Terra-morta

1 Prólogo: O mundo de outra perspetiva


Notas iniciais
A história se passa em Barbacena-MG é a cidade onde eu cresci, qualquer dúvida pode usar até o google maps para ver os locais.

Gustavo andava muito ocupado no corpo de bombeiros, sempre resolvendo questões de administração e problemas internos como aposentadoria e desligamento de alguns novos integrantes do corpo, era o que chamam de intendente.

Naquele momento ele redigia um processo de compra de equipamentos para a corporação.

— Caminhão pipa... Combustível, mangueira... Uniformes. – Ele murmurava enquanto digitava cada um dos itens pendentes.

Gustavo sabia que por mais que ele estipulasse preços justos, alguém iria superfaturá-los, mas não se preocupava com isso. É o Brasil, fazer o que. Ele pensou. Ao invés de se preocupar com superfaturação ele se preocupava em como iria terminar o maldito processo de compra, eram muitos itens e o expediente estava para acabar. Olhou para o relógio na parede e percebeu que na verdade o expediente já tinha acabado há 30 minutos.

— Maldição! – Esbravejou por entre os dentes.

Geralmente os outros intendentes saiam mais cedo, com 10 minutos de antecedência, por isso que Gustavo não se preocupou quando Geraldo e Rúbens saíram e deixaram a chave para ele fechar os escritórios, porém ali estava ele, novamente atrasado para buscar Débora na faculdade.

Pulou da cadeira e deixou o processo por terminar. Amanha acabo essa merda. Arrumou do jeito que deu a sua mesa e desligou o computador, um antigo Pentium que travava toda hora. Abriu a gaveta da escrivaninha e remexeu canetas, papéis, revistas de material bélico e antigas embalagens de bis, remexeu até achar a chave do carro.

Pegou a chave do carro e também a do escritório. Ao passar perto da porta apagou a luz e estudou o escritório para ver se tinha esquecido algo. O escritório possuía cerca de 10 m2 e era preenchido com 3 mesas em L. Cada mesa possuía um computador e uma larga caixa onde os processos eram armazenados. A sala ainda contava com duas janelas e um ventilador. Gustavo percorreu toda a sala com os olhos e depois de perceber que não havia esquecido nada ali, seguiu em frente, trancou a porta e correu pelo corredor principal da corporação. Gustavo trabalhava nos bombeiros a três anos, e só no ultimo que o chefe havia contratado alguns pintores para deixar o ambiente condizente com a profissão, ou seja, haviam começado a pintar tudo de vermelho.

A corrida acabou nas portas principais, Jorginho estava ali, o porteiro 24 horas.

— Fala Gustavo!

— Opa Jorge, to atrasado mano, abre essa bagaça aí.

— Já é. – Jorge apertou um interruptor e a porta automaticamente se abriu: — Toma cuidado, não vá meter o carro em um poste, hum?

— Deixa que o mestre sabe se cuidar. – Gustavo gostava de Jorge por ser um brincalhão e ao mesmo tempo um amigo para as horas difíceis.

Deu um aperto de mão em Jorge e saiu pelas portas, a procura de seu Novo Uno. Ao sair correu um calafrio pela sua espinha, o inverno barbacenense não é nada europeu, mas ainda assim consegue te fazer bater os dentes um pouco. Havia estacionado a 10 metros dali e por isso correu, passando pelo galpão onde os caminhões pipa estavam e por uma padaria. O carro estava estacionado na frente da padaria e Gustavo não perdeu tempo, abriu a porta e ligou o carro. Já haviam passado 35 minutos e Débora estaria esperando todo esse tempo na frente da faculdade.

Queria sair em disparada, mas manteve a cabeça no lugar e esperou que um Gol passasse. Depois virou a direita e manteve uma média de 30/40 km por hora, passou na frete do Hospital Ibiapaba e depois na frente de várias escolas e lojas, manteve um ritmo mais acelerado até chegar na faculdade. Ao chegar lá não achava Débora em lugar nenhum. Pegou o celular e discou para Débora.

Tocou e tocou e quando ele já ia desistir Débora atendeu:

— Fala atrasado.

— Oi Deh, cadê você meu bem? – O tom dela não havia sido nada acolhedor.

— To em casa, sua irmã chata ta aqui.

— Foi a pé?

— Não, me deram carona. – A essa altura Gustavo já tinha dado partida e ia em direção ao apartamento que dividia com Débora.

— Ok, to indo para casa. Beijos.

— Beijo. – E desligou.

Jogou o celular no banco do passageiro e ligou o som, o pendrive estava plugado ali e por isso não precisaria se preocupar em selecionar musica, o som possuía seleção aleatória. Começou a tocar Trough the Fire and Flames e Gustavo se limitou a balançar a cabeça no ritmo e cantar alguns trechos. Não havia porque sair em disparada, Débora estava em casa e Camila também. Ao pensar em Camila teve um aperto no coração, sua irmã estava completando 16 anos semana que vem e tinha todos os problemas que uma adolescente pode pensar em ter. Precisamos conversar, desde que papai morreu ela está assim.

Enquanto pensava no que dizer a Camila ele guiava o carro até o seu apartamento que se localizava num bairro próximo ao centro. Foi chegando no apartamento que viu uma das cenas mais bizarras de toda a sua insignificante vivencia em Barbacena e até nos tempo de BH: uma pessoa debruçada sobre outra, comendo-a. Assim que viu aquilo freou o carro e ficou ali, parado atravessando as duas faixas, a rua estava vazia, o que era de se esperar as 6 da tarde de sábado com o frio que estava fazendo.

Gustavo saiu do carro e pareceu para ele que podia ouvir sirenes ao longe.

— Ei você, o que está fazendo!? – Ele chamou com hesitação na voz.

Quando a resposta não veio Gustavo deu um passo para frente e sua visão ficou melhor da criatura, era um homem de meia idade, vestido com um moleton e calça jeans, e estava literalmente comendo uma pessoa na calçada. Suas mãos estavam rubras e o sangue escorria do queixo até o pescoço, o homem tinha pedaços de alguma parte de sua vitima ainda nas mãos e devorava aquilo com uma ferocidade desesperada.

— Meu Deus!- Gustavo tropeçou para trás e foi aí que a criatura reparou em sua presença, virou a cabeça e fixou dois olhos sem vida encima dele.

—Grummmgppphhh. – Foi o gemido sem nexo que saiu dos lábios daquele ser. Ele se levantou com dificuldade e começou a erguer os braços em direção a Gustavo.

— Pare com isso! – Gustavo estava com um medo terrível da criatura, porém uma calma desesperada o dominou e ele sabia que o canibal não era algo natural, ele estava louco ou consumido por alguma doença. Por isso se afastou andando para trás e mantendo o tom de voz conciliador: — Calma, calma, eu não vou fazer mau, só estou aqui de passagem.

Mas não conseguiu ludibriá-lo, a criatura tropeçava em sua direção grunhindo e com os braços erguidos, parecia querer abraçá-lo, porém, o ultimo tolo que tinha caído naqueles braços jazia em uma poça do próprio líquido vital.

— Para trás! – Não quero ter que te bater, mas pelo visto... Gustavo chutou os órgãos genitais da criatura com força suficiente para deixá-lo fora de combate imediatamente, porém a criatura pareceu nada sentir e como Gustavo teve que se aproximar para efetuar o chute, caiu por cima dele.

Por alguns segundos o desespero tomou conta de Gustavo, se encontrava por debaixo de um maluco com sangue por todo lado e os grunhidos preenchiam seu ouvido como se fossem os sussurros de um amante:

— Sai para lá filho da puta! – Com alguns murros e um empurrão ele arrancou a criatura de seu ombro, mas ela levou parte de seu casaco na boca, sentiu o beijo do vento no ombro nú e viu as marquinhas que os dentes do infeliz haviam deixado em sua pele.

—MALDITO!- Uma fúria cega o dominou e ele pulou sobre o homem, agora era ele que estava por cima, desferindo socos naquela cara feia e que não parava de tentar mordê-lo. Os socos desfiguravam-no, mas não havia nenhum sinal de dor naqueles olhos mortos.

Foi aí que Gustavo percebeu que não havia muito que fazer, se levantou depressa, e foi por pouco que o monstro não segurou seu braço e o puxou para uma segunda mordida.

Gustavo correu de volta para o carro e se trancou lá dentro. A criatura levantou-se penosamente e o seguiu, batendo no vidro com uma persistência que pertence aos loucos.

— Saía daqui! – Gustavo pegou o celular e discou 190, quando ouviu uma musiquinha e o recado: “Nossas linhas estão todas ocupadas no momento, espere até que alguma delas se disponibilize” percebeu que algo terrível estava acontecendo, a polícia de minas era uma das mais organizadas do país, e para as linhas estarem todas ocupadas muitas pessoas estavam com problemas ao mesmo tempo.

Camila e Débora! Ao se lembrar delas deu partida imediatamente no carro e cantou pneus como uma despedida para o canibal. Disparou por ruas e por esquinas, não via ninguém nas ruas, mas em uma rua movimentada viu alguns carros parados e sangue por todo lado, seu instinto dizia para não parar, mas mesmo assim, parou e abriu a janela:

— Alguém precisa de ajuda? – O chamado era baixo, mas era mais por descargo de consciência do que para realmente ouvir algo, mas ouviu.

— Eu... Aqui, por favor, Deus... – Era uma voz feminina, seja como for Gustavo saiu do carro e seguiu o som até um carro que havia batido em um poste.

O carro havia se estilhaçado todo e fumaça saia do motor, uma garota de aproximadamente 17 anos estava lá, com sangue brotando da fronte, ela olhou para mim e gemeu de dor.

— Aju...de.

— Estou indo. – Gustavo correu até o carro e tentou abrir a porta, mas estava emperrada:- Abra a janela! – Ela tentou mas a janela também encontrava-sse emperrada.:- Proteja-se vou quebrar o vidro e te tirar pela janela.

Ela concordou com um movimento de cabeça e deitou-sse no colo de uma outra pessoa que estava no banco de motorista, essa estava imóvel e com sangue jorrando do peito, parecia que uma ferragem a havia atravessado. Gustavo não perdeu tempo e explodiu o vidro com o cotovelo. Estilhaços voaram de encontro a menina, mas o vidro não chegou a feri-la por isso Gustavo limpou as beiradas da janela dos cacos pontiagudos e pegou um braço da menina:

—Ahhh!!!- Ela gritou de dor.

—Oque foi?- Temendo ter piorado a situação Gustavo limitou-se a olhar para ela.

— Minha perna... presa.

Gustavo demorou alguns segundos para perceber que a garota precisava de médicos de verdade e não de seus reles conhecimentos de cura aprendidos no treinamento para bombeiros. A situação era crítica, a perna da menina tinha sido esmagada e pelo visto a tíbia tinha se transformado em purê, é incrível que a menina ainda estivesse em posse de suas faculdades mentais.

— Vou ligar para o SAMU procure não se mecher. – Discou o numero do SAMU mas a única coisa que recebeu como resposta foi uma mensagem extremamente parecida com a do 190. : — Não entendo, eles não estão atendendo. Meu Deus, o que posso fazer?? A sua perna está presa no painel do carro e com certeza você quebrou a tíbia.

Dava para perceber o seu desespero no tom de voz por isso a menina olhou para ele desconsolada e começou a chorar e a resmungar: — Me ajude, por favor...

— Eu vou tentar... – Mas antes que pudesse de fato fazer algo a pessoa que estava no banco do motorista se mecheu, os braços começaram a ter espasmos e os olhos se abriram lentamente, assim como a boca:

— Pai, pai! O senhor está vivo?! – A menina falava com nítido amor na voz, mas Gustavo teve uma reação totalmente diferente, o estilhaço tinha atravessado o homem na altura do coração, e mesmo que o órgão vital estivesse funcionando, os pulmões estariam totalmente em frangalhos, era tecnicamente impossível de uma pessoa sobreviver a tal destruição do tórax, mas lá estava ele, batendo com os braços no volante e cuspindo sangue ao gemer: — Grummmphhihas, argthhh fhgrrrttt.

— Pai, pare com isso, pode piorar o seu ferimento! – Ela gritou, e após o grito, como uma flecha, o redivivo agarrou os braços de sua filha e os trouxe até a boca. Gustavo tentou ajudar, mas de fora do carro só podia segurar a mão da menina enquanto o próprio pai a devorava a mão dela. Os gritos da menina eram terríveis de se ouvir, ela implorava para o pai parar e implorava para Gustavo ajudar, mas naquele momento a mente de Gustavo estava totalmente em choque.

— Maldito seja, ajude, ele não quer parar, está doendo tanto!!! – De uma vez Gustavo percebeu que tinha de fazer algo pela menina, e correu para o outro lado do carro, estilhaçou o vidro do motorista e agarrou o pai dela pelos cabelos, puxando com toda a força para trás.

A cabeça veio, assim como um grande naco sangrento da mão da garota.

— Ahhhhhhhhhh!!!!! – Ela gritou e desmaiou.

—Ghmmmmmptrs!- O grunhido quase soou como uma repreensão do pai-canibal.

—Por que fez aquilo? Ela era a sua filha seu monstro! — Ele mantinha a cabeça do homem muito para cima, de tal modo que não pudesse morder, e os braços não tinham como alcança-lo daquele modo. Mas por mais que Gustavo interrogasse o homem ele só grunhia e dava dentadas no ar. O sangue jorrava da mão e da canela da garota e Gustava soube que ela estava perdida.: Seu monstro! MONSTRO! MONSTRO!!! — Gustavo bateu com a cabeça do homem no estilhaço que lhe saía do peito a cada vês que o qualificava como monstro, batia com toda a força o seu crânio no pedaço de ferro. Três vezes, com toda a força do seu ser, e o homem parou de grunhir, parou de debater e morder, apenas ficou com uma mossa na testa e os olhos vagos fixos no teto.

Gustavo chorou, chorou pela garota e pelo homem que tinha acabado de matar, chorou por sí e por Débora e Camila, mas quando essas chegaram a sua mente ele deu um salto e limpou as lágrimas. Não dá para ficar igual um bebê, elas precisam de mim. Enquanto ia em direção ao carro ouviu vários disparos, muitos, parecia uma guerra, tentou contar mas eram muitos e se sobrepunham, pelo barulho eram fuzis e pistolas. A EPCAR tem fuzis, mas tantos tiros assim e dentro da cidade? O que diabo poderia instigar os militares a atirar dentro da cidade?? Com esse pensamento ele entrou no carro e acelerou para o apartamento, correu por ruas novamente desertas, o som começou a tocar 21 Guns e ele achou um pouco irônico pelo fato de estar ouvindo tantos disparos, porém, a ironia não o impediu de quase bater com o carro em um poste, a ansiedade e o medo se fundiram formando um poço de desespero que de nada ajuda à manter um carro na pista. Foco, tenho que ter foco se quiser chegar inteiro em casa.

Em poucos minutos ele chegou ao prédio, era um antigo, de quatro andares, ele tinha comprado o apartamento no ultimo andar e se preparou para os lances de escada. Saltou do carro e depois de tranca-lo correu até a porta de vidro temperado e a destrancou, a corrida pela escada o deixou sem fôlego, pulava os degraus de 3 em 3, ao chegar no quarto andar teve de tentar duas vezes antes de conseguir inserir a chave na fechadura, e quando o fez deu as duas voltas o mais rápido possível, escancarou a porta e irrompeu de supetão gritando:

— Camila!!! Débora!!! Cadê vocês?? — A voz saiu um pouco esganiçada tamanha era a descarga de adrenalina e o medo de perde-las.

Ninguém respondeu oque fês seu coração se apertar, estava para sair dali e procurar na vizinhança quando ouviu: um barulho de água caindo e o som de sertanejo. Débora e suas malditas musicas... graças a Deus! Atravessou a sala sem prestar atenção a nada a não ser no som terrivelmente chato do sertanejo universitário, saiu no corredor, correu para o banheiro mas a porta estava trancada ele bateu milhões de vezes e só depois do que pareceram horas foi que a voz de Débora falou:

— Saí daqui pirralha, já vou acabar o banho! — Ela estava se referindo a Camila, por isso Gustavo gritou:

—É o Gustavo, cadê a Camila?- Ela deve estar no quarto. E sem esperar resposta passou pelo corredor e chegou até o quarto de sua irmã, para variar a porta estava trancada.:

—Camila, abre é o Gustavo, abre essa porta!!! — Ele gritou e esmurrou a porta, mas a única coisa que ouviu foi um baixo ruído de musica, ela devia estar com fones e nunca ouviria seus apelos.

Droga! O mundo desabando lá fora e as duas aqui, em suas malditas bolhas. Os tiros ainda podiam ser ouvidos mas estavam rareado e depois de alguns minutos silenciaram por completo. Gustavo sabia o significava do repentino silêncio: os militares haviam abatido ou haviam sido abatidos pelo quer que seja que estavam combatendo.

Ele estremeceu ao pensar em ambos os homens-canibais e no ultimo, o que ele havia matado com apenas as mãos. Como a carne é frágil, literalmente.

Gustavo andou lentamente pelo corredor, desolado, o apartamento era mediano, 3 quartos dentre eles uma suíte, um banheiro social, uma cozinha, uma sala e uma área, Gustavo se dirigiu à sala, para a janela. O crepúsculo caia sobre a cidade e o mundo se eclipsava em uma metade da cor pêssego e a outra de um profundo anil já com as primeiras estrelas a observar do céu.

— Olá Gugu. – Era Camila que estava ali, as suas costas, ela estava apenas de camisa e calcinha, mas Gustavo não reparou nisso, correu e a abraçou com nítido alívio.

— Graças a Deus! – Ele disse com a cabeça dela no ombro. O seus cabelos cheiravam a canela e aquelas madeixas douradas como o sol batiam nos seus olhos molhados.: — Pensei que podiam ter enlouquecido ou pior, terem sido... devoradas.

— Como assim? O que está acontecendo? – Ela perguntou, e Gustavo se separou com relutância do abraço para poder explicar.

— Eu... eu não sei, ligue a TV e vá pesquisar na internet, procure por noticias frescas de assassinatos. – Gustavo queria assegurar a sua família da epidemia. Tem que ser uma epidemia, algo como a vaca louca ou a gripe suína, os militares e o governo vão dar conta dela.

—Suas mãos! – Ela disse horrorizada. Gustavo olhou para baixo e viu que as mãos estavam rubras de sangue seco, escondeu-as atrás do corpo e disse:

— Vá! Não é nada, obedeça ao seu irmão, procure as malditas noticias. – Camila o olhou com receio mas sacudiu a cabeça positivamente e foi atrás do notebook.

— Graças a Deus! — Agradeceu mais uma vez Gustavo depois que ela tinha ido embora.

Gustavo olhou novamente para a janela e percebeu que a noite havia caído sobre Barbacena como um grande cobertor. Luzes piscavam ao longe no centro, não saberia dizer se eram incêndios ou tiros. Amanha vai voltar tudo ao normal, um grande acidente vão dizer na mídia.

Tanto tempo como bombeiro e nunca, nunca havia visto casos de canibalismo. Isso é coisa de animais, não, até os animais respeitam a própria espécie, isso é coisa de monstros. Mas ao refletir sobre isso se lembrou do grande estalo que a cabeça do homem tinha feito quando ele bateu-a pela terceira vez no ferro e de como ela se abriu como um ovo. Lágrimas ameaçaram brotar novamente de seus olhos mas Débora saiu do banho e ele tratou de enxugar o rosto com a manga da camisa.

— Gustavo! O que houve com suas mãos e porque estava chorando, nunca te vi chorando! – Débora, sua namorada, uma mulata baixinha e bem formada, míope mas mesmo assim linda. Ele a amava muito e por isso disse simplesmente:

— Matei, estou com remorso. – Era a verdade, ele era um assassino, mesmo que um assassino de ocasião.

— Matou? Do que você está falando!? – Antes que ele pudesse responder Camila entrou na sala e falou apressadamente:

— Gugu, a TV e a Internet dizem que o apocalipse chegou, que as pessoas surtaram e que estão devorando umas as outras, até famílias estão sendo vítimas de chacinas inteiras, o que vamos fazer? – A sua voz estava trêmula e podia-se ver o desespero estampado no rosto dela, por alguns segundos a sua face era idêntica a da falecida mãe, esta que Camila nunca conhecera.

Gustavo olhou bem para aqueles olhos verdes que sua irmã, assim como ele havia herdado de sua mãe e soube que não importava mais se fosse um assassino, iria defender a sua família, custe o que custasse, disse simplesmente:

— Vamos sobreviver.