Tentação
24 - Capítulo 24
Lucia chegou alguns minutos depois que Jess saiu. Ela percebeu minha indignação no rosto, que eu expressei ao saber que Jess não estava errado, ele era mesmo muito bom.
– Fui ao mercado, – Falou indo até a cozinha com sacolas nas mãos. – comprar algumas coisinhas que estavam faltando aqui.
– Quer ajuda? – Perguntei abrindo as sacolas.
– Ah, sim. – Ela abriu as portas do armário e começou a colocar as coisas dentro, eu ajudei.
– Lucia. – Chamei sua atenção. – Esqueceu os cereais. – Fiz bico.
– Desculpe, menina. – Disse. – Minha memória anda com problemas ultimamente.
– Tudo bem, eu vou comprar. – Falei deixando as sacolas de lado. – Preciso andar um pouco.
– Ok. – Ela sorriu.
Subi para o meu quarto e vesti uma roupa mais adequada para sair de casa, o mercado não era muito longe. Quando saí, senti o vento frio passar por mim, não estava chovendo mas o tempo estava fechado, água ia cair a qualquer momento.
Ao me distanciar de casa por alguns metros, comecei a ouvir passos atrás de mim, pelo barulho de salto concluí que era uma mulher, não me preocupei até a garota chegar perto de mim.
– Preciosa Magda. – A voz firme dela me causou arrepios, era Hanna, a garota dos cabelos brancos.
– Quem é você? – Perguntei me equilibrando depois do pequeno susto que levei. Fingi não conhece-la.
– Hanna. – Ela sorriu. Sua calça de couro era toda colada, definia cada centímetro de suas pernas, ela usava uma camisa regata mesmo estando frio, e botas de saltos baixos. – Jess nunca falou de mim?
– Não me lembro. – Menti e continuei andando com ela me seguindo. – Precisa de ajuda? – Perguntei, aliás não sabia o motivo do porquê que ela estava me seguindo.
– Sinceramente, — Ela riu. – não. – Seus lábios entortaram, o batom dela era tão vermelho que podia ser visto de longe. – Quem precisa de ajuda aqui é você, e eu estou aqui para isso.
– Não estou entendendo. – Falei confusa.
– É o seguinte. – Ela suspirou. – Jess me mandou aqui para ficar de “olho” em você. – Seus dedos se mexeram com um entre aspas no ar. – A parte importante é que eu não deveria contar pra você, só ficar de olho e pronto. – Ela colocou as mãos na cintura. – Mas me colocando em seu lugar, não gostaria de espiões me cuidando, então estou te contando.
– Olha, — Minha vontade era gritar como uma louca e bater no Jess, e bater muito nela também. – agradeço sua boa vontade, mas eu não preciso da sua proteção.
– Eu também não queria proteger você. – Ela fez careta. – Mas vai por mim, Jess consegue convencer qualquer um com aquele olhar. – Não era impressão minha, os olhos dela brilharam quando ela acabou de falar aquilo. Eu não falei nada, mas encarei-a de boca aberta, deixando claro que odiei ter que ouvir aquilo. – Calma. – Ela falou colocando uma mão na minha frente. – Não temos nada, infelizmente. – Ela sorriu. – Ele fala muito de você.
– Já de você, ele nunca me contou. – Passei por ela em passos rápidos entrando no mercado. Hanna era uma garota metida e toda rebelde, ter que ficar do lado dela me fazia quase vomitar, tipo quando Haily estava perto, sentia a mesma coisa. Jess estava passando dos limites, não queria ninguém me bisbilhotando e ele fez questão disso. Hanna estava logo atrás de mim quando encontrei os cereais nas últimas prateleiras, pegando os cereais saí do corredor e fui ao caixa para pagar, Hanna puxou um saco de M&M e jogou na esteira do caixa.
– Também comemos chocolate. – Ela sussurrou.
Saindo do estabelecimento, senti meu celular vibrar no meu bolso, puxei ele e vi que era um número desconhecido, atendi.
– Alô. – Falei.
– Mag. – Uma voz masculina e familiar passou pelo meu ouvido.
– Quem está falando? – Perguntei, gesticulando para Hanna parar de vasculhar seu saco de chocolate que estava atrapalhando minha audição.
– Detetive Hants. – “O homem de colete”, pensei. – Disse que avisaria você se novas notícias aparecessem, mas... – Ele pausou. – Abgail está sumida faz dias, já não temos mais esperanças. – Estava com a verdade na ponta da língua, queria falar ao Detetive que Abgail ainda estava viva, mas Hanna estava comigo e pensei nas palavras de Jess quando ele disse que policiais não ajudariam em nada.
– Ah meu Deus. – Fingi preocupação. – Vocês não... não podem desistir.
– Eu sei, não disse que estamos desistindo, mas perdemos a esperança, não quero decepcionar ninguém, então é melhor saber que encontrá-la viva pode ser difícil. – Sua voz falhou.
– Entendo. – Olhai para Hanna, que estava atenta ao que saída da minha boca. – Mas vou continuar rezando para que tudo dê certo. – Falei por fim, nos despedimos e Hants desligou.
– Quem era? – Hanna perguntou.
– O detetive Hants. – Respondi colocando meu celular novamente no bolso.
– O que ele disse?
– O que é isso? – Me irritei. – Vai ficar de olho na minha privacidade também?
– O caso de Abgail não é privacidade sua. – Sua expressão mudou para uma mais nojenta.
– Se você sabe, não precisa ficar questionando. – Comecei a dar passos largos e rápidos para me afastar dela. – Nem sei o que ainda está fazendo aqui.
– Não vai se livrar de mim. – Ela correu fazendo barulho com seus saltos irritantes. Aquele visual a deixava tão vadia quanto uma vagabunda de esquina. – Não gosto de você, nem sei porque topei aturar sua criancice.
– Jess consegue convencer apenas com seus olhos. – Repeti o que ela tinha dito no começo.
– É... tanto faz. – Seus cabelos mexiam para lá e para cá a cada passo que ela dava. – Não consegui pensar direito na hora.
– Você pode calar a boca? – Minha raiva estava começando a aparecer.
Minha casa já era visível de onde estávamos, Hanna me seguiu até a entrada da varanda e eu estava prestes a jogá-la no gramado e estapear sua cara magra e cheia de tinta. Quando abri a porta ela veio logo atrás segurando a madeira para poder entrar.
– O que está fazendo? – Perguntei furiosa por dentro, tentando não chamar a atenção de Lucia.
– Tentando ser sua nova amiga. – Ela falou baixo.
– Visita. – Lucia falou olhando para nós duas, que parecíamos duas cobras se enrolando, eu tentando não deixa-la entrar e ela insistindo em pôr os pés para dentro. Lucia tirou minha atenção, me fazendo dar espaço para que Hanna atravessasse a porta. – Olá.
– Olá. – Hanna sorriu falsamente.
– Gosta de torta de morango? – Lucia perguntou secando as mãos no guardanapo.
– Não. – Falei ao mesmo tempo que Hanna disse “Sim”.
– Então será o café da manhã. – Ela sorriu, escolhendo o “Sim” como resposta.
Lancei um olhar ameaçador para Hanna e subi as escadas, sendo seguida pela serpente de batom vermelho. Ela entrou e sentou na cama, jogando uma perna em cima da outra, apoiando suas mãos para trás e olhando cada canto do quarto.
– Isso é tão... cheio de coisas desnecessárias. – Disse mexendo seus olhos grandes.
– Desnecessário é você estar aqui. – Tirei meus sapatos jogando em um canto.
– Vamos ter que nos aturar, estou pronta para ser sua grande amiga, falsa é claro. – Ela sorriu. – Não leve nossa amizade a sério, estou aqui apenas para agradar Jess, eu devo uma a ele. – Ela mexeu nos cabelos. – Saiba que eu não gosto de ninguém.
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