Terras Gélidas: Conto de um Sobrevivente
3 Na ponta do mistério
Ainda sentado, olhei para o meu corpo e percebi estar vestido com uma camisola hospitalar; ela se estendia da parte superior dos meus ombros até um pouco mais abaixo dos joelhos. Sua cor era azul clara, e ela cabia perfeitamente em meu corpo. Após saber que eu não estava completamente nu, levantei-me da cama e sentei em sua beirada, com meu corpo quase encostando no armário. Meu corpo estava tão mole que, sem notar, acabei deixando que meu pé entrasse em contato com o chão gelado. Nesse mesmo instante, uma sensação de surpresa percorreu todo o meu corpo. O choque do frio repentino me fez arrepiar e me despertou por completo.
Com as pernas ainda meio bambas, levantei-me apoiando-me no armário à minha mão direita, buscando um jeito de me equilibrar. Minhas pernas doíam pelo tombo que havia levado anteriormente, respirei fundo e dei o primeiro passo com a perna direita.
Alguns segundos se passaram, e notei que nada de ruim ocorreu comigo. Finalmente, havia conseguido andar sem nenhum problema, minhas pernas ainda estavam meio trêmulas, mas já era um avanço, fiz o mesmo movimento com a perna esquerda e consegui me apoiar quase totalmente no chão. Continuei e dei passos bem curtos em direção à outra ponta do armário. Enquanto andava, notei que o armário tinha uma largura significativa, tendo aproximadamente o dobro da distância de uma ponta a outra do meu braço.
Soltei bem devagar minha mão direita do armário e apoiei na parede da esquerda. Olhei para baixo e vi uma pequena mesinha de ferro, que antes também estava sendo escondida da minha visão por conta do armário, logo que olhei para a mesinha, notei que havia uma muda de roupa. Acima dela, havia também um objeto circular. Peguei com a mão direita e o aproximei do meu rosto para ver com mais clareza, notei que ele parecia um tipo de bracelete, mas a tira não era tão grande quanto a de um. O posicionei entre meus quatro dedos, deixando apenas o polegar para fora para facilitar o modo de segurá-lo. Após isso, passei levemente meu polegar sobre a tira do bracelete e notei que ela era lisa, notei também que a tira era preta, com uma linha branca bem ao centro. A linha dividia o preto em duas partes; um pouco acima da linha, havia uma palavra escrita: P.A.Z. Parecia um logo de onde foram feitos ou poderia ser as iniciais de uma loja, pensei. Após alguns segundos, lembrei do sonho que tive onde dois médicos conversavam e citavam essa mesma palavra. A minha curiosidade só aumentava para descobrir o que estava acontecendo e qual era o significado dessa palavra. Mesmo sem respostas para essas perguntas, coloquei com cuidado o bracelete em cima da mesa no lado direito da muda de roupa.
Lentamente, soltei minha mão esquerda que estava apoiada na parede. Com ambas as mãos livres, endireitei minhas costas com intuito de fazê-las estralarem. Levei minhas mãos em direção à muda de roupa e peguei nas pontas da calça, que estava dobrada, esticando-a. Ela era uma calça de moletom térmico, bastante utilizada para a proteção contra o frio. Notei que era térmico por conta da diferença de espessura entre uma de moletom normal e uma de moletom térmico. A cor dela era cinza clara lisa. Assim que retirei a calça da mesa, notei que havia uma camiseta que estava sendo escondida pela calça, mas como já estava com a calça nas mãos, decidi olhá-la primeiro. Com a calça esticada de ponta a ponta, olhei com bastante atenção e vi que nela havia dois bolsos na parte da frente. Virei a calça e olhei atrás dela, e lá também havia dois bolsos. A calça era elástica, pois não vi nenhuma cinta ou algo parecido preso a ela. Após isso, coloquei a calça em cima da mesa, deixando-a esticada, pois logo vestiria. Com as mãos livres, peguei a camiseta pelas pontas e a trouxe para perto. Enquanto a esticava, percebi que era uma camiseta de manga longa, também térmica. Da mesma forma que eu havia notado na calça, a diferença de espessura também foi perceptível na camiseta. Notando que ambas as peças eram térmicas, uma coisa eu tinha certeza: o lugar em que eu estava era frio. Das várias perguntas que eu tinha, apenas uma consegui resposta. Mudei minha atenção desses pensamentos e voltei a olhar fixamente para a camiseta, percebendo detalhes menos importantes, como sua cor, que era azul-claro. Notei também que não havia zíper nela. Pensei que isso poderia dificultar na hora de colocar ou tirar.
Agora que sabia que o lugar onde eu estava era frio, decidi me vestir para enfrentar essa temperatura. Coloquei a camiseta em cima da mesa, peguei a calça e a vesti rapidamente. Após vestir, um calor aconchegante veio em minhas pernas. Com parte do corpo aquecido, rapidamente coloquei a camiseta para não perder o calor corporal que havia ganhado. Após colocar a camiseta, meu peito começou a esquentar, após alguns segundos, decidi não colocar o bracelete, pois não sabia porque estava ali. Olhei para meus pés descalços e, em seguida, agachei para olhar debaixo da mesa, procurando uma bota ou sapato para colocar neles. Sem sucesso, me levantei e fui em direção ao armário. Em frente ao armário, segurei com ambas as mãos nas maçanetas e abri lentamente as portas. Um áspero e estridente som ecoou pelo ambiente. Durante a abertura, as portas balançavam e, devido a isso, um par de botas caiu de seu interior. Por puro reflexo, no momento em que vi que estava caindo, tirei a mão direita do armário, no mesmo instante, estiquei a mão direita em direção à bota. Por questão de poucos centímetros, não consegui agarrar o par de botas, e ele acabou caindo no chão. Sem sucesso, olhei para o par de botas que caiu invertido no chão, e lentamente soltei minha mão esquerda do armário e abaixei-me para pegá-las.
Após agachar, notei que o lugar estava totalmente silencioso. Se houvesse mais pessoas ali, deveria estar barulhento, pensei. O silêncio foi quebrado quando ouvi leves passos vindo do corredor, os passos eram dados em direção ao quarto em que eu estava. Cada vez mais perto, o som dos passos aumentou. Repentinamente, o som parou e senti uma estranha presença do meu lado esquerdo. Era como se alguém estivesse me observando. Qual o motivo da pessoa parar e me observar, eu pensei, mas não queria pensar que a pessoa que me trouxe nessa sala era alguém ruim. No entanto, a sensação de medo foi maior. Eu estava totalmente indefeso e sem lugar para correr ou me esconder. Por breves segundos, permaneci ali parado com a respiração alterada devido ao medo. Aquela sensação de medo foi maior do que quando eu estava hesitante em colocar os pés no chão. Ainda assustado, criando coragem, olhei rapidamente para o lado e vi a pessoa ali parada.
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