– Ainda não acredito que estou falando com um lobo! – falei andando de um lado para outro, batendo em minha cabeça.

– Pare de se bater, menino! – o lobo rosnou. – Você não está louco!

Ludi segurou minha cabeça em suas mãos.

– Ei cara, relaxa. – ele disse com a voz baixa. – Trate como se você estivesse falando comigo, certo?

E me deu dois tapinhas na face esquerda.

Confirmei com a cabeça.

– Então... já me conheceu. – Sid falou. – Alguma coisa a mais, Guerreiro?

Por incrível que pareça, eu estava quase certo que Sid lia mentes, pois justamente naquele instante, Miranda me passou pela cabeça, me pedindo para que voltássemos para casa.

– Na verdade, há algo, sim. – disse. – Mas queria conversar em particular com você, Sid.

Já estava começando a me familiarizar com aquele lobo andando pela sala ao meu redor.

Olhei para Ludi. Ele fez uma reverência para Sid e saiu do salão, passando pela porta redonda de onde tínhamos vindo.

– Já pode falar, meu novo amigo! – o lobo fez um tipo de grunhido.

– Sabe, minha namorada não gostou muito de sua cidade, ou vilarejo, não sei o que é isso. O fato é que ela quer voltar para casa e eu não sei como ela pode fazer isso.

– Por que não perguntou ao Mensageiro? – Sid falou. – Ele sabe como ninguém por onde se deve sair daqui.

Baixei a cabeça.

– Não quis. Ele fez algo que ofendeu minha namorada. – desabafei.

– O melhor seria se você e o Mensageiro não entrem em confronto. Lembre-se de quem sempre lhe ajudou. Mas voltando ao que você me perguntou, jovem Guerreiro, para sair de Richworld, você deve ir até o lago que tem depois da floresta e nadar bem fundo. Quando voltar para a superfície, estará perto de seu lar. Agora, mais outro conselho: vá durante o dia. O caminho de volta você já sabe.

– Obrigado!

Fiz a mesma reverencia que Ludi e saí do salão. Ele estava me esperando depois da porta redonda, que se fechou assim que passei.

– E então? – ele perguntou com os braços cruzados e apoiado na parede.

Dei um sorriso.

Ele deu um risinho balançando a cabeça negativamente. Então, saímos daquele local.

Assim que pude ver o céu, percebi que já eram quase cinco da tarde e resolvi ficar vendo o final do treinamento de Miranda.

Ela, como sempre, estava dominando a maior parte do espaço, acertando exatamente no alvo todos os obstáculos que apareciam para serem atingidos. Seu arco era um azul marinho com as extremidades rosa e suas flechas vermelhas. Era um choque de cores e tanto quando ela carregava o arco com uma flecha.

– Ah, você estava aí? – ela perguntou assim que me viu.

– Estava apreciando. Você melhorou bastante desde a última vez que a vi treinando.

Nos beijamos.

– Para com isso. – ela falou envergonhada. – Não melhorei não.

Ela estava entre meus braços.

– Claro que melhorou. É visível!

Miranda baixou a cabeça em um sorrisinho envergonhado.

– Mas tenho outra coisa pra lhe falar. – continuei. – Já descobri como podemos voltar para casa.

Acho que ela não podia ficar mais feliz do que estava. Miranda pulou em meu pescoço e me deu vários beijinhos pelo rosto.

– E então? O que estamos esperando? – a ouvi questionar.

– Desculpa, Mi. Mas vamos ter que esperar até amanhã de manhã. Temos que atravessar a floresta, e todos dizem que ela é perigosa à noite.

Chateada, ela confirmou com a cabeça.

– Ei, não fica assim, linda. – dei um beijo nela, para deixá-la um pouco mais feliz. – Só temos mais uma noite aqui. Vamos dar uma volta?

Então, fomos para o “centro urbano” que consistia em uma praça rodeada por poucas lojas. Foi em um delas que compramos as roupas para Josh.

Sentei embaixo de uma árvore, com as costas apoiadas em seu tronco. Miranda sentou-se entre minhas pernas e repousou suas costas em mim. Por um instante, parecia que estávamos em uma cidade e que não deveríamos nos preocupar com nada. Mas, de repente, me veio à cabeça os problemas que eu devo resolver. Rapidamente, tirei isso da mente; queria pensar somente na garota que estava comigo.

– Tem como você pedir para aquele seu amigo dormir fora hoje de novo? – Miranda quebrou o silêncio.

Entendi perfeitamente o que ela queria. Confirmei com a cabeça.

– Ótimo! Temos que festejar em nossa última noite aqui. – ela concluiu.

Então ela virou-se para mim e começou a me beijar.

Minutos depois, estávamos em meu quarto, com Ludi dormindo fora. Novamente, dividíamos minha cama. Fomos dormir cerca de três da manhã.

– ACORDEM VOCÊS DOIS! – ouvi Ludi gritar. Como assim já era de manhã?

– Ok, já acordamos. Agora você pode nos dar mais um pouco de privacidade? – perguntei.

– Estamos no refeitório. – ele falou antes de bater a porta.

Miranda e eu tomamos banho (separados, é claro) e depois nos encontramos na porta do quarto dela.

– Preparado? – ela perguntou.

– Claro. – foi o que consegui falar. – Mas antes, vamos nos alimentar.

Descemos até o local onde fazíamos as refeições e dividimos nossa mesa com nossos amigos, como sempre fazíamos. Era para eles terem a impressão que estávamos tendo um dia normal como qualquer outro.

Enquanto estávamos cada um indo para seus respectivos treinamentos, falei que iria deixar Miranda com os outros arqueiros. Menti. Na verdade, fomos atrás do lago após a floresta. No caminho, passamos pela abertura que dava para o local onde Sid habitava. Dalí pra frente, a floresta densa se transformava em um tipo de pântano, com certos poços de lama de vez em quando.

Depois de andarmos cerca de quatro quilômetros sem nos cansarmos, achamos o lago. Ao seu redor, havia gramíneas com pequenas flores espalhadas. Era o lugar perfeito para um encontro romântico.

– Agora, temos que mergulhar bem fundo e depois voltar para a superfície.

Ela confirmou com a cabeça.

Pulamos no lago com roupa e tudo, mergulhamos bem fundo e depois subimos, como Sid tinha explicado.

Não estávamos mais na floresta de Richworld. Estávamos saindo de um lago, em frente a uma casa de campo. Enquanto saíamos do lago, percebi que nossas roupas não estavam molhadas. Nem meus tênis tinham água. Tudo em nosso corpo foi secando a medida que saímos dali.

– Não acredito que conseguimos sair de lá. – Miranda falou me abraçando.

– Harry? – ouvi uma voz conhecida falar.

Só podia ser coisa da minha mente.

– É você mesmo, Harry? – a voz falou novamente.

Ao me virar, reconheci aquelas feições. Era Michael.

– O que você está fazendo aqui? – Michael perguntou saindo da casa de campo e se aproximando de nós. – Era pra você está em Richworld!

Miranda me olhou querendo uma explicação.

Como eu iria saber que Michael conhecia sobre Richworld?