– Bem senhoras, depois de ouvir sobre toda a história de vocês e analisar todo o caso, lamento ter que informá-las que vocês não são candidatas a barriga de aluguel.

– Não! Mas como?

Arizona olhou indignada a mulher bem vestida em um terno feminino preto e caro, de olhos verdes intensos e cabelos ruivos presos em um coque bem feito, sentada a sua frente, Carolyne Jones, advogada formada em direito da família enviada pela agência para tratar sobre a barriga de aluguel que ela e Callie decidiram usar para trazer ao mundo seu bebê tão ansiado.

– Lamento Dra. Robbins, mas vocês não passaram pela análise psicológica, vocês tem bons empregos, um vida financeira estável com casa própria, sem dividas de hipoteca, mas uma vida emocional extremamente instável, eu sugiro que vocês procurem ajuda antes de tentar ter outro bebê, não vejo como vocês podem lidar com algo tão intenso quanto uma barriga de aluguel se não estão conseguindo lidar de forma segura com seu próprio relacionamento.

– Dra. Jones está dizendo que não somos capazes de cuidar de mais um bebê, temos Sofia que é perfeitamente bem cuidada e amada.

– Dra. Robbins você e sua esposa passaram por muito nesses três anos, e muito me admira vocês ainda estarem juntas e terem sobre suas guardas um bebê saudável feito Sofia, acredito que se metade de tudo isso tivesse acontecido comigo e meu marido já estávamos separados e seguindo nossas vidas, mas vocês estão juntas e tentando aumentar a família, na verdade vou ler uma anotação que nossa psicóloga deixou como avaliação.

“Esse casal em questão não está apto a usar uma barriga de aluguel e as aconselho a procurar ajuda para sarar tantas feridas abertas que temo que os band-aids colocados sobre as mesmas venham falhar em algum momento e sangrarem até a morte, eles possuem um relacionamento doente a beira da morte, que se querem salvá-lo tem que trabalharem juntas, o que vejo por enquanto são duas pessoas divididas tentando de formas individuais a suturar uma enorme cratera, então não recomendo a barriga de aluguel e nenhum outro tipo de método de concepção de um bebê para eles no momento”.

Callie permanecia calada olhando para o rosto da bela advogada, sem conseguir expressar o que estava sentindo, aquela anotação no canto de uma página resumia seus últimos dois anos de vida e ainda lhe conferia o não estar apta a ser mãe nem mesmo do seu próprio bebê, tudo parecia ser insano e desleal, logo ela que sempre quis ter muitos bebês estava ali sendo chamada de inapta a ser mãe. O que ela e Arizona fizeram com suas vidas e o seu casamento baseado no amor e respeito, como elas chegaram a esse lugar obscuro e sem saída, eram questões que não conseguia responder. Quando as palavras cuspidas pela advogada cessaram, só o que sentia eram as lágrimas silenciosas molhando sua bela bochecha dourada, nada mais, Arizona vendo o estado de sua linda esposa, não pode fazer nada além de segurar firme em sua mão ela mesmo não estava acreditando no que ouvia. Um enorme silêncio tomou a sala.

– Eu gostaria de ajuda-las infelizmente não posso, talvez vocês pudessem pensar em outra ....

Carolyne começou a falar novamente quando Callie se levantou inesperadamente e a interrompeu chamando a atenção tanto da esposa quanto da advogada.

– Bem Dra. Jones agradecemos toda a sua atenção, mas acho que não temos mais nada o que fazer aqui.

– Callie ...

– Já acabamos aqui Arizona e ainda temos que pegar Sofia na escola.

– Dra. Torres eu lamento.

Foi tudo ela pode dizer ao apertar a mão de Callie e Arizona e vê-las sair pela porta sem olhar para trás.

Durante o trajeto até a escola de Sofia o silêncio foi pesado, o clima de tensão entre as duas era tão pesado que poderia ser cortado com um bisturi, mas nenhuma das duas queria se pronunciar sobre o que acabaram de ouvir de uma mulher que não as conhecia, mas que tinha dito a elas o diagnóstico dos últimos anos de suas vidas, o que nem elas mesmo havia conseguido ver.

Arizona se perdeu em seus pensamentos olhando pela janela do carro e vendo as pessoas caminharem pelas ruas, pais de mãos dadas com seus filhos, mulheres empurrando carrinhos de bebê, parecia que agora que decidiram ter outro bebê elas atraiam grávidas e pais com seus bebês recém nascidos, e mais uma vez se sentiu fracassada, alguns anos atrás prometeu a Callie dez filhos e não havia conseguido dar a ela nem mesmo um, até Sofia foi Callie que lhe deu de presente. Como as coisas para elas estavam tão complicadas em qual curva da vida elas se perderam.

Arizona fez um pequeno retrospecto de sua e sabia que muitas das coisas que estavam acontecendo era devido a suas escolhas desastrosas, que ela havia cometido erros que levou suas vidas a uma montanha russa muitas vezes desgovernada. Ela havia entrado naquele maldito avião no lugar de Karev sem pensar, traído Callie sem pensar, em seguida dormido com Leah sem pensar, foi ela que não honrou os votos e promessas feito a Callie, ela não estava sendo o bom homem na tempestade, não estava sendo aquela a quem seu pai criou para ser, ela havia as colocado nessa situação de desarranjo total.

Dentro de si mesma Arizona acreditava ter mudado, ela passou por muito, mas agora ela havia se encontrado e desde então sentia uma força tremenda brotando de dentro do seu ser, ela não era mais a Arizona desses últimos dois anos, ela descobriu que estava viva, essa Arizona é muito melhor que as outras, ela voltou a sorrir, a sentir alegrias nas pequenas coisas e ela queria muito esse bebê, então cabia a ela convencer sua esposa de que poderia correga-lo, embora Callie não parecia estar confiando muito nessa mudança, mas ela faria um plano, ela sempre tinha um plano, por dois anos ela havia se esquecido dos seus planos, agora era hora de voltar a ter seus planos de volta, então um sorriso mirabolante surgiu em seus rosto.

Callie estava perdida em seus pensamento e não notou o sorriso no rosto de sua esposa em sua mente estava dando por encerrado toda essa história de bebê e gravidez de uma vez por toda em sua vida, sim que ela queria outro bebê para abraçar, apertar, sentir o cheirinho delicioso, mas não poria de forma alguma seu casamento em risco, não perderia Arizona novamente, essa loira sentada ao seu lado é o amor de sua vida e não arriscaria perdê-la novamente, elas já tinham uma filha linda, inteligente, amável, ela é perfeitamente suficiente para fazê-la feliz. Então sua família de hoje em diante seria ela, Arizona e Sofia, esta era a decisão mais correta a ser tomada, só saiu dos seus pensamentos quando estacionou em frente a escola de sua filha e olhou o relógio.

– Bem chegamos vinte minutos antes, pela primeira vez desde que Sofia começou a pré-escola não estamos atrasadas.

–Talvez a psicóloga da agência tenha conversado com a diretora e ela disse que somos péssimas mães, estamos sempre atrasadas para pegar Sofia, quando não mandamos outras pessoas para pegá-la.

– Não acho que somos péssimas mães, somos cirurgiãs salvamos vidas, não podemos agendar horários para as pessoas ficarem doentes ou se acidentarem e Sofia é bem cuidada, amada e parece muito feliz em ser nossa filha, essa psicóloga não nos conhece.

– É mas ela nos descreveu ou pelos menos os últimos anos de nossas vidas, admita Calliope você está frustrada é por isso que está dizendo essas coisas você quer o bebê tanto quanto eu.

– Certo eu estou frustrada por não podermos ter um outro bebê agora mas isso não é o fim do mundo temos Sofia e para mim ela é o suficiente.

– Até quando ela vai ser suficiente para você Calliope, até encontrar alguém que possa lhe dar o que eu não consigo?

– Opa, opa, não sei onde você quer chegar com essa conversa Arizona, mas não estou gostando do caminho que ela está seguindo.

– Simples Calliope, eu vou ficar grávida, portanto vou carregar nosso bebê.

– O quê? Não. Não vou arriscar, se isso não der certo, não posso passar por tudo isso de novo Arizona, vamos esquecer esse assunto de bebê e focarmos em nos entender e seguir com nossas vidas. Escuta eu te amo, amo Sofia e está ótimo nossa família assim.

– Do quê você tem medo Calliope?

Nesse instante o sino da escola tocou e o barulho de crianças rindo e cantando invadiu o ambiente.

– Vamos pegar nossa filha e ir para casa.

Foi tudo que Callie disse.

O trajeto para casa foi feito com Sofia tagarelando sobre seu dia na pré-escola e seus colegas, fizeram uma pequena parada no supermercado para abastecer a dispensa da casa que já estava quase toda vazia e conversaram sobre coisas corriqueiras como preços de algumas coisa e a necessidade de se comprar outras, em casa Callie e Arizona se ocuparam dos afazeres da casa, como o jantar, em ajudar Sofia com o dever de casa e prepará-la para dormir e para o próximo dia de trabalho e escola que teriam, que quando viram já era bem tarde e só conseguiram ficar a sós novamente na cama quando estavam exaustas e com sono.

Callie estava deitada em seu lado da cama virada para a parede perdida em seus pensamentos, ela estava feliz por ela e Arizona estarem se acertando, mas algo entre elas ainda estava mergulhada em um abismo profundo que ambas não conseguiam trazer a chão firme, Callie ainda tinha a sensação de que tudo poderia se quebrar a qualquer momento bastava um aperto mais forte e o telhado de vidro de seu casamento se ruiria novamente.

Enquanto Arizona fazia o mesmo do seu lado a distância dos corpos eram visíveis entre as duas, desde que voltaram a viver juntas tinha sido dessa forma, muitas coisas se quebraram entre elas com tudo que aconteceu e agora estava sendo difícil de restaurar, principalmente porque as duas ainda não tinham parado para analisar o que precisavam fazer, elas estavam fazendo mas não parecia o suficiente, Arizona sentia que Callie tinha suas reservas com relação a ela, principalmente em muito momentos ela sabia que a esposa não confiava nela completamente.

– Callie você está dormindo?

– Não.

– Do que você tem medo?

– De muitas coisa, de cobra e ratos, de zumbins.

– Zumbins não existem Callie e não é disso que estou falando é sobre o bebê.

Callie soltou um suspiro e por alguns minutos hesitou em se virar e encarar a loira ao seu lado, Arizona alcançou o abajur e o acendeu, virou-se e encarou as costas da sua esposa, Callie sentiu seu olhar em suas costas, não tendo outra opção virou-se e encarou os olhos azuis sobre a luz fraca do abajur.

– Acho que a psicóloga tem razão, não estamos fortes o suficiente para termos outro bebê, nesses quase seis anos que estamos juntas aconteceram muitas coisas e muitas delas foram por nossas atitudes precipitadas e falta de um julgamento correto, essas últimas coisas que aconteceram quase nos destruiu para sempre, acho que é o momento de pararmos um pouco e analisar o que estamos fazendo, há alguns meses você mesma achou que não teríamos conserto e pensou em desistir e nos separarmos, então compramos essa casa nos mudamos a poucos meses e agora estamos dispostas a trazer ao mundo outro bebê, talvez estamos usando esse bebê para colocar mais um remendo em nosso casamento ao invés de consertarmos o que está errado primeiro.

– Mas estamos bem agora, estamos nos entendendo.

– Sim estamos Arizona, mas até quando até outra bomba estourar em nossos rostos ou ...

Fez um pausa.

– Ou outra loira aparecer no hospital e eu abrir minhas pernas para ela, você não confia mais em mim não é, não confia em arriscar que eu engravide e aborte novamente?

– Acredite eu te amo Arizona, se não a amasse não estaria aqui deitada nessa cama com você, mas você me traiu e mesmo que você não considere traição você dormiu com mais outra pessoa, desculpe-me mas ainda é tudo muito recente, acredite estou trabalhando nisso mas ainda não cheguei lá.

O rosto de Arizona já estava banhado em lágrimas ao ouvir de sua esposa como ela ainda se sentia, elas não conversavam muito sobre a traição Callie, nunca mais tocou no assunto desde que elas voltaram e ela entendia que isso era doloroso para ela.

– Você acha que algum dia você pode me perdoar?

– Eu já perdoei Arizona, no dia em que a pedi para voltar para casa, mas há uma ferida sendo curada e leva algum tempo para uma total cicatrização.

– Certo.

Callie ficou olhando a loira virar para o outro lado, ouviu ela fungar e tentar abafar o choro com o travesseiro e seu coração se apertou, sentiu uma necessidade enorme em protegê-la que instintivamente a abraçou por trás e beijou sua nuca, a loira pegou sua mão e beijou em meio ao choro, Callie pode sentir as lágrimas quentes .

– Arizona?

– Unhum — a esposa respondeu disfarçando o choro.

– Porque desde que saímos da agência está insistindo nessa ideia de ficar grávida, até ontem isso não era uma opção?

A loira enxugou as lágrimas com a mãos e se virou novamente sem sair do abraço da morena.

– Callie eu falhei tanto com você tomei tantas decisões ruins, fiz promessas e as quebrei e uma delas era ter dez filhos com você, eu me sinto fracassada e frustrada com tudo isso, eu também não superei esse erro estúpido que cometi que nos colocou nessa situação estúpida, só pensei que um filho nos fizesse esquecer mais rápido as coisas ruins, que se focarmos em uma coisa boa como um bebê poderíamos ser felizes mais fácil. Eu também te amo Calliope, e só quero ser feliz e fazer você e Sofia feliz e sei que você quer muito um outro bebê e que não vai ser completamente feliz sem ter outro bebê, eu te prometi dez filhos e quero fazer isso por nós e prometo que daqui para frente nem mesmo em meus sonhos eu vou se quer olhar para outra pessoa, eu farei de tudo para que você confie em mim outra vez.

– Você não fracassou sozinha Arizona, você a mulher mais forte que eu conheço, só tomou as decisões erradas levadas por um julgamento equivocado e você não nos colocou nessa situação sozinha eu colaborei um bocado e em se falar de promessas quebradas estamos em páreo iguais, fiz uma promessa baseada na emoção do momento e não em um julgamento médico e clinico, mesmo sabendo que dificilmente poderia cumprir tal promessa, e acredite eu não me arrependo de ter autorizado cortar sua perna pode parecer egoísta da minha parte, mas prefiro você me odiando por ter salvo a sua vida do que ter que enterrá-la junto com Mark.

– Eu já fiz as pazes com minha perna amputada Callie e eu estava sendo egoísta em querer morrer a ficar sem uma perna que posso viver perfeitamente bem sem ela ou quase perfeitamente bem, demorei muito entender isso, a dor de perder a perna não chega nem perto da dor que senti em perder você e Sofia. Eu preciso de você e preciso de Sofia para ser feliz.

– Que tal darmos um tempo nessa história de bebê, por enquanto, vamos nos reestruturar primeiro depois nós voltamos a pensar no assunto, eu preciso dormir um pouco tenho uma cirurgia complicada pela manhã.

– Está bem só por enquanto, eu te amo Calliope.

– Também te amo Arizona, durma bem e vamos diminuir a listas dos dez filhos para dois, acho que está de bom tamanho ficarei satisfeita com dois.

Callie beijou os lábios da esposa e apertou mais seu corpo quente contra o da loira parecia que queria fundir seus corpos, ambas logo caiu no sono.