Tempted
18 Quem mexe com o passado, acaba...
Notas iniciais
ELLIOT
Dirigia em velocidade moderada seguindo logo atrás do meu pai, Carrick, que ia à frente em seu próprio carro. A semana toda deu para perceber que ele só estava falando comigo porque era necessário, para tentar resolver os problemas nos quais me meti. A coisa estava indo de mal a pior e só estávamos voltando para casa porque o juiz decretou que não haveria nenhuma movimentação no caso durante o fim de semana. A verdade era que a coisa estava bem feia. Eu estava começando a pensar que meu pai, assim como o juiz, estava começando a acreditar que eu era culpado. No caso do plágio, por displicência. No caso da acusação de assédio, por causa do meu histórico.
Quem fez a acusação anônima dizia estar em choque demais pelo assédio que sofreu, por isso não quis se identificar. Então, a justiça está investigando a ligação para chegar o mais próximo da pessoa que me acusou. Enquanto isso, fazem interrogatórios direto com o pessoal da empresa. Até agora ninguém confirmou a acusação, mas minha ex-secretária admitiu que eu a chamei para sair algumas vezes e agora a acusação tem mais força, fazendo a investigação ficar mais acirrada. Amanda ainda não foi interrogada e eu precisava urgentemente falar com ela, mas ela simplesmente desapareceu. Depois que as atividades da empresa foram suspensas, só a vejo nas sessões com os advogados quando é necessário. Depois, ela simplesmente some. Espero que signifique que não queira se envolver, e, com isso, não falar sobre nós para a justiça. Seria o fim da picada.
Nesse meio tempo, meu casamento com Ana era a única coisa boa que me restava. A única coisa que meu pai ainda aprovava em mim.
A situação estava realmente feia.
Tudo que eu queria neste momento era rever Anastasia. Seria bom demais ficar na companhia de alguém que não me criticasse. Que me julgasse menos e confortasse mais. Eu sabia que ela seria assim.
Seguimos pela estrada por mais uns vinte minutos até cruzarmos os portões da mansão Grey. Até então eu só havia mandado mensagem para Ana, que sequer respondeu. Será que ela estaria bem? Uma semana fora de casa e eu descubro que ela caiu e quase se afogou... Espero que pelo menos ela não esteja chateada comigo.
Demos a volta pelo primeiro jardim até encontrarmos o estacionamento lateral. Desliguei o carro e meu pai passou direto por mim para dentro de casa. Talvez não falasse nada agora, mas quando estivesse a sós com minha mãe, começasse a reclamar de mim.
Antes mesmo de passar pela porta, já ouvia a voz de minha mãe.
— Carrick! Aleluia! – ela estava agitada e ansiosa. — Ainda bem que vocês voltaram. Eu já estava para arrancar os cabelos de preocupação! Onde está Elliot? Não veio com você?
Antes mesmo de meu pai responder, alcancei nossa antessala. Mamãe sorriu e veio até mim, me puxando para um abraço.
— Até que em fim, você também apareceu! Seu moleque levado!
— E aí, mãe? – cumprimentei. Depois de me enforcar por uns três segundos em seu abraço, Grace me soltou.
— Estou feliz que vocês estejam de volta! E então? Como estão as coisas? – ela quis saber se virando para encaixar meu pai em seu campo de visão.
Carrick estava realmente infeliz. Limitou-se a olhar para mim, depois para minha mãe e então ir embora, seguindo em direção às escadas. Foi a mesma coisa que ele fez quando um policial bateu na nossa porta, quando eu tinha quinze anos, para avisar que eu bati com o carro do meu pai em outro carro, sem querer, (eu havia pegado o veículo emprestado sem avisar). Foi uma das piores broncas que eu já levei. Dessa vez, pelo modo como Grace me olhou logo em seguida, a coisa parecia ser ainda pior.
— Tão mal assim? – mamãe me perguntou já franzindo o cenho.
Passei a mão pelo cabelo tentando me controlar para não deixar a avalanche de merda que estava acontecendo rolar toda de uma vez.
— Está tudo bem difícil. – disse. — Mas não estou a fim de destrinchar tudo isso agora, ok?
— Mas, Elliot, eu preciso saber de...
— Não se preocupe. – a cortei. Deu para perceber que ela não gostou nada. — Papai vai contar tudo a você, tenho certeza! Eu quero é saber onde está a Ana. – falei, saindo da frente de minha mãe e indo em direção à sala de TV. — Ana! Cheguei!
— Ela não está. – minha mãe falou, fazendo-me virar em direção a ela novamente.
— Não está? Como assim? Para onde ela foi? Eu avisei que estava voltando.
— Ana saiu com uma amiga ontem e ainda não voltou. Eu não tenho o telefone dela, não sei onde ela está.
Grace me disse em tom de “bem feito”, como se a notícia, ruim para mim, fosse meu troco por ter sido grosseiro.
— Que amiga? – perguntei.
— Kate, um doce de garota, inclusive. – ela ponderou. — Bem... Vou subir para falar com seu pai.
Minha mãe se virou e seguiu para cima. Esperei até ela desaparecer para subir também, em direção ao meu quarto. Onde, diabos, Ana se meteu?
***
ANASTASIA
Orfanato McCaullin.
— Christian... – suspirei surpresa.
Christian me olhou e não disse nada. Ele estava tenso, como nunca o vi antes. Parecia um gato arisco. Ele destravou as portas e começou a sair do carro. Fiz o mesmo. Eu estava com medo. Medo do que aquilo poderia significar e do que poderia acontecer. Por mais que eu quisesse saber do seu passado, sua reação ontem à noite me fez acreditar que eu jamais saberia de nada. No entanto, agora, aqui, é como se ele estivesse me deixando entrar.
Nós nos encontramos na calçada. Christian havia se encostado contra o carro, cruzando os braços e olhando para a fachada do orfanato como se visse bem mais que eu, bem mais que um muro cinza, com o concreto descascado e uma porta de madeira tosca atrás de grades também cinzas.
Cinza... Como seus olhos. Tudo ali parecia cinza.
— Você quer entrar? – ele perguntou. Parecia fazer muito esforço para colocar a voz pra fora.
Eu balancei a cabeça afirmativamente, mas na verdade não sabia o que estava fazendo. Fazia uma leve ideia do esforço de Christian para estar ali, porque ele parecia rígido e na defensiva. Então não sabia se era pior ficarmos ali fora, parados, ou nos movermos. Eu sequer sabia se eu realmente queria entrar. Não estava preparada para encarar o passado de Christian e seus mistérios.
De toda forma, nós caminhamos até a grade e Christian apertou uma velha campainha que até já se soltava da parede. Pelo aspecto do lugar, parecia abandonado. Fiquei surpresa ao achar que ele ainda estava funcionando. Como se lesse meus pensamentos, Christian falou, expulsando com dificuldade as palavras de sua boca.
— Não era muito melhor na minha época, mas já não funciona mais aqui.
— Então... Então como...?
De repente, uma mulher abriu a portinhola de metal que tapava uma pequena abertura na porta de madeira, e nos espiou de dentro para fora. Ela fechou a brecha e, em seguida, começou a destrancar tudo. Christian e eu demos um passo para trás permitindo que a velha mulher abrisse o portão.
— Já estava esperando por você. – ela disse se dirigindo a Christian. Seus olhos eram pequenos e luminosos em seu rosto enrugado. Ela parecia até lacrimejar. Perguntei-me se era pela presença de Christian. Em seguida, ela me olhou de maneira interrogativa.
— É Anastasia Steele. – Christian disse. — Uma amiga. – ele acrescentou, fazendo uma bola se formar em minha garganta.
Uma amiga. Ele disse.
— Vamos. Entrem. É perigoso ficar aí fora.
A velha senhora nos deu passagem e nós entramos. A princípio tudo que eu via era uma sala pequena, com uma velha e decrépita mesa no centro da parede oposta. O chão era coberto de lajotas quadriculadas em preto e branco. Muitas quebradas. As paredes tinham um tom doentio de verde, sujo e desbotado. Tudo fedia a mofo.
A bola em minha garganta pareceu crescer e meu coração doeu. Eu me forçava a engolir para não começar a chorar. Tentei evitar olhar diretamente para Christian. Ele havia se posicionado um pouco atrás do meu ombro esquerdo, como se não quisesse ser visto. Demos alguns passos mais para dentro. Nossos sapatos fazendo ranger os pontos onde as lajotas se desprendiam do chão.
Senti uma das mãos de Christian na base da minha coluna, me incentivando a caminhar em direção a uma porta que havia à frente, à nossa esquerda. Ela rangeu e quase se soltou de uma das dobradiças quando a empurramos. Christian parou por um momento. Eu olhei para trás e vi que a senhora que nos atendeu não estava mais na primeira sala. No entanto, Christian não parou para fazer o mesmo que eu. Ele parou encarando o corredor à nossa frente.
— Não precisamos fazer isso. – sussurrei. Estava ficando difícil falar para mim também.
— Vamos em frente. – Christian pontuou.
***
CHRISTIAN
Anastasia parecia assustada. Eu estava seguro de que poderia contar um pouco da minha história para ela, antes de sair de casa e ir bater em seu apartamento. Eu estava certo de que poderia contar pelo menos uma parte. A parte que não envolvia meu maior medo. Só que agora, não estava sendo como eu imaginei. Era bem pior e mais difícil.
Eu me sentia congelar a cada passo. Talvez para Anastasia fosse um orfanato velho e abandonado qualquer, mas cada canto dele ainda parecia vivo para mim. O corredor à frente, coberto por uma espessa camada de poeira e fuligem, para mim parecia como antes. Com dezenas de crianças em uniforme cinza andando de um lado para o outro, cumprindo suas obrigações, voltando da aula, indo para a detenção, para o refeitório, subindo para seus quartos. Tudo cronometrado e organizado pelas inspetoras. Suzy, aquela velha senhora, era uma delas. A melhor delas. Que demorou mais tempo a sair daqui.
Eu ainda podia ouvir o som dos meus sapatos do uniforme batendo contra aquele piso. As ordens gritadas para subirmos para os quartos.
— Vamos subir. – Disse à Anastasia.
Levei-a até o fim do corredor, passando antes pela entrada da pequena biblioteca que tínhamos, que agora nada mais era que uma sala vazia qualquer. Abandonada como a primeira. Passamos também pela porta do refeitório, da sala da diretora, da sala de detenção e da lavanderia. No fim do corredor, uma escada em espiral.
Anastasia se movia lentamente, como se estivesse com medo de destruir qualquer coisa em que tocasse. Eu também tinha medo, um medo irracional de voltarmos no tempo e aquilo tudo ganhar vida novamente.
***
ANASTASIA.
Christian me conduziu até o andar de cima do orfanato. Ou do que sobrou dele. Fiquei com medo de subir as escadas, e ela despencar com nós dois, mas aparentemente a escada não era tão velha quanto todo o resto, apesar de estar enferrujada também. Parecia ter sido posta ali um pouco depois, não parecia ser da construção original.
O corredor em que saímos era tão longo quanto o primeiro e terminava numa estreita porta de moldura de ferro, cujos vitrais pareciam já não existir há muito tempo. Ao longo do corredor, mais entradas. Algumas já nem tinham mais portas. Um lado das paredes era pintado de rosa, o outro de azul.
— Dormitórios? – perguntei. Minha voz saiu num soluço.
— Sim.
— Você...? – era mais difícil do que eu imaginei, era muito doloroso. Eu queria falar, mas não conseguia. Ou ia transbordar em lágrimas.
— Lá em cima. – Christian sinalizou. Talvez tivesse entendido que eu queria saber onde ele dormia.
Olhei para trás e percebi que a escada continuava por mais um lance. Dessa vez Christian foi à frente, tirando seu casaco para limpar com ele os fios de teia de aranha que aqui e ali fechavam a passagem. A outra mão ele estendeu para mim, para que eu não caísse.
Seu toque fez jorrar uma corrente elétrica por todo meu braço. Ele estava frio e trêmulo.
Desembocamos no outro andar. Ele era idêntico ao primeiro. Um corredor com portas dos dois lados, e uma abertura no final para uma espécie de sacada pequena. Neste, a depredação parecia ainda pior. Manchas de infiltração tomavam conta do azul e do rosa das paredes. Ruído de pombos vinha de cima, do que restou do forro, que agora devia servir de moradia para as aves.
Christian seguiu à minha frente, caminhando com cuidado até parar numa região escurecida do corredor. Não escurecida por sombras, exatamente. Chamuscada. Como se tivesse acontecido algum incêndio ali. E bem naquela região, Christian entrou por uma das portas. Eu o segui.
Estávamos num cômodo pequeno, completamente coberto por cinzas. Restos de metal enegrecido se acumulavam em determinada parte do chão. Marcas dos móveis que existiam ali ainda eram possíveis ser vistas. Na parede oposta à porta, uma estreita abertura do que um dia foi uma janela permitia que uma luz empoeirada entrasse. Christian estava parado em frente a ela, olhando para fora, cuja única vista era o muro sujo e descascado do prédio lateral, a menos de dois metros de distância.
Deus! Aquilo tudo parecia horrível.
Aproximei-me de Christian, ganhando espaço para enxergar mais em baixo. Não havia nada além de um corredor estreito que separava uma construção da outra, coberto de lixo e entulho. Contudo, percebi que Christian não tirava os olhos daquele lugar. Ele se segurou firme na borda da janela para continuar olhando mais para baixo. Ele estava pálido.
Eu o abracei.
— Eu vivi aqui. – ele disse. Suas palavras eram como pedras. Eu não tinha coragem de falar. Como ele conseguia? — Certa noite... – ele inflou os pulmões, me fazendo afrouxar o abraço. — Pegou fogo — completou.
— Foi um acidente? – minha voz não saiu acima de um sopro.
Christian não respondeu. Mas eu acho que já sabia a resposta. Não era preciso ser perito para perceber que as cinzas partiam dali. Que nenhum dos outros cômodos estava tão queimado. O fogo havia começado ali, por alguma razão. E não parecia acidental.
— Eu tive que pular pela janela. – Christian continuou. — Eu precisava dar o fora daqui.
Desta vez eu também olhei para baixo, agora com mais interesse. Eram uns bons nove ou oito metros de onde estávamos até o chão. Lembrei-me das marcas que Christian carrega nas costas, que eu vi ainda no primeiro dia em que nos conhecemos. Quase pude ouvir o som da janela se quebrando enquanto ele se atirava e caía lá em baixo.
Tentei engolir antes de falar, mas minha garganta estava fechada. Já era tarde demais para tentar me segurar e meu rosto estava molhado de lágrimas.
— Quantos anos? – perguntei.
— Dez, eu acho. Talvez onze. – ele respondeu.
Meu coração se desfez em pedaços dolorosamente. Eu sentia a dor, como se fosse em mim.
Christian soltou a janela e retribuiu meu abraço, tentando me consolar. Era eu que queria consolá-lo. Mas... Como consolar alguém das próprias lembranças? Do próprio passado?
Eu sentia a dor compressora de uma realidade que eu nunca vivi. Eu tinha um pai preocupado e uma mãe amorosa. Eu nunca soube o que era não ter ninguém e nem uma perspectiva de vida. Eu não sabia como era estar sozinha de verdade, não da mesma forma que Christian parecia estar.
— O que aconteceu depois? – perguntei entre soluços.
— Eu fugi. – Christian se limitou a dizer. — Já chega. Vamos embora. – ele disse meio engasgado. Eu não relutei. Segurei em sua mão e deixei que ele me guiasse pelo caminho de volta até do lado de fora.
Na calçada, perto da porta, a velha mulher que nos deixou entrar nos aguardava. Tentei limpar rapidamente o rosto com as mangas da minha camisa. Arrisquei olhar para Christian, mas apesar dos olhos vermelhos, ele não parecia ter cedido ao choro como eu.
— Vá para o carro Anastasia. – ele me falou, entregando-me as chaves.
Fiz como ele disse, aproveitando para não deixar que a velha mulher me visse em prantos.
Christian e ela continuaram na calçada. Do lado de dentro do carro eu ouvia muito baixo o que diziam.
— Obrigado... – falou Christian.
— Eu que agradeço... – a mulher respondeu. — Com sua última doação conseguimos ampliar a sala de estudos e contratar mais professores. Estamos preparando uma viagem para Washington. Você deveria nos visitar.
— Isso é ótimo. Avise-me se precisar de alguma coisa extra. – Christian falou, seu tom de negócios dando um ânimo a mais em sua voz.
— Obrigada, — a senhora repetiu. — Você é um anjo, filho.
Fiquei ainda mais comovida quando a mulher segurou a mão de Christian e depositou um beijo sobre ela. Foi quando, de repente, um homem surgiu, vindo da direção oposta a que chegamos. Ele se aproximou e puxou a mulher para trás, afastando-a de Christian. Foi tão brusco que ela quase tropeçou.
— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO AQUI? – Ele gritou, mas não com a mulher, com Christian.
— Raphael, saia! Deixe-o! – a senhora tentou intervir.
— E o que a senhora está fazendo com este homem aqui, mamãe? – o tal de Raphael continuou gritando. — Não se lembra do que ele fez?
— CHRISTIAN! – Chamei de dentro do carro, antevendo a ação de Raphael, que, no instante seguinte, acertou um soco em cheio na mandíbula de Christian.
Atrapalhei-me para destrancar o carro e já estava quase saindo quando Christian revidou contra Raphael e gritou para que eu ficasse do lado de dentro. Eu estava nervosa, em choque. E congelei.
— CHRISTIAN! RAPHAEL! PAREM OS DOIS! – Gritava a velha senhora, agora em lágrimas, encolhida perto do carro.
— Seu vagabundo! O que pensa que está fazendo aqui? – Raphael gritou contra Christian, se levantando do chão e partindo para cima de novo, com o nariz sangrando.
— Não se meta nos meus assuntos! – Christian respondeu se defendendo de Raphael, empurrando-o para longe.
— Christian! Vem pro carro! – Gritei.
— Como tem coragem de voltar aqui? – Raphael cuspiu as palavras.
— Você não sabe do que está falando. – Christian disse e começou a dar meia volta para vir até o carro.
Raphael tomou impulso e começou a avançar novamente.
— Seu covarde! Seu assassi... – e Christian o acertou com um soco na boca.
Raphael caiu no chão de novo.
— Christian! – gritei aterrorizada.
Christian pareceu desistir de outra investida contra o rapaz e olhou para mim. Ele não parecia o mesmo Christian de sempre. Seu olhar era selvagem e perdido. Seu olhar foi de mim para a senhora que parecia ser mãe de Raphael. Então, deu meia volta, agora mais rápido, e entrou no carro. Fechei a porta do meu lado e passei o cinto com pressa enquanto Christian dava a partida. Raphael chegou a alcançar o vidro da janela do banco de trás e deu um soco tão forte que reverberou pela lataria. À medida que Christian acelerava pela pista, a cena no retrovisor, de Raphael sendo puxado pela mãe, diminuiu até desaparecer.
Meu coração estava disparado, dolorosamente. Antes eu estava triste e, agora, aterrorizada.
— Christian, o que foi isso? O que foi que aconteceu? – perguntei.
Christian estava de cara fechada, o maxilar arroxeado e olhava para a pista como se fosse capaz de atropelar o primeiro que cruzasse sua frente.
— Um amigo de infância. – ele respondeu, os dentes praticamente cerrados. — Esquece. Eu não deveria ter voltado aqui.
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