropriadas de propósito, se atiram pra qualquer cara... É uma atuação forçada, dá pra perceber.

– Tem os hipsters. — O Henrique citou.

– Sim, os que "não gostam do que a maioria gosta". Ouvem músicas que ninguém conhece, vêem séries que ninguém nunca viu e só falam de assuntos chatos. Acham que são melhores por gostarem de coisas diferentes. — O Dani explicou.

– Mas "hipster" não é gíria gay. — Comentei. — Eu já tinha ouvido este termo antes.

– Sim, não é, mas muitos gays são assim. — O Léo falou.

– Tem também os tios, que são os gays mais... Maduros, vamos dizer assim.. — O Henrique falou.

– Os caras velhos, ué! Bica também envelhece! — O Vitor comentou.

– E também um dos mais famosos: os enrustidos. — O Léo falou.

– São os mais engraçados. — O Henrique disse.

– Tenho dó dos enrustidos... — O Dani falou para si mesmo, mexendo na embalagem do sanduíche com o canudo.

– Mas se são enrustidos, como vocês sabem que eles são gays?

Silêncio.

Só percebi que estava sendo julgado depois que terminei de morder meu lanche e olhei para cima. Os quatro estavam me olhando, quietos, novamente. Como na loja de cuecas. Mas, desta vez, o espanto era maior.

– Você tá de brincadeira comigo! — O Vitor falou. Levantou-se e disse: — Vou até dar um passeio depois dessa!

Ele saiu de perto da mesa e eu fique sem entender nada.

– Rafa... — O Léo perguntou, entranhando MUITO o que eu havia acabado de falar. — Você não conhece nem... Gaydar????

Notas finais
E ai, lindos! Este curso está só no comecinho! Ainda tem MUITA coisa pro Rafa aprender. Claro que esta parte é só teórica. Depois ele vai aprender algumas coisas na prática haha! Beijão!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.