Eu e minha mulher tivemos a ideia de transformar nossa casa numa pensão. Como tínhamos nossa dívida, os aluguéis de alguns quartos nos ajudariam.

Aliás, boa parte de nossa dívida se deu com a compra desse imóvel, uma casa grande com vários aposentos e mais de um banheiro. Meu salário na fábrica não rendia, minha mulher fazia frango recheado para vender na vizinhança e não tínhamos filhos. Minha mulher era estéril.

Muitas pessoas diferentes cruzavam nossas vidas, até mesmo estrangeiros. Cada um deixava uma marca em nossos corações e quando nos lembrávamos deles, sorríamos afetuosamente e involuntariamente.

Não tivemos problema nenhum com eles até uma noite chuvosa. Uma garota bateu na porta e eu a abri; ela estava enxaguada, tremendo e com um curativo no olho direito.

Minha mulher logo buscou uma toalha e eu a coloquei para dentro.

Ela não falava e até cogitamos a ideia de que fosse muda. Fora isso, tudo parecia estar bem; seu olho direito sarou e ela ajudava minha mulher nas tarefas domésticas e na cozinha.

Senti que algo estava acontecendo quando minha mulher deu a ela um nome “Ophelia”. Quando íamos nos deitar, eu falava com ela “não se apegue tanto”. Mas minha mulher continuou penteando os cabelos dourados de Ophelia e cantava até ela dormir.

Não tive coragem de ir a uma delegacia e dizer que havia encontrado uma garota ou perguntar se havia alguma desaparecida. E não jogo a culpa inteiramente na minha mulher, eu também acabei me afeiçoando por Ophelia.

Nós desejávamos muito ter um filho e quem sabe Ophelia não era um anjo que caiu do céu.

Depois de 1 mês, Ophelia passou a falar e nunca comentava algo que dissesse de onde veio. Minha mulher não ousava perguntar, porque eu sei que ela não saberia o que fazer se a garota dissesse que era de outra família.

Por sorte, Ophelia nem sequer questionava o nome que minha esposa deu a ela, então parecia que ficaríamos com ela a mais dias.

Eu pesquisei em jornais e não encontrei nenhuma notícia de desaparecimento. E tinha o machucado no olho, quem será que o fez?

Como não estávamos mais abrigando ninguém — mantínhamos Ophelia escondida de todos —, o dinheiro começou a faltar. A ideia de que eu precisava encontrar seu responsável se tornava mais forte.

Contudo, eu gostava da ideia de pensar que Ophelia era minha filha.

Ficamos 6 meses juntos, comíamos juntos, cantávamos juntos, orávamos juntos, brincávamos no quintal, comprava bonecas, ia trabalhar com mais vigor. A rotina não me parecia ser chata, eu até mesmo trabalhava em dois empregos para que eu tivesse dinheiro o suficiente para minha filha.

Um dia ela me disse que queria se aproximar do céu daquela tarde. Eu a peguei por debaixo dos braços e a ergui no ar. Um vento passou e ela se desmanchou como poeira.

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