Tempo de espera

1 Capítulo único


Depois que Tamayo encontrou o antídoto para transformar onis em humanos, Yushiro mantinha a receita em um cofre bem guardado em sua casa e às vezes o encarava, se perguntando se tinha feito a decisão correta ao não o tomar.

Em parte, era porque ele tinha uma teoria de que, ao retornar a ser humano, as condições do corpo no período antes de se tornar um ôni voltariam. A única evidência que ele possuía era de Tanjiro, que perdeu o braço antes de se tornar um oni e ao voltar não teve de volta o funcionamento do mesmo, se tornando apenas um pedaço inútil de carne. Então se ele tomasse o antídoto, havia a possibilidade de retornar a ter um corpo fraco e doente e morrer não muito após. Ou ao menos foi o que ele planejou dizer a aqueles que o perguntassem. Embora nos dias de hoje, com a medicina avançada, mesmo que ele retornasse a ter um corpo fraco, provavelmente não seria um problema.

E em parte era porque ele ainda tinha esperança. Esperança de reencontrar Tamayo. Embora ele não tivesse provas ou fundamentos para tal, mas não era como se a fé necessitasse de lógica.

Mas depois de aproximadamente 100 anos, ele tinha que admitir que estava se sentindo cansado.

Ele tinha uma vida considerada boa. Uma casa grande, aconchegante e bonita, uma boa fonte de renda que o permitia trabalhar apenas a noite e não sair ao dia sem ser julgado. Só que ele não tinha amigos. Ele viu todos morrerem dezenas de anos atrás e não realmente sentiu vontade de fazer novos.

Tudo o que ele tinha era seus quadros. A memória da Tamayo ainda estava viva em sua mente e quando saia a noite ou assistia televisão não podia se impedir de imaginá-la nesses cenários, nessa época atual. Então ele se entristecia ao lembrar que ela nunca experimentaria nada disso.

Ele tinha sorte de seus quadros serem famosos o suficiente para serem sua fonte de renda. Ele sempre olhava as revistas de arte para ver as tendências e o que estava famoso atualmente.

Decidindo ir olhar as revistas, ele se levantou do seu assento no atelier dele e foi para sala de estar da sua casa olhar as entregas feitas no dia. Notando que algumas das revistas estavam faltando, pegou e telefone e ligou para o SAC da editora para reclamar.

— Obrigada por ligar para o SAC da editora yaiba. Se quiser fazer um cadastro para usufruir de algum recurso da empresa, aperte 1. Se quiser fazer uma reclamação, aperte 2. Se deseja falar com um de nossos atendentes, aperte 0.

Sem saco para burocracia, apertou o 0, pois nada melhor do que explicar diretamente para uma pessoa o seu problema para ele rapidamente ser resolvido.

— Boa noite. Você ligou para o SAC da Yaiba, quem fala é a Hana. Em que posso ajudá-lo?

— Boa noite, Hana. Fui verificar minha correspondência hoje, percebi que sua revista de arte não veio nela e gostaria de saber o porquê.

— Claro, senhor. Poderia me dizer seu nome e seu CPF, por favor?

— Yushiro. O CPF é 321.404.978-05.

— Certo. Senhor Yushiro, aqui diz que você fez um contrato de um ano com a nossa revista e que o contrato já acabou. Gostaria de renovar o contrato agora?

— Eu vou receber a revista desse mês?

— Infelizmente não. O senhor terá que comprar a edição deste mês em uma banca de revista ou uma loja de conveniência. Mas a do próximo mês será entregue na sua residência sem falta. Devo renovar o contrato?

Yushiro teve que respirar fundo ao receber a informação de que teria que sair para comprar a revista, mas era culpa dele por não lembrar de renovar o contrato.

— Sim. Por favor.

— Os dados de localização e conta continuam os mesmos?

— Sim.

— Por quanto tempo quer o contrato dure?

— O mesmo período de tempo.

— Obrigada por fazer negócios com a Yaiba. Tenha uma boa noite.

Desligando o telefone e colocando-o na mesa, se levantou e se esticou. Ele nunca foi muito fã de sair de casa, mas ficar eternamente recluso tampouco era saudável. Pegando as chaves, deu uma olhada rápida na frente do espelho para ver se as roupas estavam apresentáveis, colocou os sapatos e saiu.

A conveniência não ficava muito longe de sua casa. Mas era o suficiente para esticar as pernas e respirar um pouco de ar fresco.

Parte do caminho passava por um lago com uma grande área verde e no momento estava ocorrendo um pequeno festival local. Yushiro nunca não saia o suficiente de casa para saber quando os festivais ocorrem, mas era bom saber quando para não se assustar com os fogos de artifício. Decidindo tirar umas fotos com o celular na volta como uma possível referência futura para seus quadros, ele continuou seu caminho.

A lojinha era de um tamanho médio e não tinha sido difícil achar a sessão de revista e pegar a que ele queria. O que ele não contava era que um garoto adolescente estivesse segurando a última edição da revista em suas mãos.

— Com licença, garoto. Você vai comprar a revista? — Perguntou, se aproximando.

— Calma, tio. Eu não cheguei nem a abrir a re- — Começou a dizer, mas parou ao olhar para Yushiro. — Opa. Desculpa. Pensei que era o dono da loja.

Yushiro demorou uns segundos para responder, surpreso com a semelhança do menino com Zenitsu. Com certeza o DNA dos agatsuma era forte.

— Se você não for comprar a revista, eu gostaria dela. — Estendeu a mão, esperando que o menino colocasse a revista nela.

— Yoshiteru, eu já comprei minha presilha. Se você for comprar alguma coisa, ande logo, Kanata e Sumihiko estão só esperando a gente para ir ao festival. — Disse uma menina se aproximando dos dois.

— Nezuko… — Yushiro não conseguiu se impedir de dizer em voz alta o nome da menina de tão surpreso que ficou com a semelhança.

— Quem? — Disse a menina, parecendo confusa. Entretanto, de relance, ele viu o menino, Yoshiteru, aparentemente, arregalar os olhos.

— Não, me desculpe. Você apenas me lembrou uma antiga conhecida minha… Você é da família dos Kamado?

— Não, dos Agatsuma. Mas os Kamado são conhecidos nossos. Você os conhece?

— Eu cheguei a conhecer uns Kamado há alguns anos.

— Não deve ser há tantos anos, você parece mais jovem do que eu.

— Eu posso parecer jovem, garota, mas sou muito mais velho do que você pensa.

— Prazer, meu nome é Agatsuma Yoshiteru. Me desculpe pela minha irmã, ela nasceu com uma personalidade bruta, diferente do resto da família. — Disse Yoshiteru, postando-se em frente a irmã e se inclinando levemente em cumprimento.

— O que? — Se perdeu um pouco Yushiro com a súbita interrupção. Estreitou os olhos brevemente se perguntando se devia retornar o cumprimento e se deveria dizer-lhes o nome real, mas devido ao fato de já fazer pouco mais de 100 anos, não viu problema em responder honestamente. — Eu sou Yushiro. Não precisa se preocupar com a sua irmã, em momento nenhum cheguei a ficar ofendido. — Deu de ombros, sem se preocupar em retornar a reverência.

A menina pareceu brevemente ofendida pela falta de modos, mas não teve tempo de replicar, pois o irmão logo se virou com um brilho nos olhos e a sacudiu em aparente felicidade.

— Nee-chan, Nee-chan. Eu acho que ele é o Yushiro das histórias do vovô e ele te chamou de nezuko, o que só confirma minha teoria de que somos uma reencarnação.

— Yoshiteru, pela milionésima vez, as histórias do vovô são ficção científica, nada é real.

— São reais sim. E ele é a prova, um oni em carne e osso. — Disse apontando para yushiro.

Mas Yushiro nesse momento estava chocado. Nunca pensou que uma pessoa dessa década pudesse saber quem ele era. Demorou alguns segundos para ir de olhos arregalados para uma cara de poker e as crianças com toda certeza perceberam o dilema interno dele.

— Eu não tenho ideia do que vocês estão falando, mas a sua irmã provavelmente está certa. — Dizendo isso ele arrancou a revista da mão de Yoshiteru e se dirigiu ao caixa para pagar.

Yushiro não ficou muito tempo para ver a reação dos dois, jogando o dinheiro da revista no caixa e saindo rapidamente, mas não tão rapidamente para deixar de notar dois meninos parados do lado de fora da conveniência que eram extremamente parecidos com o Tanjiro e com a Kanao.

Ele não conseguia parar de pensar se era realmente possível haver reencarnação. Mas era melhor não ter muita esperança, a maior probabilidade era que a genética dos Agatsuma e dos Kamado era realmente forte e produziu bisnetos realmente parecidos com os bisavós.

Voltando para casa ele parou no festival para tirar rapidamente as fotos, mas quanto mais tempo ele ficava lá, mais ele achava pessoas parecidas com aqueles que morreram há 100 anos. Entre elas estavam Giyu Tomioka, Shinobu Kocho e Kyojuro Rengoku. Mas diferente dos Kamado, esses três não deixaram descendentes, não tinha como pessoas tão parecidas com eles estarem vivas atualmente. Não as três de uma vez.

Voltando para casa, enquanto estava deitado na cama, ele decidiu começar a ir em busca de possíveis reencarnações dos outros hashiras. Mas era um traço de esperança. Se reencarnação realmente existia, ele tinha esperança. Pois mesmo que a Tamayo não tivesse tido permissão para voltar agora, pois ela tinha, de fato, feito coisas ruins no passado, ele tinha certeza que um dia ela ia reencarnar. E quando acontecesse, ele tinha certeza de que seus destinos iriam de alguma forma entrelaçar. Mas só por precaução ele ia começar a procurar.

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