Tentação

19 - Capítulo 19


Meu corpo todo estava embrulhado em um edredom, eu parecia o recheio de uma panqueca. O tempo havia mudado, não teríamos mais sol e piscina durante alguns dias, pelos meus cálculos. Esse era o problema em morar na minha cidade, quando fazia calor, era daqueles de matar e quando o tempo era de chuva, não seria passageira, no mínimo uma semana de duração, no máximo, talvez duas ou três.

Pensei muito antes de sair da cama, não faria mal eu faltar um dia da escola, não estava nem um pouco afim de sair de casa para rachar a cuca estudando, não teria provas ou nada importante que eu pudesse me lembrar. Puxei o edredom junto comigo e desci as escadas, Lucia estava com uma blusa de lã e saia longa.

– Mudança de clima. – Eu disse, ainda com a voz rouca e morrendo de sono.

– Isso é normal. – Ela parou de limpar a mesa e me olhou. – Vai sair assim? – Seus olhos entortaram.

– Não. – Apertei mais meu edredom sobre meu corpo. – Na verdade eu não vou sair de casa hoje. – Ergui os ombros.

– Na minha época, eu andava pela neve com suéteres finos e não tinha meias nos pés. – Ela ajeitou seu corpo. – O frio não era desculpa para faltar nas aulas. – Ela fechou a cara e continuou esfregando o pano na mesa.

– Lucia, as coisas mudaram. – Enfiei metade do meu rosto pra dentro do edredom e subi para o meu quarto. Puxei as cortinas da janela que ficava do lado da minha cama, pra ver o lado de fora. Não estava chovendo, mas o tempo estava fechado, achei uma boa ideia pedir um chocolate quente pra Lucia. A expressão do rosto dela estava tão fechada quando desci para pedir isso, que eu pensei que ela poderia me envenenar a qualquer momento me dando comida.

Com a caneca de chocolate do lado do meu fichário de desenhos, lápis na mão e acompanhada pelo meu melhor amigo chamado “Frio”, eu comecei a desenhar, mas não era qualquer desenho, eu estava desenhando a face de Jess, traços firmes e fortes para lembrar que Jess era durão, olhos escuros e sobrancelhas grossas e bem desenhadas, sua famosa expressão séria e ao mesmo tempo sexy mas com um toque de olhar divertido. E não havia nenhum momento em que Jess não estava na minha mente, ele ocupava a maior parte dela, e eu nem tinha mais o controle sobre isso, apenas deixava minha mente viajar em coisas boas.

Desenho bem trabalhoso, dei algumas pausas, uma delas foi para almoçar e as outras para coisas bobas, como por exemplo Kane me enchendo o saco com suas batidas na porta pedindo meu fone de ouvido emprestado. Mas nada disso me fez perder o foco, o desenho estava maravilhoso, não sei se era porque nele estava o Jess ou se eu era realmente boa com as mãos. Mas isso não importava.

– Toc Toc. – Uma voz abafada veio da janela do meu quarto. Já estava escuro exatamente ás quatro da tarde, a chuva não aparecera mas o tempo estava fechado de nuvens escuras. Me levantei para ver quem estava do lado de fora. Jess estava de pé em um galho da árvore que encostava na janela, suas mãos estavam apoiadas nos lados direito e esquerdo da janela, uma em cada lado. Não fiquei surpresa, aliás eu sabia que ele iria fazer isso algum dia desses. Destranquei-a e puxei o vidro para que ele pudesse entrar. – Nada de escola no inverno? – Falou colocando suas botas no carpete.

– Fale baixo. – Meu dedo tocou seus lábios, num movimento de “xiiiiiu”. – Se Lucia achar você aqui, nós dois morreremos.

– Okay. – Ele sussurrou, sorrindo.

– O que você veio fazer aqui? – Perguntei.

– Ter certeza de que você está bem. – Seu corpo girou vagarosamente junto com seus olhos que observaram meu quarto todo. – Pelúcias? – Ele falou andando até a cadeira de madeira que portava meus bichinhos. – Como esse se chama? – Ele ergueu meu coelho azul, que se chamava Doug, é eu tinha ganhado ele de presente quando estava na quarta série, um garotinho chamado Ben gostava de dar presente pras garotinhas que ele paquerava, eu fui uma delas, eu e todas da quarta série.

– Eu não dei nome pra nenhum deles. – Menti, mas eu acho que não convenci Jess, porque seu sorriso se alargou, ele sabia a verdade. – E eu estou bem, você disse que estaria segura em casa.

– Não posso pegar leve. – Ele se sentou na cama. – Quanto mais cuidado, melhor. – Seu corpo caiu contra os lençóis da minha cama, que eu não tinha arrumado ainda. – É macia. – Seus olhos se fecharam por dois segundos e então ele olhou para a escrivaninha, onde meu fichário estava aberto com seu desenho. Andei rapidamente até lá e fechei-o.

– Eu sei me cuidar. – Me virei de costas para a escrivaninha, ainda com minhas mãos no fichário que já se encontrava fechado.

– Não quando se trata de seres não humanos. – Ele se levantou e veio em minha direção.

– Tudo bem. – Eu me apertei na madeira da escrivaninha. – Você sempre está por perto, então tudo bem.

– O que está escondendo aí? – Ele me lançou um olhar perverso.

– Nada. – Joguei minhas mãos pra cima, apoiando meus cotovelos para trás. – Nada. – Repeti.

– Nada. – Ele sorriu, e me puxou pela cintura, seus lábios macios estavam nos meus, e gentilmente sua língua explorava minha boca e a minha explorava a dele. Com um movimento rápido ele puxou meu fichário e se afastou. – Beijar sempre dá certo. – Ele sorriu. Minha raiva apareceu, não queria que ele achasse que eu fosse uma doida que tratava ele como um ídolo, seria constrangedor. – Belos desenhos, você tem talento.

– Por favor, me devolva. – Não foi um pedido, foi uma ordem, mas Jess não iria obedecer.

– Você me desenhou? – Seu sorriso já não era mais aquele perverso, era aquele sincero.

– Que pergunta idiota. – Fiz nossa distância diminuir e puxei o fichário das mãos dele.

– Você deveria ter me esperado para fazer isso. – Suas mãos de costume entraram nos bolsos do jeans, ele vestia um moletom cinca escuro. – Seria como aquele filme do navio. — Eu coloquei meu fichário de volta aonde estava e fiquei de frente para ele. – Sabe?

– Não, eu não sei.

– Só que seria ao contrário. – Ele ignorou a parte do meu “Não”. – Eu ficaria sem roupa e você me desenharia. – Ele piscou, e meu rosto queimou. – Depois você também poderia ficar à vontade, temos uma bela cama aqui. – Ele apontou pra minha cama.

– Pare. – Eu não sabia aonde enfiar minha cara, estava envergonhada ao extremo, aaaah Jess, seu idiota.

– Tudo bem. – Ele sorriu, pegando em meus ombros. – Vou tentar não te deixar mais sem graça. – Ele segurou meu queixo. – Mas não prometo nada. – E me beijou. – Eu gosto de te ver assim, é fofo.

– É ridículo. – Puxei as mangas da minha blusa para tampar minhas mãos e segurei em Jess pela sua cintura.

– Não. – Ele beijou minha testa. – Preciso ir agora. – Ele enrolou um dedo em uma mecha do meu cabelo e então a soltou, deixando-a ondulada. – Sou sua carona para casa hoje, me espere antes de sair do Rock’s. – Ele foi até a janela e pulou para o lado de fora. – Adorei o desenho. – E se foi.