Tequila Com Limão
32 Doendo
Notas iniciais
Capítulo 31 — Doendo
Assim que saiu do palco Daniel arrumou suas coisas e foi em direção ao bar, comprou uma garrafa de bebida sob o olhar curioso de Tony, um dos garçons que estava atendendo o local e olhou para Carolina enquanto aguardava, ela não estava mais prestando atenção a ele, sorriu para alguma coisa que Eduardo disse concordando com a cabeça, assim quando Tony lhe alcançou a garrafa enrolada em um saco de papel ele a pegou e foi embora. Carolina viu Daniel sair do bar e atravessar a rua indo para a praia, mordeu o lábio inferior e depois olhou para Nath, a amiga correspondeu o olhar e Carolina soltou um suspiro.
—Carol? Está tudo bem? — Eduardo perguntou notando que ela parecia distante.
—Tudo certo. — Carolina fingiu outro sorriso e voltou a prestar atenção ao que Eduardo dizia por alguns instantes, depois novamente seu olhar seguiu para a praia, mas Daniel já havia se fundido com a escuridão da noite.
Depois de caminhar por alguns minutos, Daniel sentou-se na areia absorto aos seus pensamentos. Destampou a garrafa de bebida e tomou um longo gole que desceu queimando sua garganta. Sem perceber começou a lembrar-se de sua mãe, ele a havia perdido quando era pequeno, tinha apenas oito anos quando ela morreu de câncer. Ele a amava.
Amanda chorara tanto naquela época, ele precisou ser forte já que o pai havia se perdido na bebida, ele precisou cuidar de sua irmã que era apenas um ano mais nova, assim todas as noites Amanda adormecia ao seu lado com os olhos vermelhos e inchados. Com o tempo a dor diminuiu, nunca desapareceu, mas ao menos tornou-se suportável.
Alguns anos depois seu pai conseguiu se recuperar e voltar a ter uma vida normal, Amanda já não chorava mais a noite, porém durante o tempo que passou bebendo e jogando, seu pai fez alguns inimigos, assim, lembrou-se quando há oito anos vira-o levar um tiro no peito em frente a sua casa, a cena ainda era viva em sua memória, seu pai caindo de joelhos no chão enquanto olhava para ele, o carro sumiu virando a esquina e ele só teve tempo de perceber a cor escura, em choque correu até o pai e se ajoelhou ao seu lado mas seus olhos já estavam vazios. Foram tempos difíceis, Amanda voltou a chorar todas as noites e ele não podia fazer nada a não ser abraçá-la e prometer-lhe que tudo ficaria bem.
Daniel voltou a tomar a bebida, já havia passado da metade da garrafa, ele sabia que aquilo não resolveria, mas sentia-se tão vazio, tão desolado que era a única coisa que ainda tinha vontade de fazer. Queria abraçar Carolina, sentia sua falta, sentia falta de sua voz, do seu calor, mas não podia, Eduardo estava fazendo com que sorrisse enquanto ele a fizera chorar.
Deitou-se para trás na areia e encarou o céu noturno. Uma hora se passou até que ele levantou e caminhou para casa, em algumas semanas Amanda voltaria para visitá-lo e ele tomou a decisão de partir com ela. Fugir nunca havia resolvido nada, ele sabia disso, mas talvez longe ele conseguisse de alguma forma seguir em frente. Quanta ilusão.
Chegando em casa seu celular tocou e ele atendeu vendo que era sua irmã.
—Ei, estranha.
—Olá estranho, você não estava dormindo, estava? Só lembrei do horário quando já tinha discado...
—Não, acabei de voltar da praia.
—Hum. Está tudo bem?
—Não realmente. — Ele suspirou.
—E o motivo por acaso é a Carolina?
Ele virou os olhos para o aparelho, ele e a irmã costumavam se telefonar algumas vezes por mês, ela sabia sobre Carolina desde a primeira vez que ele a encontrara na praia, agora toda vez que ligava perguntava dela, mas não tinha ligado desde o dia em que ele havia ido até a casa de Carol.
—Ela me afastou, meio que de vez.
—Ainda sente medo de se machucar?
—Definitivamente, o incrível é que parece que é só comigo, porque ela continua andando com as meninas, inclusive rindo com o Eduardo. — Ele suspirou outra vez. — Sinto falta dela.
—Dê um tempo a ela, ela vai perceber que isso não adianta nada, ela vai superar, Dan. Você sabe como é, a gente sabe como é. — Amanda disse mais baixo.
—Eu sei. Não quis deixar você chateada, estranha. Esqueça isso. Então, quando você chega?
—Comprei a passagem para sexta-feira, consegui antecipar e assim posso ficar duas semanas inteiras aí com você e voltar só depois da virada de ano, o que acha?
—Acho ótimo. — Ele sorriu. — Chad vem com você? — Perguntou brincando sabendo que Amanda viraria os olhos, Chad era seu vizinho de apartamento e completamente apaixonado por ela, o único problema era que segundo Amanda, as calças xadrez combinando com as pantufas fofas e as camisetas de bandas pop para adolescentes do sexo feminino não faziam o seu tipo de homem.
—Muito engraçadinho.
—Brincadeira, maninha. — Ele sorriu sabendo que ela estava emburrada. Depois resolveu mudar de assunto. — Pensei em passar um tempo aí com você quando voltar, meu inglês está enferrujado mas tenho dinheiro guardado pra me manter por um tempo.
—Uau. Isso é sério. Quer dizer, claro que você pode ficar por aqui, Dan, mas... é isso mesmo que quer?
—Eu sei que o que ela sente é medo Amanda, mas... dói olhar para ela e não poder tocá-la. Eu... — Ele respirou fundo.
—Ei, ok, tudo bem, não tem problema nenhum, você pode ficar o tempo que quiser aqui. Além do mais, assim talvez Chad largue do meu pé. — Daniel sorriu.
—Ok. Obrigado, maninha.
—Até sexta, estranho.
—Até, estranha.
A semana passou lentamente, Daniel deu seu aviso no trabalho de que não voltaria na semana seguinte e nem depois do ano novo, enquanto isso Carolina e Nathália terminaram suas provas, ambas passaram de ano e pegaram seus diplomas na escola sem participar da festa e formatura, Carolina descobriu que não tinha vontade alguma de participar daquela festa, seus pais não estariam lá para ver, Nathália simplesmente não ligava para aquela baboseira de formatura e Carolina decidiu que preferia assim também. Então fizeram sua festa particular tomando banho de mar depois de tudo acabar. Carolina viu Daniel na praia também naquele dia, ele estava surfando, sozinho, por um tempo ela percebeu que ele ficou dentro do mar, sentado em sua prancha vendo o horizonte, ela suspirou sentada ao lado de Nath na areia.
—Você sente falta dele. — Nath falou olhando para a amiga.
—Claro que sinto, Nath, mas vai ser melhor assim, eu não aguentaria se algo acontecesse a ele.
Nathália ficou em silêncio sentindo o sol em seu rosto, as duas esqueceram o assunto e simplesmente ficaram observando o céu azul.
Nathália fechou os olhos quando finalmente um vento soprou na praia mexendo seus cabelos, tinha pouca gente por ali naquele final de dia, tudo estava tranquilo até que Nathália sentiu pingos de água sobre seu rosto.
—Mas o que... — Ela começou a murmurar abrindo os olhos, até poucos instantes não existia uma nuvem sequer no céu.
—Oi gatinha. — Marcus disse a poucos centímetros da boca dela com um enorme sorriso enquanto os pingos de água escorriam de seus cabelos e caíam sobre o rosto de Nathália.
Nathália ficou sem reação por um instante, Marcus estava tão próximo a ela e por mais que não quisesse admitir Carolina sabia que a amiga estava com o coração acelerado.
—Você está louco? Está me molhando toda! — Ela falou empurrando Marcus para que ele se afastasse dela.
—Pelo menos você resolveu falar comigo agora. — Ele disse.
—Você não tem nenhuma loira peituda para beijar não? Larga do meu pé.
—No momento não, quer se colocar a disposição?
—Caso não tenha notado, querido, de loira não tenho nada, e definitivamente, nenhuma vontade de me colocar a tua disposição.
Carolina riu baixinho quando Marcus colocou a mão sobre o peito fingindo ter sido atingido. Ela sabia que ele só estava fazendo aquilo para irritar Nathália, e havia conseguido, mas ela também percebeu os olhos de Marcus quando Nathália resolveu ignorá-lo e decidiu que havia muito mais do que apenas provocação ali, ele realmente parecia gostar de Nathália.
Então sua atenção foi desviada quando percebeu que Daniel havia voltado para a praia e estava saindo do mar e indo em direção a eles, no mesmo instante Annabel e Mona chegaram e sentaram-se ao lado das duas, logo em seguida Daniel chegou também, ela engoliu em seco vendo a água escorrer de seus cabelos enquanto ele passava a mão para afastá-los do rosto.
—Oi. — Ele cumprimentou a todos olhando por último para Carolina e demorando-se um pouco até desviar o olhar, todos responderam de volta. — Amanda está chegando sexta. — Ele sorriu um pouco.
—Ótimo! — Annabel falou. — Nós pensamos em montar algo aqui na praia com o pessoal, um luau de boas-vindas para ela.
— Ah, legal. — Daniel disse assentindo.
—Oba! Já era hora dela vir nos visitar mesmo. — Nath concordou animada.
Conversaram sobre o assunto mais um pouco até Daniel anunciar que estava indo, Carolina havia se mantido calada na maior parte do tempo e como ele percebeu, não havia sorrido. Talvez se Eduardo estivesse ali ela não estivesse assim.
—Então, até sexta, qualquer coisa que precisarem me avisem. — ele disse.
—Mas você já vai? — Mona perguntou com uma sobrancelha erguida.
—Eu... ahã, sim, tenho umas coisas para fazer em casa... — Ele desconversou. — Até mais.
Todos se despediram e então Daniel foi para sua casa. Não tinha absolutamente nada para fazer, depois de tomar um banho subiu até o telhado do apartamento e deitou-se na sua cadeira vendo o final da tarde, fechou os olhos enquanto a brisa fria da noite começava a soprar.
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