Tentação
15 - Capítulo 15
Jess deu passos rápidos até chegar bem perto de mim, eu não sabia o que fazer, o que falar, não sabia o que estava acontecendo, eu queria chorar, queria sair correndo. O medo tomou conta de mim, minha tentativa de se afastar deu errado quando minhas costas encostaram na parede sem reboque do velho bar. Jess esticou um braço colocando sua mão na parede do lado do meu rosto. Seus olhos haviam voltado ao normal, eles eram tão castanhos que pareciam pretos, mas eu ainda estava tremendo, Kane estava caído do outro lado se remexendo, a força do garoto que o jogou contra a porta foi tão tremenda que fez Kane quase desmaiar.
– Jess. – Minha foz saiu baixa e trêmula.
– Tudo bem. – Sua voz falhou, ele abaixou a cabeça e suspirou, em seguida me olhou nos olhos e pude ver um pingo de tristeza, algo que nunca vira em seu olhar, ele nunca demonstrava nada.
– O que você é? – Eu perguntei, ainda via a cena na minha cabeça, quando seus olhos haviam ficado negros por inteiro, eu estava com medo da resposta, não queria que fosse verdade, eu gostava de Jess por isso não suportava imaginar que ele poderia me machucar a qualquer momento.
– Você não entenderia... – Ele se aproximou mais.
– Não. – Eu falei empurrando minhas mãos em seu peito fazendo ele se afastar. – O que você é, Jess? – Senti uma lágrima descer pelo meu rosto.
– É complicado... – Falou chegando perto.
– Fique longe. – Estiquei meus braços. – Você é um monstro. – E minha voz falhou mais uma vez, mais lágrimas rolaram. – Tudo foi uma mentira? – Eu me referia a parte em que ele disse que gostava de mim e que queria minha confiança. – Eu não posso confiar em você, não mais.
– Mag. – Sua feição estava séria, mas era possível ver tristeza em seu olhar.
– Não encoste em mim. — Ordenei.
– Isso não foi mentira. – Ele parou, esfregou os olhos com as mãos e então tentou continuar, seus lábios se movimentavam mas ele não conseguia falar, ou não queria. – Eu... – Respirou fundo. – Eu entendo que você não queira confiar em mim, mas não pense que foi mentira quando eu disse que gosto de você. Eu realmente gosto, mas eu não quero colocar você em perigo, você é importante demais e boa demais pra mim. Isso tudo é culpa minha, me entenda, eu posso não ter sua confiança, mas quero que você acredite em mim. – Percebi que ele estava perto, senti suas mãos passarem pelos meus cabelos.
– Não encoste em mim. – Eu repeti, mais nervosa. – Eu nunca vou acreditar em você, o que foi que aconteceu aqui? – Olhei em volta. – Meu irmão está ferido, você matou aquele cara. – Apontei pro corpo jogado no chão. – Quer que eu acredite em você? – Passei a costa da minha mão no rosto, secando as lágrimas. – Meu Deus... Como pude sair da cidade com você. – Lembrei no nosso encontro. – Você poderia ter me machucado a qualquer momento, estávamos sozinhos.
– E eu machuquei você? – Sua voz era calma, mas ele não parecia feliz. – Eu acabei de salvar a sua vida e a do seu irmão. – Ele apontou pro Kane. – Aquele cara ia matar você, ele queria matar você, ele estava caçando você. – Então ele ergueu as mãos pra cima e as jogou batendo em suas pernas. – Deveria me agradecer ao invés de ficar resmungando sem saber de nada.
– Saber de nada? – Minha voz saiu alterada. – Você ao menos quer me contar? – Então arregalei os olhos. – Me caçando? – Perguntei assustada. – Por que ele estaria me caçando?
– É uma longa história. – Ele andou até o Kane levantando-o e apoiando seus braços no ombro dele. – Entre no carro, vou levar vocês pra casa.
– Eu não vou entrar nesse carro, eu levo meu irmão. – Falei indo em direção a ele.
– Você é fraca demais pra carregar ele até sua casa, sabe que horas são? – Ele colocou Kane no banco de trás. – Você nem deveria estar fora de casa uma hora dessas. – Bateu a porta em seguida.
– Não vou entrar. – Endureci, os olhos dele me observaram por alguns segundos. – Me conte o que você é.
– Entre no carro e eu digo. – Ele falou jogando seus olhos em direção ao carro, para que eu entrasse.
– Me-conte-o-que-você-é. – Falei pausadamente.
– Vai entrar na porcaria do carro, ou quer que eu vá te buscar? – Eu estremeci, mas fiquei parada encarando ele. E quando ele ameaçou dar um passo em minha direção eu me movi. Entrei na porcaria do carro.
Ficamos em silêncio por um tempo, então depois de pensar por alguns minutos eu fiz a mesma pergunta, ela foi feita com um pingo de medo, um pingo não, uma enxurrada de medo. O que ele poderia fazer, me matar ali mesmo, me espancar? Só de pensar isso, minha vontade de chorar aumentava.
– Me responde, por favor? – Falei baixo. Jess estava calmo e com a atenção no volante, ele se virou para olhar Kane, e então seus olhos se viraram em minha direção.
– Eu menti. – Quando sua voz saiu, meu coração acelerou. “Então ele estava mentindo”, pensei, “Era tudo uma mentira, ele nunca gostou de mim”. Eu não queria ficar triste com isso, mas eu estava. Eu queria achar aquilo bom, queria não sentir nada por ele, queria distância. Mas não estava dando certo. – Conheço você a mais tempo que pensa. – Ele voltou a sua atenção para a rua vazia. – A primeira vez que te vi, você estava na ponte se preparando para pular. – Eu não estava entendendo. – Antes disso, seus amigos estavam lá embaixo esperando você criar coragem, eles estavam no meu território, pensei em acabar com eles ali mesmo, mas você tirou minha atenção. – Ele me olhou. – Uma garota corajosa. – E sorriu. – Então deixei vocês irem embora, seus amigos devem agradecer você por isso ter acontecido, pelo contrário estariam mortos, inclusive você. – Eu estava sem ação, não sabia o que dizer. – Aquilo na estrada foi uma simulação, eu mesmo me cortei, foi só pra conhecer você, pra aproximar você de mim. Queria conhecer você. – Sua voz era dura e grave.
– O que? – Eu estava em choque. Tudo foi uma farsa, aquele acidente não foi verdadeiro, isso explicava o fato de ele ter saído muito cedo do hospital. – Como? – Tentei não enlouquecer ali mesmo, na verdade eu nem conseguiria fazer nada, eu estava tão fora de mim que se ele quisesse me matar ali mesmo eu nem conseguiria reagir.
– Como? – Ele riu sem humor. – Eu sou mal, Mag. – Seu olhar era diabólico, mas eu achava aquilo sexy, eu me odiei ao me atrair por ele até mesmo correndo perigo. – Não existem sentimentos bons em mim. — O carro acelerava ainda mais enquanto ele falava. – Não sei o que é sentir amor, não sei o que é sentir felicidade, não sei o que é paz... – Ele pausou. – Mas eu sei o que é ódio, rancor, tristeza. – Suas mãos apertaram o volante. – Esse seria o Jess. – Ele me lançou um olhar assustador. – E então você aparece. – Ele fez o carro diminuir a velocidade e suas mãos se afrouxaram no volante. – Você aparece e algo estranho desperta em mim. – Minha cabeça estava embaralhada, eu não estava bem, estava me sentindo mal com todas as palavras. – Eu não queria isso, eu realmente não queria isso, sinto que vou ferir você de alguma forma, mas não fisicamente. – Ele me olhou, seu olhar passara de assustador para protetor. – Não sou capaz de ferir você fisicamente, você me enfraquece, e isso é errado, eu não posso ser fraco com alguém, não posso ter sentimentos bons por alguém.
– Jess... eu... n-não estou entendendo. – Falei trêmula.
– Eu acabo com a vida das pessoas, eu gosto da mentira, eu gosto do pecado, a violência me excita, sou aproveitador também... O mal ronda o meu ser. – Eu estava assustada com aquilo, mas ele sorria a cada palavra que dizia, e então seu sorriso desaparecera. – Eu sou um demônio, Magda. – Paralisei. – Agora me diga, por que eu estou totalmente preso a você dessa maneira?
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