Notas iniciais
Em frente à pequena vendinha de Sêo Aurelino havia uma estradinha que carregava histórias variadas de muitas vidas que por ali passaram no decorrer dos últimos anos!
Muitas foram as vidas que ali se transformaram, com sorrisos e lágrimas,sejam de tristeza pela despedida ou pela alegria da chegada.
Naquela manhã que se iniciava mais um capítulo desta história estava para começar a ser escrito, e o homem que descia com vestes sujas e simples aquelas encostas com certeza iria mudar para sempre a vida e a história deste pequeno arraial !

Na entrada do arraial de São Miguel podia-se ver uma pequenina estradinha de terra que serpenteava uma pequena elevação e que levava a uma vendinha suja, onde um homem já envelhecido pelo tempo estava sentado em um toco de madeira, que um dia fizera parte da velha árvore, que caiu consumida pelos anos longos vividos.

Conhecedor de todas as pessoas do lugar, que sempre encontravam em seu pequeno comércio um alívio a suas necessidades mais urgentes, desde o básico da alimentação até uma boa bebida para esquentar a garganta ou um bom momento de conversação para se colocar as idéias em dia.

Estava ali parado desde o inicio da manha, quando os primeiros riscos de um sol, preguiçoso se elevava por entre as folhagens das árvores que se balançavam imponentes no alto do pequeno morro que emoldurava aquela paisagem e pelo qual as pessoas iam e vinham com o passar dos anos, com suas histórias sendo gravadas nas pedras daquele chão.

Pelo mover do sol àquela hora da manhã ele bem sabia que ninguém iria passar por aquelas paragens nas próximas duas ou três horas e meio preguiçoso da vida se preparou para levantar e começar a preparar a arrumação de suas mercadorias nas prateleiras e caixotes onde se podiam pegar os quilinhos de cada coisa a seu bom gosto, conforme exigiam as velhas senhoras do lugar e as mocinhas que depressa demais cresciam e logo se tornariam senhoras cheias de filhos e muitas reclamações dos maridos que vinham ali todas as noites tomar um trago antes de ir pra casa descansar da labuta do dia cansativo.

Levantou-se meio sem vontade e acabou por derrubar a pequena caneca de ágata na qual havia acabado de tomar um golinho de café bem quentinho feito no seu bom fogão de lenha o qual agora enchia a cozinha de fumaça, por falta de madeira para consumir em chamas.

Apenas por um puro reflexo de sua mente já acostumada a sinais estranhos, ao ouvir o pio entristecido de um sabiá que passou voando baixinho, ergueu os olhos para a estrada da descida e ai então o avistou.

Um estranho descia a estradinha, parando de quando em vez para olhar um montinho de mato ou mesmo para tocar com as mãos em uma árvore qualquer. Vinha lentamente pela estrada com um embornal surrado meio caído de lado em suas costas; nem leve ou pesado, apenas com coisas básicas para a necessidade de um homem em viagem.

Com um resmungo, parou os olhos naquele viajante desconhecido que descia a encosta e sua mente o levou a tantos anos passados em que uma mesma situação havia se passado e ele mesmo fora testemunha do que um dia este homem estranho trouxe para o pequeno vilarejo com toda a revolução que havia acontecido e nas lembranças nada agradáveis desta fase em que a vida de todas as pessoas tinha sido mudada para sempre.

Aurelino (este o nome do velho homem dono do mercadinho) olhou meio torto para o visitante que vinha e então se dirigiu para dentro de sua venda, já pensando que novas este novo visitante estaria trazendo em sua bagagem.

Enquanto arrumava o caixote com o arroz de pilão e as meias de rapadura, olhava por baixo do velho chapéu de palha para ver se o viajante iria demorar muito a passar. Em poucos minutos os quais pareceram uma eternidade ao bom Aurelino, o estranho adentrou pelas portas de sua vendinha e tirando respeitosamente o chapéu como a moda de todos os homens residentes no local, se dirigiu ao vendeiro com um:

— Bom dia meu Senhor!

—Baum dia!- respondeu meio entre dentes o vendeiro, doido para que o viajante apenas pedisse uma informação e se fosse logo embora.

—Pode por- favor me servir uma pura para tirar a poeira da estrada? Estou a quase cinco horas caminhando por entre estradas e tomando água dos córregos que encontrei ai pela região.

Aurelino meio contrafeito se dirigiu ao balcão feito de madeira e ali pegou um copo e a garrafa da pinga mais consumida pelos seus clientes, colocando uma dose para o viajante.

—Pode deixar a garrafa, a sede está tão imensa que vou ter de tomar bastante para poder matar!

Esta forma de falar acendeu em Aurelino um sinal vermelho em seu interior, uma sensação estranha de que algo de ruim poderia estar prestes a acontecer mas com calma atendeu ao viajante e foi cuidar de seus afazeres.

Olhando de esguelha viu que o homem tirou de dentro do embornal um mapa e começou a fazer uns riscos nele. Com uma caneta vermelha, ia consultando uma caderneta toda manchada e meio rasgada, e ia aos poucos procurando pontos no mapa e marcando.

Somente o silêncio imperava no lugar e este mesmo só era quebrado pelos riscos que o homem dava em seu mapa e quando o velho Aurelino dava uma raspada na garganta bem a moda do bom sertanejo do lugar.

Eram quase meio dia quando o silêncio do lugar foi quebrado pelo barulho de algumas crianças que vinham barulhando pela estrada se divertindo ao empurrar umas às outras enquanto contavam as traquinagens que tinham aprontado durante a bela manhã.

—Dia Sêo Relino! – disse um menino desdentado e que parecia o mais esperto entre todos do grupo.

—Dia nhozinho Messias! Como vai vosso pai e vossa mãe?

—Vai bem os dois e minha mãe mandou buscar o fubá que o sinhô ia moer!

—Só um pouco e já pego pro nhozinho!

Foi então que as crianças viram o estranho que ali estava a beber a sua carraspana com toda a tranqüilidade do mundo e olhava curioso a cena que se desenrolava.

—Dia sêo moço!

—Bom dia crianças.

O pequeno Messias já ia fazer mais perguntas,quando pela porta da venda entrou meio curvada pelo tempo, com a bengalinha de aroeira na mão para se firmar e uma cara de poucas amigas; Dona Arminda que por todas era considerada como uma velha que fazia bruxarias, falava com o demônio e comia criancinhas.

Foi uma debandada geral dos mais novos, apenas o valente Messias continuou firme em seu posto aguardando as encomendas que tinha de levar para casa e olhava meio torto para a velhota que em gemidos e resmungos pedia as coisas que ia precisar para serem levadas a sua casa:

—Meninos dos diabos... Sêo Aurelino faz favor... cambada de filhos do cão...preciso de um pouco de arroz de pilão e feijão de corda... santa maria que leva estes filhos do capeta pros inferno... se tiver tumém queria levar um poço de carne seca e banha de porco...

E assim seguiam os pedidos entre resmungos e a pressa do bom Aurelino entre tentar atender a todos da forma mais rápida possível para evitar que acontecesse cenas de brigas entre as crianças e a pobre velhinha.

Quando dona Arminda levantou seus olhos e viu o viajante ali parado olhando para a cena, seus cabelos se arrepiaram e então ela se dirigiu a ele falando baixinho de uma forma que só ele escutou:

—Agosto chegou com seus ventos e se foi trazendo as nuvens de um aguaceiro de verão.

Franzindo os olhos o viajante deu um meio sorriso amargo e voltou sua atenção ao mapa que tinha em suas mãos.

Muitas lembranças se passavam neste momento em sua cabeça, os tempos em que as dificuldades batiam na porta de seus pais, a falta de comida e por muitas vezes a violência gratuita oferecida pelas pessoas que moravam ao seu redor.

Uma nuvem de tristeza pousou em seus olhos ao se lembrar o dia em que ao chegar em casa,encontrou o pai dependurado em uma forca dando fim ao seu desespero por não conseguir cuidar devidamente da família que um dia tanto sonhara em ter.

O sol subiu e calmamente começou a descer sob o amontoado de casas que se avistava no pequeno vilarejo. Durante o decorrer deste dia o nosso amigo viajante pode ver que inúmeras pessoas se dirigiam aquele lugar calmo e tranqüilo para poder se refazer em suas necessidades básicas, seja um simples papo ou mesmo o mais essencial para sua subsistência.

Dos diálogos vários que pode presenciar, sempre recebia um cortês bom-dia ou mesmo um boa-tarde de todos que por ali passaram.

Quando se aproximava o final do dia,e o sol se preparou para colocar-se entre as montanhas e deixar que a lua viesse a brilhar em seu esplendor da noite,então ele pode perceber que já era hora de procurar um lugar para se abrigar para por as idéias em ordem e decidir o que iria fazer a partir daquele momento.

Depois de passar um dia inteiro na venda, ele se dirigiu ao sêo Aurelino e perguntou se tinha alguma pousada boa para descansar enquanto decidia qual o caminho que ia tomar depois .

Pagando a bebida, saiu trôpego pela estradinha em direção a um amontoado de arvores que margeava a estrada tentando localizar onde ficaria a tal pensão que o vendeiro acabara de lhe indicar. Com um pouco de dificuldade encontrou o caminho que levava ao amontoado de casas. Já as primeiras estrelas da noite se iniciavam em seu mágico caminhar por entre as nuvens e o nosso viajante misterioso conseguiu a muito custo encontrar a pequena estalagem onde em uma placa gasta pelo tempo guardava os seguintes dizeres:

“Boa cama e comida a poucos reis. Pensão da dona Milu.”

Empurrou a porta e entrou, recebendo em cheio nos olhos a claridade de um par de lampiões a gás que eram um pouco mais forte que as lamparinas a querosene que iluminavam a pequena rua pela qual havia acabado de transitar.

Um burburinho de vozes se calou de imediato à sua entrada, e todos os rostos se viraram para ver o recém chegado. Quem ainda não o havia visto pessoalmente, já tinha ouvido falar sobre ele e a sua misteriosa chegada repentina nesta terra de meu Deus com seu mapa e suas canetas coloridas eram uma novidade já conhecida por todos.

Uma senhora gorda de um largo sorriso se dirigiu a ele e em um falar rápido e divertido o acomodou imediatamente em uma das mesas mais ao canto do local apinhado de boas almas que ali vinham para relaxar após um dia cansativo de trabalho na roça.

— Seja bem- vindo a minha humilde casa, o que posso servir ao “nhozinho”?- perguntou em um meio sorriso, a senhora da fala animada e sorriso animador.

—Venho a procura de um quarto para passar umas noites de descanso enquanto encontro um bom trabalho e uma boa refeição.

—Veio ao lugar certo “nhonho” pois a pensão da Milu, esta sua serva aqui, é a única do arraiá e o lugar certo pro sinhô pousar.

Sorriu do jeito divertido com que ela falava e antes que se desse conta, Milu soltou um grito e logo estava a sua frente uma bela morena de cabelos jogados ao ombro e um sorriso onde faltavam um ou dois dentes; mas ainda assim muito belo.

— Noite meu patrão; me chamo Aninha e estou a sua disposição. Me da a permissão de levar suas coisas pro quarto e já te sirvo um engasga gato e um escardado de feijão com farinha de pilão que é o que tamos tendo pra hoje a noite.

Milu deu um sorriso de aprovação e dirigindo-se ao ilustre viajante que agora passava a ser seu hóspede lhe falou:

—Aqui na rua do Paquetá além de ter a única pensão do arraiá é o único lugar onde os homi dos arredor pode se esquecer das amargura da vida e divertir um pouco com as mais bonitas mulher dama de toda a redondeza mas o “nhonho” pode ficar descansado que terá seu cantinho de descanso.

Enquanto tomava uma boa pinga que havia sido retirada de uma garrafa estranha com algo enrolado dentro que lembrava uma cobra coral, ele passou a olhar ao redor e pode então ver a beleza e a decadência do lugar em um só patamar.

A casa apesar de ter um estilo meio colonial era feita de tijolos adobe e em muitas partes da parede se via que o barro estava caindo e dava ate mesmo para se ver pequenos raios de luz que indicavam que a luz das estrelas podia estar entrando por entre estas frestas.

As mulheres na casa eram poucas e disputadas pelos homes que por ali adentravam de tempos em tempos. Alguns bem vestidos, com suas camisas de linho bem passadas e engomadas, pareciam ser de uma situação financeira um pouco melhor que a dos que ali estavam quando no momento em que ele chegou.

Para estes de boa aparência eram servidas doses generosas de uma bebida que lembrava vinho e que era retirada de um tonel de madeira , enquanto que os demais que ali estavam, tinham de se contentar em tomar uma boa carraspana tirada daquelas garrafas empoeiradas que se amontoavam em uma prateleira cheia de pó e teias de aranha.

Quando resolveu ir se deitar já beiravam as duas horas da manhã e ao se dirigir para o andar onde ficavam os quartos foi acompanhado pela bela moça chamada Aninha que o deixou instalado em um quartinho onde iria dividir o quarto com mais dois vaqueiros que a tempos estavam ali roncando e exalando o cheiro da cachaça que haviam tomado naquela noite sem regras.

Assim que se deitou no colchão de palha e recostou sua cabeça no travesseiro de paina, foi logo vencido pelo sono e o restante de sua noite foi coroada de imagens e lembranças de todas as suas andanças e dos caminhos que havia percorrido para poder chegar até ali.

Notas finais
Ufa! cada linha deste capítulo me deixa sem ar! Quem na verdade é este homem que acabou de chegar na cidade?
O que ele veio buscar?
O que a vida de cada habitante terá de ligação com este misterioso homem?
Acompanhem meus queridos, e vamos juntos desvendar os mistérios desta linda cidade!