O teatro costumava ser uma experiência muito relaxante para Miguel. Tinha começado, anos atrás, por sugestão de uma professora para poder melhorar sua oratória em público — tinha um problema e tanto com isso aos onze anos de idade — e tinha dado muito certo, além de se mostrar um passatempo muito divertido para ele. No entanto, mesmo o teatro estava sendo incapaz de acalmá-lo nos últimos dias.

A situação com Lucas continuava na mesma. Ele não queria conversar com nenhum deles por períodos extensos de tempo, e muito raramente o pegavam para trocar palavras breves no corredor, nem que apenas para saber como estavam as coisas. A resposta geralmente era algo na linha de “na mesma coisa”, e vinham deixando a situação permanecer assim nas últimas semanas, afinal, as provas de vestibular estavam acontecendo, e não queriam estressar Lucas com nada.

Miguel já tinha feito umas duas provas de universidades particulares nas últimas semanas, mas era no fim de semana de agora que a situação ia ficar realmente séria com o tal do ENEM. Talvez, pensou, fosse esse o motivo de todo seu nervosismo. Não que não estivesse preocupado com Lucas, pois estava, o tempo todo, mas aquele aperto no estômago era coisa nova da semana atual.

Marisa tinha percebido isso. Miguel não era o único terceiranista do grupo, cujos integrantes variavam dos catorze aos dezoito anos, e havia um certo ar de nervosismo no local. Então ela decidiu usar aquele dia para meditarem.

E, portanto, ali estava Miguel, deitado no escuro de olhos fechados ouvindo uma meditação guiada de Marisa e falhando em simplesmente desligar a mente como ela queria que ele fizesse. Raios, a quem queria enganar… ENEM era péssimo, mas era sim Lucas corroendo sua consciência daquele jeito. Estava preocupado com ele. Importava-se muito com o garoto, e as últimas semanas vinham sendo como assistir um acidente de carro sem poder fazer nada para impedir. Conhecia o caminho o qual Lucas estava trilhando, e queria tirar ele de lá. Precisava tirar. Sabia o quão danoso esse caminho poderia ser. Mas… como?

A aula veio e se foi, e Miguel não encontrou nenhuma resposta. Depois de todos serem dispensados, ele ficou ali, no chão da sala, em silêncio, encarando a mochila jogada contra a parede e pensando ainda no que deveria fazer. Ou sequer se deveria fazer. A possibilidade de estragar tudo tentando ajudar existia, sabia disso, mas era incapaz de medí-la ou tomar uma decisão segura quanto a isso também.

— Você parece muito nervoso — Marisa comentou, quando estavam apenas os dois na sala. — Te vi inquieto a aula inteira. Quer falar sobre o que está sentindo?

Miguel levantou o rosto para ela, sem saber o que responder. Já tinha aprendido que guardar e suprimir seus sentimentos não era caminho para coisa nenhuma, mas também não conseguia se imaginar desabafando suas preocupações românticas com a professora de teatro. Ele franziu a testa, abaixando a cabeça por um instante, sem saber o que dizer.

A resposta dela foi se sentar no chão à frente dele, apoiando os cotovelos nas pernas e esperando por um instante. Miguel continuou sem saber o que dizer, então ela falou.

— Eu sei que isso é assustador. Vocês jovens sentem um peso enorme para passar nessa prova, mas é só uma prova, ok? Ela não define o seu valor.

Miguel sabia disso. Não estava querendo um dos cursos mais concorridos de todos, então não vinha se cobrando tanto, embora estivesse estudando o suficiente para dar o seu melhor. Não, sua preocupação era outra.

— Não é isso… — ele comentou, decidindo que talvez precisasse exatamente de uma perspectiva externa para fazer algo. Seu pai conhecia Lucas, já estava muito próximo de toda a situação, mas para Marisa seria mais fácil ter um olhar analítico, não é? — Eu tenho um… amigo, e… Bom, na verdade, ele é mais que um amigo meu e… O pai dele descobriu, e as coisas estão péssimas agora e… E… Eu só quero ajudar, mas não sei se tentar ajudar vai acabar atrapalhando mais, e nem se eu devo tentar fazer alguma coisa já que é minha culpa também. Eu não sei…

Miguel suspirou, sentindo de repente como vinha de fato se sentindo confuso e sufocado com a situação agora que tinha falado tudo em voz alta. Ele abaixou o rosto, apoiando a cabeça nas mãos e tentando se acalmar, mas já sentindo o aperto no peito começar a crescer de novo. Queria que Marisa dissesse algo, de preferência sobre como ele deveria proceder, Miguel tinha plena consciência de não conseguir decidir sozinho. Demorou. Mas ela respondeu.

— Eu sinto muito que isso tenha acontecido… Acho que acima de tudo, ele precisa saber que tem você em quem se apoiar, para poder fazer isso quando puder.

— Ele sabe — Miguel respondeu, lembrando-se de como tinha deixado muito claro e explícito diversas vezes que estaria sempre ao lado dele para o ajudar.

— Às vezes as pessoas sabem as coisas, na cabeça delas, mas não sentem no coração — Marisa respondeu. — Você disse que ele pode contar com você, mas pode ajudar mostrar isso de alguma forma.

Miguel levantou o rosto para a mulher, o franzido em sua testa sumindo e dando lugar a um ar curioso. Bem, isso era verdade, não era? Não tinha ele mesmo se sentido inseguro por muito tempo, mesmo com seus amigos declarando apoio a ele, até o dia em que tinha os visto comprar briga na lanchonete para de fato o proteger? Talvez Lucas precisasse disso mais que qualquer coisa. De um gesto de carinho, de algo que pudesse lembrá-lo constantemente que não eram apenas palavras. Que estava de fato ali para o apoiar.

— Bem, talvez — ele respondeu, levantando-se devagar e pegando a mochila. — Obrigado, eu… Eu ainda não sei bem o que fazer, mas vou pensar em algo. Eu só quero que ele fique bem.

— Um amigo de verdade vale mais que um milhão de dólares, Miguel. Tendo você por perto, tenho certeza de que ele vai ficar — a mulher respondeu, dando dois tapinhas amigáveis no ombro do aluno.

— Obrigado. Bem, eu vou indo… Preciso descansar. ENEM chegando, e todo o resto…

— Com certeza. Boa sorte em sua prova! E com seu amigo também.

Miguel ergueu o queixo, apertando a alça da mochila e tentando evitar o arrepio de nervosismo que percorreu em seu corpo ao responder.

— Namorado. Ou ex. Eu não sei.

Marisa sorriu, e Miguel respondeu a isso com um aceno, deixando a sala com um turbilhão de dúvidas e ideias girando em sua cabeça.

Mas no fim das contas o conselho de Marisa foi mesmo muito útil, e a meio caminho de casa, o garoto acabou pensando no que fazer. Precisou parar por um instante no centro da cidade, e foi de fato uma aventura concluir seu objetivo, mas conseguiu. Avisou ao pai que demoraria um pouco mais, mas acabou chegando antes do jantar ainda assim. E, agora, só podia esperar pelo dia seguinte.

E esperou. Não apenas pelo dia seguinte, mas por toda a manhã, na qual deveria estar prestando atenção para se preparar para a prova, mas só conseguia pensar no fim do dia, e conseguir alguns minutos com Lucas, por mais breves que fossem. Miguel assistiu o dia se arrastar, prestando mais atenção no relógio em cima do quadro que no quadro em si, e quando finalmente o sinal anunciou o fim da aula, pegou a mochila às pressas, saindo da sala antes de qualquer outro para esperar do lado da porta até Lucas passar.

Não demorou. O garoto vinha sendo muito pontual, por receio de seu pai chegar e não o encontrar na porta, mas pela observação de Miguel isso sempre levava algo na casa de dez minutos para acontecer, então tinham tempo. Um pouquinho que fosse. Miguel estendeu a mão, segurando o pulso de Lucas com delicadeza, apenas para chamar a atenção dele.

O garoto soltou um gemido baixo de frustração ao se virar e ver quem tinha o chamado, mas não tentou se desvencilhar ou correr para fora da escola. Miguel decidiu tratar isso como um bom sinal.

— O que foi? — Lucas perguntou, com a voz um pouco chorosa, e Miguel pôde perceber como era difícil para ele ter de ignorá-lo como vinha fazendo.

Lucas parecia muito triste, e Miguel conseguia ver nos olhos dele, afinal, também se sentia assim. Ele soltou o pulso do garoto, devagar, pensando se ele ficaria mais confortável caso não houvesse contato público entre eles. Era como Miguel costumava se sentir antes, afinal.

— Posso conversar com você um pouco? Só uns minutinhos, eu juro que vai ser bem rápido.

Ele não parecia muito confortável com a ideia. Lucas olhou em direção ao fim do corredor por um instante, depois tirou o celular do bolso e conferiu a hora. Tinham tempo. Pouco, mas tinham. Esperava que Lucas percebesse isso também.

— Rápido, ok? — Lucas respondeu, enfim, e Miguel começou a caminhar para o fundo do corredor no mesmo instante para não perder tempo.

Havia um cantinho ali, um espaço debaixo de uma escada levando ao andar de cima onde a luz do Sol não batia com muita incidência e portanto qualquer foto ou pessoa olhando teria de prestar muita atenção para perceber se tratar dos dois. Torceu para isso ser o bastante para deixar Lucas um pouco mais confortável.

Sentiu o impulso de segurar as mãos do garoto, mas se conteve, enfiando as mãos nos bolsos para as manter ocupadas. Era incrível como antes faria de tudo para colocar distância entre si e Lucas, e agora tinha de vigiar seus gestos mais involuntários para não agir de maneira incômoda. E mesmo assim, sabendo o receio que ele sentia, temia acabar falhando sem querer.

Não podia correr esse risco agora, tinha de focar no que era importante. Pigarreou, erguendo o queixo e respirando fundo.

— Eu só queria te dizer que, não importa o que aconteça, eu estou aqui pra você, ok? Eu sei que já dissemos isso muitas vezes, mas… eu queria que você tivesse certeza.

— Eu sei, Miguel, mas as coisas não são tão simples as…

— Eu sei — ele cortou, algo que não era de seu feitio, mas naquele momento em específico não queria desperdiçar um minuto sequer. Estavam com o tempo contado. — Acredite, eu sei. Você vai na festa de formatura?

Lucas deu de ombros, uma resposta mais animadora para Miguel que ele esperava. A essa altura, estava imaginando um “não” direto e sonoro.

— Papai não quer que eu vá. Mamãe está tentando convencer ele, e ela pagou metade da festa então tem chance dela conseguir, não sei. É provável que eu não saiba até o sábado que vem, bem na hora de sair de casa.

Havia uma chance, então. E isso era tudo o que Miguel precisava. Uma chance. Ele tirou a mochila das costas, a abrindo e tirando uma caixinha de dentro dela, embrulhada em papel de presente. Era do tamanho da palma de sua mão, quadrada, e ele a entregou a Lucas.

— Miguel…

— Só abre, por favor. Eu tive que andar por muitas lojinhas de bugiganga pra achar algo ideal, acabei dando muita sorte. Se você não quiser, achar que não pode ficar com ele, não tem problema, pode me devolver. Eu vou entender e entrego pra Clara guardar pra você.

E realmente entenderia, mas tinha andado muito pela cidade para encontrar um presente o qual Lucas ia poder guardar, então esperava muito esse ser o caso. O garoto aceitou a caixinha com a expressão desconfiada, abrindo o embrulho e tirando o presente de dentro.

Era um chaveiro, pequeno, com um pingente de uma bola de futebol. Bem discreto, passando ao redor da bola, havia uma linha indicando que ela se abria ao meio. Lucas abriu a bolinha, e no mesmo instante seus olhos brilharam. Metade da bolinha tinha um gloss transparente, e a outra um batom rosa claro. Miguel não entendia muito dessas coisas, não sabia se era a cor que ele usava e nem como se passava aquilo sem pincel daquele jeito — devia ser com o dedo, talvez — mas era uma maquiagem em um chaveiro discreto com uma temática que o pai dele nunca iria reclamar. Ou assim Miguel esperava.

— Não sei se é a cor que você gosta — ele comentou, depois de alguns instantes de silêncio absoluto. — Eu não entendo muito dessas coisas, mas eu vi que tava dentro de uma bolinha de futebol e pensei que pudesse dar pra você usar… Pra por na sua chave e deixar aí sem ninguém desconfiar de nada.

Lucas continuou em silêncio por alguns instantes, encarando o presente completamente embasbacado. Então ele fechou a bolinha, devagar, colocando na caixinha de volta.

— Você… — comentou, levando as mãos aos olhos e enxugando algumas lágrimas que tinham começado a se acumular ali. — Você foi nas lojinhas de maquiagem do centro procurar isso aqui pra mim?

Miguel sentiu as bochechas esquentarem de repente. Bem, falando assim, parecia muito mais incrível do que tinha realmente sido. Não era nada de mais.

— Bem, eu estava voltando do teatro, daí já estava no centro… Eu só fui entrando nas lojinhas e procurando alguma coisa que desse pra esconder. E, bem, é seu molho de chaves, seu pai não vai achar um chaveiro de futebol esquisito, não é? Você gosta, então…

Lucas fungou, baixinho, enxugando os olhos mais uma vez. Ele enfiou a mão no bolso da mochila, tirando as chaves de dentro e pendurando o chaveiro novo ali.

— Eu vou ficar com ele — o garoto disse. — Obrigado… Eu nem sei o que dizer…

— Não precisa dizer nada. Só fique com ele… Pra lembrar de mim.

— Você foi meu primeiro namorado… Eu nunca vou esquecer você.

Aquelas palavras foram ao mesmo tempo como um beijo carinhoso e um soco no estômago. Também nunca iria se esquecer de Lucas, se tinha confiança em si mesmo hoje tinha sido por tê-lo conhecido. Mas o uso do passado ao falar sobre o relacionamento dos dois, doeu.

— Tente ir à festa — Miguel pediu. — Por favor. Não vai ser a mesma coisa sem você lá.

— Eu vou tentar… — o garoto respondeu, conferindo as horas no celular e soltando um suspiro cansado depois. — Eu tenho que ir. Até mais, Miguel.

— Até — ele respondeu, acenando, ainda sem achar que deveria abraçá-lo ou se despedir de qualquer outra maneira mais próxima. Lucas foi embora, andando pelo corredor em direção à saída da escola, e Miguel ficou ali, com as últimas palavras do garoto ressoando em sua cabeça.

Lucas também tinha sido seu primeiro namorado, se fosse para considerar relacionamentos sérios desse tipo. E Miguel não se sentia pronto para que ele fosse seu primeiro ex-namorado também. Precisava ter paciência, sabia disso. Lucas estava passando por algo complicado demais agora, e talvez os dois acabassem se afastando antes dele se recuperar e estar pronto para um relacionamento. Mas talvez, e Miguel queria ter essa esperança, aquele presente fosse o começo de sua demonstração do quanto estava disposto a lutar para continuarem juntos. Talvez ainda houvesse um futuro para eles, e se Lucas fosse àquela festa, iria dar um jeito de descobrir.

Notas finais
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