Notas iniciais
I'm back!

O jantar aquela noite fora silencioso, exceto pelas respostas para as perguntas de Bruce, ela não se atreveu a dizer uma palavra. Mesmo com todas as indiretas que Alfred pôde mandar, ela não sabia como falar com o pai dela sobre tal assunto. Ela não poderia simplesmente começar uma conversa com “achei o lugar secreto no subsolo da Mansão. Achei uma roupa de coro feminina muito legal, ela estava toda preservada em uma caixa de vidro, tinha uma outra caixa também, mas estava vazia. Poderia me contar o que é? ”, Bruce surtaria.

Claro que Selina já tinha suas suspeitas sobre o que aquilo se tratava, e ela estava começando a ligar esses sumiços do seu pai com aquela caverna.

Selina agora estava na biblioteca, vestindo sua roupa de dormir – que consistia em calças largas xadrez de roxo, lilás e amarelo e uma blusa roxa –, sentada em uma das poltronas de veludo vermelho, pensando. Seu celular estava em sua mão, ela queria ligar para alguém, alguém que pudesse a ajudar de alguma forma, mas ela não tinha muitas opções. Sua primeira opção foi Thea, mas ela sabia que sua amiga não aguentaria guardar um segredo desses, que contaria para uma de seus outros milhares de amigas. Depois pensou em Tommy, uma pessoa que ela tentara ligar, mas cujo celular estava fora de área. A última pessoa da sua lista de contatos que não era próximo à seu pai era Oliver. Será que poderia confiar nele? Bom, ele era uma boa opção. Poderia dirigir até lá e provavelmente guardaria o segredo.

Alô? – a voz masculina soou.

– Oliver? – chamou, se arrependendo logo depois. Era óbvio que era ele, o celular era dele, a voz era dele.

Sim?

– Hmm... eu estou com um problema... – começou, parando para pensar em como pedir por zelo – e estava pensando se você poderia me ajudar a resolver.

Claro que ajudo. É alguma coisa relacionada à Tommy? O que ele fez?

– Na verdade, tudo entre ele e eu está ótimo. O problema é com meu pai...

O coração de Oliver parara ao ouvir “meu pai”. Só Deus sabia o quanto Bruce lhe causava arrepios.

Ele respirou fundo e respondeu:

Problemas de família? Tem certeza que me quer envolvido nisso?

– Eu não tenho muitas opções – Selina disse mais como um lamento do que como uma constatação.

Ah sim, claro. Me desculpe, eu esqueci. Bom, em que lhe posso ser útil?

Ela respirou. Não tinha certeza se era isso que queria, mas ela sabia que precisava. Se não podia perguntar a seu pai, descobriria por si só.

Virou para trás para checar se estava sozinha.

– Eu descobri algumas coisas sobre a minha mãe – abaixou o tom de voz –, mas eu quero saber mais, eu preciso saber mais. Por acaso meu pai deixou escapar que ela tem uma ficha criminal, gostaria de ir até a delegacia para investigar...

E você quer que eu leve você até lá porque não pode pedir a ninguém da Mansão porque seu pai vai descobrir – ele completou, em tom irônico.

– Isso é um não?

Ela pôde escutar a respiração pesada de Oliver do outro lado. Talvez ele não aceite, Starling fica longe de Gotham, ele não viria apenas para levá-la até a delegacia, um lugar que ela poderia ir sozinha.

– Oliver, tudo bem se não quiser me levar – Selina se apressou em dizer –, nós não temos tanta intimidade assim. Não sei por que eu fui pedir isso a você. Me desculpe por isso.

Espere – ele pediu quando ela já estava quase encerrando a chamada –, acho que posso te ajudar.

Ela não pôde conter o sorriso, e quase não pôde conter a dancinha feliz.

– Então você pode vir aqui... hm... amanhã?

Amanhã está ótimo – Oliver confirmou, deixando-a mais feliz ainda. – Tenha um boa noite, Selina – e desligou, sem tempo de obter uma resposta.

Ela se levantou vitoriosa e foi de volta para o quarto. Ao sair da biblioteca, trombou com seu pai, que usava um roupão de um pano fofo com seu pijama por baixo, óculos na ponta do nariz e uma pilha de papéis, que agora estava espalhada no chão.

– Me desculpe, pai – disse se abaixando junto com ele para poder ajudar a juntar tudo.

– Tudo bem, acontece – falou com um sorriso. – O que está fazendo na biblioteca essa hora da noite? Não deveria estar na cama?

– Pai, eu não tenho mais 8 anos, acho que já posso dormir depois da meia noite – falou, rindo.

Selina reparava nos papéis, procurando por alguma outra pista. Ela viu o desenho de um carro (ela só deduzira que era um carro por apresentar quatro rodas, senão ela facilmente poderia dizer que seria uma arma. Ou um amontoado de metal) de porte militar, grande e enorme. Algumas partes estavam circuladas e setas sendo puxadas mostrando algumas modificações que deveriam ser feitas. Bruce pegou o desenho quando percebeu que ela olhava e com um gesto rápido colocou-o no meio dos outros papéis.

Depois de recolher todos os papéis e entregá-los a seu pai, Selina disse que iria para cama, deu boa noite a seu pai e a Alfred, que procurava por Bruce, e se retirou.

Selina não foi capaz de dormir, estava ansiosa demais para o dia seguinte. Ela acabou por passar a noite toda em claro, apenas pensando em como tudo poderia ocorrer.

Ela nunca tinha se sentido tão aliviada quanto como o sol começou a aparecer, o tempo para o ocorrido pareceu ser uma eternidade. Ela tomou banho e pôs uma roupa confortável, já que não sabia o que estava por vir.

– Bom dia, pai. Bom dia, Alfred – disse assim que chegou na sala de refeições.

– Bom dia, querida – Bruce respondeu com um leve sorriso. – Quais seus planos para hoje?

– Eu marquei de sair com Oliver, fiquei de resolver umas coisas com ele – ela contou mastigando seu waffle.

Bruce soltou um suspiro e pôs o jornal de lado.

– Minha filha, por acaso você não está saindo com Oliver e Tommy ao mesmo tempo, está?

Selina engasgou e começou a tossir, batendo no próprio peito para tentar desengasgar. Quando conseguiu, seu pai apenas a olhava esperando uma resposta.

– Lógico que não, pai. Oliver é só um amigo e eu só estou o ajudando com algumas coisas. Nada de mais.

Ele apenas ergueu as sobrancelhas e voltou a ler seu jornal, deixando Selina com seus pensamentos conturbados e seu waffle com calda de morango.

– Srtª Wayne, Oliver Queen está aqui.

Bruce serrou o punho enquanto Selina se levantava para receber Oliver. Ela foi até a porta e o pediu para entrar e esperar alguns minutos, enquanto ela pegava sua bolsa em seu quarto.

– Então, vamos? – Selina chamou quando voltou para onde havia deixado Oliver. – O que você disse para ele, pai? – perguntou fuzilando o Wayne mais velho quando percebeu que Queen estava com um pouco de tensão nos olhos.

Bruce simplesmente a ignorou e subiu as escadas, ela lançou um olhar para Alfred, que estava em um canto com as mãos dadas em suas costas, mas o mordomo a ignorou também. Ela nem se deu ao trabalho de olhar para Oliver, porque ela sabia que ele reagiria da mesma forma, então a jovem atravessou o resto do cômodo e foi para a entrada da casa e, logo, entrando no carro de Queen, que entrou logo em seguida.

– O que você conseguiu com a foto que eu te mandei? – Selina havia enviado a foto de sua mãe e seu pai para Oliver e pediu a ele para tentar descobrir o que fosse possível sobre ela.

– Consegui o suficiente para começar uma busca – ele respondeu virando a ignição do carro. – Sabe, seu pai tem um bom motivo para não ter falado nada sobre ela ainda.

– É? E você poderia me falar qual é?

Ele usou a mão direita para pegar algo que estava no banco traseiro, mas manteve a mão esquerda no volante. Oliver entregou uma pasta marrom claro que continha uma pilha de papéis dentro para Selina. Quando ela abriu a pasta, se deparou com uma foto no canto superior esquerdo da pasta: era sua mãe com a cara lavada usando um macacão laranja. A foto se encontrava com um clipe que a prendia a um papel com uma série de informações, como peso, cor dos olhos, cor do cabelo, nome completo, etc. No topo do papel havia o símbolo do departamento de polícia de Gotham.

– Ela tem uma ficha criminal – Selina disse em voz alta, mais para si mesma do que para Oliver. – Por que você anotou esse nome aqui? Vicky Bar...

– Vicky Bartzen. Depois de umas pesquisas eu descobri que ela era colega de apartamento da sua mãe antes do casamento com seu pai. Elas se conheceram no orfanato.

Selina arregalou os olhos.

– Você pode, por favor, me contar a história completa?

– Completa eu não posso, tem umas lacunas em branco que nós precisamos preencher ainda. Mas, basicamente: ela era órfã desde bem pequena, mas fugiu do orfanato depois de uns anos e passou a roubar para sobreviver, então desde criança ela já tem passagem pela polícia. Quando ela ficou mais velha, ela passou a roubar coisas mais sofisticadas, sempre atacando os mais ricos. Acredito que tenha sido em um destes roubos que ela conheceu seu pai. É só isso o que eu tenho até agora.

– É muita coisa para processar – Selina admitiu em um suspiro.

– Podemos continuar isso outro dia. Não precisamos fazer isso agora – Oliver sugeriu aproveitando o sinal vermelho para olhar para ela.

– De forma alguma. Vamos tentar descobrir o máximo que conseguirmos hoje. E sobre essa Vicky, o que você tem?

– Pouco. A ficha dela só tem drogas e prostituição. Mas eu tenho um endereço.

– E você acha que...

– Talvez. Nós estamos indo para lá agora.

***

Selina e Oliver estavam em frente a uma porta de madeira que pertencia a um apartamento pobretão do subúrbio de Gotham, ali era supostamente o apartamento da amiga de infância da genitora de Selina.

A porta se abriu num rangido revelando uma mulher de cabelos loiros e despenteados usando moletons surrados, com um forte cheiro de tabaco e álcool.

– Eu já disse que vou pagar o aluguel assim que possível – Vicky disse ao abrir a porta. – Ei, espera. Vocês não estão com cara de cobradores.

– Porque nós não somos – Oliver respondeu.

– Quem são vocês e o que vocês estão fazendo aqui?

– Srª Bartzen, eu sou Oliver Queen e essa...

– Ah! Claro! Você é o playboy que tá sempre na TV porque fez merda – Selina abriu um pequeno riso debochado, mas parou quando Vicky a encarou de forma estranha. – Jesus Cristo. Como isso é possível? – Você é idêntica a ela – a mais velha disse tocando no cabelo de Selina e olhando como se naquele cabelo estive a pedra mais preciosa do mundo. – Você até cheira como ela – Vicky disse dando uma bela fungada próxima ao pescoço de Selina.

– Oliver, ela está me cheirando – Wayne paralisou e cutucou Queen com a mão, sendo esse o único membro do seu corpo que produziu algum movimento.

Ele se colocou a frente de Selina, afastando a mulher.

– De quem você está falando?

– Selina Kyle, óbvio – os dois mais jovens se olharam e Selina deu um pequeno sorriso. – Você pode me falar quem você é e porque você se parece tanto com ela?

– Eu sou Selina Wayne. Muito prazer.

– Então isso quer dizer que você é filha do Wayne e da Gata? Incrível como eu nunca soube da sua existência. Vamos entrando, vocês estão com cara de que querem fazer perguntas.

Então, os três entraram no apartamento, cujo cheiro era o mesmo que o da dona, porém mais forte.

Eles sentaram-se em um sofá bege mofado, enquanto Vicky se sentou na poltrona de mesma cor que se encontrava de frente para eles.

Oliver deixou com que Selina fizesse todas as perguntas, já que esse era um momento importante para ela. A primeira pergunta foi como Vicky e sua mãe se conheciam e a resposta não fora uma surpresa: elas haviam se conhecido no orfanato. As perguntas seguintes foram apenas perguntas que Selina queria fazer a Bruce, mas que não encontrava coragem para tal.

Selina descobriu que sua mãe nunca havia roubado de quem tinha pouco, mas sim de quem tinha de sobra e que ela sempre ajudava a amiga de infância, com dinheiro ou para assustar algum cara que a assediava. O modo como Vicky havia se referido a Selina Kyle também fora uma das perguntas; “Gata” era como Kyle era conhecida nas ruas, não só pelo seu modo de agir, mas por sua forte ligação com os gatos.

– Era estranho ver ela envolta por gatos, era como se ela conseguisse se comunicar com eles.

As horas se passaram depressa, mas a vontade era de ficar ali o da inteiro, apenas escutando as histórias que sua mãe vivera. A conversa foi interrompida pelo som do toque do celular de Selina; seu pai estava ligando.

– Alô?

Já faz mais de três horas que você saiu, Selina, e você não faz nem questão de me avisar se está bem ou onde você está – a voz rígida de Bruce soou do outro lado da ligação.

– Pai, eu estou bem. Eu e Oliver estamos dando uma volta – mentiu.

Voltinha longa essa, não é? Quero você em casa antes das 17h. Entendido? Só não te peço para voltar agora porque eu tenho que sair. Antes das 17h. Não se esqueça – e desligou, sem chances para respostas.

– Acho melhor nós irmos – Oliver disse, se levantando.

– Mas, já? – Selina lamentou

– É melhor não arriscarmos sermos vistos aqui por algum fotógrafo. Já pensou se seu pai vê?

– Nem quero pensar – falou se levantando. – Obrigada, srª Bartzen, foi maravilhoso ouvir tudo isso.

– Antes de você ir, preciso te entregar algo – Vicky disse entrando em um outro cômodo. Era possível ouvir barulhos de portas sendo abertas e caixas sendo mexidas. – Aqui está. Acho que sua mãe iria gostar que você ficasse com isso, era dela, afinal – disse entregando um cordão dourado com um pequeno pingente de gato nele.

A felicidade tomava conta de Selina, como no seu aniversário de sete anos quando ela ganhou uma boneca que agia como um recém-nascido, que mamava e até fazia as necessidades fisiológicas. Conhecer um pouco do passado da sua mãe a fazia sentir como se elas fossem próximas. Crescer sem a mãe foi difícil, já que, para uma garota, um exemplo feminino é essencial em seu desenvolvimento, mas crescer sem saber absolutamente nada da mulher que lhe deu a vida, sem dúvidas, é pior. Ela sempre se perguntou como sua vida poderia ser se sua mãe estivesse viva; talvez ela não tenha sido reclusa do mundo por todo esse tempo, talvez ela até pudesse ter crescido como uma pessoa normal.

– Como você está se sentindo? – Oliver perguntou enquanto eles andavam pela calçada tomando seus cafés.

– Ótima. Eu me sinto ótima. Obrigada por isso, Oliver.

– Não fiz nada demais. Eu só me imaginei no seu lugar, sabe? Se eu não soubesse nada sobre meu pai ou sobre minha mãe – ele sempre olhava bem no fundo dos olhos dela quando falava, ela sempre ficava um tanto hipnotizada por seus olhos tão azuis.

Eles estavam passando em frente a um bar quando um trio de homens mascarados saiu pela porta com sacos grande e aparentemente cheios nas costas. Um deles tentou acertar Oliver assim que o viu passando, enquanto outro pegou Selina pelo pescoço e colocou uma arma apontada para sua cabeça. Queen lutava bravamente com os outros dois, na tentativa de se livrar deles e salvar Selina, mas estava difícil.

Sirenes começaram a soar ao longe e o ladrão que estava com Selina começou a se apressar, andando de costas. Até que uma pancada acertou a cabeça dele, o fazendo cair, desmaiado.

O Cavaleiro das Trevas, ele estava ali, encarando-a.

Mas ela conhecia aqueles olhos.

Se ela possuía alguma dúvida, agora elas não existiam mais.

Ela sabia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.