Tentação

34 - Capítulo 34


O socorro chegou dez minutos depois. Jess e eu estávamos sentados entre meio a uma grande fileira de cadeiras azuis de plástico que ficavam coladas com a larga parede branca que espalhava cartazes indicando prevenções de gravidez, doenças e um mural com fotos das várias equipes que “ajudavam a comunidade”.

Mamãe estava em uma sala no outro corredor, a enfermeira havia dito que ela levaria alguns pontos e tomaria uns comprimidos para aliviar a dor. Já Lucia, ficaria talvez a noite toda tomando soro. Em nossa conversa com a enfermeira soubemos que ambas não se lembravam de nada.

– Sua mãe teve uma pancada muito forte, isso afetou suas lembranças, mas creio que voltará ao normal em alguns dias. – A enfermeira disse, revirando folhas em um bloco de notas. Ao mesmo tempo em que eu ficava preocupada com isso, eu ficava aliviada, ela não iria saber o que houve e eu teria um tempo para pensar em como explicar tudo aquilo sem ela surtar. – Em questão da senhora... – Referiu-se a Lucia. Ela entortou os lábios e ergueu uma sobrancelha. – Não sabemos o motivo da perca de memória dela. – O olhar da enfermeira era desconfiado, ela encarava a mim e a Jess, um de cada vez. Ok, eu disse que tínhamos sidos atacados por dois caras, eles arrombaram a porta, ameaçaram nós todos com uma pistola e machucou Lucia, bateu com a pistola em minha mãe etc. Sim, uma desculpa meio estranha, mas não consegui pensar em nada na hora do telefonema para a ambulância.

– É muito grave? – Perguntei, olhando rapidamente para Jess.

– Não. – Ela ergueu seu olhar e fechou o bloco, ajeitando seus óculos de grau. – Está tudo bem. Mas é estranho um enforcamento sem sucesso conseguir apagar a memória de alguém. – Ela puxou o ar e soltou devagar. – No caso dela, não sabemos se voltará a se lembrar. – Ela pôs as mãos para trás. – Sentem-se, qualquer notícia informarei vocês.

– Philip causou isso. – Jess começou quando a enfermeira sumiu de vista. – Ele tem o poder de conseguir apagar trechos da memória do ser que possuí. – Seus olhos eram frios. – Mas por que ele faria isso? – Suas sobrancelhas se juntaram.

– Talvez ele não queria se expor.

– Não sei. – Jess estava em dúvida e suas mandíbulas saltaram. – Preciso investigar isso.

– Não vai me deixar aqui sozinha, vai? – Perguntei, esperando uma resposta agradável.

– Não. – Ele sorriu. – Está com fome? – Ele se aproximou, enfiando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, eu assenti com a cabeça. – Vou buscar algo pra você. – Ele beijou minha testa e saiu a procura de uma máquina de comida que poderia ser encontrada em qualquer corredor do hospital.

– Você está aí. – Hanna apareceu, andando em minha direção. Ela não andava e sim rebolava. Ela fazia de qualquer lugar uma passarela. – Onde está Jess?

– Foi buscar algo pra comer.

– Não pude dar as caras. – Ela olhou para os lados, sua voz era controlada e baixa. – Não quero que saibam que eu sou cumplice do casal.

– Não precisamos da sua ajuda. – Falei sem pensar em ofendê-la.

– Exato. – Ela apontou seu indicador. – Você precisa, Jess não.

– Isso é ridículo. – Revirei os olhos.

– Eu também acho ridículo, mas quem foi que salvou você naquele banheiro nojento da Beats? – Ela mesma respondeu. – Eu.

– Já agradeci. – Tentei não perder meu controle.

– É, águas passadas. – Ela jogou um tanto de cabelo pro lado. – Mas qualquer gracinha, eu jogarei isso na sua cara. – Ela sorriu.

– Desnecessário.

Hanna usava uma calça de couro vermelha e as mesmas botas de sempre, começara a pensar que ela só tinha aquele sapato para vestir, uma camisa larga cinza e sua jaqueta de couro preto por cima.

– Mag. – Kane apareceu. – O que houve? Mamãe está bem? — Kane estava confuso.

– Sim, ela está bem. – Não havia contado ao Kane o que havia ocorrido de verdade, inventei a mesma história sobre os caras terem entrado em casa e nos ameaçado. – Não podemos entrar, ela está recebendo pontos na cabeça.

– E Lucia? – Ele quis saber.

– Lucia está bem também, só precisa tomar soro e logo estará livre para ir pra casa. – Sorri tensa.

– Oi. – Kane desviou seu olhar para Hanna, que o observava com desdém.

– Cara da toalha. – Ela falou, olhando-o de cima para baixo.

– Kane. – Ele quis que ela soubesse que seu nome não era “Cara da toalha”. – O que faz aqui?

– Companhia a sua irmã. – Ela respondeu, sua voz passou uma certa arrogância.

– Tudo bem, acho que já podemos entrar. – Falei, avistando a enfermeira vir em nossa direção.

– Podem ir vê-la se quiserem. – A enfermeira falou, com um sorriso no rosto. – Os pontos já foram dados.

– Ok. – Kane foi atrás da enfermeira que o levou a sala onde minha mãe se encontrava.

– Diga ao Jess onde estou. – Falei pra Hanna, que assentiu com a cabeça, ela não gostou muito mas aceitou fazer esse favor.

Mamãe estava sentada em uma cadeira branca macia no meio da pequena sala que cheirava álcool. Seus olhos estavam quase fechados,

– Ei. – Sussurrei perto dela. – Como está?

– Cansada. – Sua voz estava fraca, o remédio havia ativado o modo “sono” dela.

– Já podemos ir pra casa. – Kane avisou-a.

– Isso seria ótimo, preciso dormir. – Ela sorriu vagarosamente.

– Vou ficar aqui até que alguém da família de Lucia apareça. – Eu disse ao Kane. – Você veio com o carro?

– Sim. – Ele puxou as chaves do bolso de seu Jeans. – Vou leva-la pra casa. – Ele se inclinou, ajudando mamãe a se levantar. – Venho pegar você. – Ele falou passando por mim.

– Não precisa. – Kane havia captado a mensagem, ele sabia que Jess estava em algum lugar por ali e me levaria para casa, mas mamãe não pareceu entender e nem se importar, o remédio havia a deixado sem sentido, ela só precisava descansar naquele momento.

Hanna estava sentada do lado de Jess quando apareci atrás do Kane e da minha mãe, que saíram pela porta rumo ao estacionamento. Jess estava com um pacote de biscoito de chocolate e refrigerante nas mãos.

– Vou esperar alguém para ficar com a Lucia. – Falei, sentando-me ao lado de Jess.

– Você gosta de biscoitos de chocolate? – Ele perguntou.

– Se você não quiser, eu quero. – Hanna falou se inclinando para poder me ver melhor.

– Gosto sim, obrigada. – Falei, soltando um sorriso. Ouvi Hanna resmungar baixinho.

– Preciso resolver uns assuntos. – Jess me olhou, com seus olhos negros e misteriosos, mas eu sabia do que ele estava falando e ele sabia que eu sabia. Jess iria procurar mais respostas sobre Philip ter feito Lucia esquecer do acontecido. – Hanna vai ficar com você.

– O que? – Falamos juntas, obviamente não era confortável pra nenhuma de nós estarmos juntas em algum lugar.

– Tenho planos. – Hanna protestou.

– Acabou de cancelar. – Jess falou, se virando apa me beijar nos lábios. – Te vejo mais tarde.

– Ok. – Sussurrei. Ele saiu.

– Me dê um biscoito e eu prometo não tentar matar você durante esse tempo que passaremos juntas. – Ela ergueu uma sobrancelha, aquilo era sério, ela poderia me matar a qualquer momento se eu não dividisse o doce com ela. Eu apenas sorri e joguei o saquinho de biscoito em suas mãos.