Terapia de sangue

6 Carta Para Uma Pessoa que Foi Embora


Notas iniciais
22 de junho de 2022 esse é mais uma carta, um pranto, um desabafo, do que um poema. Mas já que eu tô tirando tudo pra fora do baú, tem que ir também. Esse me dá até medo de reler.

Você tentou se esconder, mas eu te achei.

Eu sou sonâmbula-consciente-stalker, e depois de um dia de solidão diurna e noturna, com útera tortura dentro do meu ventre, descobri que estava mesmo vazia. Depois do "incidente" (minha mente demente não sabe lidar com o passado, nem delicadamente) você parou de ser tão presente virtualmente. Comigo, óbvio, nem se fala. Você sumiu. Mas era difícil me torturar se não via fotos suas por aí. Hoje me desafiei — coisa que não faço nunca, pois conheço meus limites, e eles são óbvios: a estaca zero. O primeiro passo — e procurei você mais a fundo, fincando a faca. Me deu muita saudade.

Você faz muita falta. Te falei isso milhões de vezes, com uma ínfima íntima infantil esperança de ouvir de volta, mas sem retorno.

Achei você. Os olhos apertadinhos de sorrir. Você parece bem (?). Parecia estar sorrindo (?). Parece estar melhor sem mim (!).

Eu preciso de você pra me dar todas essas certezas. Eu preciso de todo mundo em toda a minha vida pra me dar todas as certezas do mundo inteiro, mas agora eu preciso dessas certezas.

Você está igual ao você que eu criei na minha mente. Eu não lido muito bem com partidas, né. Com fim de relacionamentos, especialmente de amizades. Com a finitude das coisas. Então depois que você se foi me encontrei obrigada a continuar com uma versão sua na minha cabeça. Claro, um você mudado, baseado nas pouquíssimas vezes que conversamos depois do "incidente" (mente inocente), mas um você amigo, meu melhor amigo, meu companheiro, porque eu estou mais sozinha e pior do que nunca (mente carente e decadente).

É bizarro como minha mente foi a causa de tudo isso e agora eu preciso dela pra ter essas migalhas da nossa amizade porque sem isso eu não tenho mais nada, e eu nunca vou suportar o peso e o barulho da sua ausência. O que me dá alívio é que você não entende disso e eu espero que nunca entenda.

Se eu te ver na rua, eu entro em colapso. Se eu olhar pra você e ver que você está aí, vivo, sem ligar pra mim, indiferente, diferentemente do você da minha mente, eu vou chorar. Eu vou desabar. Se você desviar o olhar, eu vou entender. Mas não vou aguentar. Coisas demais aconteceram e estão acontecendo comigo.

Eu não consigo chorar sem pensar que só você pode me ajudar a cessar o pranto, e mesmo assim eu não mereço porque eu te machuquei e me tornei algo horrível por causa disso. Eu não consigo tomar banho sem sentir essa sensação do meu próprio corpo em mim, e essa sensação horrível de que meu corpo é simplesmente a coisa mais nojenta e desgostosa que já foi sentida por um cérebro humano em toda a história. Não consigo olhar em um espelho sem perceber que eu engordei o peso que demorei um ano — e um anticonvulsionante, uma escova de dente separada pra bulimia, umas três lâminas, vários fios de cabelo, a pele das minhas mãos, especialmente dos dedos, noites de sono em claro, meu melhor amigo, um despontar de amor que acabei conhecendo pela internet e minha arte — pra perder e que eu estou imensa, nojenta, feia, pútrida, putrefata, puta, podre, palhaça, partida, e eu poderia cortar com uma tesoura de jardinagem essas todas partes do meu corpo que eu odeio e que estão grandes demais. Todas. Eu queria arrancar todas com as mãos. Eu não consigo focar em absolutamente nada da minha faculdade ou da minha carreira porque eu só consigo pensar que serei morta/vou me matar, então de nada vale a pena o esforço (mente doente). Eu não consigo comer sem pensar o quanto eu odeio comida e como eu queria parar de comer pra sempre e continuar fazendo a mesma quantidade de exercícios e pesar vinte e oito quilos, ser mil vezes mais magra do que todas as minhas amigas, ficar pele e osso, com cara de doente mesmo, magérrima. Eu não consigo sair na rua sem sentir que estou sendo observada por todos e por tudo, e que todos querem — e vão — me matar a qualquer momento, e que tudo isso é gravado e todos estão assistindo à minha vida em casa, acompanhando todos os meus passos e meu sofrimento e fingindo não serem atores e atrizes nas ruas.

Eu penso muito que serei morta por um tiro de revólver, o que é um alívio. É meu sonho, na verdade, se for feito corretamente, na cabeça. Rápido e fácil. Eu sei que sou culpada por tudo, e isso não é vitimismo, é um fato. Estou cansada de continuar duvidando de mim mesma até quando estou me odiando. Existem absurdos que até dentro dos meus absurdos habituais são demais.

Eu sou um túmulo aberto, pútrido, fétido, mas vazio. Nitidamente vazio. Se fosse eu dentro, seria objetivo: eu estaria morta. Tudo acabou. O cheiro vem daí, do corpo morto apodrecido. Mas não, o túmulo está aberto, sem defunto, e daí vem um nevoeiro pestilento atormentar qualquer um que chega perto, sem razão. Queria eu ser um túmulo bonito, cheio de penduricalhos, crucifixos com rubis e ouro e joias religiosas romanas. Mas não sou isso.

Talvez eu nem te atormente, talvez você nem lembre de mim. E eu realmente espero, então, que o incidente (a mente mente) tenha sido para o seu melhor, para o seu crescimento. Para o meu, não foi. Eu morri lá. Não fui enterrada, claro, pois sou um túmulo aberto.

Eu só falo palavras atrás de palavras, sem sentido nenhum. É tudo um emaranhado de merda. Uma amálgama de merda. Eu sou um monte de analogias e metáforas de merda que eu faço com túmulos, cemitérios, igrejas, vampiros, estátuas, crucifixos, igual minha arte. A diferença é que geralmente nos desenhos, quando está bonito, apresentável, é porque não é tão pessoal. Agora, tanto lá quanto aqui, quando é feio, brutal, visceral, é porque aí, realmente sou eu. Mas sinceramente, não sei mais o que é ser eu.

Mente dormente