Terceira Dimensão
10 Revelações
O sol apareceu com força total no outro dia, como se fosse para descontar o último dia chuvoso, que teve uma noite muito estranha.
Depois que Ludi agarrou no sono, ele começou a arfar e a falar o meu nome repetidas vezes, intercalado por “nãos”. Ele se contorcia todo no meio da noite.
– O que você tinha ontem à noite? – perguntei assim que ele terminou de se trocar.
Um espanto tomou forma em seu rosto.
– Por quê? – ele perguntou.
– Você tava se debatendo na cama... se mexendo de um lado para o outro...
– Foi só um pesadelo, Harry. Relaxa!
Fiquei pensativo por um instante.
– Você arfava chamando meu nome...
Mesmo tentando disfarçar, pude notar um certo nervosismo em seu rosto.
– Deixa isso pra lá, cara. Ok?
– Não. – falei me levantando de minha cama e olhando diretamente nos olhos dele. Estávamos frente a frente. – Você vai me falar agora. Você sonhou comigo lutando na guerra, foi isso?
O silêncio reinou naquele quarto. Perecíamos duas estátuas de frente um para o outro.
– Então, vão sair hoje ou não? – Michael perguntou abrindo a porta de nosso quarto sem bater. – É... podemos sair mais tarde, se quiserem.
– Não, Michael. Estamos indo. – falei saindo da frente de Ludi e seguindo o irmão dele pela porta.
Instantes depois, meu companheiro de quarto nos seguiu para o refeitório. Assim que terminamos nossa refeição, seguimos direto para o campo de treinamento. Quando fomos formar as duplas, fiquei com Michael. Como estava com o celular de meu avô no bolso, decidi usá-lo como “morfador” e lutar com a espada em que ele se transformava. Ludi ficou com outro cara que eu nunca tinha visto naquele treinamento.
Apesar de ser um pouco mais pesada que as espadas normais, consegui manejá-la bem.
– Nada mal, Harry. – Michael falou.
Continuamos a luta e depois que eu quase cortava o braço de Michael, resolvi parar um pouco.
– Não sabia que lutava tão bem. – ele falou assim que nos sentamos naquela grama.
– E eu não sabia que sem irmão tinha problemas com chuvas.
Ele deu um sorriso tão forte que jogou a cabeça pra trás.
– Ele devia tá frescando com a tua cara, Harry!
Olhei duvidoso para ele.
– Ludi nunca teve medo de temporais. Ele os achava até bons para refletir.
– Mas ele tava se tremendo todo...
Mais risos de Michael. Paramos com a conversa, pois o assunto esta se aproximando de nós com uma cara meio zangada.
– E então? O que é que vocês falavam? – ele perguntou colocando sua espada no ombro.
– Nada, Ludi. Estávamos falando de como Harry é bom numa luta e como quase ele cortava meu braço fora. – Michael mentiu.
Um pequeno sorriso preencheu os lábios de Ludi.
– Te treinei bem, Harry.
Confirmei com a cabeça.
– Deixe-me ver se você está bom mesmo? – ele falou empunhando sua espada.
Aceitei o duelo e nossas espadas começaram a tilintar quando se tocavam. Estávamos numa luta justa, até o momento que Ludi só não cortou minha cabeça porque me abaixei. Michael foi logo para onde estávamos e nos separou.
– Tá louco, mano. Você ia matar o Harry! – o mais velho falou.
– Foi mal, brother. Desculpa aí, amigão.
– Não foi nada. – falei.
– É, mas podia ter sido tudo! Chega de treino por hoje. Pros dois.
Era estranho como Michael tinha uma autoridade sobre nós, apesar de todos sermos maiores de idade.
Voltamos para a hospedaria, apesar de ainda ser cedo. O tempo passou lentamente, pois Ludi e eu não estávamos nos falando. Ele mantinha uma expressão séria.
– O que é que você tem hoje, Ludi? – perguntei. – Tá tão sério...
– Eu? Estou normal, Harry! – ele falou como se fosse forçado.
– Pode dizer, cara. O que é que tá acontecendo?
– Já disse que não há NADA! – ele disse levantando-se e alterando o tom de voz.
E começou a andar lentamente até minha cama, onde eu estava.
– E aí, Harry? Como é ser “o guerreiro”? – ele fez as aspas com os dedos. Havia um tom sombrio em sua voz. – Como é ter todos ao seu redor te bajulando?
Ele não estava normal, dava de perceber.
– Peraí? Como é? – questionei.
– RESPONDA! Quero ouvir de sua boca antes de te matar!
Gelei assim que ele falou. Como meu melhor amigo queria me matar?
Michael ouviu os gritos de seu irmão e entrou desesperado no quarto.
– Ludi? – ele falou e aquele que me ameaçava virou-se para trás.
– Ora, ora, quem está aqui? Veio ver a morte do Jackson?
– O que? O que é que você tá dizendo, cara? – Michael disse.
– Foi o que ouviu. Chegou a hora.
Os olhos de Ludi ficaram totalmente vermelhos. Sua boca abria, mas não saía som algum. Ele rasgou sua própria camisa e pude perceber em meio aos gomos de seu abdômen, alguma coisa se movendo. De repende, formou-se um grande corte na barriga dele, um corte que era feito de dentro para fora.
Me arrepiei e tentava sem sucesso me afastar em minha cama. Do grande corte na barriga de Ludi, saiu um ser que reconheci assim que abriu suas asas dentro do quarto. Um demônio acabara de sair de dentro de meu amigo, jogando ele no chão com o grave corte.
Fiquei paralisado com aquilo. Michael, com sua espada, partiu para cima do monstro e com uma certa dificuldade, conseguiu matá-lo. O ser se desfigurou e desapareceu no ar.
Corri para o chão, onde Ludi se encontrava com a mão em seu corte e tossindo sangue.
– Ludi, Ludi. Olhe para mim. – falei me sentando no chão, colocando-o em meu colo e o apoiando com meus braços.
– Harry... eu vou morrer, cara.
E tossiu novamente, sujando minha camisa de sangue.
– Não fala isso, alguém vai lhe curar. – disse. – Michael, vai procurar por socorro!
Michael saiu para atender meu pedido.
– Pelo menos vou morrer em seus braços.
Fiz uma cara de estranheza e fingi que ele não tinha falado aquilo.
– Michael vai trazer ajuda. Você vai viver e me ajudar a ganhar a guerra!
– Não dá mais tempo. Mas ainda dá tempo de te dizer uma coisa.
Ele aproximou-se o máximo que conseguiu do meu ouvido.
– Eu te amo. Lute por mim.
Ele tinha falado isso mesmo?
– Sempre te amei, Harry. Desde quando te conheci. – e outra tosse manchou mais ainda minha camisa. – Você era tão bonito com a cara cheia de espinhas e ficou ainda mais lindo depois que definiu seu corpo. Todas as vezes que você arrumava uma namorada, eu lhe desejava felicidades, mas o que eu queria mesmo era mandar aquelas vadias pastarem!
Ele deu um sorrisinho. E continuou:
– Quando você ficou louco e quase se matava, eu queria te parar e dizer tudo o que eu sentia, mas me contive e chamei Michael. Liguei para ele chorando.
Outra tosse atrapalhou seu monólogo, e dessa vez com uma falta de ar.
– Tive uma vida feliz ao seu lado, Harry. Apesar de você só saber do meu amor agora, quando já estou morrendo...
Uma lágrima desceu de meu olho direito, que ele limpou com a mão.
– Me realiza um último desejo? – ele disse num sussurro.
Confirmei com a cabeça, com mais lágrimas molhando meu rosto.
– Me beija. – ele disse ainda sussurrando.
Aproximei meu rosto do dele e nossos lábios se tocaram. Afastei-me um pouco. Era estranho beijá-lo, seus lábios estavam começando a ficar frios e o gosto de sangue tava impregnado em sua boca. Inclinei-me novamente e dei-lhe um beijo mais longo.
Assim que nos separamos, ele arfou.
– Eu te amo, Harry. Sempre te amei e sempre vou te amar. – ele falou. – Sei que você não pode me dizer o mesmo, mas agora posso morrer em paz, já que você já sabe minha versão.
– Para de falar isso. Michael já está chegando.
– Não dá mais tempo, Harry. – outra tosse. – Ah, tem mais uma coisa: naquela noite, que eu chamava seu nome, eu estava sonhando com nós dois... na cama.
E aquela última revelação me deixou perplexo.
– I love you so much, Harry. – ele disse.
E um último arfar saiu de seus pulmões. Michael chegou tarde com uma enfermeira e me viu debruçado, chorando, em cima do corpo de seu irmão.
Meu melhor amigo agora estava morto em meus braços e meu rosto estava molhado de lágrimas. Levantei minha cabeça e falei para Michael:
– Agora é que eu vou lutar com unhas e dentes para prender esses demônios na Terceira Dimensão. Melhor: vou matar um por um com minhas próprias mãos!
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