Tentando Pegar no Sono
1 Capítulo 1
Notas iniciais
John realmente pensou que não conseguiria dormir aquela noite. Estava quente, mesmo que fosse plena madrugada. O barulho do ventilador era alto, mas ele não pensava em reclamar, agradecido pelo vento frio que o alcançava na cama. Frestas de luz de um começo de manhã invadiam o quarto e ele conseguia distinguir as silhuetas escuras com os olhos sonolentos. Avistando o causador da sua insônia.
A silhueta negra dos cachos e do par de orelhas felinas era clara em frente à janela. Havia comprado um gato a poucos dias e simplesmente não conseguia mais dormir. Sherlock, como era o nome do novo morador do 221b, passava o dia dormindo para passar a noite perambulando pelo quarto e fazendo barulhos sem se importar com o sono do dono. Exclamando, de tempos em tempos, o quão entediado estava e como tudo era tão entediante. O apartamento, os móveis, a decoração e inclusive o próprio John.
Apesar disso, o loiro não tinha plano algum de se livrar dele. Sherlock o fascinara desde o primeiro momento na loja. Ele era absurdamente inteligente e seus olhos lhe causavam arrepios. Mesmo que naqueles momentos, durante as madrugadas, John sentisse vontade de jogá-lo pela janela.
Sherlock se aproximou da cama batendo os pés e murmurando alguns xingamentos no silencio do quarto. John não podia ver o seu rosto, mas sabia que ele fazia aquela careta engraçada que deixava os caninos afiados a mostra.
–Quer fazer o favor de se deitar, Sherlock – o doutor pediu com a voz pastosa pelo sono. – Eu realmente preciso dormir um pouco.
–Minha mente está mais do que acordada, John – retrucou de maneira seca. – O sono é apenas uma perda de tempo. Preciso de estímulos para viver, não desse quarto entediante.
–Diz aquele que dormiu a tarde inteira – zombou. – Você só precisa deitar um pouco.
–Não quero me deit...
A frase não foi terminada. John inclinou o corpo pra cima e agarrou o ombro alheio com firmeza, trazendo o corpo esguio de Sherlock para a cama. Houve um momento em que ambos ficaram calados, só se podendo ouvir o barulho do ventilador e o farfalhar da calda do moreno. A calda longa e macia batia, de um lado para o outro, com irritação contra as pernas de John. Mas antes que Sherlock começasse a se debater, John levou as mãos até os cachos sedosos, subindo até as orelhas pontudas no topo da cabeça. Coçou o local com delicadeza e sentiu todo o corpo do meio gato relaxar contra o colchão.
John não podia ver bem, mas sentiu o peso do olhar de Sherlock em seu rosto. Sabia que o outro podia ver na escuridão e se sentiu um tanto constrangido, mas não parou com a caricia em suas orelhas. Minutos de carinho se passaram até que um som grave e macio começou a vir do moreno. O ronronar veio como música para os ouvidos de John, que se sentiu mais sonolento pelo som que lembrava um motorzinho.
Sherlock se aninhou contra o peito de John, escondendo o rosto contra a curva de seu pescoço, enquanto continuava a ronronar. Ele ainda mordiscou a pele parda do loiro algumas vezes antes de se aquietar de vez. A respiração calma contra o pescoço alheio, o ronronar bem ao lado da orelha de John, o vento frio do ventilador em seus pés descobertos.
O médico respirou aliviado, sentindo o sono tomar conta de si aos pouquinhos. Sentiu Sherlock ao seu lado, aninhado contra si, ronronando daquela forma para si e pensou em como era bom dormir ao lado dele.
E, no final, não fora tão difícil assim pegar no sono.
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