Tentativas de Poesias
15 Ressaca
Risadas e cochilos com cheiro de madeira,
Aquele amor de uma semana inteira,
Uma vida perfeita com um gole a mais,
Mas nós sabemos que só isso não satisfaz.
Porque depois que o álcool sai do sangue,
Depois que abandonei a minha gangue,
O que resta é o gosto amargo
Que nem mesmo o teu sorriso largo
Consegue adoçar.
Porque minha ressaca tem gosto de abandono.
Tem gosto de um pai que nunca me conheceu,
Tem gosto de uma esperança que já morreu.
Tem o gosto do teu beijo que eu ainda não entreguei,
Tem gosto de um veneno que eu nem tomei.
A minha ressaca tem a sensação da minha alma,
Tem os assombros de quem não consegue ficar calma,
Tem o gosto amargo da minha solidão,
Tem a tristeza em cada batimento do coração.
Porque a minha ressaca vem na forma de rejeição,
Vem na forma de um irmão bem sucedido,
Vem com o cheiro do filho preferido
E agarra-se em mim como o fracasso da família.
Aquela merda de filha
Que não tem mais choro pra esvaziar,
Que não aguenta mais se calar.
Vem na filha de um pai arrependido,
Talvez uma filha que não deveria ter nascido.
Porque a minha ressaca tem gosto de covardia,
Uma timidez que anda com a minha ironia.
A minha ressaca tem gosto de ansiedade,
Tem aquele gosto que volta uma vez ou outra na Cidade,
Só pra dizer que ainda está aqui.
Só pra me arranhar na hora de dormir.
A minha ressaca é a única que me sobra,
É o que me impede de ver a escória,
Que sou eu quando sóbria.
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