Tengen Toppa Gurren Lagann - Renascimento
9 Capítulo 9: Desejo de viver
– Não, eu não quero sua ajuda, Leeron. Pela ultima vez, eu consigo andar sozinho. Já não basta você querendo colocar o cinto de segurança do carro pra mim faz pouco tempo.
– Nossa, que grosso! Qualquer dia desses eu dou umas dicas pra sua mãe poder cuidar e disciplinar você melhor.
– Leeron, contanto que “cuidar e disciplinar” não seja engaiolar o garoto e ficar fazendo testes com núcleos de energia Espiral, cálculos intermináveis e ver se com aquilo ele fica mais alto, acho que posso te deixar ir.
Estavam lá os três: Luno, Leeron e Leyte. Eles andavam por aquele gigante corredor. Ele parecia ser interminável. Estava vazio. Luno notou isso e perguntou:
– Leyte, por que não vemos ninguém até agora? Até ontem, aquí estava tão cheio. Pensava que com toda essa confusão do Simon e dos Anti-Espirais esse lugar estaria fervendo de gente.
Entre pequenos passos e tragos no cigarro, ela respondia a pergunta:
– Você é bem observador. Era para estar cheio de pessoas, porém muitos funcionários e pesquisadores foram embora. Eles estavam apavorados com o ataque e agora querem passar os últimos dias com suas famílias, com medo que Simon realmente destrua o planeta.
Luno se espantou ouvindo aquilo e levantou a voz imediatamente:
– Espere, mas por que não estão aqui colocando os planos em prática? Ainda temos uma chance de salvar o mundo, então por que eles estão desistindo?!
Leyte soltava toda aquela fumaça em sua boca num único sopro. Olhava para cima e falava:
– Não podemos negar as vontades das pessoas prestes a morrer. Eles não querem morrer de maneira alguma, mas se forem morrer, querem fazê-lo de maneira digna. Somos incapazes impedir pessoas com...desejo de morrer.
Luno ficou preocupado com todas as pessoas que desistiram de continuar. Ele refletiu e sorria confiante enquanto falava:
– Se essas pessoas desistiram, eu vou trabalhar no lugar de todas elas. Vou mostrar pra eles que a menor das chances pode ser vitoriosa. Vou mover o Véu Espiral e proteger a todos.
– Grandes palavras vindas de um garoto. Consegue realmente cumprir isso?
– Ninguém pode me impedir. Todos são incapazes disso, afinal...
Ele sorria e olhava nos olhos de Leyte, com fogo naquele olhar:
– ...é o meu desejo de “morrer”.
Leyte conseguia realmente sentir o calor naqueles olhos. Era algo que não via há tempos. Ela ajeitava os óculos e sorria para ele. Ela tinha vontade de falar várias coisas para ele naquele momento, mas apenas disse para seguirem mais rápido e que o tempo era curto. Luno obedeceu e foram, mas ele entendeu o que Leyte lhe falava pelo rosto.
Chegando no laboratório principal do Centro, onde Leeron, Atten e Leyte trabalhavam, viram uma máquina já instalada. Era um cilindro onde cabia uma pessoa apenas. Luno prestava mais atenção nos computadores ao redor. Muitas luzes, muitos piscares, e muitas bugigangas mecânicas que faziam ele ficar um tanto confuso. Leeron chamou Luno para aquela maquina:
– Luno, venha cá. Essa máquina vai ser capaz de curar seus ferimentos. Você só precisa entrar aí dentro e liberar o máximo de energia Espiral possível. Nós vamos pegar essa energia e concentrar no metabolismo dos pontos machucados. A dor vai passar e os ferimentos vão se curar em muito pouco tempo.
O garoto concordou e ficou de frente para aquela máquina, falando para Leeron começar o processo:
– Certo. Pode começar tirando toda a sua roupa. – Leeron falou isso para ele.
Luno se arrepiou da ponta dos pés ao ultimo fio de cabelo. Ele olhava com estranheza e irritação para Leeron, que parecia bem concentrado:
– Ei ei ei, espera um pouco. Eu acabo de te seguir pro laboratório, você não para de querer passar a mão em mim e agora fala pra eu tirar a roupa?! Você é o que, um maníaco?!
– Luno, precisamos que você tire a roupa para que possamos ver os pontos para concentrar energia. Se você não tirar, é bem capaz que não consigamos curar você.
– Mesmo se for bem capaz de não curar, vocês ainda podem curar mesmo assim, não é, hehehe...?
Os dois olhavam para ele e não diziam nada. Luno captou a mensagem dizendo “tire logo essa roupa e fica quieto!”. Ele suava frio, além de estar com o rosto vermelho de vergonha:
– Ok, ok, eu tiro. Olhem para o lado quando eu for tirar.
Eles obedeceram, enquanto Luno tirava o uniforme da Grapearl que estava nele desde o dia anterior. Apesar de ele ter pedido para ambos olharem para o lado, Leeron tentava algumas viradas de olhar. Luno percebeu isso e se enfureceu, mas decidiu ficar quieto. Logo depois, ele rapidamente entrou na cápsula e fechou o compartimento:
– Certo, já estou aqui. Façam logo isso, porque quero sair logo dessa lata!
Leeron e Leyte davam pequenos risos. Ligaram a máquina e começaram o processo. Com muitas e ágeis tecladas em computadores, ficou tudo preparado. Leeron pediu, agora bastante sério e concentrado:
– Pense em algo que o motiva, algo que faz você querer se esforçar.
Luno se concentrou e fechou os olhos. Haviam muitas coisas que ele poderia pensar. Entre esses pensamentos, Lily e sua mãe estavam lá e Luno tentou pensar nelas constantemente. O pensamento fazia a energia Espiral fluir de Luno e ser absorvida pela máquina. Menos de um minuto depois, Leeron agora dava novas instruções:
– Muito bem, agora relaxe. Esvazie a sua mente e tente sentir cada minúscula parte do seu corpo.
Ele se concentrou mais uma vez para esvaziar a mente e sentir seu corpo todo. Ele conseguia ouvir cada batida do seu coração, o sangue circulando por seu corpo, o ar entrando e saindo de seus pulmões, tudo. Nesse momento, Leyte começou a depositar energia Espiral em algumas partes do corpo de Luno. Ele sentia a energia entrando em seu corpo tirando a dor que estava naquele ponto. Em poucos minutos, Leyte parou a máquina e disse:
– Ótimo. Seus ferimentos estão tratados. Já pode sair daí e colocar suas roupas.
Luno estava muito aliviado ao ouvir isso. Mesmo bastante relaxado com o tratamento, ele saiu da máquina e colocou sua roupa a uma velocidade incrivel. Deu pequenos saltos e alongou seus braços e pernas. Não sentia mais nenhuma dor e se sentiu revigorado por completo:
– Nossa, essa máquina é boa mesmo. Nem parece que eu estava machucado e cheio de dor.
Ambos os cientistas ficaram satisfeitos e Leeron se aproximou de Luno, bem devagar e sussurrou em seu ouvido:
– Hmmmm, então você poderia agradecer de um outro jeito, não é?
Luno deu um pulo de susto e correu para trás de Leyte, que suspirava e ia acender outro cigarro, mas viu que não tinha nenhum no pacote.
Apesar de não parecer muito bem, todos estavam com os ânimos positivos. Nessa hora, Leyte virou para Luno:
– Agora que você está todo curado, sugiro tirar o resto do dia para descansar. Vai precisar de todas as energias para lutar contra Simon depois de amanhã.
Luno não queria descansar, mas ele entendia os motivos dela. Apesar de pouca coisa ter acontecido, aquela manhã foi bastante agitada. Ele ia seguir para o quarto e pediu para que Leyte o guiasse:
– Ahhh, mas por que eu não? Eu também sei muito bem o caminho, sabia? – Leeron reclamava por que não foi chamado.
– Acho que você também sabe muito bem o porquê de eu não te chamar. – Ele respondia bastante irritado.
– É, Leeron, você REALMENTE precisa se controlar um pouco ou só vai sobrar nos dois no Departamento de Pesquisa, hahaha! – Leyte sorria e colocava as mãos nos bolsos do jaleco.
Depois disso, Luno e Leyte seguiram seu caminho, enquanto Leeron avisou que ficaria para preparar o Véu Espiral no dia. Ambos andavam normalmente, quando Luno parou e perguntou a ela:
– Leyte, você...já perdeu alguém que tinha esse desejo de morrer?
Ela parou e falou:
– Sim. Não apenas uma, mas várias pessoas. Essas pessoas estão determinadas a conseguir qualquer coisa pagando o preço da morte, sem medo algum. As vezes elas...veem a morte como uma satisfação e não uma desgraça. Poderia ser que eles escolheram a hora certa para morrer ou a vida errada para viver, eu não sei. Só sei que todos tinham grandes ambições e estavam dispostos a tudo para obtê-las.
Luno estava reflexivo naquela hora:
– Eu não posso aceitar algo assim. Ver um amigo meu se matar por vontade própria desse jeito apenas me faria ver que eu sou um covarde incapaz de qualquer coisa. Mesmo assim, eu estou partindo para o mesmo objetivo...
Ele abaixava a cabeça, mas rapidamente a levantava e respondia mais animado:
– ...Porém ainda há coisas que quero fazer. Ainda há coisas que quero ver e principalmente, tenho amigos que quero cuidar e ver felizes ao meu lado. Eu ainda quero ver o amanhã com todos aqui. Não podemos negar o desejo de morte de alguém, mas muito menos fazer o que Simon está fazendo, que é negar a vontade das pessoas quererem viver suas vidas felizes.
Leyte estava impressionada com aquele discurso, e bastante nostálgica também. Ela queria apenas dar mais um trago em seu cigarro para aquele momento estar completo na cabeça dela.
Luno estava confiante naquela hora, mas foi interrompido quando alguém trombou direto em seu peito e o abraçou. Quando ele viu, era Lily que veio correndo. Ela começou a gritar para seu irmão e bater em seus ombros:
– Finalmente te achei! Você tem noção do perigo que tava correndo?! Podia ter morrido ontem! Oohh, como eu tô furiosa com você!
Ele tentou acalmá-la, mas aquelas batidas o deixavam nervoso:
– Ai ai ai! Quer parar de bater em mim? Acabei de me recuperar dos ferimentos. Se você ficar batendo só vai criar novos!
Mas ela continuava:
– Lógico! Você que tem que sair em um Gurren Lagann, salvar todo mundo e querer bancar o herói! Você vai lá, sai todo ferido e ainda tem vontade de querer ir lá de novo! Você, você...!
Ela parou as batidas e começou a chorar:
– Você tem noção de como eu fiquei preocupada com você...? Fiquei o dia inteiro do seu lado pra ver se você ficava bom. Se você morresse, eu não sei o que eu faria mais daqui pra frente...e-eu iria...
Luno afastou ela lentamente e olhou para seus olhos, falando tranquilamente:
– Lily, ta tudo bem agora. Você não precisa mais ficar preocupada. Eu não morri lá e com toda a certeza não pretendo morrer.
Ela nunca viu o irmão ser tão doce assim. Ela limpava as lágrimas, pensando, enquanto via o irmão olhando para ela:
– *Ele ta sendo tão gentil comigo...será que eu finalmente significo mais pra ele...?*
– Então vê se para de ser uma bebê chorona. Você não sabe fazer nada mais além isso! Pergunta pra mamãe te ensinar a cozinhar, porque se você fizer o almoço como você fez ano passado, vai espantar os seus maridos. Não quero nenhum sobrinho meu morrendo depois de comer sua comida, hahahaha!
Lily se desiludiu e ficou incomodada por ter seus defeitos expostos. Começaram a discutir. Leyte apenas observava aquilo e achava bastante engraçado. Não entendia como Luno poderia estar de tão bom humor mesmo com tanta pressão sobre ele.
Enquanto ambos discutiam, algo aconteceu. O alarme disparou, deixando todos em alerta. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Todos começaram a ficar preocupados. Luno pensou de imediato que fosse algum ataque de Simon e perguntou:
– Leyte, onde está o Gurren Lagann?
– Colocamos ele de volta na sala onde sempre esteve.
– Certo. Vou lá ver o que está acontecendo.
Leyte tentava impedir:
– Espere, Luno! Você acabou de se tratar! O mínimo dos impactos poderia fazer com que todos os ferimentos voltem outra vez!
– Não tenho escolha. Preciso ver o que está acontecendo agora mesmo. Lily, fique com Leyte até eu retornar. Vocês duas, procurem levar todos a um lugar seguro e tragam minha mãe com vocês o mais rápido possível.
Lily balançou a cabeça e falou:
– Não, eu vou com você!
– É perigoso, Lily! Se você vier comigo, vai correr sérios riscos!
– Nada garante que se eu ficar aqui eu estarei segura.
– Eu quase morri ontem! Você SEQUER imagina o que pode acontecer!
– Eu prefiro morrer com você do que viver sem você!!
Luno já iria responder de novo, mas parou. Estava furioso. Extremamente furioso. Ele olhava para a irmã, que estava com a mesma certeza que ele carrega nos olhos. Olhou para Leyte, um pouco confuso. Abaixava a cabeça e fechava as mãos. Depois de retomar um pouco da consciência, falou com mais calma:
– ...Ok. Pode vir comigo, mas nem pense em sair do meu lado!
Lily ficou feliz e deu um sim. Leyte estava bastante incomodada com o rumo que aquílo tomou. Falou em voz alta para Luno, que já corria para a sala do Gurren Lagann junto com Lily:
– Então esse é o seu desejo de morrer?!
Luno parou e respondeu, ainda de costas:
– Não, Leyte. Você está errada. Esse não é o meu desejo de morrer...
Levantou o braço com o punho fechado e completou:
– ...É o NOSSO desejo de viver!
Leyte se surpreendeu novamente. Não via os olhos do garoto, mas podia perceber que estava determinado. Ela abria um leve sorriso e avisava:
– Vou abrigar a todos. Seja um bom irmão e proteja sua irmãzinha. Ela confia em você.
Luno não respondeu, mas correu junto a Lily pelo corredor.
Leyte viu ambos correndo no caminho para o Gurren Lagann. Ela realmente percebia o quanto Luno era diferente. Ele conseguia reviver a pouca esperança que as pessoas tinham. Ele em si era uma esperança, mas cativava a todos serem uma também. Ele poderia estar na pior das condições, mas seguia em frente. Estava com o corpo totalmente acabado, mas sua alma ainda estava intacta, queimando por dentro. Leyte sentia aquilo motivante e ao mesmo tempo agradável. Ela seguia seu caminho, falando enquanto olhava uma ultima vez no caminho onde ambos estava:
– Realmente...filho de peixe, peixinho é.
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