Tempo de Morrer
1 Capítulo 1
- Agora você está voltando para a idade das pedras, Brian? – Lucas estava ironizando Brian, que estava segurando uma carta. – Você viu essa, Jéssica?
- É que eu entrei num site que faz concursos de enigmas. Quando eu recebi essa carta, achei que ela fosse de lá, mas ela é muito esquisita...
Aquela conversa se perdia em meio a tantas outras na sala de aula. Antes que Brian pudesse terminar de explicar aquela carta que segurava nas mãos, Jéssica a toma e começa a lê-la em uma voz alta o suficiente para que Lucas também ouvisse:
Eu, Victor Laoviah, tomando a morte como testemunha, declaro a distribuição de meus espólios antes de meu retorno:
Minha morada será entregue à dúvida, por todos os seus serviços. Assim, quando forem me procurar, acreditarão que resido na mente das pessoas.
Entrego os conhecimentos ao engano, por sua atuação infalível. Quando acreditarem ter conhecimento de tudo, descobrirão que nada sabem.
E entregarei ao impuros o medo, meu companheiro inseparável, para que nunca mais sintam o doce toque da paz.
A carta era escrita em papel nobre, ligeiramente envelhecido, mas isso não conteve o olhar de completa estranheza na face de Jéssica, que diz já sem a mesma empolgação com que iniciara a leitura
- Que coisa sem sentido! Tem algum velho maluco atrás de você, Brian...
- Maluco nada, isso faz parte do jogo, um enigma, não percebeu? Hoje eu vou procurar essa cassa pra ver se consigo desvendar tudo o mais rápido possível.
- Cara, isso é perda de tempo... – Ironizou Lucas
- Ah, pode tirar sarro se quiser, mas quando eu ganhar o carro do prêmio quero ver quem vai pedir carona pra mim...
Lucas tentou disfarçar, mas não botou fé nas esperanças do amigo, mas evitou continuar com a brincadeira. Talvez houvesse algum crédito naquilo tudo, talvez fosse divertido. Jéssica não levava muitas coisas a sério. Quase nada, para falar a verdade. O intervalo acabou quando o próximo professor entrou na sala, e três sentaram-se novamente em seus lugares.
Brian estava com a carta nas mãos mais uma vez depois de Jéssica jogá-la na sua mesa; ele a achava um pouco irresponsável, mas mesmo assim a considerava uma grande amiga, mas sabia que dessa vez não teria seu apoio. Olha para Lucas, que apenas acena afirmativamente, afinal, é pra isso que servem os amigos.
Iriam atrás da casa depois da aula.
***
- A casa nem existe! – disse Lucas inconformado – O número da casa é 387, mas a rua vai até o número 215...
- Não me diga que você realmente pensou que isto tenha sido sério... Só pelo nome já dava par notar! Quem hoje em dia se chama “Victor Leviatã”?
- Victor Laoviah – corrigiu Brian – Deve fazer parte do enigma.
- Agora que vocês tocaram no assunto, esse nome me parece familiar... – Lucas franzia as sobrancelhas tentando se lembrar de algo. – Acho que ele faz parte de alguma história. Quem quer que tenha escrito aquela carta, acho que não inventou o nome.
- Que história?
- Não lembro direito, Jéssica. Eu devo ter ouvido falar desse nome, não sei se foi num livro ou revista.
- Interessante. Agora eu fiquei curiosa. Será que fala alguma coisa dele na net?
- Eu não tenho dúvidas – disse Brian – Eu vou agora mesmo à biblioteca para pesquisar em um computador.
Todos se dirigiram a biblioteca, a próxima aula parecia não ter a menor relevância agora, pois de repente pareceu que pesquisar sobre o tal “Victor” se tornara mais importante do que qualquer aula. Na verdade, praticamente qualquer coisa servia de pretexto para se esquecer as aulas.
***
Tempos depois, na biblioteca, eles resolveram pesquisar sobre o nome do remetente em locais diversos, para facilitar a busca. Mas isso não lhes trouxe maior conforto. Cada um obteve um livro diferente em que o nome “Victor Laoviah” ocorria.
- Esse cara devia ser famoso. – disse Lucas. – Vários livros o têm como personagem, mas os livros foram escritos todos em épocas diferentes. O que eu li quando criança foi escrito, penso, no século dezenove, mas você – disse olhando para Brian – achou uns que foram escritos no século dezesseis e o a Jéssica achou um que deve ser uma novela de cavalaria!
- Com certeza alguém deve ter criado esse personagem a muito tempo e os demais apenas estavam sem criatividade. – disse Jéssica.
- É bem provável – Lucas ri com o comentário.
- Eu creio que não...
Os três se assustaram com uma observação repentina vinda da garota de cabelos negros que estava sentada ao lado deles na longa mesa de estudos.
- Joyce! Nem tinha notado você aí. – Brian foi o primeiro a dizer alguma coisa. – você já ouviu falar desse tal de Victor?
-Eu já li alguns livros em que ele aparece. São sempre livros de terror. Mas existem livros históricos que citam, pelo menos brevemente, esse cara. Eu acho que ele deve ter existido de verdade.
- E o que isso tem de tão surpreendente?
- Ele sempre “some” no final, ninguém sabe o que acontece com ele, entendem? Certas vezes parece que morre, mas não se fala o que realmente acontece com ele. É como se ele nunca morresse, indo de uma história para outra. Pela sua lenda alguns dizem ser um vampiro, mas ele não demonstra ter as características de um. Outros dizem que ele é imortal devido a alguma magia negra medonha que pratica, o que o tornaria um feiticeiro ou algo assim. Mas o fato de que ele nunca ter sua aparência exata mencionada revela que esta talvez mude periodicamente, o que o tornaria um “ladrão de peles”, alguém que é imortal por assumir o corpo de mortais um depois do outro. Algumas lendas são mais céticas e dizem que Victor é apenas um título, que vai passando de uma pessoa para a outra, embora essa hipótese esteja muito longe de explicar o mito, pois tem várias contradições. Talvez o que dê mais brilho a lenda de Victor Laoviah seja justamente a dúvida sobre si mesmo que ele gera. Legal, não é? – Joyce percebe pelo silêncio que era a única a apreciar este tipo de curiosidade. – Mas de qualquer forma, por que o interesse repentino por ele?
Brian começa logo a explicar sobre sua idéia de entrar naquele jogo de charadas, sobre ter recebido aquela carta, de ir verificar um endereço que não existia.
- Legal! – Joyce parecia estar empolgada com toda aquela história – Uma carta de Victor Laoviah. Pelo jeito esse enigma deve ser dos bons. Parece até uma história de terror... Posso ver a carta?
Brian lhe entrega a carta, que ela pega avidamente, mas ao terminar de lê-la não se mostra muito empolgada. Diz apenas que a carta, na melhor das hipóteses, era confusa.
- Mas pensem bem que idéia interessante: Um enigma que se baseia no remetente e não na carta em si. Pode ser isso ou coisa do tipo. – Brian ainda tinha esperanças.
- Cada coisa que você descobre – Lucas achava que aquela história toda era uma perda de tempo, mas a possibilidade de um prêmio impedia que ele abandonasse seu amigo tão facilmente.
- De qualquer forma, eu acho que vou procurar algum livro desse cara para ver se encontro alguma coisa que faça sentido nisso tudo. — Brian não parecia estar brincando.
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