O Acampamento de verão ergueu-se em uma clareira no norte do Brasil. Passado as atividades e o banquete noturno ascendeu-se uma enorme foguira para contar histórias. Vários meninos contavam causos de arrepiar a espinha, outros decidiram dormir para não terem de enfrentar o medo de seus pesadelos.

Havia uma barraca coletiva onde os adultos dormiam, mas só alguns o faziam, pois alguém havia de supervisionar as crianças.

— Eu tenho uma história para vocês — O mais velho entre os meninos anunciou. — Licença. — estendeu a mão pedindo o clarinete, que repousava ao lado da moça.

O fogo crepidava e estava próximo. Gentes de todas as idades apinhavam-se perto uns dos outros em torno da fogueira. O sorisso a mostra para disfarçar o medo. Era tarde e depois da meia-noite.

Alguns dos ali presentes já se conheciam, mas para a maioria aquela era a primeira e última noite juntos. Estavam ali apenas pelas histórias. Assombrações. E sonhos bizarros, mas nada do senhor contar a sua história com o clarinete.

E então, notando a ausencia da voz do menino mais velho, outra criança começou a narrar a seguinte história:

"Nefastos são os mitos relacionados a floresta Amazônica. Inúmeros relatos, uns mais desnaturados do que outros, já foram associados àquelas matas. Lendas talhadas com maestria e dedicação. Ali, recebeu-se Homens tirânicos e animais e tribos indefesos. Sabe-se que alguns acreditam que os índios e suas histórias tratam -se de uma ficção.

O nosso protagonista, uma índia, sempre ouviu histórias sobre o quão terrível seria parar de reverenciar os deuses tupi. Desde criança que o seu pai, um já falecido cacique, lhe contava curiosas lendas sobre criaturas da profunda mata. Só esqueceu-se de uma.A do Anhangá

Infelizmente, nada corre como previsto. E a india encontrará uma desagradável surpresa.

Mas quem é Anhangá?
Ele tem vários nomes, pode ser homem ou mulher, até mesmo um velho ou criança. Não importa, ele sempre estará lá. Quando sente raiva de fazer alguma coisa, é ele que sussurra em seu ouvido.

Fica na expectativa evocar ele para chamar para brincarmos. Ele esta naquilo que mais amamos.
Não é difícil vê-lo correr pela floresta, e vê-lo virar um animal, alguns o nomeiam de fenômeno espontâneo. A floresta amazônica rege-se por leis claras e precisas, tão claras quanto quadrado da hipotenusa sempre igualará a soma dos quadrados dos catetos. Por leis dos deuses, que quando não reverenciados propõem uma punição...

Seria ingenuidade da sua parte não acreditar em punições místicas, não ? Mas você muito bem poderia rejeitar conceitos físicos e reduzi-los ao que são: teorias.
A explosão que serviu de genese para o mito de Anhangá não resume-se a cálculos. Nem a indivíduos de bata branca, impondo religiões, mas sim ao misticismo e acontecimentos desta mata

Tudo ocorre pelos deuses. Por efeito e consequência. Um fato gerará um efeito e esse efeito gerará outro efeito consequente. É um ciclo inquebrável

Enfim, seria ingênuo ignorar este conto e chama-lo de fantasioso e casual. Porque ele aconteceu, um primo de um amigo viu e disse que conversou com a própria índia, então nas palavras seguintes lhe narrarei os fatos.

Janaína era uma grande amante dos animas. Na oca onde morava, era responsável por banhar os seus irmãos mais novos. E na mata pela qual passava via-se uma majestosa onça pintada. Seu pelo distinguia o animal dos outros da mesma espécie. Era falho. Janaína havia visto muitos animais e Iracema (ou Ira, como a india lhe chamava a onça) era sem dúvida o seu favorito. Janaína a via toda vez, e não poderia ser diferente daquela vez, alimentando-a duas vezes a cada raiar de dia, como se de uma pessoa se tratasse. Sendo sincero, a índia preferia aquela onça aos seus irmãos.

A rotina de Janaina poderia ser traduzida nos seguintes tópicos:

logo após acordar ao rio os irmãos levar;
De seguida, rendar e oferendas ao Tupã desejar — havia um local na mata onde a menina podia orar suas preces — comida a onça despejar, depois, comia à tarde, conversava com seu deus, antes do anoitecer comia mais um pouco e ia ver a onça, logo dava-lhe uma carne para mordiscar.

Janaina não via-se mais sem a onça. Agradecia ao divino senhor por colocar tão majestoso e dócil animal em sua vida.
Numa noite de constante chuva e trovoada, Janaína no meio da sua última oferenda aos deuses indigenas, viu a escuridão ser interrompida por um grande e brilhoso relâmpago. A força de Tupã criando um rasgo de eletricidade, atingiu precisamente uma árvore na qual a onça fazia de sua morada, era o que achava.

A Índia notou o fogo alastrar-se pela floresta.
Ela ousaria abandonar as ações para com os deuses de sua crença, ou não? A vida de seu animal favorito estava em risco, de certeza os protetores dos animais reconheceriam o seu gesto.

Correu desesperada abaixo da chuva. Felizmente, viu a onça de pelo falho correr pela mata. Todo o seu valor e paixão pelos animais acabou por ser reconhecido por Caipora. Acreditaram que a indiazinha fora presenteada por todos os espíritos da floresta. Todos da aldeia estavam gratificando-a. Exceto Tupã.

Janaina passou a dispensar as orações aos deuses para ir ao lago nadar e a sua onça contemplar. O animal tinha um pelo curto e ouriçado, olhos verdes e pelagem manchada de pequenas pintas. Nas redondezas surgia um boato de um perigoso animal a espreita. Era a onça.

Surgiu uma nova tempestade. Um raio fulgurante caiu novamente na floresta. Desta vez, Janaina não ficou em dùvida, correu para o local. Limitou oe passos ao ver o feroz animal na cacunda de um caçador da tribo.

Seus olhos se arregalaram em horror, as vísceras expostas cobriam as folhas ao animal ser deixado no chão. Caiu um raio novamente, com uma mórbida harmônia ao grito de Janaína por perder a sua amiga.

E então Janaína viu:

A onça moveu-se. Seu animalesco corpo partiu para cima da Índia. E fez dela o que bem entendeu fazer.

No dia seguinte a india acordou dolorida e fora da oca. Acreditou tratar-se de um terrível pesadelo, mas ao tentar mover -se reparou o seu ventre inchado, algo saia de suas despidas pernas. Fez força. Sentiu algo lhe rasgando! Fez força. E o sangue foi vazando. Fez força. E a cabeça de uma onça surgiu entre suas úmidas pernas.

Enquanto a carne morta? A carne morta da onça. Todos comeram-na no dia seguinte.

Toda a tribo se encheu daquele alimento. Até Janaína, ainda muito fraca e triste, foi lhe oferecido a onça.

A noite caminha lenta e dolorosamente pela aldeia. É quando surge um assobio inerte na mansidão do ar estufado de medo.

Todos que se alimentaram da onça, caem de dor. Algo anseia por sair de suas entranhas.

E sai!

De suas bocas escorre a onça.
GRITOS!

GEMIDOS!

DOR!

Cuspe e sangue.

Alguns tentam se esconder do sonido, mas não importa o assobio o acompanhava.

Da orla da floresta um animal. Uma criatura humanóide, nua, de orelhas pontiagudas e dentes escapando da boca. Curupira.

Os humanos vomitam.

Ao pé do fogo, quando notam, há uma grande onça, aninhada ao seu filhote parido pela moça Janaina, repousando sobre as patas, a pelagem brilha tanto ou mais que antes. Os olhos: dois braseiros incandescentes.

Era anhangá!

O caldo vomitado galgou-se e formou o poderoso deus.

Todos que comeram daquela carne ficaram doentes.

E a aldeia começou a apodrecer, frutos fugiam da copa das árvores. Os caules envenenaram-se e tornaram-se amargos. Tudo passou a definhar.

Por quantas Luas? Por quantos Sóis Isso aconteceu? Não sabe-se. Mas aquela aldeia nunca mais foi a mesma."

Um burburinho de espanto formou-se no semi-circulo do acampamento. Alguns recolheram-se para dormir e outros aguardaram o conto do menino mais velho. Era tarde da noite e tal qual a outra história, um temível animal estava a espreita

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.