Consigo enxergar Jess na ponta dos pés na sacada, olhando fixamente para rua, esperando por mim. Como se algo estivesse para acontecer, mas ainda não tinha certeza, só a sensação – aceno para ela, que sucintamente retribui cruzando os braços em desaprovação. Consigo ler os seus lábios me xingando de mil coisas, mas seus olhos sugerem que ela está finalmente aliviada por me ver. Subo as escadas e no caminho até o apartamento coloco duas cápsulas de menta na boca para que ninguém perceba meu hálito de café com vodka. Tem sido dias difíceis, todos estão sempre esperando que eu supere, que eu volte ao “normal” – que eu finja que nada aconteceu – para que todos possam voltar às suas rotinas onde eu sou eu mesma. Mas ninguém se lembra que até poucos meses atrás a polícia e essa cidade quase jogaram gasolina e acenderam um fósforo em mim. Então, assim que tudo isso terminar e eu descobrir o que houve com a Rebeca, vou inocentar Stavo e cair fora. A Jessica nasceu aqui e vai morrer aqui, assim como todos nesse lugar… Então não tenho motivos para prolongar esse relacionamento. Ensaio rapidamente o que vou dizer e assim que a porta se abre, sinto os braços da Jessica – mas que porra? Onde você estava?

— Eu precisava de um tempo sozinha… Eu to exausta, quero tomar um banho, talvez dormir um pouco e tentar me acostumar com a ideia de voltar para faculdade amanhã. – Retiro os sapatos e o casaco.

— Vai ser bom para você voltar à rotina, não é? – Diz ela esperando ansiosamente por um sim.

— Vai, sim…

Sentamos à mesa e nos encaramos por algum tempo – cada uma tentando encontrar em si, uma forma de iniciar uma conversa que não envolvesse a Rebeca, que sempre foi um empecilho na nossa relação –, até ela dar um pequeno e contido suspiro. Daqueles que dizem “estou cansada de brigar, podemos apenas ir deitar e dormir?”, mas eu queria compensá-la por hoje, e por ontem, anteontem, e por todos esses meses em que eu tenho sido uma escrota que não consegue nem respirar sem ofender alguém. A Jess sempre foi muito protetora, talvez até um pouco careta em alguns aspectos, mas sempre que está comigo age como se eu estivesse quebrada, como se precisasse me consertar, e agora que percebeu que não consegue, não sabe o que fazer comigo.

— O que você acha da gente assistir um filme? – Pergunta ela, levantando bruscamente da cadeira, o que faz com que o seu cabelo preso afrouxe e fique com algumas mechas soltas e desconectadas.

— Acho que entrou um filme novo no catálogo da Netflix esse fim de semana, quer assistir?

— Nós precisamos voltar a fazer tudo juntas de novo… Você nunca volta para casa, e quando volta, tá sempre falando da Rebeca. Sei que vocês eram amigas, mas e eu? O que eu significo para você, Maya? – Sua voz vai falhando gradualmente.

— Eu sei que eu não estou agindo como costumava, sei também que as coisas entre nós estão cada vez mais confusas… Você significa muito, mas você está viva, Jessica, e ela morta.

— Mas é como se eu estivesse morta para você, não é?

— Jess, nem tudo é sobre você. Não é como se você tivesse sido acusada pelo desaparecimento da sua melhor amiga pelos pais dela, e nem como se tivessem criado uma página com fotos suas, te chamando de “vaca mentirosa” até você surtar e te gravarem com um celular sem o seu consentimento e o jornal local transmitir para que todos pudessem ver.– Consigo ler nos seus olhos, na sua expressão, ódio e ressentimento, aflorando no meio daquele abismo silencioso entre nós duas.

— Pelo menos uma vez na sua vida, finja que tem um coração, Maya, porque no final não vai importar se as pessoas à sua volta estão vivas ou mortas, porque vai estar sozinha.

Ela se aproxima vagarosamente e com cautela coloca uma caixinha embrulhada sob a mesa – feliz aniversário –, veste o casaco e então ouço o som da porta batendo.

Me encosto na parede sentindo minha garganta doer, como se algo precisasse escapar – como se a minha mentira estivesse escalando pouco a pouco para alcançar a superfície –, mas se ela se soltar, algumas pessoas irão se magoar, outras ficarão muito irritadas… Preciso descobrir o que houve com a Beca, só assim vão parar de fazer perguntas e de espalhar mentiras. Sirvo uma dose generosa de vinho em uma xícara de “melhor namorada do ano” com uma foto minha – do aniversário de 5 meses da Jess e eu –. Depois da metade da garrafa já nem me sentia tão ruim, essa sensação aos poucos foi dando espaço para a culpa, que desencadeou uma mensagem de texto enorme pedindo desculpas a Jessica que nem mesmo visualizou. A Rebeca foi a primeira garota por quem eu realmente me apaixonei, e até hoje não sei o que eu era para ela – provavelmente um brinquedo, daqueles que você usa por alguns dias e depois enjoa, mas ainda não sabe como jogar fora –, e quem é que sabe? Em todas as minhas memórias, ela sempre pareceu me odiar secretamente. Então quando conheci a Jess, ela me fez enxergar isso, e me ajudou a superar todos aqueles traumas. Não existiam mentiras e nem espaço para contá-las, até agora… Por isso, sinto que não mereço o amor, ou a vida com a Jess. Não faz mais sentido. – É isso aí, Rebeca, eu tô bem ferrada, não estou? – Se eu fechar os olhos agora, consigo ver você esboçando um sorriso a sete palmos daqui.

Por uma fração de segundos ouço um tilintar vindo da sala, um tilintar familiar – Rebeca… –, um tilintar que eu só ouvia quando ela estava por perto. Caminho devagar até a sala e vejo a porta entreaberta, e tem uma pulseira enroscada na maçaneta, a mesma pulseira que eu havia dado a ela quando passamos as férias juntas no último verão. – Por que está aqui? Me lembro vagamente de ter visto ela usando essa pulseira naquele dia. Merda Merda Merda! – E de repente sinto aquele perfume, o perfume dela… Como se estivesse aqui ao meu lado nesse mesmo instante. Ninguém pode saber da existência dessa coisa, se alguém souber que eu estou com isso, tenho certeza que não vão acreditar que alguém deixou na minha porta.

— Mas que porra é essa? O que você tá fazendo com isso?

O Gustavo está parado na porta me encarando.

— Alguém veio aqui! Alguém sabe… Deixaram na minha porta e, e tinha o mesmo perfume, o mesmo. Ela estava usando isso naquela noite. – Respondi.

— Ela estava usando naquela noite e agora tá aqui com a gente? Você conseguiu ver quem era? – Ele tira o capuz e olha de um lado para o outro, tentando procurar alguém que já não estava mais ali.

— Não, mas esse alguém fez isso para me assustar. Alguém quer ferrar a gente, Gustavo.

Stavo estreita os olhos tentando digerir toda aquela situação – aquela em que nós dois estamos com um objeto que pertence a alguém que desapareceu há mais de quatro meses –, e isso não faz nenhum sentido. Suas roupas estão encharcadas e seus olhos inchados como se tivesse chorado por horas. Ele se desloca até as janelas, e fica ali por um tempo, sussurrando coisas que eu não consigo ouvir, secando o suor da testa como se quisesse esconder o medo que estava sentindo.

— Calma, por que você não fica aqui hoje a noite? Podemos pedir alguma coisa para comer. Eu faço o pedido enquanto você toma um banho, tenho uma roupa que te serve até a sua secar, tudo bem? – Coloco a mão em seu ombro para tranquilizá-lo.

— Tudo bem – concorda ele, colocando sua mão por cima da minha em forma de gratidão. – E se quem fez isso com ela, quer fazer o mesmo com a gente, May? E se essa pessoa sabe sobre aquilo?

— Não, ninguém sabe, ninguém pode saber.

— Bem, essa pessoa estava aqui dentro com você, hoje. Essa pessoa te conhece, sabe onde você mora, e com quem… E aparentemente também sabe o meu número – ele me entrega seu celular apontando para as mensagens.

“a Rebeca me pediu para mandar lembranças. :(:”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.