Tentação
5 - Capítulo 5
Estranhamente, um clima pesado estava tomando conta do lugar, a água estava calma, não era possível ouvir os pássaros. Decidimos descer até a margem. A caminhonete só foi até no meio do caminho, porque haviam alguns galhos jogados na estrada de terra que nos levava direto ao rio, saímos da caminhonete e continuamos o caminho a pé.
– Só eu estou com uma sensação estranha? – Perguntei ao Louis.
– Como assim? – Levantou uma sobrancelha.
– Sei lá.
– Sei lá?
– É, não sei. Algo estranho, desde quando tem neblina nesse lugar? – Parei. O rio não estava visível, a “fumaça” branca tomou conta de toda a margem.
– O tempo está mudando, só isso.
– Tem alguma coisa errada. – Falei.
– Não, Mag. – Revirou os olhos. – Você anda assistindo muitos filmes. – Riu. – Agora é a hora em que um psicopata deformado aparece para nos matar.
– Não tem graça, Louis. – Escutei um barulho. – Você ouviu?
– Ouviu o quê?
– Tem alguém aqui. – Falei segurando a mão dele. – Vamos embora. – sussurrei.
– Olha, eu estou gostando disso, já já estaremos grudadinhos um no outro. – Gargalhou. E o barulho se repetiu, só que mais alto, e dessa vez Louis escutou. – Ok. – Sussurrou. Sua mão apertou mais a minha, e ele me puxou.
Andamos o mais rápido possível, entramos no carro, Louis deu partida e arrancou a caminhonete com tudo. Eu estava com medo, me lembrei da noite em que fui seguida.
– Você está pálida. — Louis comentou.
– É, se você não percebeu, eu quase tive um treco lá. – Tirei meu casaco. – Isso me deu até calor.
– Então eu acho melhor tirar tudo, até porque...
– CUIDADO. – Gritei. Louis freou a caminhonete bruscamente.
– Mas que droga. – Resmungou.
Tinha uma pessoa deitada no meio da estrada, estava de costas. Abri a porta e saí da caminhonete, corri em direção ao corpo.
– É um garoto. – Falei, ele estava usando moletom preto com capuz, seu jeans estava com sangue e pude ver uma mancha mais escura na blusa. – Ele está ferido. – Olhei pra Louis. – Temos que levá-lo para um hospital.
– Tá.. Tudo bem – Falou se agachando para me ajudar a levantá-lo. Ele ainda respirava, mas com muita dificuldade. Não havia nada, documentos, carteira, celular, nada. Seus bolsos estavam vazios.
Deitamos ele no banco de trás, Louis procurava o caminho mais perto para chegar ao hospital enquanto eu via se o ferimento era muito grave. Por mais que eu não entendesse muito bem, podia ter uma noção, adoro séries que envolvem medicina.
– Parece que ele foi vítima de uma facada.
– Como sabe? – Louis perguntou.
– Porque tem um corte, ué. Isso não pode ter sido feito por um revolver.
– É ali.. – Louis parou a caminhonete, pegou o garoto, colocou um de seus braços em torno do seu pescoço e levou-o para dentro. Fui logo atrás.
Fomos atendidos às pressas. O garoto foi levado pra uma sala de cirurgia. Parecia ter minha idade, cabelos negros e lisos, pele morena clara, não era muito alto e nem muito baixo, também nem magro e nem gordo.
– Já fizemos nossa parte. – Começou Louis. – Podemos ir.
– Não, quero ficar aqui, quero saber o que houve. – Falei, me sentando em uma das cadeiras de espera.
– Deixe de ser curiosa. – Se irritou. – Ele não vai sair daqui tão cedo, a situação é grave, a enfermeira me disse, voltamos amanhã.
– Tá... – Bufei. – Tudo bem... voltamos amanhã.
Louis me deixou algumas quadras da minha casa, só para gastar mais tempo e minha mãe não perceber que tinha matado aula. Mas isso foi meio que atoa, porque quando cheguei, mamãe não estava em casa. Havia esquecido da nossa conversa mais cedo, quando ela disse que visitaria a empresa onde foi chamada para o cargo.
O tempo estava de chuva. Louis tinha razão, estava tudo bem, andei assistindo muitos filmes eu acho... Mas ainda não me sentia tranquila, decidi tirar uma soneca, Kane não estava em casa e não fazia ideia de onde teria se metido.
Acordei com o som do meu celular, era mamãe me ligando.
– Oi querida. – Ela começou. – Tenho ótimas notícias.
– Hm.. – Não conseguia falar mais que isso, eu estava grogue.
– Aceitei o emprego, vou ganhar um bom dinheiro, já não vai mais precisar trabalhar para me ajudar, apenas ajudará a si mesma com seus estudos. – Ouvi seu sorriso. – É um trabalho chato, mas o valor é ótimo. A empresa é enorme, você pode até vir ver se quiser.
– Talvez...
– Não sei se chego tão cedo hoje, — Falou preocupada. – mal aceitei e já me deram algumas coisas para fazer. E terá um jantar, mas não sei se vou participar, não quero deixar vocês dois sozinhos em casa.
– Mãe.. – comecei. – Tudo bem, já somos grandinhos, sabemos nos comportar. – Revirei os olhos. Aproveitei que ela não estava presente, pelo contrário, ela me estrangularia, sem dó. E nesse tempo de conversa eu havia me esquecido do menino que Louis quase tinha atropelado, pensei em contar pra ela do ocorrido, mas logo me lembrei que eu havia matado aula e ela não ia gostar muito, resumindo, ela ia me matar. – Você pode ficar tranquila, – Comecei — vamos nos cuidar.
– Tudo bem então. – Seu tom de voz não pareceu confiante, ela estava sim preocupada. – Chego o mais rápido que puder. Beijo.
– Beijo.
Depois de me espreguiçar na cama, levantei e fui pra cozinha ver o que tinha pra comer, revirei os armários e a geladeira e encontrei pães, hambúrgueres, maionese, suco. Ótimo, tudo que eu preciso.
O tempo fechava mais e mais a cada minuto que se passava, Kane não estava em casa e já havia se passado algumas horas, mamãe estava demorando. Resolvi ligar pro meu irmão.
– Alô. – Ouvi, depois de cinco “tuuuuus”, ele finalmente atendeu.
– Onde você está? – Perguntei.
– Por que? – Ele perguntou. Percebi que tinha música no fundo.
– Tá aonde? – Insisti.
– Na casa de um amigo. – Ele respondeu.
– Essa música é da casa do seu amigo? – Perguntei desconfiada.
– É. – Ele gritou, a música havia aumentado. – Festinha particular.
– Mas que droga, Kane. – Bufei. – Você está chapado?
– O que? – Ele riu. – Não... estou ótimo, estou bem. Acha mesmo que vou perder meu tempo com drogas? – Perguntou divertido. – Tem muita gostosa aqui maninha. Se não se importa, vou desligar, tenho mais o que fazer. — E então, fiquei sozinha na linha.
O relógio da cozinha indicava a hora que eu deveria estar no trabalho, corri me arrumar, peguei minha bolsa e saí. Estava atrasada, a Sra. Antipática não ia gostar nadinha do meu atraso, mas eu estava pronta para aguentar qualquer bronca. Peguei o primeiro taxi que avistei, milagre, até porque sempre que vou pegar um, eles estão ocupados.
Quando cheguei, ela estava do mesmo jeito de sempre, encostada em seu balcão, porém não mascava chiclete. Ela estava cutucando os dentes com a caneta, aquilo era nojento. Ela me olhou e em seguida me mostrou o avental. Andei até lá e coloquei-o em meu corpo.
– 50 dólares já foram descontados do seu salário. – Ela disse.
– O que? – Perguntei surpresa e indignada, não era pra tanto, atrasei-me apenas 20 minutos.
– Se der mais um pio, serão 150. – Pensei em protestar, mas eu não queria perder 150 dólares nem a pau.
Fiz tudo o que tinha de ser feito, o rocks’s estava meio parado, pelo menos na lanchonete, porque o bar estava lotado de velhos barbudos com seus cigarros fedidos e suas bebidas nojentas.
Faltavam ainda uma hora para meu tempo de trabalho ir ao fim, e eu estava cansada de olhar pra cara da Sra. Antipática, me imaginei voando nela com um soco e quebrando seus dentes abertos por uns 10 minutos, então parei, se não seria obrigada a fazer aquilo acontecer e não seria bom pra ela e nem pra mim.
Nesse intervalo de uma hora eu havia bebido muita água e estava quase estourando, precisava usar o banheiro ou minha bexiga iria explodir. Prestes a entrar no corredor para usar o banheiro, um faxineiro me avistou.
– Não pode usar o banheiro. – Ele disse.
– Por que? – Perguntei, quase enfartando.
– Os sanitários estão com problemas.
– Meu Deus, eu preciso muito mesmo de um banheiro. – Resmunguei. – Não tem algum reserva, para os funcionários?
– Não, infelizmente não lembraram de construir isso aqui, mas se quiser pode usar o masculino. – Ele sorriu.
– Não. – Falei em tom de nojo.
– Vá no bar. – Ele disse apontando para porta que dava direto ao bar onde os velhos gordos estavam. – Lá, por incrível que pareça, tem um banheiro feminino.
Pensei seriamente em passar por lá, aqueles caras me assustavam. Mas ou isso ou molhar as calças. Decidi enfrentar isso.
Abri cautelosamente a porta que ligava a lanchonete do bar e me movi o mais leve e imperceptivelmente possível para que não me notassem. O lugar era totalmente desagradável, o cheiro de cigarro meu deixara sem ar. Avistei uma parede com um corredor estreito e então andei até lá. Haviam duas portas com placas indicando banheiro feminino e masculino, entrei, obviamente, no feminino. Me assustei ao ver que as paredes estavam brancas e o cheiro não era desagradável, imaginava paredes riscadas, pisos quebrados e odor de esgoto.
Fiz tudo o que tinha que fazer e saí. Me escondi atrás da parede, para observar o lugar e tentar não chamar a atenção do mesmo jeito que consegui entrar. Logo a frente, na minha esquerda, um balcão pegava metade do salão. Um homem que servia bebidas conversava com outro que fumava. Ele era grande e sua barba era rala, olhos grandes e um sorriso diabólico. Mas parei de prestar atenção quando olhei mais ao lado, um cara sentado no canto, ele usava uma camisa preta, seus braços estavam cruzados apoiados no balcão e sua cabeça tombada para baixo, cabelos lisos, pude ver somente a ponta de seu nariz. Não me parecia desconhecido, então quando menos percebi ele mostrou sua face. O garoto que Louis quase havia atropelado estava ali, bem ali. Sem nenhum arranhão.
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