Temporary Fix
2 CAPÍTulo II
Notas iniciais
CAPÍTULO II
resumo: zelda, gossip girl do ig e personificações de fanarts.
Eu sabia que o dia seria horrível quando as lembranças de ontem vieram em minha mente, e talvez por conta disso tenha choramingado assim que o despertador tocou e tenha tentado contar uma mentira ao meu pai alegando que eu estava mal.
Entretanto, no lugar de ganhar um afago na cabeça e um “tudo bem, Dee” , acabei ganhando um xícara de café com leite no criado-mudo e duas mãos nos meus tornozelos me puxando para fora da cama, com um bônus de “Diem Zelda, beba o café agora e desça. Recebi seu boletim ontem e você não está em condições de faltar a escola hoje, mocinha!” com um leve sotaque britânico e um olhar impaciente.
Mesmo tentando um olhar que implorava misericórdia, Robert apenas saiu do quarto e deixou a porta aberta e ainda apontou para as roupas que estavam na ponta da cama, me fazendo suspirar e partir para o ritual matinal que envolvia tomar banho, passar cinco minutos tentando fazer “delineado gatinho” e mais cinco penteando a confusão de fios loiros que pareciam entrar em uma rebelião matinal todo santo dia.
Papai era uma pessoa extremamente intimidante para qualquer um que olhasse de fora, com seus um metro e oitenta e grandes olhos cinzentos, mas era extremamente maternal. Era ele que me trazia café na cama quando eu me atrasava e era ele quem separava alguma roupa quando eu enrolava demais e vez ou outra entrava no quarto que nem um furacão, xingando mais que uma partida perdida pelo Man U, tirando a escova da minha mão e começando a fazer uma trança extremamente bem-feita e finalizando com um “agora entre na porra do seu carro, Diem!” e fazendo um sermão escada abaixo de como atrasos eram desnecessários.
Apesar de ser tão fã da história do Link ao ponto de colocar meu segundo nome de “Zelda” e me fazer passar vergonha sempre que precisava o falar inteiro, eu o amava.
Apesar de passar uma imagem rebelde, com direito a piercings e tatuagens e todos os estereótipos possíveis, meu amor pelas pessoas que me colocaram no mundo era maior que meu amor por, sei lá, comida.
Então, quando terminei de tomar o café e desci as escadas, roubando uma torrada que Lizzy (a senhora que me conhecia desde que eu era um feto) havia feito e dando um beijo propositalmente babado no rosto dos meus pais – me fazendo receber um tapa na nuca vindo de Janet, também conhecida como minha mãe – corri para a garagem e pulei no carro,
O sol típico da Califórnia não condizia com o mau-humor que estava sendo acumulado dentro de mim à medida que eu me aproximava da Empire High School, ou, como os alunos chamavam, Castigo Nosso de Cada Dia.
Molly, como a boa pessoa que era, estava parada em frente ao prédio, fazendo uma bola de chiclete e a estourando assim que repousou os grandes olhos castanhos em mim.
— A Miss Simpatia acabou de entrar com o Norman – suspirou, puxando uma mexa de cabelo e a enrolando nos dedos. – Eles são nojentos juntos.
— Até que formam um casal bonitinho – respondi. – Seria até fofo se ele estivesse lá pra tentar fazer ciúmes.
— Bata na sua cara antes que eu bata, Diem – revirou os olhos. – De jeito algum eles são bonitinhos. Ela é toda leiga e ele com aquela marra de rockstar. É muito casal fanfic.
— Molly, você lê fanfics. E chora quando elas ficam muito emocionais, e ainda me liga dizendo o quão bonitinho é.
— É bonitinho quando o seu OTP está envolvido, na vida real só falta ter um letreiro anunciando que vai dar merda – espalmou a palma da mão testa como se o letreiro imaginário estivesse ali.
— Na lógica das fanfics, pessoas como ele e eu estamos destinados a um futuro com dois filhos com características misturadas e um cachorro preguiçoso me fazendo cair de cara no chão no epílogo.
Molly ponderou por alguns segundos antes de estourar outra bola de chiclete.
— Vai que ele não é o seu soulmate, vai que ele é só um ser humano destinado a vagar no mundo atrasando a vida amorosa das pessoas. Você merece muito mais que o Norman, estava óbvio que ele não era pra você.
— Então porque, em nome de todos os seres cósmicos, está agindo como se a versão americana e menos bonita do Alex Turner tivesse quebrado meu coração?!
— Porque eu não gosto dele, e eu vim para esse planeta no intuito de irritar as pessoas que me irritam – resmungou, enquanto íamos para a sala. – É nojento o fato dele saber que muito provavelmente está iludindo a garota e não dar a mínima e é pior ainda saber que ela provavelmente sabe disso e não sai correndo.
— Molly, você fez o mesmo discurso comigo e eu fiquei com ele por achar que talvez desse certo, então cala a boca por dois minutos e para de duvidar da capacidade cerebral da April.
— A diferença básica, Diem, é que o Norman é completamente “apaixonado” com duas aspas enormes – desenhou com as mãos. – Por você. Ele não ia querer você chorando, mesmo ele já tendo feito merda. Além do mais, ao que tudo indica, April é libriana. E ele é sargitariano. Sabe merda que isso vai dar?
— Não.
— Eu ainda me pergunto o porquê minha melhor amiga ser aquariana.
— E eu ainda me pergunto a razão de você ainda tentar me fazer entender o zodíaco, Molly.
***
Os primeiros horários passaram de forma terrivelmente lenta e quando o intervalo finalmente chegou, por muito pouco não fiz uma oração agradecendo às forças superiores.
Quando percebi que Norman saiu da sala me lançando um sorriso, catalogado e classificado como o-sorriso-que-entrega-que-você-vai-querer-pular-no-meu-pescoço, e foi quase saltitante com o Panaca 1 e Panaca 2 (também conhecidos como Craig e Donovan, os seres humanos que seguiam Wilson mais que a sua própria sombra) na direção da sala onde April estava saindo, decidi que nem sob tortura iria aturar outro almoço com os dois.
Molly que me perdoasse, mas ficar recebendo olhares curiosos de todos ao redor da cantina toda vez que a interação do “Casal Fanfic” era extremamente romântica era demais para a minha paciência.
Caminhei até a fila para pegar o “almoço” – que no meu caso consistia em sanduíche natural e refrigerante por ter aversão à comida da cantina – e apontei para a saída quando Molly me encarou, sentada entre duas garotas com cabelos descoloridos, de frente para a Miss Simpatia.
A ruiva apenas acenou positivamente com a cabeça, e apesar de ter feito uma cara que tentava deixar claro que eu queria companhia, só agradeci pelo fato de Molly não ter me perguntado nada ou ter atraído a atenção do indivíduo que era meu namorado.
Ele ainda estava ali, com o braço ao redor dos ombros de April, brincando com uma mexa em tom de caramelo (ou como Wollowitz chamava, tom de diarreia) que ficava meio solta no final da trança que ela repetia desde o começo das aulas.
Eu sabia que de um jeito ou de outro minha falta seria sentida ou pelas pessoas da minha mesa, ou pelas pessoas que postavam coisas sobre a vida alheia em uma conta no Instagram.
Era uma coisa meio Gossip Girl que me rendeu três aparições no último mês, me fazendo sumir de toda e qualquer rede social. As que eu mantive por obrigação foram o Snap, porque no meio da noite de insônia meu passatempo preferido era ficar trocando fotos ridículas com Molly ou ficar vendo a vida das Kardashian pela tela do celular e aquela praga ridícula do Whatsapp que me fazia ver as fotos ridículas de “Bom Dia!” que mandavam no ridículo grupo da família.
Essa decisão acabou gerando outra postagem no @GIA_EMPIRE (Grupo de Informações Anônimas) dizendo que “@DiemZAusten_ se sentia extremamente ofendida pela exposição nas redes sociais e havia sumido após o término do namoro” que me rendeu uma resposta rude (mais precisamente um “enfiem uma tora de madeira no meio da bunda de vocês e me deixem em paz, porra”) e mais comentários enquanto eu passava pelo corredor.
Essa escola, querendo ou não, era um ninho enorme de cobras, onde, querendo ou não, você tinha que se agarrar a um título imposto pela sua hierarquia no que eu chamava de A Pirâmide da Fama Inversa, porque convenhamos, os que estavam no topo por terem incontáveis tatuagens e conseguirem beber cerveja de cabeça para baixo por um funil seriam os primeiros a ter uma oferta de emprego recusada porque o patrão iria olhar torto para a pele colorida.
Em paralelo, as pessoas que tanto zoávamos seriam os primeiros a passar na faculdade.
Aquele era mais um fator pelo qual o “namoro” do Norman gerava tanto assunto. Ele sabia como causar, com todo o esplendor da palavra.
Foi mais ou menos entre essa linha de raciocínio que eu ouvi meu nome ser chamado.
Eu provavelmente dei um olhar digno de Scott Summers porque o garoto parou, claramente nervoso.
Ele poderia ser uma personificação de James Potter, de acordo com algumas fanarts.
Tinha uns bons dez centímetros a mais que eu, os cabelos em tons escuros e olhos esverdeados que ficavam grandes pelos óculos de armação quadrada. E ele era magro. Não o magro atlético ou o famoso pouco definido, o magro normal de quem vai à academia uma vez a cada duas semanas porque os pais obrigam.
Ele tinha a mesma mania que eu de amarrar os cadarços do tênis ao redor do tornozelo e, ironicamente, estava usando um moletom do The Legendo of Zelda.
Eu provavelmente abri um sorriso sádico.
— Pois não? – chiei, lançando um olhar que tentava deixar ao máximo claro que eu não queria conversa.
— Acho que ainda não fomos apresentados – ele tinha um sotaque meio esquisito e a voz não parecia ser a de um adolescente na puberdade por ser rouca demais. – Eu, hm, sou o seu novo professor de matemática.
— E eu sou uma Kardashian perdida – apertei os dedos contra a garrafa de refrigerante. – Seja específico.
— Sou um dos alunos que a professora de Álgebra pediu para dar aulas, e na verdade, o único que aceitou – o pomo de Adão desceu enquanto ele engolia em seco. – Sou Adam.
O ex da atual do meu ex. Consufo.
— Adam Hyde – pronunciei, e eu provavelmente estava com um olhar muito raivoso porque o garoto pareceu arrepiar. Modéstia a parte, ter os olhos cinzentos de Robert deixavam o efeito de ser “fria” ainda mais evidente. – Molly comentou. E então?
Levantei o lanche como se dissesse “eu estava indo comer, se não percebeu”.
— Eu não quero atrapalhar, só queria poder marcar onde as aulas seriam. O programa meio que funciona com aulas fora de casa – coçou a nuca, parecendo desconfortável. – Queria saber se podia ser na sua, na minha, ou em algum outro lugar.
— Quando começam?
— Assim que você quiser? – a afirmação parecia mais uma pergunta. – Mas seria bom começar desde já...
— As provas acabaram faz uns três dias, preciso relaxar o cérebro – respondi, revirando os olhos. – Olha, eu sei que você deve estar pensando que eu não estudei nada, mas sim, eu dei uma olhada ou duas no livro, sim, eu tentei estudar mas não deu certo. Não estou em condições mentais pra começar a estudar tão cedo.
Ele engoliu em seco outra vez, olhando para o chão enquanto começávamos a andar, porque a última coisa que eu precisava era de gente comentando que eu estava parada no corredor dialogando com o garoto que namorou April, que diziam os boatos ser a minha nova inimiga.
A última coisa que eu precisava era de contato com qualquer coisa que fosse gerar mais sussurros e fofocas e uma postagem digna de estar em uma manchete sensacionalista do TMZ.
— Semana que vem, então?
— Pode ser...
Eu provavelmente devo ter parado de forma muito abrupta, porque até os braços Hyde levantou achando que eu ia cair, quando vi as sobrancelhas de Norman prestes a alcançar a franja de tão levantadas que estavam.
Estávamos distantes, mas eu havia praticado o bastante pra saber reconhecer a blusa do Pink Floyd a metros de distância.
O bastardo provavelmente estava achando que eu estava querendo fazer ciúmes, porque beijou a Miss Simpatia no meio do corredor todo.
Provavelmente abri outro sorriso sádico.
— Pensando bem, pode começar amanhã ou depois, ainda nessa semana – pisquei lentamente. – Se a próxima aula que tivermos coincidir, lembra de pegar meu número.
Foi mais ou menos assim que eu comi o sanduíche enquanto narrava os acontecimentos para Molly via mensagem.
E foi mais ou menos assim também que Norman me lançava olhares frustrados durante a saída, enquanto eu só dava gargalhadas maléficas no meu subconsciente.
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