Terroir
1 Cinco vezes p.a. - Região Sul
Notas iniciais
“É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu cavalo”
– Romaria, Elis Regina
Mais do que apenas uvas, as pessoas também são fruto de sua terra.
Em meio aos planaltos do sul do Brasil, por exemplo, encontramos gente como Poseidon, que exibe o terroir de sua existência na pele marcada pelo sol. Nas costas largas. Nas rugas em torno dos olhos, responsáveis por indicar ser ele um homem sorridente.
Pessoa simples, suas mãos calejadas conhecem apenas a aspereza de rédeas firmemente seguradas ao montar um cavalo e o solo da propriedade onde trabalha desde garoto cuidando das videiras.
Leva uma vida comum, é verdade, mas não sente necessidade de nada além da satisfação de um prato de comida cheio acompanhado de vinho forte e de suas longas caminhadas na companhia de seu alazão, Barlavento.
Sua completa devoção ao solo que o criou, o faz um religioso sem dogma. Um espécie de crente pagão, com sinos de igreja ressoando na prece de seu silêncio. Nunca fora muito bom com as palavras, então fazer brotar vida do chão sempre fora seu jeito favorito de rezar.
Além disso, jamais pedira por anjos, mas foi justamente isso o que pensou ter visto na primeira vez em que pousou seus olhos em Atena.
A enóloga responsável por atribuir os selos da nova safra da produção de vinhos da empresa chegou numa segunda-feira de manhã. O dia estava cinzento, todo nevoeiro, mas ela veio como raio de sol para esclarecer o cenário a sua volta. Atena era inteira notas amendoadas, bouquet¹ encorpado e acidez na medida, com os cabelos loiros perfeitamente alinhados e suas roupas de alfaiataria.
Quando a tempestade de seu olhar cruzou-se com o verde das orbes de Poseidon, ele soube instantaneamente duas coisas: aquela mulher contemplava cada um dos detalhes capazes de fazê-lo se apaixonar, mas sua paixão seria infrutífera, já que não havia possibilidade alguma de alguém como ela se interessar por um chucro como ele.
Ah, se ele soubesse como estivera equivocado desde o início... As bochechas daquela profissional sempre tão estoica se tingindo rosadas no minuto em que o moreno enxugou o suor com as costas da mão direita e voltou sua atenção ao trabalho...
Se alguém lhe perguntasse, em qualquer momento da vida, qual a cor do mar, Atena prontamente responderia: azul. Isto é... até agora. Porque uma vez vistos, não tinha como fazer uma associação diferente. O mar, na verdade, possui a exata tonalidade de verde dos olhos de Poseidon.
Oceano esse para o qual a loira, conhecida por sua ponderação, parecia tão inclinada a se afogar...
Por três meses, entretanto, os dois seguiram uma dança de desencontros. Se admirando à distância, mas mantendo-se afastados. Ela, certa de que fizera alguma grosseria sem querer naquele primeiro dia e por isso ele não gostava dela e a evitava a todo custo. E ele, que sabe ser fundamentalmente honesto consigo mesmo e, portanto, incapaz de fingir ser outra pessoa – mais estudada, mais interessante – para impressioná-la, mas sem poder evitar um torcer de nariz defronte a maldade do destino, por lhe colocar um sonho ao alcance das mãos, mas longe o bastante para não o poder tocar.
Com os dois absolutamente ignorantes aos sentimentos alheios e focados demais em seus próprios jogos de aparências para deixar suas inseguranças de lado, esse romance talvez estivesse fadado ao fracasso se não fosse o herdeiro beberrão da vinícola e o acaso, insistente, unindo aqueles destinos como gavinhas enredando-se umas nas outras.
Uma degustação importante estava agendada para aquela tarde. Atena conheceria Dionísio – o único dos sócios para o qual ainda não fora apresentada – e finalmente poderia bater o martelo na decisão dos blends² a serem vendidos a partir daquela safra.
Ela chegou pontualmente às três da tarde e dirigiu-se a um dos funcionários no saguão esperando que ele fosse capaz de leva-la até a sala onde seu compromisso a aguardava.
— Boa tarde. Eu preciso tratar com o senhor Walden. Será que você poderia me indicar o caminho, por gentileza?
— Qual dos dois, dona? O mocinho ou o chefe?
Franzindo o cenho, ela respondeu, incerta:
— Dionísio...
Com um rápido arregalar de olhos mal disfarçado, ela tem certeza de tê-lo ouvido murmurar algo que se assemelhava muito com “que azar o seu” antes de se recompor e guia-la até a sala de número 12.
Não demorou muito para o desastre se desenhar e ela entender o comentário sussurrado, uma vez fechada a porta às suas costas.
Atena notara instantaneamente os olhos avermelhados e uma excitação não exatamente condizente com uma reunião de trabalho no baixinho de cabelos castanhos, mas bastou mencionar os rótulos da bebida que fariam a prova para ter certeza de que aquele rapaz parecia mais interessado em beber o vinho do que analisá-lo.
Podendo suportar apenas um certo limite daquela situação, quatro taças depois ela pede licença e se retira sob a desculpa de tomar um ar e Dionísio mal parece notá-la deixar o ambiente.
É assim que Atena acaba se enveredando por entre as plantações de uva daquele extenso vinhedo, repensando cada passo de sua carreira que a conduzira até aquele momento. Sabe estar sendo dramática, mas não pode evitar. Seu único consolo provem do púrpura vivo que reluz imponente em cachos, naqueles frutos que muito bem podiam ser pedras preciosas.
Ametista para os olhos, mel e especiarias para a língua.
Numa curva do caminho, parreiras cuidadosamente podadas à esquerda, a jovem dá de cara com um dos mais antigos trabalhadores do lugar e é como se ela e Poseidon protagonizassem um teatro divino.
Não à toa os gregos atribuíram ao mesmo deus tanto o vinho quanto os rituais religiosos. (E também um pouco de loucura).
— Tu se perdeu, dona? Tem algo que eu possa te ajudar?
Surpresa por ouvir sua voz grave dirigindo-se a ela pela primeira vez, demora alguns segundos para lhe responder.
— Na verdade não. Eu só precisava espairecer um pouco e acabei sendo atraída por essas Cabernet Sauvignon aqui...
Um riso escapa da moreno e Atena se pergunta o que possivelmente poderia ser assim tão engraçado. Talvez diante de sua expressão confusa, provavelmente, Poseidon resolve se explicar:
— Bah, é só que as uvas não dão a mínima para o nome francês que o mundo deu a elas, loira... Elas se importam com o calor e luminosidade que recebem do sol, com a água que chega às suas raízes e com as roseiras que plantamos no início de cada fileira de parreiras para evitar que sofram com a ação de pragas. Eu só achei engraçado o jeito como você falou, como se fosse algo muito fino...
Assim, sem nem se darem conta, ele começa a acompanha-la numa caminhada pela propriedade e um misto de silêncio e conversa estabelece seu ritmo confortável entre os dois.
Falam sobre a vinícola, a paixão em comum, deixando no ar o diálogo que não têm a coragem para externar. Atena, algo nas linhas de: Eu tinha a impressão que você não gostava de mim. Perdi as contas de quantas vezes revivi nosso primeiro encontro para tentar adivinhar o que havia feito de errado. Se me permite a curiosidade, por que me evitava? E o que mudou agora, para que decidisse ser gentil comigo?
E Poseidon, desavergonhado da melhor maneira possível, responderia algo como: Tu me perdoes, prenda, mas... esses teus lábios parecem mais doces do que qualquer vinho. E eu não queria chegar perto demais sabendo que não poderia provar. Eu estava enganado?
O que acabam proferindo, porém, é uma concessão muito mais sutil:
— Você não precisa voltar, loira?
Ao que ela sorri e responde com uma palma estendida e virada para cima. Um convite para que ele a leve pra longe dali.
Eles se dão as mãos e aquele enlace tem aroma rico de sentimento envelhecido em barricas de carvalho e um sabor frutado de final feliz.
“Me perco nos teus olhos
E mergulho sem pensar
Se voltarei”
— Você sempre será, Marjorie Estiano
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