Tequila Com Limão
19 Entregue
Notas iniciais
Capítulo 18 — Entregue
No sábado Carolina ficou na cama até tarde e passou o dia sem fazer nada, almoçou qualquer coisa que tinha na geladeira e depois sentou no balanço do quintal. Estava tudo em silêncio. Olhando o nada ela lembrou de seus pais, o tempo tinha se tornado mera questão de calendário esquecido, ela decidiu não pensar em quantas semanas ou meses haviam se passado porque isso só fazia doer mais, fazia com que ela pensasse no fato de que nunca mais iria vê-los ou ouvi-los, eles não bateriam mais na porta do banheiro para que ela saísse do chuveiro, nem mandariam ela comer a salada e parar de beber tanta coca-cola porque fazia mal para a saúde. Uma borboleta de assas pretas com tons de azul pousou em uma flor no canteiro embaixo da janela e fez com que Carolina sorrisse tristemente, sua mãe adorava borboletas.
Ela pensou em Daniel e em como se sentia ligada a ele. Precisava manter uma certa distância, quase haviam se beijado na noite passada e ela precisava evitar aquilo, mesmo que não quisesse, precisava aproveitar tudo, sem se ligar de verdade a ninguém.
Mais tarde, Nathália chegou em sua casa e foram juntas para a praia, tudo já estava pronto, uma fogueira grande montada na areia e várias pessoas aproveitando o final da tarde vendo o mar. Carolina viu aquela imensidão azul e sorriu. Era a coisa mais linda do mundo. Tirou sua mochila com algumas coisas que havia trazido junto, entre elas a jaqueta de Daniel, e sentou na roda em volta da fogueira, Mona e Marcus já estavam ali, eles a cumprimentaram com um olá e voltaram a conversar, Marcus ainda sorriu para Carolina e ela correspondeu.
Quando o sol já estava baixando no horizonte, ela viu Daniel chegando a praia, seus olhos se encontraram e ele sorriu para ela vindo em sua direção, disse oi para todos e sentou ao lado de Carolina na madeira deitada na areia.
—Oi. — Ele sorriu.
—Oi. — Era impossível não sorrir de volta, mesmo que ela quisesse evitar. — Eu trouxe sua jaqueta. Obrigada. — Ela disse logo em seguida pegando a mochila.
—Deixa nas suas coisas, depois você me dá. — Ele deu de ombros.
Ficaram em silêncio por alguns minutos enquanto mais pessoas chegavam a praia e se juntavam a grande roda em volta da fogueira, dois garotos chegaram com seus violões e logo um começou a tocar.
—Acho que esse é meu momento do dia de hoje. — Carolina disse sorrindo, o sol estava começando a se pôr e o garoto estava tocando uma música calma que combinava perfeitamente com aquilo.
—Pode ser. Mas tem muita coisa para acontecer hoje ainda, e eu trouxe tequila, então não vou me apressar em escolher meu momento de hoje. — Ele disse e piscou abrindo a própria mochila e mostrando a garrafa.
Carolina olhou para ele e riu, Daniel conseguia tirar sorrisos dela tão facilmente, percebeu. Era muito fácil estar com ele. Era quase como se fosse algo normal, algo que ela quisesse sempre. O que a levou a querer se afastar, porque esses eram pensamentos muito perigosos.
Mona sentou junto com os dois e começou a conversar com Daniel, depois o restante da turma se juntou a eles, quando Tom chegou, ela tentou disfarçar seu desconforto, afinal ele havia sido um idiota com ela realmente, decidiu ignorá-lo, mas isso não durou muito tempo porque ele veio e sentou ao seu lado. Daniel fechou a cara naquele momento e ficou subitamente mais tenso.
—Oi, Carol.
—Oi.
—Me desculpe por ontem, fui um pouco idiota com você.
—Ah, ok, tudo bem. — Pelo menos ele estava se desculpando.
—Mesmo?
—Sim. Tudo certo. — Ela deu de ombros sem dar importância, ele ter se desculpado já era uma grande coisa.
—Ok. — Ele sorriu e depois saiu do lado dela indo conversar com Jeni e outras meninas.
—O que houve ontem? — Daniel perguntou para ela.
—Nada, Tom foi meio grosso comigo depois que voltei para o bar, ele tinha bebido demais, só isso.
—Ele te machucou? — Daniel perguntou baixinho sem encará-la.
—Não, não aconteceu nada, Marcus mandou ele ir para casa. — Carolina respondeu com os cenhos franzidos, Daniel realmente tinha muita raiva de Tom.
—Eu não devia ter ido embora. — Ele suspirou.
—Não se preocupe, não aconteceu nada demais. — Ela disse e fez com que ele a encarasse.
—Ok. — Daniel pareceu mais aliviado.
Mais tarde todos assaram marshmallows na fogueira e comeram com pão e outras coisas que as meninas haviam trazido, todos estavam conversando e rindo bastante. Carolina se sentia bem ao lado de Daniel, mesmo que quisesse negar.
—Nossa, fazia tempo que eu não comia isso. — Carolina disse sorrindo para Daniel. — É uma delicia.
Daniel balançou a cabeça e riu.
—Tenho que concordar com você. — Eles ficaram se encarando por alguns segundos e Daniel sorriu de lado fazendo com que Carolina sentisse seu coração bater mais forte. Ela desviou o olhar rapidamente. Aquilo era perigoso de mais. Levantou para ir buscar mais marshmallows e quando voltou sentou ao lado de Nathália, ficando quase de frente para Daniel, ela não queria voltar a sentar ao lado dele, queria se afastar.
—Ei, Daniel, você precisa tocar alguma coisa pra gente! — Mona disse passando um violão para ele.
—Isso aí. — Lucas concordou.
Ele deu de ombros e pegou o violão, olhou para a fogueira a sua frente e para algumas pessoas no círculo, passou o olhar por Carolina e então começou a dedilhar no violão as primeiras notas de Better Togheter do Jack Johnson.
“There is no combination of words
Não há uma combinação de palavras
I could put on the back of a postcard
que eu poderia colocar no verso de um cartão-postal
No song that I could sing
Nenhuma canção que eu poderia cantar
but I can try for your heart
mas eu poderia tentar pelo seu coração”
[…]
Carolina ficou olhando o fogo enquanto ele cantava, ela podia sentir Daniel completamente conectado com a música, todos estavam quietos acompanhando o ritmo, a maioria sorrindo e apenas curtindo o momento. Sua voz se derramava e quando Carolina olhou para ele, ele estava de olhos fechados com aquele sorriso bonito no rosto. Então abriu os olhos e a encarou cantando:
“It's not always easy and sometimes life can be deceiving
Não é sempre fácil e às vezes a vida pode ser enganadora
I'll tell you one thing
Vou te dizer uma coisa
it's always better when we're together
é sempre melhor quando nós estamos juntos
It's always better when we're together
É sempre melhor quando nós estamos juntos
Yeah we'll look at the stars
Yeah, nós olharemos para as estrelas
when we're together
quando estivermos juntos
Well it's always better when we're together
Bem, é sempre melhor quando nós estamos juntos
Yeah! it's always better when we're together
Yeah, é sempre melhor quando nós estamos juntos”
Seu coração bateu mais forte, foi como um soco quando percebeu que ele conseguia tocá-la só com sua voz, era como se olhasse dentro dela quando a encarava daquela forma e ela se sentia completamente exposta a ele, completamente entregue.
Porém, entregar-se era algo que ela não iria mais fazer, seria mais fácil desviar o olhar, seria mais fácil levantar e ir para casa ficar sozinha, seria mais fácil, se ela conseguisse simplesmente quebrar o maldito contato com o olhar dele.
Daniel viu a expressão de Carolina quando ele a encarou, ela estava confusa, percebeu que ela estava debatendo consigo mesma se deveria ficar ou fugir. Ele não deixaria que ela fugisse. Ah não.
Continuou cantando até terminar a música e o pessoal aplaudi-lo, depois passou o violão para outro e este começou a tocar uma música mais animada fazendo o pessoal rir e se divertir, enquanto isso, Daniel olhava para Carolina e ela da mesma forma para ele, absortos ao que se passava ao seu redor.
Carolina estava assustada com o modo como o seu coração estava batendo, ela precisava se manter distante, Daniel a tocava de uma maneira muito forte. Levantou-se sem chamar a atenção e foi caminhar pela areia. Subiu e desceu uma duna deixando todos para trás, agora estava só com o mar a sua frente e as estrelas acima. Sentou na areia e suspirou.
Poucos minutos depois viu Daniel vindo em sua direção com as mãos nos bolsos da bermuda que usava. Ele chegou e sentou ao seu lado sem dizer nada, apenas ficou ali. Daniel não devia estar ali, não devia vir atrás dela. Ela queria afastá-lo, porque quanto mais perto ele chegava, mais ela queria que ele ficasse.
—Porque você veio atrás de mim? — Perguntou.
—Não quis deixar você sozinha aqui.
—Talvez eu quisesse ficar sozinha. — Ela rebateu.
Daniel suspirou.
—Viver assim não vai melhorar as coisas, não vai afastar sua dor.
Carolina o encarou. Como ele poderia saber o que ela sentia?
—Você não sabe nada sobre minha vida para falar isso.
—Não, não sei. Mas sei o que é sentir isso. Sei o que é querer se afastar de todo mundo porque acha que assim irá se decepcionar menos, sofrer menos. Isso não resolve Carolina. Não muda nada, você continua sentindo a mesma dor.
—Então que diferença faz? Se a dor vai ser a mesma e eu quero lidar com ela longe de todo mundo, que diferença faz?
—A dor é mesma, mas é mais fácil de suportar com alguém ao seu lado.
Ele e a encarou e levantou seu rosto para que ela o olhasse nos olhos.
—Não me afaste de você. Deixe-me ajudá-la.
Então, lentamente, Daniel a puxou para seu peito e ela se entregou sem resistência, foi como encontrar terra firme depois de passar semanas a deriva. Ele passou seus braços em volta do corpo dela e a ela deitou a cabeça em seu peito, devagar ele começou a balançar o corpo para frente e para trás e lágrimas correram pelo rosto de Carolina sem que ela se desse conta.
—Eu estou aqui. Shhh.
Ela se agarrou mais forte a ele e deixou o nó em sua garganta se abrir sem emitir som. Como era bom sentir os braços dele em volta do seu corpo, como era bom se sentir protegida outra vez.
Passaram muito tempo assim, ela com a cabeça em seu peito ouvindo as batidas do seu coração, ele passando a mão em seus cabelos. Uma brisa morna soprou, ela limpou as lágrimas.
—Obrigada. — Disse e levantou o olhar, seus olhos se encontraram.
Lentamente, Daniel baixou a cabeça e aproximou seus lábios dos dela, Carolina não recuou. Ele pousou uma mão em seu rosto enquanto encaixava seus lábios e lhe dava um beijo calmo, sem pressa. Ela se entregou, sem reservas, sem pensamentos sobre o quanto aquilo iria doer se o perdesse, porque naquele momento, ele era tudo o que ela queria.
Quando pararam de se beijar permaneceram com as testas coladas, Carolina abriu os olhos e viu que Daniel estava com um olhar tão intenso que ela sentiu que ele a estava tocando em algum lugar muito mais profundo que seu coração.
—Doce Carolina. Você tem um gosto delicioso de marshmallow com chocolate. — E sorriu.
Carolina ainda atordoada com a intensidade do que sentiu, riu baixinho enquanto ele a envolvia em seus braços outra vez. Daniel deitou de costas na areia e a puxou junto consigo, deitando a cabeça dela em seu braço.
—Acho que vou escolher esse como o meu momento do dia. —Ele sussurrou em seu ouvido e voltou a olhar para as estrelas com um sorriso no rosto.
Fale com o autor