BOOM.

Era quase um ritual sagrado para nós. Sempre deixávamos Mike nos teletransportar para algum lugar perto do prédio em que estávamos e nos acomodávamos para deixá-lo assistir à queda de mais um deles, vendo nossos esforços tendo o resultado desejado, enquanto as últimas forças da onda de choque nos atingiam, trazendo no ar nada mais que a satisfação. Fazíamos isso ao fim de todas as missões, mas hoje, quebramos nossa tradição. Porque eu tomei um tiro nas costas e tínhamos coisas mais importantes para tratar, como o futuro da minha mobilidade, por exemplo. E este é o exato momento em que minha consciência é recobrada e toda a dor volta a mim. E a única reação que poderia ter estava para acontecer:

—AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! –a dor, neste instante, era imensuravelmente menor que no instante em que a senti pela primeira vez e o grito que morreu no instante em que desmaiei de dor, volta à minha garganta. Tentaria me contorcer de dor, se não estivesse amarrada de bruços numa cama.

Presa? Numa cama? Nua? E se não fosse o bastante, mesmo com a sensibilidade do meu corpo, abaixo do local onde fui atingido, ter se mirrado, ainda conseguia sentir um peso recaindo sobre minha lombar.

—Olha, se ela não acordou. Só vê se fica quieta, pois eu já estou quase no final do trabalho e não quero que você cague em tudo que já fiz e me obrigue a recomeçar essa merda, que o chantagista do seu namorado me obrigou a fazer. –Dizia uma voz feminina, com um tom tenso, como quem se concentra em realizar um movimento preciso e meticuloso. E lapsos de memória voltam à minha consciência, do momento em que esta já tinha se perdido. Russel tinha me trazido para casa de Kamilla, mas que Inferno. Antes me deixar paraplégica a ter que estar perto daquela… dela.

—Cadê Russ? Idiota, por que me trouxe aqui? –pergunto, sofregamente, com uma voz mais tensa do que a que ouvi, espremendo o colchão entre os dedos.

—Está lá fora, disse que precisava assegurar que ninguém se aproximasse… de um casebre, isolado no mato, escondido de qualquer resquício de civilização, no meio do nada e perto de lugar nenhum… Olha, todas as vezes que vocês veem me visitar acontece alguma merda, mas ele é sempre inseguro assim? –diz-me num tom debochado, mas ainda concentrado –E você acha que eu queria estar cuidando de você? De novo? Logo você?

—Como se o que fizéssemos não melhorasse sua vida também. Estamos recriando o país para que possamos viver sem que sejamos caçados todos os dias. A passos curtos, mas estamos. Não seria bom sair desse casebre e ir para as ruas, como qualquer pessoa comum?

Ela solta um breve riso sarcástico antes de me responder com o mesmo tom irônico:

—Ao menos, em algo a gente concorda: se tem uma coisa que esses passos são, essa coisa é “curtos”. Vocês estão nessa brincadeirinha há quanto tempo? 3 anos? Não, me lembro que essa palhaçada é um tanto mais velha. E quais resultados você e seu namoradinho tiveram? Juntar um grupo de idiotas que acreditam que umas 10 pessoas vão mudar um país inteiro, perder um ou dois amigos –diz, intensificando o tom de sua voz nessa parte, fazendo menção a eventos que a atingiam –e destruir menos bases do que as que foram criadas nesse período. Olha, se vocês quiserem que essa empreitada surta efeito, acho que deveriam tentar ser um pouco mais rápidos, ou não vão melhorar em nada a vida de ninguém, até por que não haverá mais ninguém para ser ajudado.

—Eu até queria achar mais mutantes para integrar a equipe. Mas acho um pouco difícil se encontrar com um, morando em outra dimensão, para esconder um dos mutantes mais procurados do país e outro que o governo talvez sequer tenha ciência de que existe. Mas não se preocupe, na próxima vez que for comprar pão eu coloco um cartaz chamando novos membros para nosso clube secreto. Com endereço e tudo mais. –Embarco na sua ironia, já frustrada com sua impertinência e falsa integridade.

Mas, em nossa discussão, que sempre se repete quando nos vemos, com os mesmíssimos argumentos e pontos de vista, uma coisa me ocorreu. Eu não sei quanto tempo passei desacordada, mas independente do quanto fora, Russel já deveria estar de volta, caso não tivesse encontrado nada no matagal. A mata, que rodeava a cabana de Kamilla não media mais do que um terço de hectare, logo não era tão demorado para ele averiguar a presença de alguém nela. Nas planícies, colina abaixo, muito mais fácil era notar a chegada de alguém. Algo estava muito errado nisso:

—Russ não está lá fora a muito tempo, não? Acho melhor ir ver.

E no silêncio que fez, percebo seu consentimento, afinal, ela, que estava acordada todo este tempo, sabia quando ele tinha saído e a depender de quando, já cogitava alguma anormalidade também. Além do mais, pra ela, seria muito melhor, se concentrar comigo inconsciente sem discutir com ela. Sorte da cura da minha forma etérea ser mais rápida que a física.

Assim, me desfaço de minha forma corpórea:

—Sabe quando você sente que tem algo fora do lugar, mas, aparentemente, nada está errado? –ele começa, tendo notado a minha presença astral no instante em que me projetei para fora –Pois então, estou rondando isso aqui faz horas, por que estou sentindo uma presença ao nosso redor, mas como dá pra ver, nada aqui, além de mato. Sempre que eu chego no lugar que sua consciência sinaliza, o que era pra estar lá, simplesmente não está e no mesmo instante um novo lugar é sinalizado. Como que isso é possível?

—Quem sabe, talvez não seja um mutante invisível nos observando, ou alguma outra coisa. Vou dar uma rodada, para ver se consigo encontrar algo. –Pela lógica, era essa a única explicação plausível.

—Não é isso. A presença desse… qualquer coisa que isso for, é estranha. É algo inconstante, como se não estivesse aqui, estando aqui. É estranho explicar o que eu estou sentindo. Mas volte para seu corpo. Ele ainda não está recuperado e você não será útil debilitada como está.

—Tudo bem… ah, a gente vai ter que conversar sobre o Mike.

—O que tem ele?

—Como o que tem? Antes de eu desmaiar, eu ouvi você gritar com ele e xingar.

—Ah, Pie, no momento de nervosismo eu perdi a noção. Você não deveria se importar com isso.

—Russel… ELE TEM 5 ANOS E VOCÊ 23! Não tem desculpa para isso, você vai se retratar com ele quando voltarmos. Se tudo para nós é difícil, para ele são infinitas vezes pior.

—Certo, Pietra, agora volta logo e me deixa aqui, que eu vou continuar a averiguar.

—Tá bem –e no caminho de volta para meu corpo, noto a silhueta de um indivíduo escondido no mato, encarando Russ fixamente, observando, meticuloso, seus movimentos –Russ, acho que eu achei seu alvo. Venha para onde eu estou, AGORA!

E ele veio, precavida e lentamente para onde eu estava e, no instante que ele chega até mim, o vulto que estava ali, simplesmente some de meu campo de visão. Do último instante para este, sua existência se desfaz de onde estava.

—Mas ele estava aqui, literalmente, até este exato momento. Eu não estou mentindo.

—Eu sei que não. Eu falei, tem algo de estranho com esse ser. Mas não se preocupe. Volte para seu corpo, que eu tomo conta daqui de fora. Menos mal que até agora ele não tentou nada de mau contra nós.

—E então? –Kamilla questiona prontamente, após sentir, entre suas pernas, o espasmo de meu retorno.

—Ao que parece a “insegurança” dele tem motivos. Russ percebeu a existência de algo por aqui, e eu até que vi um vulto de alguém, mas quando o chamei, qualquer coisa que eu tivesse visto simplesmente tinha sumido na minha frente.

—Mas que ótimo! Como se vocês dois já não fossem suficientes. E é por essas e outras que eu odeio quando vocês estão aqui! –incrivelmente, ela conseguia se concentrar em seu trabalho, mesmo exaltada como estava –Sempre alguma coisa anormal acontece quando o pé da salvadora do país pisa em minha casa!

—Mas não fomos nós quem trouxemos isso conosco. Nada daquela instalação nos seguiu até aqui.

—Não foram vocês, não. Também não foram vocês que trouxeram o controlador de fogo que procurava pela Jamie, que causou um incêndio na minha casa e sobrou pra eu ter que reconstruir SOZINHA! Ou também não foram vocês que roubaram algo de um bando de mutantes, e iniciaram uma briga na porta de minha casa, acabando com a minha plantação de ervas que cresciam desde a última vez que vieram. E agora, senão suficiente, um “sei lá o que” que some e reaparece e que nem com um poder capaz de rastrear alguém é rastreável. E tudo por que? Porque eu sou idiota o suficiente pra não aprender que a presença de vocês dois e seu grupinho sempre resulta em problemas.

—Kam…

—Não. Sem desculpas dessa vez, Pietra. Elas já deixaram de me interessar a muito tempo. Eu já cansei. No segundo em que eu acabar com sua coluna, você vai se levantar e ir embora com Russel. Não me importa como. Se vire. Eu não quero ver vocês pelo máximo de tempo possível.

Sua revolta era compreensível. Sendo assim sequer fiz questão de rebater e simplesmente aceitei seus termos. E no decorrer do processo, ficamos no silêncio que tomou o recinto. Russel não havia entrado até então e no momento em que eu estava para me vestir ele surge no quarto:

—Tudo terminado, não é? Então, vamos embora, Pie. Eu ouvi a conversa que tiveram e acho que realmente é melhor que não estejamos aqui para evitar problemas. O que quer que estivesse aqui, não deu as caras até agora. Provavelmente não vá oferecer perigo a você, Kamilla, quando formos embora.

—E ainda entrou na minha cabeça pra ficar bisbilhotando? Pu… Eu não digo mais nada! Só se arrumem logo e sumam daqui.

Atendendo ao seu pedido, e ao meu desejo, me levanto e começo a me vestir. Mas no momento em que passo a camisa pelo meu pescoço, um estrondo ocorre lá fora, como se algo pesado caísse no solo. Então Russel, toma a iniciativa e sai correndo. Eu me desvencilho de meu corpo o deixando cair e o sigo.

No caminho, enquanto passava pelas paredes, só fui capaz de ouvir o grito irado de Kam:

—Mas que MERDA!!! De novo não...

Me senti culpada por novamente tirá-la de sua paz, mas eu estava ali contra meu desejo. Também não tinha responsabilidade nenhuma por aquilo.

E ao chegar ao lado de fora, Russ, que irrompia pela porta, e eu vimos um ser incomum. Este não era, nem de longe, o dono da silhueta que tinha visto, então haviam duas ameaças a se lidar.

O ser era hediondo. Uma entidade disforme que parecia a amalgama de diversos outros seres. Seus braços eram ímpares: um deles parecia ter sido retirado de um monstro, com espinhos e uma couraça visivelmente rígida e grossa, e implantado nele. O outro, era um braço humano, normal, senão pela sua musculatura, assim como seu tronco. Suas pernas eram bestiais, com aparência animalesca. E sua cabeça era algo abominável. O mesmo material encouraçado de seu braço direito recobria o topo de sua cabeça. Seus olhos cada um tinha uma coloração diferente: Um totalmente vermelho e outro branco, irradiando uma luz pulsante da mesma cor. Sua boca, sequer se fechava, perante o tamanho de suas presas.

—Mutantes. Caiam.

Ele simplesmente disse isso e, sem tempo de reação nossa, partiu em investida, em direção a Russel. A mensagem era autoexplicativa, mas, qual o motivo disso? Eu estava pensativa quanto a frase dita, mas logo fui trazida de volta por um grito:

—Pietra! Acho que você já pode fazer seu negócio. –Ele grita, desviando do monstro no último segundo, incapaz de fazê-lo antes, tal qual era a velocidade da besta. O ser passa no vácuo e só consegue interromper sua corrida alguns metros afrente

Assim, o faço. No instante em que o monstro se vira em uma nova tentativa de ataque a Russel, me entreponho entre eles e, no instante em que o monstro estava a passar por mim, faço com que minha forma etérea penetre em seu corpo. Logo ordeno para que cesse os ataques, começando a controlar seu corpo. Russel sabendo que eu havia tomado o corpo, simplesmente para de correr, prevendo que o monstro não mais tentaria golpeá-lo. Mas pela primeira vez na vida, meus comandos sequer foram ouvidos, menos ainda, atendidos. O monstro se aproxima de Russ, o suficiente para golpeá-lo com seu braço encouraçado, arremessando-o para longe.

—PARE!! –novamente ordenei ao monstro. Mas a resposta, que normalmente é passiva, dos indivíduos que assumo, veio mais potente que a minha.

—NÃO! SAIA DAQUI!!! –dizendo isso, ele se abstrai totalmente da minha presença e toma impulso com uma das pernas, o levando para junto de Russ, num único salto, dando um chute em sua barriga com a perna oposta, levando o corpo de Russel para mais alguns metros adiante.

—O que… O que é você? –Apreensiva, pergunto ao ser que me respondia.

—Quimera F-02.

—E por que seu ódio contra nós, mutantes? O que nós te fizemos? –a partir deste instante começo a sentir seu corpo rejeitando a minha presença. Sua mente estava corrompida

—Vocês existem. Nos arrancam de nossas vidas. Nos transformam em monstros. Eu irei matar todos. Irei evitar mais desgraça –o trauma sofrido era tamanho, que havia colapsado seu intelecto. Ele sequer conseguia formar frases mais complexas que as ditas.

—Mas como você pode nos culpar por isso? Não é nossa responsabilidade o que fazem com vocês. Nós não causamos isso. Nós sequer somos responsáveis pela nossa própria existência –minha voz se fazia esforçada. Minha força estava se esvaindo, se dividindo em tentar, inutilmente, controlar a mente daquele indivíduo, corrompida demais, e forçar a me manter ali por o quanto fosse possível.

—Se nenhum de vocês existirem, não haverá como ser criados mais de nós. –Sua deturpação mental era tanta, que sequer tomava suas atitudes baseando-se em lógica. Era um ser praticamente irracional, movido pelo ódio que se criou durante o processo que o levou ao seu estado atual. E enquanto tínhamos aquela discussão, sua visão, que estava sendo compartilhada comigo, me permitia observar a luta que estava sendo travada. A Quimera, efetuava uma sequência de ataques, muitos dele impossíveis de serem desviados ou aparados. Mas a resistência de Russ, permitia que ele aguentasse melhor os golpes desferidos. Ao menos até um certo ponto.

—Por favor, pare! –Suplicava, enquanto minha forma etérea era repelida, rejeitada, num evento que nunca experienciei. Enquanto a luta decorria, vasculhava na mente dele, memórias, experiências, qualquer coisa que preenchesse as enormes lacunas que sua explicação criou, tentando montar a história por trás daquele ódio e corrupção.

—EU JÀ MANDEI VOCÊ SAIR!! –sua mente era tão fragmentada, mas, mesmo assim tão forte, que além de me incapacitar de controlá-la, estava, também, prestes a ser capaz de me expulsar de um corpo, pela primeira vez.

E então, eu alcanço. Consigo acessar lapsos de memória, apenas as mais recentes, que as fissuras de sua mente permitiam ver. Mesmo quase sendo expulsa, desisto de controlá-lo e apenas foco meus esforços em desvendar aquela dúvida. Ele tinha uma família. Logo depois estava numa base de testes. Não tive acesso ao destino de sua família. Ele recebeu implantes de DNA de mutantes, tornando-o naquilo. Ele sofreu lavagem e se tornou suscetível a comandos. O único comando que ele recebeu antes de a base ser destruída por nós, foi o de matar mutantes. E então cenas horríveis me são mostradas, mais do que todas as anteriores. Ele passou as últimas horas matando mutantes, e no caminho dele estava a casa de Kamilla. O comando que ele recebeu, se associou às suas memórias fragmentadas, assim ele idealizou que nós tínhamos culpa pela separação de sua família e todo o sofrimento a ele causado

Então, minha forma etérea entrou em colapso. Eu fui expulsa de seu corpo. Sua mente era tão horrenda quanto seu exterior. Totalmente corrompida, deturpada, fragmentada. Algo que nunca cogitara ver de tal forma. Eu não fui capaz de fazer frente àquela força mental. Eu saí dali sem consegui pensar. Sem consegui agir. Aquela experiência havia me traumatizado. Assumi e afirmei que, depois daquele evento, nunca mais iria me apossar de alguém. Eu não queria mais tomar outros corpos, apenas ficar e permanecer no meu. Para sempre. Eu estava certa disso. Quando sai do corpo, Russ me pergunta o que eu estava fazendo fora dele. Eu simplesmente tenho forças de responder:

—Eu não consegui permanecer ali. Eu não consegui.

E então retorno para meu corpo, ficando ali no chão, imóvel, com a mente conturbada, enquanto lá fora, meu namorado poderia até morrer. Mas eu não era capaz de nada além de não fazer nada.

Depois de alguns minutos, sabe-se lá quantos, consigo me esforçar a me levantar. Então recobro a urgência da situação, e corro em direção a Russel. Depois do tempo em que fiquei estática, ele havia apanhado muito, hematomas surgiam e sangue escorria por sua face, sua feição exausta e derrotada o faziam quase ceder à dor, mas ele não desistiria, pelo que eu conhecia dele. O monstro desfere mais um golpe arremessando Russ.

Mas durante a nova investida que a quimera fez, em direção a seu alvo, a luta acaba.

O monstro que corria, num instante cai no chão e escorrega por alguns metros, com sua cabeça rolando numa direção alternativa à do seu corpo. E num trecho do caminho que trilhara, havia um homem com uma espada. Ele simplesmente apareceu ali. A espada estava posicionada exatamente no local em que decapitaria o monstro, enquanto este corria.

—Deixe-o se regenerando aí. Não vai demorar muito –o homem diz, como que numa conversa cotidiana, guardando a lâmina na bainha, se aproximando de nós com um sorriso no rosto.

—Como assim? Quem é você? Como você conhece ele? –atônita, encaro o homem que vinha até mim, e Kam, que acompanhou todo a luta, encostada na porta. Ele vinha normalmente, tendo ciência dos poderes de Russel, sem nenhum constrangimento ou relutância ao se aproximar de desconhecidas.

—Conhecendo, Pietra. Conheço você, conheço o Russel. Você também, Kamilla. Eu conheço você a tempos. Este é o dia em que VOCÊS me conhecem. Prazer, Sou Damyan –mais perplexa ainda, me entreolho com Kam e volto a olhar para ele.

—Quem é você? –eu e ela perguntamos em uníssono.

—Quando Russ acordar, eu explico. Kam, pode fazer seu chá de hibisco? Não tomo ele faz meses.

—P-Posso? –Ela me pergunta com a mesma feição que meu rosto apresentava, o vendo passar por nós e se sentando no sofá velho da sala.

Kamilla o vê sentado na sala e passa direto para a cozinha, para fazer o chá mais demorado que conseguisse. Eu, sem nem conseguir expressar minha reação àquilo, prefiro segui-la a ficar junto daquele desconhecido. Então um silêncio surge na casa, tanto na cozinha, comigo e Kam se entreolhando simplesmente confusas, enquanto ela fazia o chá, com toda a lentidão possível para evitar qualquer conversa com o desconhecido, quanto na sala com o homem estático.

Então somos salvos pelo gongo. Russel, depois de quase meia hora, retorna, seus hematomas haviam melhorados e ele havia recomposto seu vigor. Ele olha para o homem sentado à sua frente e, assim como eu e Kamilla, também se mostra confuso:

—Pietra, Kamilla, quem caralhos é esse daqui?

—Eu sou aquele que você estava tentando localizar agora pouco, escondido no matagal. Pode se acalmar, Russ, eu não sou uma ameaça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.