– Levante Srta. Wayne – Alfred acordou a jovem abrindo as cortinas espessas de seu quarto, permitindo que a luz do dia sem nuvens penetrasse intensamente no cômodo, fazendo com que suas sobrancelhas se enrugassem, com a súbita e forte luz que entrara.

– O que? – Olhou em volta e sua visão estava turva, até que seus olhos acomodaram-se com a claridade e a imagem do mordomo próximo a janela, com o mesmo smoking de sempre, fora distinguida. – Ah, Alfred, mas já? Que horas são?

– Já são quase oito horas, Senhorita.

Demorou alguns segundos para que ela entendesse o que estava acontecendo, mas assim que lembrou-se o porquê de ela ter de levantar cedo, ela saiu da cama com um pulo e correu para a cozinha. Ela não se virou para trás para olhar Alfred, mas sabia que ele havia entendido porque ela saíra tão depressa.

– Bom dia, Maria! – Disse à uma das mulheres que ajudam na limpeza da casa.

– Bom dia, chica! – Ela retribuiu.

Abriu a geladeira e passou seus olhos rapidamente pelos produtos e não viu nada que a agradasse. Resolveu pegar uma maçã e subir de volta para o seu quarto. Encontrando Alfred na escadaria principal, e sem parar de correr perguntou:

– Quando ele chega?

– Em vinte minutos! – Ouviu a voz do velho, agora ao longe.

Foi para o banheiro e cuidou da sua higiene bucal, penteou os cabelos e colocou uma roupa. Achou que sua calça jeans e sua blusa branca de manga comprida seriam uma boa escolha para receber seu pai.

Escutou o barulho de carros grandes e pesados amassando os cascalhos e parando em frente a mansão Wayne, mas achou suspeito o fato de ter se passado apenas 15 minutos. Não estava na hora ainda. Resolveu espiar pela janela, arrastando um pouco as cortinas para o lado direito para não chamar a atenção.

Os repórteres e paparazzi saíam de seus carros, como pequenas formigas saem de seus formigueiros depois de alguém chutá-lo, e andavam em direção à porta principal, apertando os botões de suas câmeras para capturar cada momento. Alguns olharam para cima, na direção em que estava o quarto de Selina.

–Senhorita, você precisa sair de perto da janela! Eles podem vê-la! – Alfred invadiu o quarto um pouco desesperado e logo conduziu-a para longe da janela.

– Como eles conseguiram entrar aqui? Temos um batalhão de seguranças nos portões! – Perguntou, indignada com o fato de eles terem conseguido passar pelos portões que davam acesso à mansão Wayne.

– Não sei se a Senhorita notou, mas os carros possuem logotipos de uma empresa de exterminadores, eles devem ter dito que nós havíamos ligado para eles para fazer uma revisão antes da chegada do Patrão Bruce. – Com o terminar da frase, Alfred pegou seu relógio de bolso e checou as horas. – Já chamei os seguranças para retirarem os invasores.

Um alvoroço começara do lado de fora. Podiam ouvir os clicks das câmeras, capturando alguma coisa e alguns diziam “Sr. Wayne, Sr. Wayne, como foi a viagem?”. Quando voltou a prestar atenção no que estava acontecendo dentro de seu quarto, Selina percebeu que Alfred já havia descido para receber seu pai e provavelmente fechar as cortinas do hall de entrada para que os repórteres e os paparazzi não conseguissem vê-la dentro da mansão quando descesse.

Desceu as escadas com toda calma do mundo, para poder verificar se eu já poderia descer. E ela podia.

– Pai! – Desceu os últimos degraus correndo e assim que chegou perto o suficiente, abraçou seu pai o mais forte que pôde. E, não para sua surpresa, seu pai retribuiu o abraço.

Os dois abraçaram-se por um longo tempo, mas que para Selina pareceu apenas alguns segundos. Era bom sentir seu cheiro depois de tantos meses, estar em seus braços a fazia sentir-se segura. Percebeu que ele fungava silenciosamente, talvez estivesse chorando ou seus olhos ameaçassem deixar as lágrimas escaparem.

– Minha... minha filha! – Agora ele segurava o rosto da garota com ambas as mãos e a olhava nos olhos – Que saudade! Você cresceu tanto, nem parece mais a menininha que eu vi aqui pela última vez há dois anos!

Selina não conseguiu dizer nada, só admirar seu rosto sorridente e permitir que as lágrimas escorregassem pelas suas bochechas.

– Com licença, Sr. Wayne, onde deixo suas bagagens? – Javier, o motorista, e um funcionário que trabalha na mansão, apareceram rodeados com sete malas grandes e um caixa de papelão com alguns buracos.

– Podem levar essas malas pretas para o meu quarto, mas deixem essa vermelha e essa caixa aqui, por favor. – Foi a resposta que receberam.

– Sr. Wayne, os repórteres e os paparazzi já foram retirados. Agora, com a sua permissão, gostaria de ir para casa de minha irmã para fazer-lhe uma visita. – Alfred pediu.

– Claro, Alfred. Ligarei se precisar.

Alfred se retirou da sala e pai e filha foram até a sala de estar para poderem conversar. Bruce Wayne carregou a tal mala vermelha e a caixa de papelão, mesmo com a filha se oferecendo para ajudar.

Quando chegaram na sala e Wayne colocou as coisas no chão, Selina percebeu que a caixa estava se mexendo e um grunhido parecia sair de lá. E de repente, um filhote de cachorro pulou pra fora da caixa e começou a latir para ambos os Wayne.

– Bom, acho que ele antecipou a surpresa que eu queria fazer para você. – Bruce comentou, pegando o filhote no colo. – Estive na Sibéria durante minha viagem e vi muitas pessoas com filhotes como esse. E quando cheguei aqui na América resolvi parar em uma loja de animais e comprar para você, já que estava me sentindo um pouco mal por não ter trago nada da Europa ou Ásia para você.

– Então, ele é meu? – A menina perguntou acariciando a cabeça da bola de pelos que estava na sua frente.

– Sim, ele é seu.

O resto do dia foi resumido em perguntas tolas de pessoas que não se veem há muito tempo.

A filha não tinha muito o que contar ao pai, já que não saía de casa nunca e não ia à escola, estudava em casa. Já Wayne tinha muitas histórias para contar. Só saíram do cômodo para guardar as coisas de Bruce.

Colocando as coisas no closet de seu pai, Selina viu uma portinha escondida por trás dos ternos e resolveu abri-la e ver o que havia lá dentro. Olhou para o lado para ver se seu pai estava olhando para aquela direção, e não estava. Dentro da portinha havia uma foto de seu pai e de uma mulher. Uma mulher muito bonita, com os cabelos negros e com o comprimento um pouco abaixo dos ombros. Na foto, seu pai estava por trás da mulher, a segurando pela cintura e as mãos dela estavam por cima das dele. Ambos sorriam para a câmera. Selina resolveu pegar a foto e guardá-la em seu bolso, dobrada.

Depois que seu pai a disse que não precisava mais de ajuda e que ela podia ficar um com seu novo animal de estimação, a jovem foi para seu quarto e pegou o seu celular para ligar para Alfred.

– Alô? Alfred? Aonde você está? – Selina disse assim que o mordomo atendeu a ligação.

– Estou voltando para a sua casa, Senhorita.

– Venha rápido, por favor. E assim que chegar me encontre no meu quarto, quero conversar com você, tenho perguntas a fazer. – Ordenou.

Selina ficou em seu quarto brincando com seu filhote e decidiu que não sairia até que Alfred chegasse, o que não deveria demorar. E enquanto ele não chegava, ela resolveu admirar a foto que roubara, admirar a mulher, para ser mais preciso. Ela possuía um sorriso contagiante, e rugas ligavam a lateral de suas narinas até o canto de sua boca. A felicidade que seu pai expressava também era de se notar.

Quarenta minutos se passaram e alguém bateu na porta do quarto, a garota rapidamente escondeu a foto por baixo de seu travesseiro, caso não fosse Alfred que batia.

– Pode entrar. – Ela disse tentando não parecer nervosa.

A pessoa que ela convidara entrou em seu quarto, e para a sua surpresa, não era Alfred, e sim seu pai.

– Oi, filha. – Ele disse quando passou pela porta e caminhou até chegar perto da cama para poder sentar-se. – Alfred me ligou e disse que você havia ligado para ele, e que você parecia nervosa ao telefone, que queria conversar com ele. Está tudo bem?

– Sim, pai. – Ela disse com a voz grosseira, não acreditando que o mordomo havia a entregado. Por mais que ela ame o Alfred, ela não achava que ele tinha o direito de contar sobre isso para o pai dela.

– Selina, olha, sei que estive quase dois anos fora e que foi Alfred quem cuidou de você, mas eu sou o seu pai. Se você tiver algum problema, saiba que pode falar comigo. Pode confiar seus segredos a mim e eu confiarei os meus a você. Ok? – Wayne disse com a voz mais suave do mundo.

– Tudo bem, papai.

– Agora venha cá me dar um abraço. – E ambos chegaram perto um do outro para poderem se abraçar. – Eu te amo, Selina, e saiba que tudo o que eu faço é para proteger você.

***

Mais tarde naquele mesmo dia, Selina pediu para jantar em seu quarto, queria pensar, tentar entender a história por trás daquela foto.

Duas batidas na porta e dois segundos depois houve uma terceira. Alfred. Ela sabia, sabia porque era como ele batia na porta, desde quando ela era pequena. Era uma coisa deles, que só eles poderiam entender.

– Pode entrar, Alfred. – O mordomo entrou, fechando a porta em seguida e sentando-se na cama, próximo à menina.

– Vejo que ainda não se esqueceu da nossa batida secreta. – Ele disse rindo, fazendo Selina rir logo depois.

– Claro que não! Acha mesmo que eu esqueceria? Mas então, – ela não esperou a resposta – o que veio fazer aqui?

Alfred olhou para baixo e suspirou, antes de responder:

– Queria pedir desculpas por ter contado ao seu pai sobre a ligação de hoje cedo. Sei que não foi o certo a se fazer, mas ele é seu pai, Senhorita, ele precisava saber que algo estava errado. Você sabe o quanto ele se importa com você.

Selina não respondeu, mas Alfred sabia que ela entendia. Ele sabia que ela entendia que, mesmo que seu pai não fosse mais o mesmo depois de alguns anos, ele a amava e queria estar presente em tudo e fazer parte de cada segundo da vida da filha, sem perder um simples detalhe. Ele iria gostar de saber como foi o primeiro beijo dela, quem foi seu primeiro amor. Ele iria gostar de ouvir ela reclamando das vadias que a irritam só pelo fato de existirem. De ouvir o som da porta de seu quarto batendo depois de uma briga com a melhor amiga ou com seu namorado e nesse mesmo dia, ele iria no quarto dela com um copo de chocolate quente com espuma, que é como ela gosta, e ofereceria um abraço do mais apertado. Ele gostaria de vê-la sorrir quando chegasse em casa depois de um dia com o homem que ela ama. E quando esse amor terminasse, ele iria fazer questão de contar suas piores piadas só para ver aquele sorriso que ela não conseguia esconder, mesmo quando a piada era ruim.

Selina não percebeu, mas estava chorando.

Ela sabia que era difícil para seu pai cria-la, afinal, ele era Bruce Wayne. Tinha a empresa e todas aquelas viagens a negócios. Ele deu tudo do bom e do melhor para a filha, quis ser o melhor pai do mundo. E ele conseguira.

– Senhorita, me desculpe, não quis fazê-la chorar! – Alfred disse, mostrando um pouco de desespero.

– O que? Não! Alfred, de maneira nenhuma! – Ela disse, finalmente notando que estava chorando. – Só estava pensando. Pensando que meu pai realmente é o melhor pai do mundo, e que fui uma ingrata hoje! Deveria ter ligado para ele! – Ela disse deitando sobre o colo do velho, que rapidamente começou a acariciar sua cabeça.

Atrás da porta do quarto, estava Bruce. Escutando cada palavra da conversa entre o mordomo e a filha. O sorriso bobo em seu rosto era o mais bonito e sincero. Wayne e sua filha possuíam uma ligação linda, que existe apenas em algumas famílias.

– Patrão Bruce? O que faz aqui sentado no chão? – Alfred perguntou quando saiu do quarto de Selina, lá pras tantas horas da madrugada.

– Eu estava vindo falar com Selina, mas notei que você havia chegado primeiro, resolvi esperar você sair. Como estava demorando, fiquei e ouvi a conversa de vocês.

Alfred parecia não saber o que responder, então um silêncio um tanto constrangedor tomou conta daquele momento, até que ele foi quebrado.

– A Senhorita pegou no sono, então coloquei-a para deitar. – Percebendo que Wayne estava distraído, Alfred continuou – Patrão? O senhor está bem?

– Sim, Alfred. Mas estava pensando: está na hora.

O mordomo entendeu imediatamente do que se tratava, e não perdeu tempo. No dia seguinte tudo começaria a ser organizado. Estava na hora de Selina conhecer o mundo.