Tentação

32 - Capítulo 32


Eu, Jess e Abgail estávamos no depósito ainda. Havíamos nos soltado das cordas com a ajuda de Jess. O lugar estava escuro, apenas era possível enxergar mais ou menos por conta da luz da lua que passava pelas janelas. Em nossa mente apenas se passavam pensamentos em como calcularíamos uma saída segura, sem que nenhum dos homens nos vessem.

– Podemos sair pela janela. – Abgail falou de repente.

– Estão altas demais. – Olhei pro alto, as janelas pareciam ser grandes, poderíamos passar por elas, mas a altura não ajudava. Havia um pilar de ferro que ficava entre o canto de duas paredes, podíamos subir por ele, mas seria impossível pular do outro lado. – Não dá para pular de uma altura dessas.

– Precisamos tentar. – Jess falou baixo erguendo sua cabeça para olha-las. – Vou subir. – Ele se livrou de sua jaqueta e foi até o pilar, que tinha espaços ocos que ajudavam a apoiar os pés na subida.

– Tome cuidado. – Disse, pegando sua jaqueta do chão.

– Dê adeus ao seu emprego. – Abgail apontou o indicador dela para mim.

– Está falando sério? – Olhei-a com indignação. – Estamos praticamente mortos, e você está pensando na porcaria da lanchonete?

– Não sabe o que eu passei nesse inferno. – O olhar dela era de fúria. – Isso é culpa sua. – Sua voz estava baixa, mas era possível perceber a raiva a cada palavra que ela pronunciava. – Esse tal de Philip, ele me disse que eu deveria cobrar tudo de você.

– Me desculpe, mas eu não sabia que isso aconteceria, nem passou pela minha cabeça ter você como vítima de um sequestro por minha causa. – Falei tentando ficar calma. – E sinceramente, eu estou pouco me importando para a droga do emprego. – Olhei para cima, esperando Jess chegar até a janela.

– Como assim demônios? – Ela perguntou.

– É uma longa história.

– Não sabe como eu estou perplexa em saber que eu estou em um lugar a ponto de morrer, cheio de demônios... Inclusive, você namora um deles. – Ela olhou para Jess. – Jess... Imaginei que ele fosse um sedutor criminoso. – Ela me olhou, e percebeu que eu não fiquei nem um pouco satisfeita com a descrição dela. – Mas um demônio sedutor, isso nunca passou pela minha cabeça.

– Se não estivéssemos nessa situação, eu juro que você estaria esticada no chão, e eu estaria socando sua cara com muita força. – Sussurrei com ódio na voz.

Durante nossa pequena descução, Jess subiu e desceu. Ele pulou o espaço que havia entre o pilar e o chão e veio em nossa direção, com maior cuidado possível.

– Tem escadas do lado de fora. – Jess falou, com um pouco de cansaço na voz. – Vamos subir.

– Tudo bem. – Falei.

Fomos até o local e a primeira a se dispor a escalada foi Abgail, ela havia passado dias naquela espelunca e era visível o desespero dela em sair urgentemente daquele lugar macabro. Ela apoiou as mãos em um oco do pilar e tentou erguer seu corpo, Jess a ajudou a subir, empurrando seus quadris para cima. Abgail pegou o ritmo e começou a subir.

– Vai ser a próxima. – Jess pôs suas mãos em meus ombros, e pode sentir um tremor que meu corpo soltou automaticamente, eu estava começando a sentir frio. Altura não era muito bem vinda para mim. – Coloque minha jaqueta. – Ele olhou para minhas mãos, que seguravam a peça. Eu fiz o que ele mandou. E me preparei para subir, Jess me ajudou no começo, como fez com Abgail e em seguida subiu logo atrás de mim.

Lá em cima, Abgail estava sentada na parte enferrujada da janela, a própria era enorme vista de longe, e de perto seu tamanho dobrava. Era possível ficarmos os três sentados.

– Meu Deus. – Abgail murmurou. – Parece ser mais alto daqui. – Ela respirou fundo e virou de frente, encaixando seus pés nos ferros da escada que estava colada com a parede e desceu vagarosamente.

– Invejo a coragem dela. – Falei para Jess, que estava do meu lado, olhando a descida de Abgail.

– Você é mais corajosa do que pensa, Magda. – Ele me olhou com um brilho nos olhos. – É a sua vez. – Ele falou, me ajudando a virar, fique de frente para ele, com suas mãos segurando as minhas, consegui encaixar meus pés no primeiro degrau e desci.

O Vento frio batia em meu rosto, eu podia ver Abgail descendo bem abaixo de mim. Não estava sendo uma boa ideia olhar para baixo, o lugar estava totalmente escuro, eu podia ver o alto das árvores que pareciam ter folhas de cor negra, que se mexiam com o vento frio e brusco. Jess estava acima se movimentando com a descida e Abgail já havia chegado ao chão. Ela acenou com a mão e cruzou os braços, se protegendo do frio.

– Isso foi uma tortura. – Falei exausta, com medo, e aliviada por ter corrido tudo bem.

– Você acha que eles podem estar por aqui? – Abgail perguntou, batendo os dentes.

Ela estava com uma regata azul. Por baixo da jaqueta de Jess, eu usava uma camisa apertada e por cima dessa camisa uma sobre pele grossa, tal que não me poupou do frio, mas eu era friorenta demais, talvez ela poderia satisfazer Abgail. Tirei a jaqueta de Jess e em seguida a sobre pele e a estendi para que Abgail a pegasse. Depois coloquei a jaqueta, que ficava um pouco grande em mim e observei Abgail colocar a sobre pele.

– Valeu. – Ela disse.

– Vamos ter que andar um pouco. – Jess apareceu pulando o último degrau.

– Sabe o caminho? – Perguntei.

– Não. – Ele me olhou sério e entortou os lábios, mordendo o interior da boca. – Mas ficar parado aqui não vai ajudar. – Ele olhou em volta para se certificar de que estávamos seguros e então começou a andar para direção das árvores. – Vamos dar o fora daqui.

Nossos passos estavam rápidos, eu e Abgail apenas seguíamos Jess, que sabia o que estava fazendo. Ele seguia seu instinto e sempre encontrava o que queria, não seria naquela situação que isso falharia. Eu estava desconfortável em andar no meio de árvores no escuro, com demônios a solta. Me passava pela cabeça se eles já não haviam descoberto nossa fuga. Eu precisava chegar logo em casa, mamãe havia me ligado quando eu estava fazendo de tudo para que os demônios não me vissem enquanto eu espiava pela janela da casa do Jess. Lucia havia me dito que ela chegaria ainda essa semana e eu andei o caminho todo rezando para que ela estivesse em casa.

– Asfalto. – Jess falou, subindo um pequeno monte de terra perto da pista. – Não estamos longe. – Ele passou a mão pela testa, se aproximou de mim e pegou minha mão.

Seguimos pela esquerda, nenhum carro passava, a estrada estava totalmente deserta sem qualquer movimento.

– Eles vão vir atrás da gente. – Falei com calma.

– O que? – Abgail arregalou os olhos. – Isso não me incluí, certo? – Ela apertou mais os braços contra o corpo. – Eu espero que não, porque eu não tenho nada a ver com isso, eles querem vocês dois.

– Talvez. – Jess falou, com atenção na estrada.

– Talvez? – Abgail repetiu. – Talvez uma merda. – Ela tentou manter sua voz baixa.

– Philip não está interessado em você, Abgail. – Falei tentando acalmá-la. – Quando chegarmos, você vai estar segura em casa. – Não tinha certeza, mas esperava estar certa.

– Meu carro. – Jess soltou minha mão e correu par o outro lado da estrada, seguimos ele.

Depois de andarmos por mais de meia hora, chegamos a entrada da estrada de terra que eu havia sido atacada, e deixara o Porsche de Jess lá.

– Obrigada, Deus. – Abgail falou, já transbordando exaustão do corpo.

– Vou leva-las pra casa. – Jess falou abrindo a porta do carro.

Deixamos Abgail em casa, e demos todos os avisos possíveis. Nada de confiar em estranhos, ela estaria segura em casa. Jess deu partida e pegou o caminho mais perto para chegar em casa. Seu Porsche parou em frente a minha casa e eu tirei o cinto. Quando estava prestes a descer ele segurou meu braço.

– Espere. – Ele falou, com um olhar estranho. – Tem algo errado.

– Como assim? – Perguntei assustada. – Jess? – Ele estava olhando para a casa, sem me responder. – Jess? – Insisti.

– Você vai entrar e eu... – Não deu tempo de Jess terminar de falar. Minha mãe havia aparecido na porta de casa e eu puxei a tranca do carro.

– É minha mãe. – Falei aliviada.

Corri a seu encontro e a abracei forte.

– Minha nossa, mas que recepção agradável. – Ela falou sorrindo.

– Você está bem? – Perguntei cheia de procupação.

– Por que não estaria? – Ela ergueu uma sobrancelha. – Quem era no carro? – Ela perguntou.

– É... é o Jess. – Falei olhando para onde Jess havia estacionado, mas o carro já não estava lá.

– Vamos entrar, Lucia fez uma comida ótima, é o último dia dela aqui. – Mamãe parecia tão bem que eu nem tentei entrar no assunto do Thomas. Mas uma hora ou outra teríamos que conversar, minha cabeça estava embaralhada. Por que Thomas não havia a machucado? Era realmente ela a companhia dele em NY? Não tinha a resposta e precisava acha-la logo.

Mamãe se sentou a mesa e me chamou para se sentar com ela, eu recusei dizendo que iria tomar um banho primeiro e depois poderíamos papear a noite toda, Lucia estava com ela na cozinha. Eu as deixei e subi para o meu quarto.

– Magda. – Ouvi a voz de Jess, ele estava de pé perto da janela. – Precisa tirar sua mãe da cozinha, invente algo.

– O que? – Falei me aproximando dele. – Eles estão aqui? Descobriram?

– Lucia está possuída por um deles. – Aquilo me fez estremecer, minha mãe estava correndo perigo. – Ela já deve ter descoberto minha presença, tente tirar sua mãe de lá, eu vou atacar pela porta da frente. — Ele me beijou. — Vai ficar tudo bem. — Ele tentou me acalmar, e eu tentei ficar calma.