Notas iniciais
Uma festança foi organizada por Padre Davino para ajudar nas obras da igreja Matriz e os coronéis da cidade resolvem comparecer com suas prendas para ajudar no leilão. Vamos minha gente juntos participar desta festança na roça e curtir um bom momento de alegria nesta terra abençoada por meu Deus.

Todo final de semana uma boa turma de peões da fazenda Leão se juntava e saia a correr as terras da região a procura de um bom arrasta-pé ou mesmo um bom rela-buxo para se divertirem. Alguns eram escolhidos para ficarem tomando conta da casa grande e das terras e o restante tinha direito a dois dias de folga para dar suas voltas pelas redondezas.

O único pedido do coronel em todas estas saídas era que sua peonada se portasse como gente e não saísse por ai arranjando confusão seja lá com quem quer que fosse, pois o nome de sua fazenda tinha que ser zelado. Pedido este que a maioria fazia questão de esquecer assim que tomavam a terceira dose de cachaça ou quando eram recusados por algumas das dançarinas e preteridos por um ou outro que estivesse ali no lugar.

Estas festas e saídas sempre acabavam em um monte de socos e pontapés e um dente ou outro quebrado entre a peonada, mas era diversão segura durante as conversas na lida do dia a dia na fazenda.

Depois de quase 3 anos trabalhando ali na fazenda e sem animo pra sair pra lugar algum,a não ser a pensão da dona Milu onde se refestelava nos braços de sua doce Aninha com quem levava uma vida quase de casal com a mulher dama; desta vez Bruxo foi convidado a ir com a peonada para se divertir e acabou por aceitar.

O padre estava organizando uma quermesse nos arredores da cidade e havia pedido a todos que pudessem comparecer para ajudar nas compras do leilão pois o dinheiro ia servir pra se fazer a pintura da igreja matriz que estava quase pronta.

Como bom religioso que era, criado nas barras da saia da mãe e acompanhando sempre todas as procissões quando era menino, Bruxo decidiu ir desta vez junto com a peonada.

Para dar um abrilhantamento a festa e para atender ao pedido de Dona Candinha; o coronel deu folga para toda a peonada e deixou na fazenda apenas o Zé Minhoca e o Girão, que eram macumbeiros declarados e sempre estavam em atritos com o padre e as carolas da região. Bons vaqueiros e cães de guarda, não havia problema nenhum que os dois ficassem ali tomando conta de tudo sozinhos e mesmo que ninguém ficasse ali na sede da fazenda, ninguém se atreveria a invadir ao local, pois sabiam da fama do coronel quando faziam algo que lhe desagradasse em seus domínios.

A comitiva saiu às 4 horas da tarde em ponto, sol a pino no alto do céu; todos em suas roupas de gala, os homens com calças e camisas engomadas e chapéus de abas largas, as mulheres em seus vestidos de chitão colorido,que o coronel havia mandado trazer pano bom de lá das bandas de Itabira para fazer roupas pra todo mundo novas e que mostrassem a imponência do pessoal de sua fazenda.

Pomposo e cheio de sorrisos, o coronel Antonio Leão seguia à frente, rodeado pela companhia de Toninho e Pedro, que havia vindo para a fazenda apenas para se arrumar e seguir junto com a família para acompanhar aquela bela festa.

Os homens iam todos a cavalo, as selas brilhando e as esporas retinindo ao sabor do trote de toda a comitiva; já as mulheres iam nas diversas carroças que haviam sido disponibilizadas pelo bondoso coronel que atendeu ao pedido de sua esposa e não deixou que ninguém fosse para a cidade a pé. Mais ao centro de toda aquela comitiva, seguia Dona Candinha,os filhos caçulas e os netos em uma carruagem bonita puxada por duas parelhas de cavalos brancos, o orgulho do coronel Leão e de toda a redondeza, pois não havia por ali quem tivesse cavalos tão bonitos como aqueles e tão bem educados e treinados.

Fechando a comitiva,seguia um carro de boi com vários porcos,algumas galinhas e amarrado ao carro de boi seguiam alguns novilhos que dona Candinha tinha pedido ao coronel para separar para serem doados para ajudar no leilão.

Por onde quer que passasse aquela comitiva, todas as cabeças se viravam para olhar a beleza de toda a turma que ia folgueando pela estrada.

Os homens em respeito tiravam os seus chapéus para cumprimentar ao nhonhô coroné e sua família e as mulheres davam risinhos abafados ao ver a beleza do porte da peonada bem vestida da fazenda leão.

Chegaram à entrada da rua Padre Café às cinco e meia da tarde em ponto,como previra o coronel e foram seguindo bem devagar a olhar o movimento do bom amigo Cirineu que ia de poste em poste a acender aos lampiões a gás para iluminar as ruas.

Os postes com a fiação para a instalação da rede elétrica já estavam fincados em alguns locais e o coronel sentiu aquele gostinho de vitória em seu coração pois foi por seu intermédio que o senhor governador resolveu atender aos pedidos da população e ia colocar luz na cidade.

Estava certo que não ia ter luz para todas as casas,devido ao alto valor pelo qual ia ser cobrada,mas agora sim com certeza o arraial passaria a ser considerado sim uma cidade e deixaria de ser considerada apenas comarca de algum lugarzinho que fosse.

São Miguel era uma terra que havia nascido a um bom tempo e merecia destaque maior,agora que tinham uma economia centrada na criação de gado leiteiro e uns ou outros que ainda insistiam em plantar uns pezinhos de café ou fazer uma lavoura de arroz.

Ao chegarem à frente da Igreja Matriz, uma salva de fogos foi solta ao ar pelo fogueteiro de plantão, festeiro dos bons e conhecido por toda a região pela beleza de seu trabalho com a arte da pólvora. Em termos de se fazer desenhos no ar com os fogos não havia ninguém na região que se comparasse com a genialidade do bom Sebastião de Sena.

Padre Conego Davino veio sorridente para receber o nho Coroné e sua família juntamente com todas as prendas que estavam sendo trazidas para a festança da igreja.

No pátio da igreja já estava sendo erguido o mastro com a imagem de São Miguel em sua mais bela apresentação tendo a cabeça do caramunhão esmagada sob seus pés.Esta imagem sempre foi famosa entre todos os devotos do Santo e era talvez uma das poucas coisas temidas pelo senhor coronel Antonio Leão.

Pelos costados da estrada do Pito veio descendo uma outra comitiva, mais simples que a primeira mas que também trazia o seu glamour por onde passava e assim como a euforia de muitos pela família Leão, a família do doutor Catão era também muito apreciada.

Homem de muitas posses e dado à frivolidade, era conhecido por muitos como o causador da desgraça em diversas famílias pobres da região. Em tempos passados não havia uma moça das redondezas de sua fazenda que ao se casarem eram iniciadas na serventia do marido pelo doutor Catão. Sua esposa sempre devota de Nosso Senhor dos Passos se fazia de cega e surda sobre tudo que se comentava sobre a vida de seu marido.

Dona Pulcra Catão era um exemplo vivo de uma pessoa que vivia em função de fazer o melhor pela sociedade e em casa trazia todos a mão de ferro à obediência pura de todas as leis de Deus. Puxava o terço nas casas da região e trabalhava afinco para dar um pouco de conforto para as donzelas agredidas por seu marido. Entrou em algumas pequenas batalhas com a senhora dona Candinha uma vez pois queria que o padroeiro da cidade fosse o Senhor dos Passos, mas acabou vencendo a boa vontade do coronel Leão que tinha mais donativos para oferecer à igreja que seu marido.

Vinha neste dia um rodear de vaqueiros trazendo vinte cabeças de boi gordo para ser leiloado ali na festança. O povo já se aglomerava para ver toda a beleza das mais ricas famílias da região e todos se perguntavam se não ia sair alguma confusão entre os dois grandes fazendeiros ali do arraial.

Sêo Aurelino havia montado uma barraquinha a pedido de padre Davino e servia de bom grado a todos que por ali passavam um bom copo de caldo de cana e para os mais desavergonhados, sem que o padre soubesse servia uma dose de sua caninha mais apetitosa, que vinha de uma fazenda de São João Evangelista.

Na barraquinha de brincadeiras as crianças e as mocinhas da região se divertiam com pescaria e tentando acertar as bolotas de fruta lobo nas garrafas que Miltinho, um dos filhos de Nonô carroceiro havia colado com grude para não serem derrubadas.

As duas influentes famílias se separaram em lados distintos mas as damas tiveram de estar juntas em frente ao altar montado onde padre Davino começou a fazer a sua pregação do dia, enaltecendo a bondade de todos da região e agradecendo a Deus que colocara nos corações de todos a necessidade de se fazer o melhor para o crescimento espiritual das famílias da região.

Terminada a homilia eis que chega um homem trazendo um presente do doutor Catão para o padre, era um lindo painel o qual deveria ser colocado na igreja após o término da colocação do forro e este mostrava a imagem de São Miguel esmagando debaixo de seus pés a cabeça do diabo. Era apenas um pequeno painel que media dois metros e o verdadeiro que ia ficar na abobada da igreja seria bem maior, mas já causou emoção em todos que ali estavam.

Ate mesmo o coronel Leão teve de aplaudir de pé a iniciativa do doutor Catão, pois reconheceu ali um sinal de que Deus estava confirmando a sua escolha para o santo padroeiro da cidade.

Acabada a missa todos se reuniram para o local onde a peonada das duas fazendas iriam participar de uma vaquejada para mostrar o valor das prendas doadas e para atiçar o senso de compra das pessoas que ali estavam.

Estava quase na hora do foguetório e Sebastião de Sena pediu pelo auto falante que o povo se afastasse um pouco do lugar para não acontecer acidentes. A meninada corria solta e ansiosa pelo momento mais bonito da festança que era a hora em que quase ao final dos fogos o mastro seria inundado por uma “chuva de lágrimas” como era chamado o encerramento e então apareceria a imagem do santo envolta em uma espiral de cores e magia.

Com vivas e salve o foguetório começou com seu barulho ensurdecedor fazendo o coração das senhoras baterem de emoção pelas bênçãos que Deus lhes proporcionava e os meninos gritavam e festejavam como nunca.

Começaram a festança da vaquejada enquanto o leiloeiro ia gritando os preços que começavam com alguns tostões e terminavam em alguns bons contos de reis. Como era de se esperar, já que muitos dos pequenos produtores da região não iam conseguir pagar o valor pedido por cada cabeça de rês ali apresentada, os próprios fazendeiros as compraram apenas para ajudar nas obras da igreja.apos a venda das prendas, foi liberado pelo padre Davino um arrastapé desde que antes da meia noite a praça estivesse limpa de gente.

Os coronéis se desligaram da festa com suas famílias mas não sem antes dizerem para a peonada que estivesse nas suas casas assim que a festa se acabasse.

Depois que o padre se retirou começou o roncar da sanfona velha de 8 baixos que serpenteava o saiote das mais afoitas damas da região. Rodas foram formadas e os caboclos meio que sem jeito tiravam as damas para dançar.

Entre um gole de cachaça e outro a peonada se divertia como nunca ali na frente da igreja e mesmo tendo uma ou outra pequenina discussão porque fulana não quis dançar com ciclano, logo tudo era tranqüilizado pelo doutor delegado e seus auxiliares que usavam com louvor a sua farda.

Eram bem mais de duas horas da matina quando o velho Cirineu conseguiu apagar os lampiões e por todo o resto do povo que estava perdido pelos cantos mais escurinhos pra ir pra suas casas. No dia seguinte ia ser um tal de moça de família sendo mal falada que não ia ter fim.

Depois de toda a festança, Eurico se achegou para os lados de uma moça que conheceu na festança e saíram escondidos para dar umas voltas pelos lados do matadouro, onde pode passar a noite sem se preocupar com os fantasmas que muitas vezes assombrava sua alma e faziam com que seu coração tremesse.

Notas finais
Gente demorei um pouquinho pra postar desta vez mas prometo que na próxima semana posto na data certinha, na quarta-feira sem falta. Comentem e me ajudem a desvendar esta linda terra! Abraços!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.