TerraforMação
1 Capítulo 1
—Ela já foi sedada? —O primeiro dos homens pergunta, chegando perto do corpo amarrado à cadeira, dando dois tapas leves em sua face, confirmando que ela não acordaria, se reerguendo em seguida e voltando a caminhar pelo cômodo.
—Foi a primeira coisa que fiz. Não pretendo cativar atenção indevida pelos corredores afora. Não de novo. Vai querer alguma outra amostra ou já pegou tudo o que precisava?
—Não precisamos, mas tire uns dois ou três frascos de sangue e medula. Sabe... é melhor pecar pelo excesso.
O diálogo seguia, como uma conversa trivial, enquanto ambos caminhavam pela sala, acompanhados por uma trilha sonora calma, de algum compositor clássico que não era importante conhecer e alguns ocasionais ruídos metálicos.
—Já vai? Você nunca fica para apreciar meu trabalho. Algum dia, eu ainda vou ficar ressentido com esse descaso. — O segundo homem volta a falar, olhando ao redor, procurando, visivelmente frustrado, por algo que deveria estar ali, sem sucesso.
—E eu nunca vou entender esse seu sadismo em se entreter tanto com isso. Por que simplesmente não faz valer seu salário como qualquer outro funcionário? —com uma sequência de bips a porta se abre e o homem a atravessa.
—Faça seu trabalho com amor e não trabalhe mais um dia sequer na vida. É... deixa aberta, eu vou ter que buscar uns frascos na outra sala.
—Hm, vê se não demora com ela. Depois, ainda há muito o que fazer.
E ambos saem, me deixando sozinha, esperando que meu executor retornasse.
—Russ. Você ouviu, né? —Minha voz soava como um sussurro, quase inaudível e arrastada devido ao tranquilizante, o qual não pude evitar.
—Você sabe que sim. Nós vamos te tirar daí. Volta pra seu corpo.
—Espera. Não traz Mic para cá. É muita idiotice o trazer exatamente para onde queriam que ele estivesse. Eu já tenho algo em mente.
—Pie. Não! Nós não temos tempo para planos.
—Eu já sei como sair. Quando o executor voltar, eu tomo conta do corpo dele e finjo que fui morta. Mic vir aqui está fora de cogitação.
—E depois disso, você vai o quê? Sair normalmente pela porta da frente, levando um corpo que deveria estar sendo incinerado? Você não vai conseguir fugir sozinha nem se quisesse, ainda mais sedada como tá. Eu sei exatamente onde te achar. Nós vamos aí, te resgatamos e sumimos. Não vai demorar tanto para oferecer risco para ele. Só volte logo pra seu corpo.
—Merda… tá, tudo bem. Só sejam rápidos.
E no outro segundo, os vejo chegar, coincidentemente, junto ao executor, com os frascos que havia dito. Antes de qualquer reação dele aos intrusos na sala, assumo seu corpo, ficando nele tempo suficiente para que recebesse o soco de Russel sem desviar, que o fez cair no chão, já desacordado.
—Volta logo pra gente sair daqui. —Depois do soco, ele se vira, arrancando do chão a cadeira, junto ao meu corpo, sendo essa última coisa que vi.
Acordo em casa, deitada no sofá. Acima de mim, Russel me observava, sentado no braço em que minha cabeça repousava:
—Eu poderia sair de lá sozinha. Você sabe disso.
—O efeito do sedativo acabou agora, Pietra. Você não acha que, a essa hora, ainda existiria algo de você, acha?
—Quanto tempo eu tô desacordada?
—Desde quando voltamos pra cá… umas nove horas.
—Eu poderia me virar. Não deveriam expor Mic a tanto perigo. Você sabe disso. —Minha voz ainda estava baixa e arrastada, aos poucos recobrando seu tom normal.
—Não interessa o que você poderia ou deixou de poder fazer. Você sabe que tá errada. Não estamos em casa? Não estamos todos bem? Então pronto. Apenas se recomponha pra pormos o assunto na mesa com o pessoal. Vou te fazer alguma coisa pra comer, já volto. —Disse, se curvando e me beijando na testa, encerrando da mesma maneira de sempre boa parte das discussões que ele já assumia estar certo, e indo para a cozinha, fazendo um sorriso, involuntariamente, surgir nos meus lábios, enquanto o observava sair.
Ainda sonolenta, apago por mais um tempo —não sei muito bem quanto —mas quando acordo, um prato com queijo-quente e um copo de chocolate gelado estão na mesinha a minha frente. Provando o sanduíche, ainda quente, e o chocolate, ainda gelado, constato que não passei mais tanto tempo desacordada. Me sento e vou comer, vendo todo o grupo se amontoar na sala, entre balbucios, esperando que eu terminasse para, junto de Russ, começarmos os relatos:
—Pronto, todos aqui. A missão não correu como esperado. Ela, com toda a certeza, não correu como esperado. Mas não foi um fracasso total, né, e a captura de Pietra ao menos nos deu algumas respostas e informações. Vamos do começo. Ela ainda não está completamente recomposta, então deixem que ela fale tudo o que tem para falar antes de se pronunciarem. Não precisamos de uma comoção desnecessária. —Russel diz, enquanto eu terminava a bebida do copo, fazendo silêncio logo após, me deixando falar.
—Antes de mais nada, mesmo com a negligência de Russel, acho que tenho que te agradecer, Mic —de novo —por ter ido me salvar, mas que isso não se repita. Ouvi, nas reuniões deles, ressaltarem a urgência da sua captura. Mas então, eu fiquei lá uns quatro dias. Não foi o bastante pra ficar a par de tudo que se passa, mas descobri coisas, como Russ disse, importantes. Primeiro, e obviamente, onde a base fica e praticamente decorei sua planta, percorrendo o prédio de cima abaixo, quando deixavam meu corpo sedado. Nós precisamos ir para lá, ainda hoje, para destruirmos o prédio principal e saquear o arsenal deles, reabastecendo o nosso. A nova leva de alterados chega, provavelmente, nessa noite.
—Mic, depois de derrubarmos a base hoje, vamos ver como prosseguir com tudo isso usando menos dos seus poderes. Faremos de tudo para defender você e evitar ao máximo que saia daqui de casa… ah, perdão, Pie, continue.
Assim que Russ me interrompe, vou para a cozinha lavar meu prato e sigo falando de lá, num tom mais alto para que fosse ouvida:
—Enfim, durante minha estadia lá, me submeteram a sei lá quantas baterias de exames e amostras minhas foram coletadas mais vezes ainda. Não sei no que aplicarão os resultados que tenham alcançado, e menos ainda quais resultados eles buscam alcançar, mas devemos cogitar o pior: eles podem saber como replicar esses resultados e nós sejamos apenas úteis para fornecer material de estudo. Deve ser por isso que iriam sumir com meu corpo depois que deixei de ser útil pra eles. Acho que eu era um tanto quanto descartável, visto que estava prestes a ser morta. Aliás, eu também ouvi, em alguma reunião que me meti, que foram eles próprios quem nos criaram; algo como se houvesse o dedo deles no meio do surto de nascimento de nós, “alterados”.
—Até que faz sentido. Não somos lá tão controláveis para servirmos à causa deles, independentemente de quais sejam. Não dá pra se confiar funções a quem não se dispõe a acatar ordens. Logo, uma amostra de material é muito mais fácil de se manter que um “mau funcionário”. —Jamie suspira desesperançosa, comentando a conclusão que chegou sobre o provável destino em caso de captura.
—Certo, outra coisa —Noah começa —o que vocês pretendem fazer com o agente que trouxeram pra cá? Russ nos disse que explicariam agora, na reunião.
—Agente? Que agente? —Olho curiosa, na direção de Russel, esperando que ele se explicasse, inclusive para mim, secando as mãos e apanhando um punhado de biscoitos antes de voltar para o sofá.
—É, quando eu trouxe você, aproveitei e trouxe junto o seu executor, que eu pus para dormir. No fim das contas ele provavelmente morreria durante a explosão de mais tarde, então nada mais que justo adiar sua morte, enquanto ele nos for útil e puder nos dar informação.
—E você garante que trazê-lo pra cá, não é um risco? Podem estar rastreando-o, e a procura pode acabar os trazendo direto para o esconderijo.
—Relaxa. Antes de virmos pra cá, eu e Mic levamos ele para um lugar qualquer para procurar, justamente, por qualquer rastreador; era melhor fazer isso longe daqui, justamente para caso houvesse, levassem eles a procura-lo em um lugar aleatório. Mas como não encontramos nada, era seguro o trazer pra cá. Ele está no andar de baixo, amordaçado, então nem se preocupa, depois, a gente o elimina.
—Tomara que você tenha razão. Quando voltarmos mais tarde, a gente vê o que podemos tirar dele. Mais alguma coisa? –pergunto, encerrando a discussão, tomando como resposta o silêncio, que logo é interrompido:
—E você a achou? —era de cortar o coração ver a cara tão esperançosa de Michael sempre que fazia essa mesmíssima pergunta, a cada vez que saíamos em missão.
Bufo antes de dar a resposta negativa e tirar mais um pouco da esperança deles:
—Queria que sim, mas não, ela não estava lá também. Mas não deixe que isso te abale, não hoje. Nós ainda precisamos voltar lá e derrubar o prédio antes da próxima leva de alterados chegar. Agora não há nenhum inocente lá. É a melhor hora para executarmos nosso plano. Então, vão lá descansar, que na hora que formos, os chamaremos.
Haviam se passado algumas horas desde o fim da reunião. Nesse meio tempo, nos preparamos para um retorno ao quartel-general. Tínhamos pouco tempo para preparativos —a nova leva de alterados capturados chegaria, no mais tardar, ao amanhecer —mas tínhamos tempo o suficiente para deixar Russel e Mic, os únicos necessários para a ocasião, a par de suas funções, que não se diferenciavam das que já comumente prestavam.
—Noah, traz a gente de volta —e num instante todo o ambiente externo ao prédio abandonado em que moramos se transmuta. De uma imensidão âmbar, com absolutamente nada ao redor, para as favelas de Hidalgo, Texas. —Você já sabe a hora que precisa voltar, né?
—É, é, tô sabendo... vê se não se atrasam também.
Nos afastando do prédio, este some e nos deparamos com o terreno baldio, de onde a construção sempre desaparecia e para onde ela sempre voltava. Todos parados um ao lado do outro, damos as mãos, para que Mic nos teletransportasse até a sala de segurança, já surpreendendo o agente com um golpe na nuca que o desacorda. O deixando amarrado, no canto da sala, vou para as câmeras, analisando a movimentação dos corredores, principalmente daquele para onde iria primeiro.
—Podem ficar aqui. Caso alguém venha pra cá, por esse corredor —aponto para a filmagem de um dos corredores, o caminho até a sala em que estávamos —vão para qualquer outro lugar, até que eu os chame. —Antes de ir, me aproximo de Russel e faço com que encoste sua testa na minha.
E já deixando meu corpo ser envolvido por seus braços, minha forma etérea sai e Russ tem que tomar conta de todo aquele peso morto, o que para ele nunca foi uma tarefa tão árdua. Respiro fundo e mergulho em direção ao chão. E antes que desse de cara com o piso, eu o atravesso. Faço o mesmo por mais alguns andares até avistar no meu caminho o primeiro agente a rondar pelo local. Um tanto estranho achar somente um e com demasiada demora. Deve ter alguma relação com a chegada dos alterados. Minha forma etérea assume seu corpo, inibindo sua consciência e tomando todo o controle. Agora é torcer para que esse despovoamento no prédio continue até onde eu queira chegar.
Dali, pego o elevador em direção a meu primeiro alvo: a sala de ventilação. Com boa parte da edificação sendo no subsolo, era necessária uma infinidade de enormes tanques de oxigênio, para caso fosse necessária a entrega de ar para os andares inferiores, numa eventual falha. Com um explosivo não tão grande, já conseguiríamos fazer um grande estrago. Com os que guardamos para essa ocasião então... Chegando à porta deste setor, o campo de força que previa que estaria ativo, estava. Para uma dependência de tamanha importância, realmente se fazia necessária uma segurança à altura. Se não pelo corpo que habitei, minha forma etérea não chegaria ao outro lado, pois a barreira energética impermeabilizava o recinto contra qualquer coisa, imaterial ou não. Mas com o crachá do agente, minha passagem estava garantida. Porém, no portão de acesso, outro agente se encontrava na supervisão da passagem e, ao que descobri, ele era um tanto quanto íntimo do meu hospedeiro:
—Frank, a que devo a honra da sua visita aqui na parte suja da casa?
—Nada demais. Ordens da chefia para checar o bombeamento de oxigênio lá no Subsolo III. Ou o tanque esvaziou e não conectaram a um novo ou deve haver alguma obstrução não reportada. —Não sei como meu cérebro conseguiu pensar numa desculpa tão complexa tão rápido, mas aparentemente ela colou.
—Já que é só isso, não se dê ao trabalho. Minha função é estar a par de tudo o que acontece porta adentro. Não quero que suje suas mãos num trabalho mundano desses. —Ele diz rindo, como se a distinção de nossos empregos fosse algo passível de uma corriqueira brincadeira “nossa”.
—Eu já me dei ao trabalho de descer 5 andares até a favela do prédio, —digo rindo, entrando na brincadeira, torcendo para não estar passando vexame e causando estranheza —não será apertar um ou dois botões pra checar uma besteira que vai mudar todo o trabalho que já tive.
—A favela né? Quando você trabalhava aqui, não ouvi uma vez reclamações suas. Tá certo, deixa eu parar de te atrasar. —Me dá dois tapas de leve no ombro e se ajeita no banco alto em que estava.
—Valeu. Fica aí olhando pro nada, checando o corredor vazio, que eu tenho o que fazer. —Rio, enquanto passava o crachá no scanner, derrubando o campo de força temporariamente para que passasse.
Alguns metros, corredor adentro, avisto a porta da sala de ventilação. Aquela divisória de metal não precisava de autorização para entrar, seria redundante, ante o portal impenetrável de energia anterior. Então já poderia me desfazer do corpo. Miro a mesma e corro em sua direção, jogando a cabeça mais à frente do que o resto do corpo. E, no instante antes de colidir contra a porta, saio do corpo, deixando-o numa rota irreversível rumo a ela. O barulho da cabeça se chocando contra o metal, causaria alarde, se não fosse comum barulhos como esse, enquanto os controladores manuseavam os tanques. Com o corpo do agente agora desacordado, posso contatar Russel para que ele venha até mim e sigamos com o plano. Assim que ele chega reassumo meu corpo e tiro de meu casaco dois explosivos de ativação remota. Com um pequeno punhal, que sempre carrego, rompo o lacre de alguns dos tanques, só pra fornecer mais oxigênio à reação e planto os explosivos em locais discretos na sala, para que não fossem encontrados, caso chegassem ali antes de serem detonados. A explosão causaria uma considerável avaria, mas não suficiente de trazer tudo abaixo. Era necessário, colocar explosivos noutros pontos do edifício para garantir que daria tudo certo.
—Russel, antes de seguirmos —me viro para ele entregando o punhal —resolve o “problema” do guarda lá fora. Ele provavelmente deva estranhar, daqui a pouco, a demora do nosso amiguinho caído ali e atrapalhar nosso planejamento.
Assentindo com a cabeça, ele cruza o corredor com a mínima pressa e voltar com a mesma tranquilidade, exibindo a lâmina tingida de vermelho:
—A segurança daqui não deveria ser pelo menos... melhor? —diz descontraído, com a facilidade que as coisas estavam ocorrendo, me devolvendo a lâmina, após limpar no agente desmaiado ao nosso lado.
Novamente, me desvencilho de minha forma material e cruzo por entre os andares do prédio. Antes de passar despercebido por um cômodo, como fiz por todos os outros, chego ao objetivo secundário. Aqui não haviam campos de força nem nenhum entrave, era necessário que o acesso ao aposento fosse rápido e fácil para todos. Se no arsenal do nosso prédio não tínhamos praticamente nem munição, os mais diversos armamentos estavam à disposição ali. Chamo Russel e, quando ele e Mic chegam, os olhos de ambos brilham ao se depararem com tudo aquilo:
—Nossa… Isso vai resolver nossa falta de armas por um bom tempo. —Russ diz com um ar de contentamento ao achar a mina de ouro, enquanto Mic some, entendendo sua deixa, logo reaparecendo com uma dezena de sacolas pretas, daquelas famosas por guardarem armas, e mais algumas mochilas, sabe-se lá de onde. Alguns minutos depois, todos os compartimentos de todas as bolsas se encontram abarrotados, de armas, granadas, pentes e caixas de munições, miras, e os mais diversos equipamentos, que nos seriam úteis. Mesmo com todo o material que iríamos subtrair, a imensidão do arsenal ainda fazia parecer como se ninguém tivesse passado ali.
Somos teletransportados de novo, sem antes deixar no galpão um de nossos explosivos, indo para um casebre na favela onde nosso prédio ficava, um ponto seguro de nosso conhecimento, numa área pouco movimentada, mas tão perigosa quanto qualquer outra. Ali largaríamos tudo, para recuperarmos ao fim da missão, e voltamos para a sala em que chegamos, mais uma vez monitorando as câmeras, antes que saísse novamente do corpo, para vagar por entre as paredes, agora em busca da viga estrutural principal, que foi posta no meio exato do prédio. Destruindo-a em 3 ou 4 pontos diferentes, além das explosões dos outros dois pontos, pouco restaria além dos escombros.
—Russ, o monitoramento e a segurança estão desregulados hoje em comparação aos dias em que estive aqui. Tô começando a pensar que a gente não vai mais ter essa sorte de não se encontrar com ninguém pelo caminho. Vocês terão que chegar onde eu parar e já colocarem o explosivo, enquanto eu já vou para o próximo ponto.
Ele consente e assim que o vejo chegar no ponto em que estou, logo vou descendo pelos andares em direção ao próximo. Quando rumava para o quarto e último ponto da viga, algo que não desejava encontrar. Todos os andares e todos os locais em que parei estavam desertos, sem ao menos um vestígio da passagem de alguém pelos últimos minutos. Mas como passamos um tempo relevante roubando armas para nosso arsenal, estávamos mais próximos da chegada da leva de alterados, e a movimentação aparentemente havia se alterado, de novo. Uma escolta armada passava pela minha frente e antes que conseguisse sinalizar que não era para eles virem, eles surgiram diretamente ao lado da tropa que passava. Uma falha de comunicação que muito provavelmente acarretaria na nossa falha.
Assim que os dois e meu corpo desfalecido surgem no recinto, uma dezena de ruídos de armas se engatilhando e mirando para eles ecoou no saguão do andar administrativo. Um dos homens, com uma roupa um tanto quanto diferente, em comparação ao resto da formação, abaixa sua arma.
—Vocês são muito complacentes. Além de trazerem ela, desacordada, para acabarmos o trabalho incompleto, ainda nos trazem o nosso tão desejado saltarelo. Deveria agradecer e muito pela boa vontade de vocês de pouparem um árduo trabalho em caçá-los.
Reconhecendo a voz, noto que era o mesmo homem junto ao executor mais cedo. O terno que ele usou provavelmente escondia os grandes músculos que este traje salientava. Reassumo meu corpo e finjo permanecer inconsciente. Sobre os ombros de Russ, coloco a mão no bolso do casaco, por detrás do corpo dele, num ângulo imperceptível para os soldados. Alcanço o último dos explosivos e sussurro no ouvido de Russel para preparar Mic para nos teletransportar para qualquer lugar distante, ao som do explosivo caindo ao chão.
Russel transmite mentalmente a informação, assim como fez para indicar todos os locais em que Mic deveria se teletransportar. E com o barulho do explosivo caindo no chão, sumimos de lá. Mas sem antes assustar um dos soldados e fazer com que disparasse uma bala em nossa direção. No momento, só se ouviu o estampido, mas assim que chegamos a um lugar distante e a adrenalina reduziu, percebo que não fora um disparo falho.
Como estava jogada sobre o ombro de Russel como um cachecol, minha coluna estava totalmente exposta, e quando o soldado disparou, a bala atingiu em cheio minha coluna. Um grito estridente foge à boca quando a adrenalina, que inibia a dor, cessa e toda a sensação toma minha consciência. Quando Russ me tira de seu ombro e vê as costas de minha roupa ensanguentada, como boa parte de seu casaco, ele se descontrola. Rapidamente alcança o controle em seu bolso e o ativa, fazendo com que as cargas explodissem no prédio, que já não estava mais ao alcance dos olhos. Uma das últimas coisas que eu consegui ver com clareza antes do meu corpo começar a ruir e a visão ficar turva, e a audição falha, fazendo com que o diálogo já chegasse aos meus ouvidos, como orações incompletas e ruídos indetermináveis. A silhueta dele, única coisa que consegui distinguir, olha para seu pulso, provavelmente para o relógio e talvez ainda faltasse alguns minutos para que Noah trouxesse a casa de volta para que pudesse receber os devidos cuidados. Minutos era tempo demais. A lesão, se não tratada imediatamente, poderia causar sequelas irremediáveis. Precisava de cuidados agora. Não havia tempo a perder:
—Mic, nos deixe ...Kamilla, volte ...e, quando... voltarem... que peguem as armas.... Se perguntarem, só diga... ela já vai... pela irmã. —Ele ordenava, tentando fazer com que seu lado imperioso sobressaísse à sua contraparte, momentaneamente, desesperada.
—Mas Russel... não gosta de você, e... vai ficar muito feliz... Pietra, e você bem...
—FODA-SE MIC... Se demorarmos ... ela vai conseguir... ela vai ter que... A dívida que tem... suficiente para pedirmos... LEVA A GENTE LOGO!
. Minutos era tempo demais. A lesão, se não tratada imediatamente, poderia causar sequelas irremediáveis. Precisava de cuidados agora. Não havia tempo a perder:
—Mic, nos deixe ...Kamilla, volte ...e, quando... voltarem... que peguem as armas.... Se perguntarem, só diga... ela já vai... pela irmã. —Ele ordenava, tentando fazer com que seu lado imperioso sobressaísse à sua contraparte, momentaneamente, desesperada.
—Mas Russel... não gosta de você, e... vai ficar muito feliz... Pietra, e você bem...
—FODA-SE MIC... Se demorarmos ... ela vai conseguir... ela vai ter que... A dívida que tem... suficiente para pedirmos... LEVA A GENTE LOGO!
E no segundo após este, estamos num matagal.
Fomos concebidos como armas a serviço da nação, mas divergimos do destino que nos fora imposto e agora combatemos aqueles que nos criaram.
Um lugar normalmente inóspito se não fosse por uma cabana de madeira com uma iluminação trepidante de fogo.
Eles são as pessoas mais controversas de que já ouvi falar: por um lado, disseminam o ódio e desprezo por nós, dizendo sermos indignos de estarmos vivos, que somos impuros, inferiores ao resto da população.
E este é o último vislumbre que eu tenho antes da dor se tornar além do insuportável e eu desmaiar. Sair do corpo seria inútil nessa situação.
Mas, em contrapartida, são os mais aficionados em nossa existência, não se esquecendo de nós por um segundo sequer.
O dano que sofro na forma física se espelha na forma etérea. Então as mesmas dores que sinto, sentiria do lado de fora de mim.
Pois bem, seremos o exército que eles anseiam que salvará a pátria.
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