Notas iniciais
Pessoas humanas, eu estou em todos os lugares. Sério mesmo. Estou observando você, lendo a minha história. E, meu Deus, você está gostando. Mas é um fantasminha. Sabe, ninguém gosta de fantasmas. Eles são meio assustadores. Então não seja um. Eu acabei de terminar de assistir GF, não sou MESTRE do assunto então não me cobrem. Uso sempre a política "me corrija se estiver errado", então façam isso. Aproveitem xx

Cara, ele não cala a boca.

Acho que essa é a pior parte de ser amiga de um cara doidão. Ele fala, fala e fala e a gente finge que está ouvindo, quando na verdade, estamos pensando sobre o mundo dos gatinhos trevosos que curtem Restart.

Já era noite, mas eu não queria ir embora daquele quarto – o que eu deveria ter feito há umas quatro horas atrás.

Meu celular estava jogado em um montinho de roupas do meu melhor amigo. Eu acho que vi uma cueca em algum lugar ali, mas nem ligo muito. Mentira, eu ligo sim. Cadê. Achei.

Voltando à narração, lá estava eu no quarto do meu melhor amigo Dipper Pines, sem querer prestar muita atenção em todo aquele papo de brisa dele. Rascunhos de criaturas místicas pendiam nas paredes e, no chão, livros e mais livros estavam jogados de todas as maneiras. Aquele quarto parecia mais uma central de reciclagem do que um quarto, mas tudo bem. De alguma maneira aquilo me confortava.

Quer dizer, eu passava meus dias fugindo da ignorância, e ali era uma espécie de santuário do conhecimento – por mais que ele pareça inútil. Dipper sempre me dizia que saber sobre essas criaturas era um desperdício de tempo, mas que na hora de correr de gnomos em formação de guerra, valiam a pena.

–Mas, Emma, você tem que tomar cuidado para não confundir os dois tipos de escorpião. Se matar o errado, você está lascada. E com lascada eu quero dizer morta. Existe o normal e existe esse aqui – indicou uma ilustração – que dobra de tamanho quando se sente ameaçado. Desse você tem é que fugir. Ah! Esqueci de te avisar...

–Você já pegou alguém? – Deitei no tapete.

Dipper se manteve em silêncio, com a sobrancelha arqueada e aquela cara toda ornamentada com pontinhos de interrogação.

–Fala sério, temos quinze anos. Não é possível que você nunca tenha beijado nenhuma garota, nenhuma vez.

–Eu já. É claro que já. – Corou.

–Você está ficando vermelho. Esqueceu do juramento? – Mostrei a cicatriz da minha mão. – Eu sou sua confidente, pode falar.

–Não, não peguei ninguém. Mas foi por opção. Todo mundo me quer.

–Ah, pode apostar que sim. – Fechei os olhos e soltei uma risada irônica, recebendo uma “travesseirada”. – Minha mãe deve estar maluca uma hora dessas. Acho melhor eu ir embora.

Levantei, e vi que o menino estava com uma cara amarrada.

–Quer que eu durma aqui hoje?

Silêncio.

–Pines.

Nada.

–‘Tá, vou ligar para a minha mãe e avisar.

Enquanto eu ligava para a minha velha, vi a irmãzinha de Dipper me encarar com aquela cara que irmãos sempre fazem para os melhores amigos de seus irmãos. Ou seja, se ela tivesse lasers nos olhos eu já havia virado pó e sido cheirada por algum dos caras doidões que ficam na casa abandonada aqui perto.

Como sempre, minha mãe ficou até feliz de eu decidir dormir na casa do Dipper. Eu acho que ela meio que shippa a gente. Eca.

–Pronto, vou dormir aqui hoje. – Disse, entrando no quarto. Abri o colchonete que eu guardava para o caso de eu precisar dormir por ali (como sempre).

Fui ignorada. Suspirei e larguei as coisas no chão mesmo, sentando do lado do rapaz.

–Eu não queria ter te magoado com aquela brincadeira. Fui idiota. De novo. Desculpa.

–Não é isso, Emma. É que eu comecei a pensar que a minha obsessão por coisas sobrenaturais afasta as pessoas.

Comecei a rir, e dei um soquinho em seu ombro.

–‘Cê ‘tá me chamando de quê? Eu sou uma pessoa, e eu amo você, seu otário.

–Eu sei, mas... Você me entendeu. Ninguém quer namorar um esquisitão que nem eu. Eu já tentei, você sabe disso. – Droga, lá vem ele falar da irmã.

–Esquece a Mabel, não pensa desse jeito. Você viu o que aconteceu da última vez? — Lágrimas e uma vontade eminente de estar morto. Encheção de saco que quase matou a gente ano passado, literalmente.

–E o que eu vou fazer? Pegar a Pacífica?

–Você devia ir dormir, sua cabeça está a mil. – Peguei os papéis da mão de Dipper e coloquei em um canto mais organizado. Terminei de arrumar o meu canto de dormir enquanto ele escovava os dentes e arrumava a própria cama.

Sentei em um canto enquanto Dipper se recompunha. Sempre que ele se lembrava dos Tempos Sombrios, ficava mexido.

–Vou morrer sozinho. – Concluiu, dando um suspiro. Revirei os olhos. –É sério. Vou morrer BV, sozinho, sem a Mab...

–Cala a boca, pelo amor de Deus, não faça meu penico de ouvido! – Parei. – Meu ouvido de penico. Ah, você entendeu.

Encostei a janela e sentei na beirada da cama, olhando para a cara do meu amigo depressivo. Quando eu vi que ele não ia voltar ao normal tão cedo, respirei bem fundo. Puxei Dipper pela camiseta e sem dar nem tempo de pensar o beijei.

Não gostava dele, mas também não gostava daquele chororô todo. Então, aguentei o tranco. Eita beijo ruim, pela mãe do Guarda, preferia beijar um aspirador de pó. Ou um idoso sem dentes. Eu sou muito corajosa, fala sério, mereço um troféu.

–Parabéns, agora você não vai morrer BV.

–Em...

–De nada. Cala a boca e vai dormir. Até amanhã, Dipps.

Levantei e me joguei no colchonete.

x

Um ano antes

–Mabel! Mabel, não foge! – Dipper gritava pela casa, chorando um pouco. – Desculpa, eu não quis dizer isso... Foi culpa da puberdade!

–Cala a boca, Dipper. Como você vai pensar algo assim! – O rubor tomava conta do rosto de Mabel. – É estranho, e nojento!

–Não foi de propósito! Eu... Eu já disse, eu não quis dizer isso! Nada do que eu te falei era verdade.

Mabel parou por um segundo. Inspirou o máximo de ar que conseguia e depois expirou lentamente, se virando.

–Eu vou fingir que desmaiei. Eu não vou me lembrar de nada. Não quero uma palavra sua até mês que vem. – E fechou a porta atrás de si, provavelmente viajando para Sweater Town.

x

Às vezes, ser melhor amiga de um menino perturbado que nem Dipper era uma tarefa difícil. Se ele não cagasse tudo à cada cinco dias, minha vida ficaria bem mais tranquila e a tarefa “tomar conta do Dipper para ele não se matar” seria extinta. Mas lá ia eu, ouvir o menino reclamar para a vida toda. Claro, ele se apaixonou pela irmã gêmea. Se isso não é meio creepy, eu não sei o que é.

Eu presenciei o maior fora que alguém pode receber, e isso meio que me fez me aproximar de Dipper. Era meio que uma amizade equilibrada – eu também não bato muito bem das idéias, sabe como é.

Isso é um dos eventos dos Tempos Sombrios. Eu realmente queria que fosse o único. Mas como eu disse, não é só o Dipper que tem parafusos a menos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.