Tempo da Lua

1 Cisterna


O balde bate na água no fundo do poço, e o som ecoa por toda a estrutura maciça feita por pedras grandes de formatos irregulares, unidas por barro. A roda da manivela está enferrujada e range alto conforme é girada com muito esforço. A corda tensionada sempre atraí a curiosidade dele. O rapaz se inclina sob o peitoral de pedras na tentativa de visualizar o balde ou até mesmo a água. A ausência de luz permite apenas a suposição. Diferentes pessoas tentaram explicar o funcionamento do poço. Tecnicamente ele é capaz de compreender a engenharia. Porém, a falta de imaginação, ou talvez a mera ausência de experiência anterior, o impedem de vislumbrar o processo de cavar até encontrar água potável.

As mãos estão doloridas quando o balde retorna à superfície. A haste de madeira longa têm cordas amarradas nas extremidades e é muito utilizada no transporte manual de cargas, permitindo que as mãos permaneçam livres já que a haste é equilibrada nos ombros. Dante acopla os dois baldes d’água cheios com nós bem-feitos porque não pretende derramar toda a água novamente e pondera por bastante tempo.

Antes de viverem na comunidade, Dante não imaginava quanto trabalho era necessário para manter uma pequena casa funcionando. O garoto sabia, por exemplo, que o fogo não permanecia aceso sozinho; era necessário alimentá-lo com a lenha adequada. Também entendia que antes da madeira ser lenha, era uma árvore inteira que foi derrubada e cortada. Os detalhes referente ao indescritível esforço para transformar os troncos em lenhas era desconhecido, assim como o transporte custoso da lenha até às lareiras. Dante sabia que o leite posto à mesa todas as manhãs era ordenhado. E não tinha ideia que era necessário amarrar as patas traseiras do animal para evitar coices que são extremamente dolorosos. E toda a variedade de pão era feita com muita antecedência porque a massa deve descansar após ser sovada por horas. Pensar na diversidade de proteína animal que tinha acesso quando morava em Florença é esforço desnecessário; além de ter a própria criação, eles podiam encomendar qualquer corte que desejassem, e os servos serviriam antes do anoitecer.

Entre todos os processos internos, o caminho da água foi o que mais o chocou. O penico do quarto estava sempre livre de odores e objetos desagradáveis. A banheira estava cheia de água quente ao anoitecer, e Dante do banho com diferentes ervas para perfumar a pele. As roupas coloridas estavam sempre cheirosas, e as roupas brancas sempre brilhantes. Dante poderia lavar-se quantas vezes julgasse necessário sem se preocupar com quantas voltas na manivela seriam necessárias para trazer a água à superfície.

Ele afasta os devaneios. A rotina no interior da Península Balcânica devia ter se tornado mais fácil conforme as semanas se transformaram em meses. Dante não sabe se a mudança repentina dificultou a absorção dos costumes; não sabe se a culpa da morte de Selena é barulhenta demais; ou se simplesmente as nuances da cultura local são muito complexas. Tudo o acerta como uma pedra caindo do céu. Para aliviar a consciência, Dante gosta de analisar como a cultura licana pouquíssimo se relaciona à cultura otomana que fervilha aos arredores da comunidade.

Sobre a cultura otomana, Dante aprecia as raras idas aos centros comerciais, gravando na mente todos os detalhes da arquitetura das casas e principalmente dos templos religiosos. Espera em breve encontrar com a mãe e narrar cada detalhe, principalmente as cores fortes que permeiam a região e a variedade de tecidos que os turcos trazem do outro lado do mar. Os idiomas usados nas cidades grandes são variados. A comunidade licana, por sua vez, detém um idioma próprio que está em decadência nos últimos vinte anos. Atualmente, apenas os religiosos e os indivíduos que ocupam a mais alta posição falam e escrevem fluentemente. Dante esforça-se para aprender. Ou porque talvez sinta necessidade de provar-se diante dos iguais (eles são realmente iguais?) ou porque precisa se distrair dos pensamentos que o perturbam todos os dias ao anoitecer.

Selena é a principal fonte de tormento. Primeiro porque a irmã está definitivamente morta. E Dante é o maior responsável pela tragédia. Ao desafiar repetidamente o pai, convencendo Selena a praticar magias e encantamentos que eram incapazes de sequer pronunciar. Depois perturba-se porque teceu um pacto com Tahmon na tentativa desesperada de rever a mãe e definitivamente não pagou o preço. A mãe insiste que não deve se preocupar; que existe a forte possibilidade de Selena retornar, e Tahmon é um assunto muito bem resolvido. Porém, sempre que se deita e fecha os olhos, Dante lembra-se da conversa dura e difícil que teve com a mãe antes que toda a verdade viesse à tona: alguns erros são impossíveis de serem consertados. E tudo o que deve fazer é continuar vivendo dia após dia.

Por isso, Dante não reclama quando recebe as tarefas menos quistas. Ainda assim, levantar a haste do chão e posicioná-la nos ombros exige mais força do que tem. As pernas e os braços tremem. Quando a haste é corretamente posicionada, Dante cambaleia e quase vai ao chão duas ou três vezes antes de alcançar o marco de cinco passos. Lembra-se brevemente dos conselhos, que eram mais advertências, sobre não exceder os limites. O céu, todavia, perde o azul claro e ganha tons rosas e roxos que também emitem um recado.

Está atrasado.

Sempre atrasado.

O peso nos ombros o impede de andar rápido. Dante aproveita para distrair-se com os detalhes que encontra no percurso. A forma como o vento da primavera toca as folhas novas das árvores; a melodia confusa que os pássaros locais emitem; as pedras posicionadas para guiar o caminho até o santuário que são uma mistura de seixos do rio, ardósia e uma variedade de pedras e cristais coloridos que ele não conhece profundamente, mas o lembram da mãe.

A mãe com facilidade nomearia todas as pedras que compõem o percurso, citando os locais mais prováveis de encontrá-las. Também elencaria as possibilidades de uso, tanto estético quanto mágico. E Dante, no final da noite, lutando contra o sono, desenharia as pedras favoritas.

Dante afasta o pensamento conforme se aproxima do santuário. O sol está fora do céu, e a escuridão cresce aos poucos. Naquela região algumas constelações são velhas conhecidas, que poderiam guiá-lo para casa, enquanto outras estão em ângulo diferente ou são simplesmente novas. Ele sabe que isso acontece porque a terra não é plana. Os filósofos provaram o fato há tantos séculos que é besteira discutir.

Todas as portas e janelas do santuário estão fechadas. Dante resmunga palavras na língua materna, bufa e considera chorar, se pudesse resolver algo. Enquanto equilibra a haste nos ombros, tenta bater às portas por tempo suficiente para comover. E é óbvio que não funciona. Dez minutos depois, ele larga a haste de madeira, na qual os baldes estão atrelados, sem delicadeza no chão. A terra ao redor agradece ao ganhar um refresco no final da tarde, e Dante sente os olhos arderem quando o longo e dificultoso trabalho é perdido. As mãos fechadas em punhos espancam a porta até que seja impossível ignorá-lo.

— Me deixe entrar! — Dante grita na língua comum.

A porta range ao abrir. Dante recua meio passo quando desvenda a expressão enrugada da mulher.

— Você conhece as regras. — A pronúncia da língua comum dela é carregada de sotaque regional. — O sol se pôs.

Dante olha para o horizonte como se precisasse confirmar.

— Sinto muito. Demorou mais do que eu pretendia.

— A sua lentidão é um problema. — Dante recua. — Demorou quase todo o dia para buscar a água. — A mulher olha por cima do garoto. — E vejo que não trouxe.

— Eu trouxe, sim. As portas estavam fechadas. Precisei colocar no chão.

— Você sabe porque as portas estão fechadas.

Dante coça o braço, desvia o olho e implora:

— Posso entrar?

O meio sorriso estampa a feição irritada. A mulher estufa o peito e prepara-se para um novo discurso.

— Você deveria saber que…

— Yanca! — A repressão ecoa pelo corredor. Yanca olha para trás, tentando confirmar quem se aproxima. Dante se estica para verificar Hannah. — Não seja maldosa! Deixe o garoto entrar.

Yanca revira os olhos e fecha metade da porta.

— Sabe porque não posso!

— Maldição, Yanca! Deixe o garoto entrar agora!

Hannah aproxima-se e abre a porta novamente. Dante suspira ao vê-la. A discussão delas prossegue no idioma local. Ele aproveita-se para esgueirar-se para dentro do santuário, que nada mais é do que uma casa de arquitetura típica da região com grandes proporções dedicada aos deuses.

— Você não respeita mais a casa da Mãe. — Yanca resmunga. — Não respeita os ensinamentos que você mesma trouxe a todos nós!

Hannah se afasta, arrastando a perna deformada. A confissão da dor surge por gemidos baixos. Dante é rápido para oferecer suporte a Hannah. A mulher de pequena estatura apoia-se no ombro dele enquanto gira a metade boa do corpo para Yanca.

— Ensinamentos… — A voz áspera é crítica. — Quanta perda de tempo! Todos esses ensinamentos!

Yanca estreita os olhos.

— Não blasfeme aqui!

A risada de Hannah é interrompida pela tosse insistente. Dante quase pede para que Hannah ignore Yanca como de costume.

— Ou o quê? — Hannah rebate. Yanca resmunga. — Fale mais alto! Não escuto os seus gemidos.

— Você está completamente perdida! Como é capaz de desprezar o que levou toda a vida para construir? A Mãe pessoalmente te abençoou. E hoje você se sente muito confortável para desprezá-la como uma tola incrédula! Dentro da casa da Mãe! — Dante abaixa os olhos. — Me envergonho em pensar que um dia foi você a falar com a Mãe por todos nós!

— Eu também me envergonho. — Hannah encara Dante. — Vamos. Não fique aí parado. Ouvir essa mulher me mata lentamente.

Dante segura a risada e apoia Hannah durante todo o percurso até chegarem ao dormitório da antiga sacerdotisa. Não é a primeira vez que ele adentra o cômodo, mas a decoração demanda muitas visitas para ser compreendida por completo.

O templo foi levantado com pedras nobres de diferentes tamanhos, unidas por uma mistura típica de barro, areia e água que torna-se extremamente forte depois de secar. Dante gastou o pouco papel que tinha para anotar todos os detalhes impressionantes. O método de construção é comum na comunidade, e a maioria das casas segue o padrão.

O templo, por sua vez, tem o exterior mais trabalhado com arabescos geométricos e florais feitos de argila. O pé-direito é muito alto em comparação às construções ao redor. O teto é abobadado como as mesquitas mais famosas. Todo o exterior é marrom como a areia do deserto.

As paredes e o teto dos principais cômodos no interior são decorados com mucarnas. Conforme as anotações de Dante, mucarna é a técnica tridimensional árabe em construir ornamentos que lembram favos-de-mel e podem ser utilizados em diferentes locais, como no teto, nos arcos das portas e abóbadas. Algumas mucarnas são construídas para criar a impressão que estão escorrendo do teto e têm um nome específico que Dante não se recorda mais. Vermelho é a cor mais comum nas tapeçarias e paredes. Dourado, por sua vez, aparece majoritariamente em objetos de ouro. Estes são muitos e tão sagrados que Dante às vezes é repreendido por olhar muito.

Dante ouviu dizer que o santuário mais interno, no qual as ofertas são feitas diretamente à Mãe, têm paredes decoradas com as feições dEla. Contudo, apenas a sacerdotisa indicada pela Mãe tem direito de adentrar o santuário. Todas as outras pessoas envolvidas nas atividades do templo cuidam dos deuses menores.

Hannah foi a última sacerdotisa indicada pela mãe. Dante também ouviu dizer que Hannah, por grande devoção, esculpiu a feição sagrada da Mãe nas paredes do quarto. Por isso, ele procura com tanta atenção e curiosidade. As paredes do quarto dela, todavia, estão completamente cobertas. As tapeçarias típicas são o principal adorno. Desenhos, quadros e até mesmo plantas escondem a sacralidade da Mãe. As janelas do cômodo — em forma de arco, tendo painéis de treliça de cedro extremamente trabalhados — estão entreabertas. Dante molha os lábios antes de falar:

— Quer que eu feche?

Hannah procura a posição menos desconfortável e acompanha o olhar dele.

— E eu tenho cara de estúpida, garoto? — Dante estreita os olhos. — Não tenho medo da escuridão.

— A escuridão… — Ele repete. — Esse é o problema? Yanca tem medo do escuro?

A típica gargalhada azeda de Hannah preenche o cômodo fresco. Dante sabe que tem a oportunidade perfeita para conferir as paredes, mas não é capaz de desviar os olhos da mulher de meia-idade, apesar de que Hannah não tem a melhor aparência.

A sacerdotisa (Dante deveria dizer antiga sacerdotisa?) está acima do peso, o que é bem incomum entre os licanos. A perna direita é torta e encurtada, o que a obriga a mancar para se locomover. Esse movimento desigual criou uma leve corcunda nos ombros. O cabelo é preto, longo e sempre preso na trança mal feita. As unhas estão extremamente longas, um pouco amareladas. Diversas vezes Yanca tentou cortar, e Hannah mostrou-se muito mais forte do que aparenta ao recusar as sugestões enviesadas da cunhada.

O rosto é tomado por rugas e manchas de sol. A pele marrom-escura, mais escura do que a pele do pai, esconde boa parte das cicatrizes que a rotina como sacerdotisa lhe deu. Os olhos são minúsculos, com excesso de pele e amarelos. Amarelo como os olhos dos lobos.

— Medo do escuro? — Hannah cutuca o ouvido com a longa unha do dedo mindinho. Dante faz uma careta. — Há quanto tempo está aqui, garoto? Mais de um ano. — Dante desvia os olhos, desconfortável. Depois das primeiras doze semanas, ele se obrigou a parar de contar. O “isso é temporário, Dante” que a mãe repetiu se provou falso. — Mais de um ano. E não sabe nada?!

A risada amarga agora escapa de Dante.

— Sou um estrangeiro. — Ele debocha. — O conhecimento ancestral não me é permitido.

— Que bobeira! Você é filho de Adrian, que é filho de Hannah! Hannah filha de Hamza! Assim como o Fevzi, o meu pai. — Dante faz uma careta. — Você é da família, menino. É o meu primo distante. É mais o meu sangue do que aquela amaldiçoada.

— Então… — Dante cria coragem de se aproximar. — Qual o problema das janelas?

— Me ajude a colocar essa perna maldita para cima! — Hannah se refere a perna menor. — Eu preferia que fosse cortada! Todos dizem que estou enlouquecendo. Eles não sabem o que dizem. Não sabem o que é carregar esse peso morto por aí! — Dante obedece e não se importa em massagear a perna inchada. Hannah choraminga um pouco. — A Mãe, — Hannah debocha. — é mãe de tudo. Menos da noite. A noite pertence ao Outro. Ao Pai do Mal. Depois que o sol se põe, as janelas devem ser fechadas para que ele não entre.

— Isso parece ruim. — Dante analisa as feridas mal-cicatrizadas da perna nanica e suspira ao imaginar a dor constante. — Você não tem medo?

— Por que eu deveria?

— Bem, — Dante balança os ombros. — parece ser ruim.

— Você não tem medo? — Hannah rebate. Dante franze o cenho. — Foi tocado pelo Outro muitas vezes. — Dante para de massagear. O sorriso que Hannah força é bem desagradável. — Consigo senti-lo em você. Eu senti quando você estava a quilômetros de distância. É uma fragrância como… — Ela estreita os olhos. — como se toda a floresta estivesse molhada após uma chuva fina e constante. E um pouco de madeira. — Ele recua meio passo. — Em breve vai vir até você novamente. Não como um pai. Mas como uma mãe. Uma mãe amorosa e voraz, sem dúvidas. Dizem que essa é a aparência do mal. Quero dizer, convincente. Oh, — Hannah lamenta, de repente. A voz torna-se embargada. — Pobre garoto! Que vida difícil será a sua. Não se preocupe. Não com tanta antecedência. Ainda está longe. Mas, oh, que tragédia. O filho contra a mãe. Ninguém é manchado com tamanho pecado para merecer tal destino.

Dante escuta o próprio coração retumbar nos ouvidos. As mãos estão suadas. A respiração é entrecortada. A queimação surge na nuca e desce por toda a coluna.

— Hannah, — Fevzi interrompe, adentrando o quarto. — não seja cruel.

Hannah exibe um fraco sorriso e desiste da discussão ao notar o frasco que Fevzi carrega. De repente, a mulher que estava confortável se encolhe na cama e enche-se de lamúria na língua licana. Dante só é capaz de entender algumas palavras soltas como amaldiçoado, noite, Yanca, ingratidão e incompetência. Fevzi a ignora e utiliza força para fazê-la engolir o líquido verde-escuro. Instantes depois, Hannah se entrega ao sono profundo.

O desconforto permanece na coluna de Dante. Fevzi suspira alto, lamenta e deixa o frasco no cômodo ao lado da cama.

— Não pense que gosto de fazer isso. — Dante recua conforme Fevzi se aproxima. — Eu a carreguei bem aqui. — Fevzi refere-se aos próprios braços. — E a fiz dormir no meu colo. Minha própria filha. Mas se não eu, quem mais deveria suportar o fardo?

Dante é incapaz de responder. Fevzi pressiona o ombro dele.

— Não perturbe o seu espírito com as palavras de Hannah. Minha filha… — Fevzi para de falar por um tempo. — não tem mais todas as competências mentais. Ela… — Ele se interrompe de novo. — Apenas não se preocupe. É tolice de Hannah. Venha! — O tom de voz torna-se mais leve. — O seu pai te procura.

***

O zunido das abelhas mistura-se às risadas infantis. O sol do fim de tarde é morno, e a brisa suave baixará as temperaturas nas próximas horas. O clima típico e desejado para o meio da primavera, quando a vida volta a pulsar após semanas de baixas temperaturas. A neve não é comum para a região de Florença, e Madalena sempre pensa nas semanas que passava na casa da avó, na região de Trentino, quando era apenas uma garota. Naquela época, Ginevra tinha quase onze anos e já estava preocupada com assuntos que Madalena ainda não compreendia intimamente, como os melhores pretendentes de cada região. Madalena preocupava-se apenas em colher as últimas folhas de outono para acrescentar à coleção. Também gostava de encontrar tocas de coelhos e esquilos, que passavam toda a primavera preparando-se para mais um inverno. Encontrava diversão em todas as formas que as mãos hábeis eram capazes de fazer na neve e em observar a rotina de todos os servos.

A abelha cai no champanhe ao mesmo tempo em que o grito de Francesco atravessa o jardim. Valentina desvia os olhos do bordado para o garoto. A ama de leite, que Madalena ainda não gravou o nome, corre para ajudar Francesco. As lágrimas escorrem, e o rostinho infantil torna-se vermelho como os melhores morangos da época. Valentina solta uma discreta risada pelo nariz e revira os olhos, baixinho resmungando: garotos…

Madalena observa a abelha dentro da bebida, se debatendo na tentativa de secar as asas para alçar voo. O néctar é a perdição de todos os insetos polinizadores. Insetos, pensa. Se fosse o senhor da casa, dedicaria toda a vida estudando-os como os antigos sábios. Lentamente, alcança a taça e derrama o resto de champanhe na toalha da mesa. As pontas dos dedos são cuidadosamente utilizadas para retirar o excesso de bebida do pequeno animal, que pouco constrangido se mostra com a própria situação. Madalena alcança a garrafa de champanhe vazia e exige reposição a qualquer servo que esteja minimamente atento.

— Não acho que seja necessário. — Valentina interrompe antes que o servo obedeça. — Você teve o suficiente por hoje.

Madalena se espreguiça na desconfortável cadeira e relaxa o corpo.

— A sua gentileza me comove, sra. Baccari. E eu a dispenso. — Madalena reafirma a ordem ao servo, que busca confirmação em Valentina. A mulher recusa. Madalena solta a incredulidade pelo nariz. — Embora a sua permanência tenha se mostrado mais extensa do que esperávamos, isso não te faz senhora da casa. Lembre-se disso.

Ainda assim, o servo não se move.

— Diante da desenfreada atitude que sustenta, sinto-me no direito e também no dever de intervir.

Pela primeira vez no mês, Madalena encara Valentina com atenção. Não sabe quando a barriga cresceu tanto, mas a mulher frisa a gestação acariciando com frequência a região e se permitindo ter todos os desafios que uma gestante pode enfrentar, como enjoos, vômitos e diferentes desejos, que são rapidamente atendidos por Vincenzo e Abigail — essa vê o novo bebê mais como o novo herdeiro do ducado do que como neto. Madalena desvia os olhos quando a cicatriz horrível do ventre dói. Sem pensar muito, esfrega a ferida por cima do vestido. Embora esteja bem fechada, dói com frequência e a obriga a imaginar mais uma vez como Nora arrancou o bebê do corpo. Sem piedade, óbvio. E uma lâmina bem afiada foi necessária. Mas o bebê… O pequeno bebê…

Ele saltou para fora pelo corte? Ou escorreu entre as pernas? O bebê estava inteiro antes da Nora o sacrificar à noite? Os dedinhos da mão estavam formados? Havia olhos, boca e nariz?

Os olhos ardem, e Madalena tenta encontrar algum consolo ao pensar que causou sofrimento similar a Nora ao enviar Selena, sem a menor intenção, para a morte. Também precisa se convencer que Ginevra não pretendia matar a criança de oito anos, que os excessos cometidos por Lucien são um erro injustificado. Ao menos, ela é capaz da contrição. Nora, por outro lado, nem deve se lembrar que matou o único filho que Madalena poderia ter, considerando todo o esforço e sacrifício necessário para concebê-lo.

O filho seria um pouco mais velho que Francesco. E eles poderiam correr juntos pelo jardim aos finais de tarde mornos típicos de Florença. Talvez Adrian nunca daria ao filho dela a mesma devoção que Selena e Dante tinham, mas Madalena sabe que ele seria incapaz de maltratá-lo. Adrian ainda é o homem mais gentil que conheceu, até mais que Vincenzo que dedica-se à cordialidade.

— Minha querida… — Valentina gentilmente pressiona o braço dela, e Madalena seca as lágrimas com um movimento brusco. — Eu sinto muito. Nem imagino o quão sofrido deve ser. — Madalena desvia os olhos, observando Francesco correndo pelo jardim de novo. — Ainda assim, eu… — Valentina para de falar, e ela torce para que a mulher se cale definitivamente. — Eu entendo que o estado de saúde de Dante seja delicado e exige atenção e cuidado, mas Adrian ainda é o seu marido. E vocês são jovens. Podem e devem tentar de novo…

Madalena ri e levanta-se bruscamente. Por um instante, encara Valentina com verdadeiro asco e desprezo. Além da presença contínua, uma verdadeira ameaça à posição que Madalena tanto lutou para conseguir, Valentina é completamente tola. Estúpida. Burra.

Valentina é tão distraída, exatamente como Madalena era quando jovem, que é incapaz de enxergar a realidade. E, Nossa Mãe de Deus, quão disposta ela é em acreditar nas justificativas de Vincenzo.

Madalena não tem marido, e a doença de Dante não é o motivo da ausência de Adrian. Que Deus encontre tempo para perdoá-la, mas antes fosse! Que sorte teria se todos os problemas que têm fossem tão tolos e humanos!


Notas finais
Estou de volta! Essa é uma continuação de Tempo da Bruxa e estou muito animada com a ideia para esse livro! Como de costume, o começo é um pouco lento, até porque conheceremos muitos novos personagens e novas formas de ver o mundo! Tenho mais dois capítulos prontos. Postarei aos poucos, conforme revisar!