Tentação
12 - Capítulo 12
Lucia tinha ido embora. Ela havia deixado lasanha na geladeira. Subi para ver se Kane estava dormindo e depois de ter certeza fui para o meu quarto pensar no acontecido.
Jess era uma mistura de coisas, eu via tudo nele, mistério, maldade, sedução... Eu estava deitada olhando pro teto vendo todas as cenas como um filme na minha cabeça, quando pensava nele um calafrio percorria pelo meu corpo e uma sensação estranha me dominava, mas eu estava gostando.
Acordei tarde no sábado. O carro do Louis estava estacionado na minha garagem, eu tinha deixado Louis em casa e segui o caminho para a minha, sofri com aquela lata velha, era horrível dirigir aquilo, mas tive sorte quando ela decidiu parar de pegar já no caminho de concreto que tinha a garagem como destino.
Me levantei, minha disposição estava extremamente baixa e eu estava planejando ficar deitada o dia todo, mas não seria uma boa ideia.
– Garota. – A voz de Lucia atravessou a porta com um som abafado. – Sua mãe está no telefone. – Me levantei rapidamente e abri aporta. Lucia usava um vestido longo azul e um coque no alto da cabeça, em suas mãos segurava o telefone.
– Mãe? – Eu estava morta de saudades dela. – Como você está? Como vai o trabalho?
– Estou ótima. – Sua voz passava animação. – Ah, querida, estou com tanta saudade de vocês. Estão se comportando? – Uma leve preocupação apareceu em sua voz.
– Sim, estamos nos comportando. – “Chegamos tarde em casa, Kane anda bebendo... Tudo ótimo”, pensei.
– Não sabe como essa cidade é bela, é mágica. – Ela parecia estar tão feliz, mas logo pude perceber que o som da sua voz mudara, estava sério. – Tivemos alguns problemas. – Ela falou. – Terei de ficar até o final do mês, há muito trabalho, muitas exigências, as coisas estão atrasadas aqui.
– Estou com saudades. – Mesmo ela me irritando, quase sempre, com suas manias de perfeição e o escambau, eu estava sentindo sua falta, estava com saudades do lado furioso que me deixava estressada.
– Eu sei, mas tem que ser assim por enquanto. – Podia ouvir vozes no fundo. – Já avisei a Sra. Flitz que pagarei a mais para ela.
– Ela se chama Lucia.
– Só você não sabia disso. – Ela riu baixo.
– Acho que sim. – Meus pés cutucavam o carpete do quarto.
– Preciso desligar agora, fique bem. – Ela mandou um beijo. – Te amo.
– Beijo mãe. – Ela desligou.
Um som antigo tocava no radio velho que ficava na cozinha, Lucia estava limpando a mesa e cantando junto com a voz assustadora que saía do aparelho. Ela mexia seu corpo para um lado e para o outro. Quando me viu esticou um sorriso, ela normalmente estava séria, mas hoje ela parecia alegre até demais.
– Sua felicidade está me deixando de bom humor. – Falei me sentando na cadeira. Eu ainda estava de pijama e meus cabelos pareciam uma juba de leão.
– Sua madre vai me pagar mais. – Ela esticou os braços para jogar o pano na pia. – Tenho de estar feliz. – Eu adorava a sinceridade dela.
Lucia havia preparado biscoitos de chocolate em sua casa. Ela trouxera em um pote de plástico e outro pote acompanhado de bolo de cenoura com calda de chocolate. Kane estava deitado no chão da sala ouvindo música em seu mp4.
Trinta minutos depois Louis apareceu na janela da cozinha me fazendo sinal para sair. Eu joguei minha cabeça para trás e me levantei em seguida.
– Você deixou meu carro aqui fora? – Falou fazendo uma expressão de desaprovação.
– Ele parou de pegar aqui. – Apoiei minhas mãos na cintura.
– Deveria ter dado um jeito de leva-lo para dentro.
– Desculpe se não sou forte o suficiente. – Revirei os olhos.
– Blá. – Ele foi em direção ao capô do carro e o ergueu apoiando a tampa em um pequeno ferro que ficava na lateral. – O que temos aqui...
– O que temos aí? – Perguntei, tapando o sol com as mãos em minha testa
– Nada. – Ele fechou o capô.
– Nada?
– Nada de gasolina. – Ele abriu a porta do carro. – Você não sabe ver quando o carro está sem gasolina, venha cá eu vou lhe ensinar...
– É claro que eu sei quando um carro está sem gasolina. – Falei tentando não parecer idiota.
– Você é uma péssima motorista. – Ele riu. Eu me aproximei e chutei sua perna que estava para fora, mas não adiantou muito porque eu estava usando uma maldita pantufa macia de cachorro. – Na próxima talvez dê certo. – Ele saiu do carro e fechou a porta.
– Eu estava com muita coisa na cabeça para me preocupar com a falta de gasolina. – Andei até a beirada de casa onde fazia sombra.
– No que andou pensando? – Perguntou curioso.
– Isso não... Isso não vem ao caso. – Louis não era alguém do tipo que eu contaria sobre Jess, era estranho falar de um cara para outro cara.
– Esse pijama te deixa tão sexy. – Suas flertadas comigo não davam certo.
– Seu carro está acabando com a minha reputação.
– Vou buscar gasolina. – Ele riu. – Prometo que não terá problemas com a sua “reputação”. – Disse ele fazendo aspas com os dedos.
Antes de entrar na varanda, ouvi um carro parar em frente de casa. Louis havia ido embora a poucos segundos atrás, não era ele. Quando me virei, vi um Porsche preto estacionado na frente de casa, Jess saiu dele.
– Merda. – Resmunguei baixo. Eu estava péssima, minha roupa, meu cabelo, minha cara de sono, eu estava péssima por inteiro.
– Preciso passar por aqui mais vezes nesse horário. – Ele rodou as chaves com o dedo. – Todo dia você passeia com esse pijama incrível? – Ele era tão insano.
– Tá fazendo o que aqui? – Ignorei a pergunta dele.
– Vim te convidar para sair. – Ele sorriu.
– Eu não vou sair com você. – Eu queria, mas meu orgulho falava mais alto.
– Vou passar aqui ás sete. – Ele coçou o queixo. – Pode ser?
– Não. – Ele me contrariava de todas as formas.
– Ok, ás sete. – Ele se aproximou. – Não sabia que meninas ficavam sexys com pantufas de cachorro. – Ele encostou seu sapato em minhas pantufas e me deu um sorriso.
– Você é um idiota. – Me segurei pra não sorrir junto.
– Você é linda. – Seus olhos prenderam-se aos meus e então desceram para minha boca. – Nos vemos as sete.
– Vai me levar pra onde? – Nem precisava mais dizer sim, porque essa pergunta já decifrava tudo.
– Não se preocupe com isso. – Ele piscou. Sua camisa azul escura balançou com o vento e seus cabelos lisos e pretos se mexeram de um jeito que fez com que ele parecesse um galã em um ensaio fotográfico. Fiz o que ele disse, não me preocupei.
Lucia estava na janela quando entrei, ela fazia uma careta enquanto via Jess virar a esquina com seu carro.
– Quem era aquele? – Ela perguntou esfregando o pano na pia.
– Um amigo.
– As pessoas não costumam sorrir como bobas quando falam com amigos. – Ela entortou os lábios.
– Lucia... por favor. – Fiz sinal para que ela parasse e subi para o meu quarto.
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