Tentação

51 - Capítulo 51


A casa do detetive Hants não era muito grande, mas com certeza valia muito dinheiro. Os portões eram de grades altas, entrar lá não seria fácil.

– Como vamos entrar? – Eu perguntei a Jess que estava sentado ao meu lado, com os braços pendurados no volante. Estávamos estacionados em um local um tanto distante, mas que dava para observar a casa perfeitamente.

– A pergunta é, como eu vou entrar. – Ele me olhou. – Você vai ficar aqui.

– O que? – Recusei na hora, com um olhar ameaçador, o melhor que eu conseguia fazer.

– Pretendo escalar. – Ele puxou a tranca e abriu a porta, saindo do carro.

Ele andou até a minha janela e fez um sinal com as mãos. Talvez significava um “volto logo” ou “não faça nenhuma bobagem”. Eu não sabia ao certo, mas esperava que fosse a primeira opção porque a segunda eu iria descartar e entender como um “espere eu sumir de vista, saia do carro e entre na casa logo depois”.

Como esperado, Jess sumiu de vista. A casa de Hants ficava um pouco mais isolada das outras, dando espaço para árvores e arbustos espinhosos. Jess não estava mais ao redor dela, ele estava dentro. Subir em árvores era minha especialidade, não seria um obstáculo difícil.

Me preparei e comecei a subir o tronco de uma árvore que ficava na parte lateral da casa. Não havia ninguém, as luzes estavam apagadas e o silêncio era desconfortável, um silêncio assustador. As grades estavam distantes de onde eu me encontrava, tentei chegar mais perto me pendurando em um galho mais próximo aos ferros. Mão por mão, eu me movi para frente, com os pés pendurados em alguns metros de distância do chão. Eu não tinha muito problema com altura.

Balancei meu corpo e com um impulso minhas mãos se prenderam nas grades. Sem fazer barulho, eu estiquei meu corpo em horizontal, e depois passei para o lado de dentro, segurando nas grades com as duas mãos eu escorreguei para baixo batendo meus pés com força no gramado. Ignorei a dor que eu sentia nos pés e nos braços e andei em direção as paredes da casa, rezando para não encontrar nenhum cachorro assassino. Entrar não foi difícil, mas sair seria.

– Certo. – Disse a mim mesma.

Nos fundos havia um pequeno quarto separado da casa, talvez Hants guardava coisas para se mutilar corpos, armas fatais. Mas seria burrice tentar esconder algo lá, então descartei a probabilidade de aquele ser um lugar importante. Virei a maçaneta redonda da porta dos fundos, com todo cuidado. Passei para dentro fechando a porta logo depois. Eu só conseguia ouvir minha respiração, o lugar estava escuro e eu não tinha ideia de que cômodo era aquele. Cozinha, pesei.

Com passos curtos, eu segui em frente, dando de casa com uma parede idiota que me fez assustar. Me recuperando eu passei por ela e consegui enxergar um corredor longo. Dava para vê-lo porque o teto dele era todo em vidro e o céu estrelado iluminava uma cor azul escura ao redor. – Bom gosto. – Sussurrei.

Era estranho não haver nenhum tipo de segurança em sua casa, as pessoas normalmente usam câmeras e alarmes quando querem se assegurar, mas no seu caso seria por questão de privacidade. Ele era misterioso e assustador.

Abrir qualquer porta seria pedir para morrer, na verdade entrar na casa era suicídio. Eu não sabia o que esperava por trás de cada porta. Mas era provável que não tinha ninguém na casa além do Jess. — Pensando assim, eu teria menos medo, estava me encorajando, me iludindo talvez. — Me movi cautelosamente para o lado direito e agarrei a maçaneta da primeira porta do corredor, empurrei-a e entrei no cômodo. No escuro, eu me prendi a parede e mantive a porta aberta em uma quantidade mais ou menos, qualquer coisa eu me mandaria sem olhar para trás. Tinha que ter algum botão para acender a luz, me arrastei pela parede a procura do tal botão, na minha procura eu esbarrei em algum objeto que foi arrastado com meu peso.

– Merda. – Xinguei baixo, inaudível.

Tentei não surtar. O som não foi tão alto, pensei.

Em minutos, um corpo me agarrou e tapou minha boca com força, imobilizando meus braços para trás. Eu entrei em desespero e tentei gritar, mas era impossível, o som saia abafado entre as mãos que me seguravam. Chutei com meu calcanhar a perna atrás de mim e me joguei para trás batendo o corpo da pessoa na parede. Uma voz gemeu, mas não de dor, de raiva mesmo.

– Você está maluca? – Jess falou em meio aos meus cabelos bagunçados. Seu hálito esquentou meu ouvido. – Vou te soltar. – Ele disse, baixo.

Respirando fundo, eu me afastei alguns centímetros tentando enxerga-lo, pude ver um corpo escuro, mais parecido com uma sombra.

– Podia ter apenas falado algo, e não me atacado desse jeito. – Falei em meio ao cansaço.

– Eu disse para ficar no carro. – Ele me conhecia muito bem para saber que suas ordens não eram bem-vindas. – Como entrou?

– Isso não importa, agora estamos aqui e precisamos seguir com nosso plano. – Falei decidida.

Jess soltou um som impaciente e percebi que ele esfregou o rosto, para afastar o desconforto. Contraria-lo não era fácil para mim, eu sabia que isso fazia ele perder a confiança, mas eu não podia ficar sentada só esperando.

– Eu estava prestes a descobrir algo quando você resolveu aparecer. – O tom era baixo e ele estava me culpando. – Isso aqui deve ser o quarto dele, não sei ao certo. – Ele continuou. – Tem um guarda-roupas de madeira forte bem naquele canto. – Ele deveria estar apontando, mas eu não conseguia ver sua mão, muito menos o guarda-roupas. – É estranho, eu abri e parece fundo demais.

– Pode haver alguma passagem. – Eu disse.

– É, mas ainda é estranho. – Sua voz passava preocupação. – Porque ele teria isso bem aqui, fácil assim?

– Eu não sei, mas precisamos entrar. – Falei me movendo, Jess agarrou meu braço.

– Não é assim que funciona. – Ele falou. – Pode ser uma armadilha.

– Mas e se for algo importante, você não sabe.

– Você também não sabe, nem era para estar aqui. – Sua mão ainda segurava meu braço. – Se for para ajudar, comece seguindo o que eu disser.

Suspirei. Jess estava certo, por mais que minha cabeça pensasse de outro jeito, eu teria que ignorá-la pelo menos naquela hora. Jess pensava, ele era cauteloso, cada movimento era calculado, ele sempre tinha razão.

– Ok. – Finalizei.

A mão de Jess, que segurava meu braço, desceu até minha mão e a segurou. Ele me levou com ele para o outro lado do cômodo, ele parecia meu cão guia, já que eu não enxergava nada.

– Aqui. – Ele sussurrou.

Eu encostei na madeira antiga e deslizei minhas mãos, ele abriu a porta e me puxou para dentro. Eu realmente achava que passagens secretas em guarda-roupas só existiam em filmes, mas mudei de ideia. Uma luz fraca se ascendeu, sozinha, no canto do enorme buraco de madeira que cheirava a couro.

Haviam algumas jaquetas e camisas penduradas, mas nada exagerado. Jess passou entre elas arrastando os cabides para os lados. Uma parede apareceu, era em madeira e oca. A casa poderia não ter qualquer sistema de segurança, mas aquele lugar podia. Quando vi Jess enfiando os dedos nas frestas de uma possível porta eu o parei.

– O que? – Ele perguntou em um sussurro, me fitando.

– Pode ter alarme. – Lembrei. – Só porque a casa toda não tem nenhuma segurança, não significa que aqui também não tem.

– Eu desativei todos. – Ele finalmente respondeu, puxando a madeira em sua direção.

Como eu não tinha pensado nisso antes? Óbvio que Hants tinha sistemas para manter a casa segura. Óbvio que Jess sabia disso. Óbvio que eu era uma idiota.

Depois de abrir a passagem secreta, Jess entrou e eu fui logo atrás dele. Luzes brancas se acenderam, ele parou me fazendo chocar meu corpo ao dele. O lugar não era grande.

Duas bancadas de vidro estavam centralizadas e atrás delas prateleiras de vidro. Andamos até lá para observarmos melhor.

As prateleiras estavam cheias de seringas com líquidos da cor verde, aquilo com toda certeza não parecia bom.

– O que é isso? – Perguntei ao Jess. Ele não respondeu de imediato.

– Eu não sei. – Finalmente disse em um tom duvidoso.

Um leve barulho ecoou pelo corredor me fazendo estremecer, alguém havia chegado. Uma voz gritou na minha cabeça. “Mag, corra para as colinas”.

– Hora de ir. – Jess segurou minha mão e me puxou para fora do guarda- roupas, fechou-a cautelosamente rápido e passou pela porta do quarto me levando junto. Não havia nada no corredor, apenas o clarão azul escuro do céu. Fomos até a porta dos fundos, Jess girou a maçaneta, mas sem sucesso. Alguém havia trancado a porta, estávamos presos.

– Ótimo. – Jess sussurrou, xingando baixinho logo depois.

– O que vamos fazer? – Perguntei a ele, apertando sua mão com mais força possível.

– Vai ter que aprender a se defender. – Ele disse, me puxando para mais perto. – Infelizmente, na prática. Só não deixe que te acertem. – Eu estremeci.

Uma sombra apareceu na entrada que separava a parede do corredor.

– E eu achando que você era esperto o suficiente. – A voz de Hants ecoou no cômodo.

Mais duas sombras apareceram atrás dele.

– Não desperdice chances. – Jess sussurrou. – Corra quando for possível. – Ele apertou minha mão e a soltou logo depois, correndo contra os dois homens musculosos.