Notas iniciais
Retornar ao site é uma coisa que nunca pensei que faria, mas aqui estamos porque enviar PDF para cada um dos meus amigos se tornou uma tarefa árdua. Escrevo por hobby. História sujeita a erros de continuação/gramáticas porque estou escrevendo e postando. E, novamente, é um hobby. Pretendo preparar uma capa em breve. Espero que todos que leiam se divirtam tanto quanto eu enquanto escrevo. Tento produzir com a melhor qualidade possível. Tudo isso é fruto de uma longa paixão por música, deuses, seres mágicos, Morro dos Ventos Uivantes, séries duvidosas (eu amo) e antropologia. Quando penso em produção, penso no Rubel que ao ser questionado sobre escrever "Quando bate aquela saudade" em três minutos disse: “A vida vem antes da criação. Eu fiz essa música em três minutos, porque eu já estava há dois anos sofrendo por essa pessoa e eu queria dizer um monte de coisas pra ela. Porque eu estava desde os nove anos estudando violão e tocando todo dia sem parar. Ela não saiu em três minutos, ela saiu em 21 anos.”. Boa leitura!

Embora esteja desperta, as pálpebras não se abrem. Ela tem a sensação que as pálpebras estão coladas por algo denso e incômodo. Os olhos e o coração se agitam. Ela também tenta movimentar os braços e as pernas, como se pudesse se obrigar a sair daquele estado de inércia sufocante.

O ar parece faltar porque o peito queima. A sensação é como estar se afogando sem poder nadar pela vida porque os pés e as mãos estão acorrentados. Mas não há nada, nem nada que indique um afogamento. Antes, há um peso desconfortável no corpo, a arrastando novamente para o fundo. A consciência parece ir e vir ininterruptamente, causando momentos de inexistência. Quando a percepção retorna, ela volta a lutar contra o que a segura.

O peso em seu corpo é úmido, embora não seja água. E em algum momento ela percebe que é a terra que jogaram em seu corpo. A maldição escapa da sua boca — ou ao menos ela tem a impressão de que está amaldiçoando — porque alertou a todos que a sua partida deveria ser acompanhada por uma pira funerária e não uma cova.

Coisas como ela não podem ser enterradas.

O despertar é violento. Ela senta-se na cama enquanto tenta respirar. E quando o ar alcança os pulmões a dor é incalculável. Ela curva-se tentando silenciar o gemido. As mãos estão pegajosas e suadas, assim como o resto do corpo. O suor foi tão intenso que os lençóis estão encharcados.

A visão é embaçada e ela não percebe onde está. Todo o corpo dói de forma tão intensa que parece que os ossos estão sendo desfeitos outra vez. O seu espírito parece tentar fugir da casa que o acomoda, causando ardência intensa na pele. Ela não percebe quando as lágrimas caem, mas sente o gosto salgado nos lábios ressecados.

É a primeira vez que respira. Antes, estava sufocada pela terra úmida. E quando a terra não era úmida, era encharcada devido aos períodos chuvosos.

Uma pira funerária, Nora alertou muitas vezes. Tantas, tantas vezes. Alguém realmente a ouviu?

A dor diminui conforme os olhos se acostumam com a claridade do cômodo. Nora tem dificuldade de reconhecer o quarto porque não é, nem de longe, o melhor cômodo do palacete. Ela nunca o escolheria também.

Nora olha ao redor, tentando captar mais detalhes. A visão é turva, e a cabeça parece não estar firme no tronco. Os olhos também não são tão fortes quanto se lembram. Há momentos de cegueira total. Quando consegue enxergar, Nora observa a cortina delicada balançar, permitindo feixes de luz adentrar o cômodo.

O quarto é inadequado. Não há o típico cheiro de lavanda que perfumava as manhãs e acalmava as noites. Também não há os livros pesados dispersos nos móveis de cabeceira, nem mesmo os diversos castiçais que acompanhavam Nora durante os passeios noturnos.

Ela percebe, entre os outros móveis, a presença da mesa e a ausência da penteadeira, que era um móvel indispensável em seu quarto. Não há espelhos, e ela nunca foi tão fã deles considerando o perigo que podem apresentar quando não selados adequadamente. Porém, todos os seus espelhos eram.

No espaço que o espelho deveria ocupar, a cruz consideravelmente grande está disposta. A cruz é simples e até severa. Madeira pintada de preto sem a beleza que as artes cristãs geralmente têm. Os quadros ao redor, de figuras cristãs importantes, imitam a cruz.

É tudo áspero.

Nora finalmente volta a atenção para si. A pele é diferente do que se lembra. Ela costumava ter a pele excessivamente clara, a lembrando do seu lugar de nascença, no qual o sol era sempre ausente. E mesmo após percorrer tantos lugares, nunca adquiriu uma cor que aparentasse mais saúde.

As mãos anteriormente eram esguias, e os dedos decorados por anéis. Havia cicatrizes distribuídas pelos braços, denunciando todas as experiências que teve durante o seu percurso. Agora a mão é pequena e larga. A pele é intocada pela vida.

É difícil e doloroso levantar-se. E é ainda pior se arrastar para fora do cômodo em busca de qualquer superfície que reflita a sua aparência por completo. Nora precisa se apoiar nas paredes porque os passos são instáveis como o de um bebê que está se aventurando pela primeira vez. O percurso é longo, e ela não tem mais certeza de onde está. Os corredores parecem ser diferentes mesmo que sejam familiares. Não há mais os quadros que costumavam decorar os espaços, nem as flores e muito menos espelhos.

O único espelho que encontra é na sala de estar principal. E a sala de estar principal, por si própria, não tem nada de semelhante a não ser pela superfície que reflete tudo. Ela se arrasta, se apoiando nos móveis, até que seja refletida também.

O resmungo morre na garganta. Nora precisa se segurar no móvel diante o espelho para não cair. As pernas tremem, e a pele volta a ser pegajosa. O corpo aparenta estar soterrado outra vez, e o ar não chega mais aos pulmões.

O reflexo não é seu.

Ao menos, não o que costumava ser.

A pele é corada, como apenas quem nasceu e foi criada em um ambiente com estações bem definidas, e o verão intenso, pode ser. O cabelo é longo, mas não tanto quanto era. E a cor é diferente. Antes o cabelo era escuro, como a noite, longo e cacheado. Tão cacheado e longo que pesava. Nora toca as mechas lisas e loiras. Tão amarelas quanto um campo de centeio.

O corpo é menor e menos esguio do que antes. Não aparenta ter a mesma agilidade, nem mesmo disposição. Os olhos agora são escuros e não há mais as sardas. A boca é pequena e fina, o nariz adunco. É a beleza comum — quase irrelevante — da região, com exceção dos cachos amarelos.

E definitivamente não é o corpo de Eleonora Wolf.

— Vossa Graça! — A repreensão assusta Nora. — O que…? — A serva a encara pelo reflexo. Nora percebe que aquele corpo que ocupa está com trajes de dormir. A serva, que Nora não reconhece mais, parece repensar a abordagem e diz: — O que faz fora da cama tão cedo, Vossa Graça? Ontem me pareceu indisposta.

— Indisposta? — Nora também não reconhece a voz que escapa quando fala. Ela esfrega a testa, tentando conter o suor excessivo. As pernas ainda estão bambas, e o corpo não se sustenta. — Eu…?

Nora sente-se prestes a ter outro lapso de consciência e precisa se segurar no móvel. A criada se assusta e tenta segurá-la com mais força do que o corpo frágil sustenta. Nora mantém os olhos fechados enquanto briga pela consciência. Agora que tem a percepção que o corpo não a pertence, percebe a importância de não ausentar-se. Afinal, não sabe se retornará de novo.

— Alguém me ajude! — A serva grita por ajuda, e voz dela parece alta demais para Nora suportar. — Preciso…

Nora se desvencilha da mulher, a empurrando. A serva não ousa tocá-la, e Nora se arrasta em direção às escadas. Cada degrau a machuca de uma nova forma. Ainda assim, obriga o corpo frágil e debilitado a levá-la para cima. E depois obriga o corpo, quase inútil, a andar pelo corredor. Precisa novamente apoiar-se nos móveis e paredes. A própria consciência parece se ausentar em alguns momentos, mas Nora não se permite partir. Não ainda.

Ela tem a impressão que a serva continua solicitando ajuda. Porém, a ajuda que Nora precisa não pode ser oferecida por nenhum deles. De repente, ela considera descer as escadas e içar-se no primeiro cavalo que achar. Não tem força o suficiente, nem sabe quanto tempo se passou. Tudo é familiar e ainda não é nada como era.

Todas as pessoas que amou… Ela para de andar quando o pensamento surge. Elas ainda existem? Nora sente os olhos arderem, e as lágrimas ardem como os piores ácidos.

— Por Deus! — A voz grave interrompe as lágrimas e os uivos da serva. Nora não tem coragem de olhar para o locutor. Tem medo de ver um homem totalmente desconhecido. Tem medo de perceber que tornou-se o que mais temia enquanto vivia; uma alma que é incapaz de partir. E que a dor da morte é tão forte que só resta agarrar-se ao que antes era querido. Contudo, Nora nunca soube de fantasmas como ela. Nunca viu uma alma invadir outro corpo daquela forma. — O que está acontecendo? Por que está gritando desta forma?

— Senhorzinho… — A serva tenta falar.

Nora cria coragem para encarar o locutor e o que vê faz o seu coração disparar. O sentimento é agridoce, entre alívio, felicidade e dor intensa. Ela não o reconheceria pela voz e menos ainda pelo rosto. Afinal, os traços infantis se perderam totalmente. Os olhos, porém…

— Dante! — Nora exaspera. O corpo fraco arrasta-se até o garoto. Ela o agarra pelos ombros. — Dante! — Nora segura o rosto dele. As lágrimas escorrem ao ponto de cegá-la. — Deus! — O choro é tão dolorido quanto de um filhotinho abandonado pela mãe. — O que… — Dante tem os olhos arregalados. — Quanto tempo?

É a única coisa que Nora consegue pensar. Não tem mais certeza do que aconteceu, embora seja perceptível que o seu corpo está morto e enterrado. A sua alma não encontrou paz e de alguma forma retornou. Porém, nenhum desses detalhes a perturbam. A única coisa que tira o seu ar e amolece o corpo frágil é não saber quanto tempo que está morta.

Dante não é mais uma criança. Os traços infantis, inclusive a voz, se desfizeram. Ele não é um homem completo, mas está no percurso. O rosto é mais largo e mais masculino. O cabelo escureceu um pouco, mas a pele ainda é clara. Os olhos são a única coisa que permaneceu intacta.

Nora tem tempo para pensar que Dante ainda não parece com o pai antes do garoto, o seu garotinho, segurar os seus punhos e afastar-se.

— O que está fazendo, Madalena?!

Ela abre e fecha a boca várias vezes.

— Madalena?! — Nora resmunga. — O quê? — Ela quase ri da ironia. — Não, não! Dante, sou eu! — Nora gesticula tanto que assusta o garoto. Ela tenta se aproximar de novo com tanta ênfase que o agarra pelos ombros novamente. — Dante, quanto tempo?

O olhar dele é agitado, e Nora assiste as rugas aparecerem na testa. A expressão é idêntica ao do pai dele. E ela sofre por isso.

— Quanto tempo? — Dante indaga. — Do quê? — Ele tenta se afastar. Nora o segura com toda força que o corpo tem. — Me solta! Você…

— Dante, — Nora choraminga com a voz fanha de Madalena. — Olhe pra mim! — Dante não olha. Nora o sacode. — Olhe pra mim, Dante! Quanto tempo estou morta? Onde está a sua irmã?! — Ele arregala os olhos. — Onde está Selena? — Nora insiste, sentindo o coração doer. — E o seu pai?

O corpo de Madalena é segurado por mãos firmes. Nora não reconhece a governanta. Nem tenta. Ela não consegue tirar os olhos de Dante. O rapaz está tão alto quanto ela era, quanto ao pai dele. Porém, é tão assustado quanto quando Nora o encontrou perdido na floresta. Os olhos estão agitados, arregalados. As mãos trêmulas, e Dante morde os lábios como sempre faz quando está nervoso.

— Minha senhora… — Francisca a afasta de Dante. Nora pouco caso faz de Francisca. — Vossa Graça definitivamente não está bem. — A governanta tenta avaliar a temperatura do corpo. — Bom, ao menos a febre se foi. Mas não está bem. Nada bem. Não, nada bem. — Francisca avalia os trajes do corpo que anda e fala como outra pessoa. — Vossa Graça nem sequer se vestiu… — Francisca olha para Dante com certa pena. — A Sua Graça está fora de si ainda. A febre deve ter a confundido.

Dante recua até sumir do corredor. Nora tenta segui-lo, mas Francisca a segura com firmeza. Nora percebe o quão frágil o corpo é porque não consegue resistir à idosa.

— Vossa Graça, — É uma repreensão, Nora percebe enquanto é levada de volta para o quarto horrível. — sei que não temos laços estreitos e não peço que haja. Percebo o meu papel nesta casa. E imagino que a senhora também o faça. Portanto, eu lhe imploro, Vossa Graça, deixe esse garoto em paz. Não o assuste novamente, Vossa Graça. Eu lhe imploro. Acredito na bondade da Vossa Senhoria, portanto, eu insisto: deixe-o. O garoto sofre mais do que é permitido.

O desabafo de Francisca é o suficiente para tirar de Nora a consciência.

Notas finais
Sintam-se a vontade para comentar! Adoro saber tudo que pensaram sobre.